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Gabinete de Guerra na antena da Rádio Observador, o programa em que analisamos alguns dos conflitos em curso ou potenciais conflitos. Acontece este Gabinete de Guerra poucos minutos depois de duas fontes militares europeias terem dado conta à agência de notícias Reuters que os Estados Unidos podem avançar com uma intervenção militar no Irão dentro de 24 horas. Há indicação de que os militares em algumas bases norte-americanas na região do Médio Oriente já receberam indicação para saírem dessas bases. É o caso da base de Al Udeid, no Catar, que está a ser evacuada. Esta é a maior base norte-americana no Médio Oriente, com cerca de 10 mil soldados. A nossa convidada neste Gabinete de Guerra, Daniela Nunes, é especialista em Relações Internacionais. Boa tarde, Daniela, bem-vinda. Obrigado pela disponibilidade. Vai mesmo acontecer este ataque dos Estados Unidos? Parece plausível que Donald Trump opte por esta via e concretize a ameaça que tem feito nos últimos dias.

Olá, Miguel, boa tarde. Boa tarde também para os nossos ouvintes. Deixe-me começar por dizer que as notícias dos últimos minutos mexeram um pouco com as peças que estavam em cima do tabuleiro, pelo menos até hoje de manhã, ou até há bocadinho, melhor dizendo. Eu tendo a acreditar que uma intervenção no seu sentido mais convencional e clássico será um trunfo que os Estados Unidos não precisam de utilizar já. Mas tendo em conta aquilo que já é do conhecimento das principais agências noticiosas, em relação à escalada da tensão entre Teerão e Washington, de repente, a iminência de um evento clássico muito disruptivo tornou-se mais real. Ainda assim, e apesar de tudo, eu acho que é preciso ter em conta que, sobretudo se isto não se concretizar nas próximas 24 horas, quando falamos de uma intervenção dos Estados Unidos, não é preciso imaginar logo uma operação militar, portanto, com tropas norte-americanas a entrar pelo Irão. Na realidade, eu acho que esta onda de protestos, esta vaga de protestos em massa que está a acontecer, não só em Teerão, mas agora espalhada por todo o território iraniano, coloca os Estados Unidos diante de um leque de oportunidades que, do ponto de vista da forma, os objetivos serão muito semelhantes, mas do ponto de vista da forma, essa ação não tem necessariamente que ser uma ação musculada. Portanto, há um leque de medidas muito mais subtis e com poder para impactar também muito significativamente o governo iraniano. Desde logo, um esvaziamento do apagão que o governo iraniano tentou impor e impôs para fechar o país ao mundo, digamos assim, por via de personalidades, como é o caso de Elon Musk e de plataformas como é a Starlink.

De resto, já foi retomado, não é? As ligações à internet já foram retomadas.

Exatamente. Isto não só amplia as vozes populares dos manifestantes, por um lado, como também mexe diretamente com o equilíbrio de poder doméstico dentro do Irão e prova que os Estados Unidos conseguem, mesmo à distância, mexer neste equilíbrio. Ao mesmo tempo, acho que também é importante lembrar que do ponto de vista interno, da política interna dos Estados Unidos, Trump continua, obviamente, a ter motivos muito claros para endurecer esta retórica em relação ao Irão. O endurecimento desta retórica tanto pode vir a concretizar-se numa ação militar, aliás, como parece estar iminente para as próximas 24 horas, como pode também ser aquilo que nós já estamos habituados em Donald Trump, que é a tal narrativa muito dura, muito musculada, muito forte, precisamente para vender essa imagem tanto interna como externamente. Isto obviamente tem a ver com o facto de o Irão ser um inimigo histórico dos Estados Unidos. E obviamente, como eu estava a dizer, o endurecimento da narrativa e do posicionamento dos Estados Unidos permite a esta administração norte-americana consolidar uma imagem de liderança, não só para o eleitorado mais conservador, mas obviamente também para elites, como é a elite do Make America Great Again. Cada declaração que for feita agora, nomeadamente no que diz respeito ao apoio aos protestos e às manifestações, funciona tanto como uma medida de política externa quanto como uma espécie de capital político interno. Claro que qualquer movimento terá riscos reais, não só uma movimentação de tipo mais militarizado, musculado, clássico, como também outras, nomeadamente dentro de um universo mais cibernético.

Até porque nem todos os manifestantes e todas as pessoas que protestam nas ruas de Teerão e outras cidades do Irão irão acolher, presumo eu, de bom grado uma eventual intervenção estrangeira e muito em particular dos Estados Unidos.

Absolutamente. E deixe-me também dizer, não só as pessoas no Irão, uma fatia delas não vai acolher isso com agrado, como os próprios norte-americanos e eu explico por quê. O Irão, Miguel, é um ator que, apesar do enfraquecimento dos seus proxies, é um ator que não está isolado. Em primeiro lugar, por causa da questão dos proxies. Existem proxies em toda aquela região. Depois, por causa da sua capacidade nuclear, e isto faz distinguir em muito, a milhas de distância, a questão iraniana e a questão venezuelana, porque obviamente o Irão oferecerá um tipo de resistência que a Venezuela, coitadinha, não consegue. E depois, porque as linhas de defesa do Irão também são altamente sofisticadas. Ou seja, para traduzir isto para linguagem popular: os Estados Unidos, numa disputa com o Irão, é a velha máxima de quem vai à guerra dá e leva. Ainda assim, eu acho que uma escalada da tensão que se desenvolva para um Para um tipo de ações muito concretas e muito diretas entre Teerão e Washington, pode espalhar-se muito rapidamente, pode envolver aliados de ambas as partes, pode envolver também questões econômicas e movimentações de mercados que prejudiquem seriamente os Estados Unidos, mas também a Europa e o mundo inteiro, como é óbvio. Portanto, pode dar cabo de toda a estabilidade regional e, em última análise, internacional. Do ponto de vista regional, já sabemos que as coisas estão como estão desde 07/10/2023. Portanto, eu diria que, e vou terminar, a intervenção norte-americana, se for bem pensada, eu penso que ela tenderá a ser calibrada, no sentido de combinar pressões políticas, apoio tecnológico, nomeadamente por via desta questão da Starlink, e combinará tudo isso também com uma certa vigilância das oportunidades que estes protestos abrem. Oportunidades que não são necessariamente confrontos convencionais. Isto para dizer que talvez não seja preciso, para já, travar uma guerra convencional para esvaziar esta República Islâmica, porque ela consegue fazer isso muito bem sozinha. Aliás, as ditaduras conseguem dar cabo de si próprias muito bem sozinhas. Eu acho que os Estados Unidos e Trump, em particular, só precisam de colaborar com estes movimentos populares para tirar bons dividendos desta situação. Mas posso estar redondamente enganada e, aliás, até há alguns minutos, até tu próprio noticiares que a tensão estava mesmo a escalar entre as duas capitais, eu acreditava que uma ação militar não estaria iminente. Agora tenho as minhas dúvidas. Enfim, cá estaremos para analisar e para ver.

Vamos ver o que é que acontece, para já, com essa indicação de que há militares norte-americanos que receberam ordem para saírem das bases nesta região do Médio Oriente. Voltemos agora o nosso olhar para o tema da Gronelândia. Está a decorrer a esta hora, se se confirma a hora de início da reunião, o encontro que junta o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, também o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca. Em cima da mesa, o futuro da Gronelândia. Que expectativas tens em torno deste encontro, tomando como premissa para esta análise a declaração de Trump que antecedeu este encontro? Disse o presidente dos Estados Unidos que não aceita menos que o controle da região.

Olha, eu acho que o que chama sobretudo a atenção neste encontro é a dinâmica política por detrás da dinâmica diplomática. Tanto J.D. Vance como Marco Rubio estão a medir o terreno, a apalpar o terreno e estão a sinalizar aos atores internacionais, mas também aos atores domésticos, portanto, aos atores norte-americanos, como é que certas figuras do partido pensam acerca da região do Ártico e como é que os Estados Unidos pensam influenciar ou tencionam influenciar essa região. Portanto, eu acho que isto mostra-nos que a Gronelândia, e eu penso que esta também é um bocadinho a tarefa destes dois homens, deixou de ser só um território estratégico para passar a ser também um instrumento de jogo político dentro dos Estados Unidos, onde certos alinhamentos e certas posições na política externa se tornam cartas num tabuleiro eleitoral, que é sobretudo interno, mas também num tabuleiro que é global, internacional. Do ponto de vista dinamarquês e sobretudo do ponto de vista da própria Gronelândia, eu acho que este encontro evidencia uma grande necessidade de gerir de uma forma muito fina, gerir com pinças a questão da soberania versus a questão de ter que lidar com pressão externa. Ou seja, negociar neste formato, e em particular com estas personalidades, mesmo que seja só em termos de diálogo e de conversação, e tudo parece relativamente calmo, isto é uma forma de manter os Estados Unidos sob um certo controle diplomático, mostrando obviamente que qualquer ação unilateral terá custos políticos e também reputacionais. Mas o mais interessante é que enquanto nós falamos todos aqui de questões de soberania e de segurança, o que se está a desenhar é quase uma batalha de narrativas. Trump, por um lado, quer mostrar ação e ambição. Aliás, como é que ele disse, Miguel?

Ele afirma que não aceita menos que o controle da região.

Exatamente. Ele diz que não aceita menos que o controle da região. E depois J.D. Vance e Rubio, por outro lado, posicionam-se aqui mais como os adultos responsáveis, como quem tem responsabilidades ao nível da política externa dos Estados Unidos, têm que sublinhar aqui as questões ligadas ao debate mais sério, mais ponderado, mais estratégico sobre a região. Portanto, nisso tudo, o que eu acho é que a Gronelândia se tornou aqui, de repente, um palco muito simbólico da medição da capacidade dos Estados Unidos projetarem o seu poder e estas suas ambições sem quebrar um conjunto de alianças, porque vão ter que se ver com a NATO, se acontece alguma coisa.

Há quem pense no fim da NATO, não é, caso os Estados Unidos avançassem sozinhos.

Absolutamente. Eu acho que nisso estamos mais ou menos todos de acordo Também acho que este não é só um palco estratégico e não é só um exercício de medição das capacidades de projeção de poder dos Estados Unidos, é também uma forma de medição da habilidade dos aliados, em particular da NATO, mas também da União Europeia, e como sabemos, von der Leyen também já veio manifestar-se, da habilidade destas instituições de resistirem à pressão dos Estados Unidos. Em relação àquilo que Trump disse, nós já sabemos que ele é um homem, aliás, eu comecei mesmo por dizer isso no contexto do Irão. Trump é um homem de retórica dura, de retórica forte. Ele tem que dizer coisas e tem que fazer declarações que traduzam sempre manobras de projeção de poder. Isso é muito próprio, mesmo que depois essas manobras não se concretizem, quer no Irão, quer na Venezuela, quer na Gronelândia. Ele quer mostrar aos seus seguidores, aos seus eleitores e ao mundo inteiro que os Estados Unidos querem garantir uma espécie de, esta expressão historicamente é um bocado perigosa de se usar, mas retirando-a do seu contexto do século XX, os Estados Unidos querem garantir uma espécie de espaço vital. Sobretudo quando o que está em causa é uma mina de recursos como é a Gronelândia. Nós já estamos mais ou menos habituados a estas abordagens completamente desconectadas da diplomacia tradicional, completamente desconectadas do que seria aceitável vindo de um presidente dos Estados Unidos. Até aqui nada de novo. Agora, o que eu acho também é que, se calhar esta coisa de dizer que não aceito menos do que o controle, também é um aviso para os dois mandatários que ele pôs a conversar com os representantes dinamarqueses. No sentido de criar a J.D. Vance e a Marco Rubio uma certa pressão para eles se posicionarem. Eles não podem, obviamente, ignorar estas declarações de Trump, porque, em última análise, o que elas sinalizam é uma agenda presidencial e eles estão lá para cumprir essa agenda. Agora, ao mesmo tempo, eles têm que cumprir essa agenda e equilibrá-la com uma certa credibilidade internacional. Eu devo dizer que não lhes gavou sorte. Não gavou sorte a Marco Rubio nem a J.D. Vance.

Não se antecipa tarefa fácil. Estamos mesmo no final, Daniela. Muito obrigado pela tua presença nesta edição de Gabinete de Guerra, em que estivemos a analisar este encontro que está a decorrer a esta hora, junta o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, também o chefe da diplomacia norte-americana, Marco Rubio, e o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, e em cima da mesa, o futuro do território da Gronelândia face à ambição de Donald Trump de controlar aquele território e também o Irão. Também esteve aqui em análise com estas últimas informações que apontam para uma iminente intervenção militar dos Estados Unidos.