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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o espaço onde analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com Ana Cavalieri, especialista em Relações Internacionais. Seja muito bem-vinda à Rádio Observador. Obrigado por aceitar o nosso convite.

Muito obrigada, boa tarde.

Queria começar, inevitavelmente, pelo Médio Oriente. Donald Trump há cerca de meia hora publicou na rede social Truth Social que a guerra com o Irão está a correr muito bem. Queria agora meter alguns fatores antes de fazer a pergunta. Irão e Omã estão à beira de um acordo bilateral sobre o estreito de Ormuz, que criaria uma rota que, segundo a Reuters, daria mais poder ao Irão, tendo em conta que os barcos teriam de ser controlados no espaço marítimo iraniano. Um acordo que não inclui, obviamente, os Estados Unidos, algo que pode ser pior para a administração Trump. O Irão está a criar uma lei para proibir navios norte-americanos de passarem no estreito, de acordo com a agência iraniana Fars, com multas previstas de até 20% da carga. Ainda também o Irão desmente negociações com os Estados Unidos. Temos também o Washington Post, que já havia publicado um artigo sobre a falta de mísseis no exército norte-americano e agora surge outro artigo que indica um desentendimento entre Trump e o líder do Pentágono, Pete Hegseth, com Trump a pedir justificações sobre esta falta de mísseis. A Casa Branca já veio desmentir. Trump também diz que está contente com Pete Hegseth. No entanto, também é facto que os Estados Unidos não produzem os próprios mísseis, recorrem a empresas para a produção e há quem argumente que essa é uma das grandes razões para o Departamento da Defesa estar, por exemplo, a pedir um aumento do financiamento. Temos também outro caso no exército, onde recorreram a crowdsourcing online através de e-mail para pedir a analistas novas ideias para atacar o Irão, que segundo a CNN, mostra algum desespero por parte da administração Trump, é o que diz o artigo da CNN. Tendo em conta isto tudo, Ana Cavalieri, a pergunta que lhe faço é: está mesmo tudo a correr às mil maravilhas, como Donald Trump diz?

Eu penso que não. E eu penso que o facto de haver eleições em novembro e o facto de Trump ter de convencer o seu eleitorado e a sua base, que está neste momento pouco motivada para sair às urnas, as eleições intercalares são sempre eleições que necessitam uma motivação extra. Eu penso que ele está a tentar naturalmente pintar uma imagem que não está a ser sustentada pela realidade. O grande problema dos Estados Unidos são os constrangimentos não só políticos, por causa das intercalares, e então Donald Trump precisa com urgência baixar os preços do gasóleo e da gasolina. Eu estou aqui nos Estados Unidos e ando a acompanhar a evolução dos preços, que para nós, comparado com os portugueses, são muito mais baixos. Os americanos estão neste momento, mesmo depois da saída, a pagar metade do que nós estamos a pagar em Portugal na nossa gasolina e gasóleo, mas para eles, para a falta de flexibilidade que eles têm em ter acesso relativamente fácil e barato a combustíveis, isto pesa, nomeadamente contrastando com aquilo que eram as promessas que Donald Trump tinha feito em baixar a inflação. Pelo que há constrangimentos políticos, pelo calendário eleitoral, há constrangimentos económicos, porque as limitações no Estreito de Ormuz limitam aquilo que é a disponibilidade de petróleo em bruto no mercado. E depois também há constrangimentos estruturais, porque mesmo, por exemplo, o barril estar agora a $79, mais ou menos, e a descida dos preços dos produtos refinados, ou seja, aquilo que chega às bombas de gasolina, não acompanha essa descida. Costuma-se muito dizer nos estudos sobre acesso a energia e mercado energético, que quando o petróleo em bruto sobe, os preços dos produtos refinados sobem como um foguetão, mas quando o petróleo em bruto desce, os preços dos produtos refinados descem como uma pena, como uma feather. Ou seja, não existe a mesma rapidez na descida que há na subida, e isso naturalmente afeta os consumidores. Depois, o grande problema de Trump são os condicionamentos logísticos, aquilo que seria necessário para Trump forçar concessões ao Irão, que está com a sua situação económica e a base industrial militar extremamente degradada, mas isso ainda não lhes retirou a vontade de combater. Aquilo que Donald Trump precisa era fazer uma escalada e começar a atacar as chamadas instalações duplo uso, nomeadamente pontes e centrais elétricas. O problema é que isso iria fazer com que o Irão atacasse essas instalações duplo uso, nomeadamente infraestruturas energéticas, mas também centrais de salinação nos aliados de Trump no Golfo, nomeadamente Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, e estima-se que Donald Trump ou os Estados Unidos não têm os intercetores suficientes para conseguir fazer uma defesa antiaérea que conseguisse proteger estes países. E então, ele não tem esta capacidade de garantir a defesa antiaérea se fizesse uma escalada contra o Irão, e então ele não tem saída nessa perspectiva. Não sei se quero depois perguntar mais sobre o Estreito de Ormuz.

Sim.

Pronto, OK. Eu vou passar a bola para si para saber sobre o Estreito de Ormuz, ou o que se quererá saber.

Sim, sobre o Estreito de Ormuz, temos este acordo bilateral entre Irão e Omã, e Donald Trump tinha dito mesmo que queria fazer um acordo com o Irão sobre o Estreito de Ormuz, queria fazer parte dessa decisão sobre o estreito, mas o que é facto é que agora a bola está do lado de Mostafa Khamenei, que ainda não respondeu sobre este acordo. E a pergunta que eu lhe queria fazer é, no fundo, se Mostafa Khamenei tem neste preciso momento nas mãos o acordo final que pode acabar com esta guerra. Isto tendo em conta que Donald Trump, ou seja, já passaram 24 horas, pelo menos, disse que em 48 horas teria um acordo com o Irão para resolver a guerra, mas este acordo agora com o Irão e Omã pode muito bem estragar ou não este acordo final.

Não sabemos se Mostafa Khamenei está consciente, está vivo. Ele não é visto, supostamente.

Supostamente está vivo e está à espera de uma prótese para a perna, é o que diz o Irão.

Pois, mas o Pezeshkian também teve uma reunião com ele que supostamente foi às escuras. Ou seja, toda a situação com o líder supremo é muito duvidosa e eu penso que aquilo que são os decisores de poder neste momento, são os líderes da Guarda Revolucionária, porque quem tem o controle das forças de coerção e de repressão no Irão não são os políticos ligados ao Parlamento, nomeadamente Ghalibaf, ou até ligado ao governo, nomeadamente Pezeshkian ou Araches. São verdadeiramente quem tem o músculo, quem tem a força, quem tem a capacidade de decidir mandar um drone para um petroleiro ou para uma central de salinação ou para uma infraestrutura energética, são os líderes da Guarda Revolucionária, que é Vahid Jalili e Rezaei. Israel é interessante que em termos de jogos de influência sobre a presidente dos Estados Unidos, há dois polos, que é a Arábia Saudita e Israel. E em dois momentos fundamentais, Donald Trump preferiu aceder àquela que era a posição da Arábia Saudita do que a de Israel. Uma foi em 7 de abril. Sim, peço perdão?

Não, é dizer também que nesse momento da decisão da Arábia Saudita, há também quem diga que Donald Trump não avançou para esse ataque na montanha da Picareta por poder ser uma invasão terrestre e por ter altos riscos, mas também com essa opinião da Arábia Saudita. Mas concretamente, este novo acordo que está nas mãos dos decisores, a Ana diz que pode ser a Guarda Revolucionária Iraniana, mas se esse acordo for para frente, pode estragar por completo a visão de Donald Trump sobre que um acordo final deste conflito está para breve?

Claro, e era uma derrota profunda. Antes de mais, deixa-me só acabar aquele ponto, que eu sei que eu já vou falar do Estreito de Ormuz, mas esta parte de Israel e da Arábia Saudita é a parte fundamental que está a explicar as dinâmicas da ameaça que Trump faz para depois aceder a um acordo. Falou do segundo momento, ou seja, o segundo momento foi quando ele mais uma vez não fez a escalada que tinha prometido esta semana, mas o primeiro e o original foi em 7 de abril, quando ele fez o primeiro cessar-fogo. Israel queria fazer mais uma linha de decapitação da liderança, nomeadamente eliminando os atuais líderes da Guarda Revolucionária, nomeadamente Vahid, e fazer mais, tentar fazer com que a equipa do outro lado fosse mais acessível a concessões e também fazer logo a escalada. E a Arábia Saudita e alguns outros aliados, nomeadamente o Qatar, não estou a dizer que o Qatar é aliado de Donald Trump, mas fizeram com que não, fizeram pressão para que houvesse esse cessar-fogo. E a Arábia Saudita, o grande medo é não ter os intercetores suficientes para conseguir proteger as suas instalações. Agora, o grande problema é que então estamos a ter um acordo do Estreito de Ormuz, o Estreito de Ormuz é aquilo que o Irão considera como absolutamente essencial preservar como vitória nesta guerra, e é absolutamente inaceitável os Estados Unidos ou os europeus, nomeadamente aquilo que se tem entendido é que as seguradoras europeias e também algumas companhias de navio não irão aceitar qualquer pagamento de tarifas, é que nem é preciso chamar de portagens, qualquer quantia que tenha a ver e podem justificar com competências ambientais, serviços marítimos, etc. Toda a cobrança de quantia faz duas coisas. Primeiro, dá controle político ao Irão para quem passa e entra em um dos pontos de estrangulamento mais essenciais do mundo. Isso é absolutamente inaceitável, ter um Estado, que é o Estado que mais apoia o terrorismo, a ter esse controle. E número dois seria os primeiros estreitos. Os turcos têm uma convenção muito específica sobre os estreitos na Turquia, mas regra hiper geral é que não existe estreito ou ponto de estrangulamento natural que os navios tenham de pagar para avançar. Isto seria uma perda não só estratégica relativamente ao Médio Oriente como aos Estados Unidos, mas seria abalar um dos grandes pressupostos da política realista internacional que os Estados Unidos têm capacidade naval para conseguir garantir a liberdade de comércio em todo o mundo, pelo que se cai Ormuz, há sucedeente, então começa-se a discutir o estreito Malaca e começa-se a discutir outros pontos de estrangulamento.

Mas neste caso em específico, neste acordo entre o Irão e Oman, não existiriam tarifas, apenas o que o Irão diz é que existiria uma multa para navios que eles considerassem ser de inimigos, ou seja, por exemplo, dos Estados Unidos ou de outros países que eles considerem ser.

Exatamente, isso ainda é pior, porque há um controle político e havia então sanções e tudo aquilo que são quantias que podem ser justificadas como sanções, como taxas de proteção ambiental, tudo isso, fazendo uma percentagem daquilo que é a carga de cada petroleiro, iria dar um financiamento que se estima que poderia chegar a um terço do PIB iraniano. Naturalmente, aquilo que é um regime teocrático, extremista e escatológico irá conduzir esse dinheiro para alimentar e financiar os seus proxies, para alimentar e financiar o seu arsenal de mísseis balísticos e de drones e mísseis de cruzeiro. Isso é absolutamente inaceitável. O que poderá acontecer é um acordo de 60 dias. As eleições são daqui a 90 dias, pelo que um acordo de 60 dias pode ser prorrogado. Prorroga-se 30 dias, há as eleições e então aí Trump tem uma liberdade de rasgar esse acordo, porque naturalmente este acordo é entre o Irão e Oman, mas o Oman é um país fraco, portanto, naturalmente aquilo que está a ser negociado é entre o Irão e aquilo que o Oman representa tacitamente, que são os países do Gulf Council, que são no fundo os outros países do Golfo, da Arábia Saudita, do Bahrain, Emirados Árabes Unidos, que precisam de um estreito aberto para as suas economias, mas acima de tudo precisa de ter também a garantia que os Estados Unidos não fazem um bloqueio naval ao Irão e que acedam a esse acordo. Pelo que provavelmente isto pode ser, eu não sei o teor do acordo que será anunciado, poderá ser um acordo em que os navios que entram passam pelo lado do Irão, os navios que saem passam pela parte que ladeia Oman e aquela faixa central que antigamente era utilizada é alvo de um processo para retirar as minas, pode ser isso, e Donald Trump quer no fundo fazer isso para tentar impor ou conseguir dar ao mercado o maior número de barris de petróleo para conseguir baixar os preços de combustível até às eleições. Mas depois das eleições eu penso que haverá, mesmo que seja um acordo temporário, será insustentável depois das eleições, que Donald Trump não volte então a tentar retirar qualquer controle que o Irão tenha dos estreitos nestes 60 dias ou 90 dias. Há aqui um compasso de espera imposto muito pelo calendário eleitoral que Donald Trump está a seguir e eu penso que ele terá a liberdade para depois mudar de estratégia depois das eleições, se toda aquela logística militar que está neste momento presente no Médio Oriente se mantiver. Porque se nós virmos então porta-aviões e outras fragatas e destroyers a saírem da área e todos esses meios a serem retirados da área, então aí será já diferente aquilo que poderá ser a expectativa depois das eleições.

A ver vamos o que é que vai acontecer agora no Estreito de Ormuz, tendo em conta também o que a Ana estava a dizer das eleições intercalares nos Estados Unidos. Chegamos ao final do nosso tempo. Obrigado pela sua análise, Ana Cavalheiro, especialista em Relações Internacionais. Obrigado. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, está de regresso amanhã.