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"Cavalete de Guerra" na Rádio Observador. Falamos de conflitos em curso, hoje com especial atenção para a situação na Ucrânia. Estamos com Nuno Amaral Jerónimo, professor universitário da Universidade da Beira Interior. E vamos começar por declarações de Trump na rede social Truth Social, a rede social que utiliza com mais regularidade. Diz Trump que pondera aplicar novas sanções e novas tarifas à Rússia. Trump diz isto depois dos ataques russos à Ucrânia durante a noite, uma grande operação de ataques durante as últimas horas, bombardeamentos consecutivos à estrutura energética da Ucrânia, ataques que foram confirmados pela própria Rússia. Diz agora Donald Trump: "Com base no fato de a Rússia estar neste momento a esmagar a Ucrânia no campo de batalha, estou a considerar fortemente a possibilidade de aplicar sanções bancárias, sanções e tarifas em grande escala à Rússia, até que se chegue a um cessar-fogo e a um acordo final de paz." Este acordo final de paz já escrito em caps lock. Temos mais um volte-face na posição de Donald Trump. Nuno Amaral Jerónimo, é mais um dia em que lidamos com mudanças de opinião de Donald Trump.

Olá, boa tarde e obrigado pelo convite. Outro dia, um jornalista ucraniano escrevia numa rede social que desistia de seguir esta linha da realidade, que preferia um universo paralelo, porque esta já não conseguia entender. E é um bocado isso, as posições que todos os dias vão mudando, que todos os dias têm volte-faces diferentes, e torna-se um pouquinho difícil de perceber a lógica. Ou se calhar a lógica é essa, é dizer tudo e o seu contrário. Agora, é preciso ver que sanções são essas, é preciso ver que, apesar de tudo, há uma diferença entre estar a pensar aplicar sanções económicas ou pura e simplesmente desligar os sistemas de alerta e deixar de partilhar as informações militares com a Ucrânia, que foi o que eles fizeram ontem e anteontem, o que os americanos fizeram ontem e anteontem, e que tem permitido e que deixaram a Ucrânia muito mais desprotegida, como se viu nas duas noites anteriores. Enfim, eu percebo do ponto de vista retórico, mas do ponto de vista prático, temos neste momento um dos lados, e dizer que os lados são iguais, não são, porque há um lado que ataca e um lado que defende.

Claro.

Mas deixar o lado que defende totalmente desprotegido e o outro diz: "Vamos aplicar tarifas e sanções bancárias." Tudo bem.

Mas há aqui um denominador, há aqui uma linha comum, não é? Apesar de Trump primeiro ter recuado face às sanções na Rússia e admitir retirar sanções e agora estar a dizer que as coloca, tal como fez com a Ucrânia e as posições diferentes que foi tendo, há aqui algo que tem um ponto em comum. Quando estes países, tanto a Ucrânia e a Rússia, tomam atitudes que vão contra o cessar-fogo ou contra um entendimento ou contra um avançar no fim da guerra, Trump tenta responder.

Nesse sentido, sim. Nesse sentido é como se fosse uma criança mimada a quem não se faz as vontades ou como os bullys a quem não se cumprem as ameaças.

Mas só começou a contar desde que ele é presidente. O que está para trás não contou.

Claro. Exatamente. Eu sei que não tem nada a ver com a Ucrânia, mas só para se ver o raciocínio que vai naquela administração, o Trump ontem disse numa conferência de imprensa sobre o Japão: "Quem é que fez este acordo?" E havia um jornalista americano que dizia: "Fomos nós, em 1945." Ou seja, é isso, é o que acabou de dizer. A história não conta para nada. Parece que o mundo começou agora em janeiro de 2025.

Muito bem. Vamos falar aqui um pouquinho também sobre a China. Defendo um acordo de paz justo e duradouro para a Ucrânia. A China pode ter um papel nesta solução de paz?

Vamos ver. Eu acho que a posição da China ainda é mais duvidosa. Não é duvidosa, mas ela joga em dois patamares. Por um lado, tem afirmado várias vezes a amizade real e verdadeira com a Rússia, que somos verdadeiros amigos, somos verdadeiros aliados. Por outro lado, tem também dito várias vezes que a inviolabilidade das fronteiras é um princípio que a China defende. Veja que a China, naquela famosa votação de há duas semanas, naquela votação das Nações Unidas, em que os Estados Unidos até votaram ao lado da Rússia e da Coreia do Norte para não condenar a invasão russa da Ucrânia, a China absteve-se. É interessante como a China tem tido ali um papel a meio por causa disso. Por um lado, a amizade com a Rússia, por outro lado, continua a achar que as fronteiras internacionais são para respeitar. E portanto, sim, pode ter um papel, mas como tem sido sempre, a China tem esta direção. Não é só isso, parece uma tradição quase cultural chinesa. É uma espécie de diplomacia muito suave e que não é, se comparado com a do Donald Trump, é muito pouco espalhafatosa. Vamos ver se poderá ter um papel, por exemplo, se conseguir convencer a Rússia. Porque repare, vamos fazer isto Quando se fala da paz, acho que parece óbvio a todos, menos à administração americana, que a paz é fácil de alcançar. Os russos deixarem de atacar a Ucrânia seria uma forma bastante simples de alcançar a paz.

Falávamos aqui do papel que a China pode ter, quem quer ter claramente um papel é a União Europeia. Ontem houve reunião do Conselho Europeu, o que destaca deste encontro, para além do manifesto apoio à Ucrânia e também, mais uma vez, o afastamento da Hungria de tudo que são decisões deste tipo?

Sim, mas a Hungria autoexclui-se e, portanto, quando a exclusão é feita pelo próprio, está tudo bem. É a opção da Hungria, não bloqueia as decisões. É uma união em que eu acho que, quer o discurso do Macron, mas repare que as vozes, como já tem sido habitual, além da Kaja Kallas, que é da Estónia, as vozes da Polónia, da própria Finlândia, que percebem a ameaça real, que têm algumas informações dos próprios serviços de segurança que mostram a possibilidade da guerra se estender aos seus territórios. Mas repare que alguns países europeus têm também chamado a atenção para que essa guerra não é exclusivamente guerra militar e que a Rússia tem interferido nos seus países. E não estou falando agora só na ideia das interferências nas eleições, que é uma conversa mais complexa, mas de guerra cibernética, de ataques a algumas instalações. Há uns meses houve um avião que explodiu no aeroporto de Vilnius, na Lituânia, e havia várias graves suspeitas de que isso poderia ter sido sabotagem russa, nomeadamente. Portanto, há o medo da Europa e por isso me parece que esta união veio cimentar esse medo, mas também reforçar essa tentativa de "se vamos ficar sem o apoio americano, não temos outra solução senão fazer isso nós". Daquilo que me parece um medo que as informações militares, pelo menos daquilo que se vai lendo, o medo que os governos têm que a guerra possa estender-se aos outros países da Europa.

Nuno Manuel Jerónimo, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador. Estivemos à conversa com o professor universitário da Universidade da Beira Interior sobre este conflito na Ucrânia.