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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs. 360, esta segunda-feira a análise é do Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Muito bom dia, bem-vindo.

Bom dia. Muito prazer em tê-la.

O gosto é nosso. Há um novo vídeo a circular sobre o possível ataque dos Estados Unidos a uma escola primária que matou mais de 160 estudantes. Nas imagens partilhadas pela CNN Internacional e pelo The Guardian, vê-se aquilo que parece ser um míssil Tomahawk a atingir uma base da Guarda Revolucionária Iraniana, mesmo ao lado da escola. De acordo com os especialistas, Israel não possui os mísseis Tomahawk e os Estados Unidos negam serem os autores. Francisco, há aqui alguma hipótese de outro país ou outro ator ter usado um sistema semelhante para confundir a autoria? E se ficar provado que foi mesmo o míssil americano que matou os estudantes, que impacto isto pode ter?

Maria João, Tomahawk, só os países aliados dos Estados Unidos é que têm. Coisas semelhantes é difícil. Tem que ser feito um inquérito, quer pelos Estados Unidos, quer pelo Irão, quer, sobretudo, uma entidade isenta.

Isenta, exato.

Que são as Nações Unidas. Mas na guerra existem danos colaterais e existe sempre também a tradição de se negar a autoria desses ataques, principalmente quando se perfilam no horizonte cometer crimes de guerra. Agora, quem foi? Segundo Donald Trump, ele não foi. Segundo os israelitas: "Eu só atuo ao norte, aquilo é sul, é local americano". Temos que aguardar por um inquérito, mas é difícil a atribuição sem se de fato se ter esse resultado desse inquérito e a negação da execução desse erro, porque foi um erro, certamente, um erro militar, um erro de cálculo. Já ouvi várias explicações a dizer que como é muito claro, há bases, eles pensavam que aquilo era base. Agora vamos arranjar aqui uma argumentação. O fato é que na guerra há vítimas e desta vez as vítimas foram crianças inocentes. Quem cometeu esse crime deve ser apontado diretamente. Lembro que se por acaso, não estou a dizer quem tenha sido, foram as forças dos Estados Unidos ou de Israel, não estão apontados, não fazem parte do Tribunal Penal Internacional, de maneira que as consequências vão ser apenas no âmbito das perceções e da acusação dos seus próximos ou de ser culpabilizado. Mas lembro, na guerra há danos colaterais, há erros, cometem-se erros graves. Este foi um erro grave, seja quem o tenha cometido, porque faleceram ou mataram-se 100 e muitas viúvas inocentes.

Francisco, e até que ponto a existência de uma base militar ao lado de uma escola altera a responsabilidade legal no ataque? Ou seja, pode ser considerado uso de escudos humanos ou não necessariamente?

Maria João, veja, no nosso país, onde há quartéis, os quartéis estão no meio das cidades. As cidades vão crescendo à volta dos quartéis. As bases aéreas têm áreas residenciais, algumas delas até têm escolas lá dentro. Nós não podemos pôr tudo que seja base militar completamente isolada. Às tantas isso não é possível, não é viável. Se olharmos para a história, as unidades militares estão sempre perto das populações. Nós não estamos a pensar que vai haver guerra e que nos vão destruir. É sobretudo isso. Nós temos movimentos como, por exemplo, o Hezbollah, esses são diferentes. Esses utilizam as instalações hospitalares, utilizam escolas como camuflagem para ter-

E como o Hamas.

...as suas bases terroristas. Exatamente, o Hezbollah, o Hamas, todos esses. Agora não estou a ver o Irão. O Irão é do tamanho mais de duas vezes da França. Aquilo está numa cidade. Veja o caso de Lisboa, quantos quartéis, quantas unidades policiais da GNR que estão perto das populações. Têm que estar perto das populações. Isso é inevitável, penso eu. Não são todos aqueles que têm a possibilidade de ter as bases isoladas nos seus campos silos. Isso também há. Mas depois veja, os militares são pessoas normais, têm que levar os filhos à escola, têm que ter o lar hospitalar, têm que ter vida à volta dos quartéis e os quartéis às vezes geram muito emprego direto e indireto. É normal que haja infraestruturas sociais e de apoio à volta dos quartéis.

Ao redor, sim. Entretanto, já está escolhido, o Irão tem o novo líder supremo, é o filho do Aiatola Ali Khamenei. O anúncio surge depois de Donald Trump avisar que o líder não vai durar muito sem o aval dos Estados Unidos. Francisco, o que muda com esta nova liderança? E pergunto-lhe se os Estados Unidos têm realmente capacidade de influenciar quem lidera o Irão.

Tem capacidade de influenciar numa perspectiva: podem abater o novo líder. O que é gravíssimo, quer dizer, não se abate o líder. Podem matar os generais que entenderem, porque segundo eles, são operações militares, estamos em guerra, há baixas militares. O líder deles é o líder religioso. Eu penso que esse é um erro estratégico tremendo da parte dos Estados Unidos e de Israel, matar-se o líder religioso, porque isso mesmo, aquelas pessoas que são contra o regime, ficam com sentimento de revolta, de repulsa. Não quer dizer que sejam todos, mas essa é a minha opinião, não devemos entrar nessa parte. Agora, o Khamenei. Por aquilo que sabemos, que foi nas notícias e são sempre fontes ocidentais, nós temos sempre a nossa interpretação e esquecemos a interpretação do outro. Se calhar para eles é o melhor líder, porque foram eles que o escolheram. Para nós: "Ainda é mais radical que o pai, vai ser pior". Vamos ter sempre este diálogo, mas foi escolhido por eles, é legitimamente escolhido lá por um conselho que eles têm de quase 90 pessoas, são eles que o escolhem. Nós não concordamos com o regime, isso é outra coisa, mas eles têm métodos e processos. E veja, estamos a falar de uma civilização muito antiga, que agora tem um regime e um sistema político que nós não apreciamos, mas é aquilo que está a governar o país. Agora não é uma potência estrangeira que vai determinar. "Não, eu não gosto". Pode abatê-lo, pode abater todos quando quiserem. Segundo Israel, é isso que vai acontecer.

Como disseram que sim, que o fariam

Mas o que isso vai alterar?

Vai surgir outro.

Vai sempre surgir outros tecnocratas como eles. Não há vazios de poder nas relações internacionais, nem na ciência política. Imediatamente é ocupado o espaço por outro, ou pode acontecer é que eles passam a não anunciar quem é o líder e dissimulam essa liderança, mas a liderança existe sempre. E não será de acordo com a vontade dos Estados Unidos. São eles que vão organizar um processo eleitoral, são eles que vão mudar o regime. Já não sabemos exatamente quais são as intenções do presidente Trump. Não era um regime change, agora já são. Estão sempre a variar. Vamos ver como é que isto corre.

E sobre isso, os Estados Unidos e Israel diz que ponderam enviar forças especiais para controlar o urânio do Irão. Várias perguntas sobre isto. Este não foi sempre o principal interesse de Donald Trump. Uma intervenção dessas seria considerada legítima à luz do direito internacional?

Marisol, nós temos falado muito de direito internacional e os pequenos poderes como nós devemos debater e bater severamente pela afirmação do direito internacional se nós não existimos, nem temos regras. Mas uma coisa é o direito internacional, a outra são relações internacionais. São coisas completamente diferentes. De maneira que é a legitimidade pelo exercício que ele tem estado a fazer. Também não é legítima a intervenção dele agora e passou a ser porque ele já lá está e isso depois logo se legaliza. Mas isso é a legitimidade do exercício. Forças de operações especiais. Eles devem ter tido muitas, e deve haver muitos, sobretudo elementos israelitas a sinalizar alvos, a identificar alvos. Nada de novo. Agora, desembarque de tropas, não me parece que haja. Elementos infiltrados a sinalizar alvos, a identificar possíveis bases, a verificar a veracidade dos lançadores de mísseis, porque há notícias de que eles têm comprado milhares de insufláveis que depois aquecem a simular que são lançadores de mísseis e aviões de combate. Isso sempre se fez na guerra. A guerra tem a ver com a dissimulação. Se nos ensinavam, nós dizíamos. O existirem boots on the ground para a verificação dos alvos é uma realidade. Podem não estar, nós podemos não saber. Agora, é um erro se eles não estiverem no terreno e tudo indica que os tenham. Agora, com uniforme e bandeira, isso é diferente. Estamos a falar de uma intervenção um pouquinho diferente e vamos ver se têm essa capacidade.

É o Smith, pois. Exatamente.

E vamos ver se têm essa capacidade.

Francisco Pereira Garcia, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra.

Muito obrigado.

Uma boa semana. Muito obrigada.

Uma boa semana. Muito obrigado