Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Falamos de conflitos em curso. Eu sou o Miguel Cordeiro, conosco está o Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo. Vamos centrar este programa essencialmente nas declarações de Macron. Macron hoje deixou alguns alertas e deixou a entender que os Estados Unidos podem estar, de certa forma, a trair a Ucrânia. Já sabemos que esta semana houve reuniões entre Estados Unidos e Rússia, Whitcomb com Vladimir Putin. Sabemos que vimos também de semanas em que houve discussão em torno de um plano de paz que não agradou à Europa, não agradou à Ucrânia e que, na verdade, depois acabou também por não agradar à Rússia. Mas o que podemos tirar dessas palavras de Macron quando diz que os Estados Unidos podem estar prestes a trair a Ucrânia?
Sim, e ainda terá acrescentado que também os próprios europeus, os próprios interesses dos aliados europeus. Eu tendo a concordar com essa avaliação. Realmente estamos numa situação excepcional. Em circunstâncias normais, seria muito estranho que um presidente francês dissesse algo desse tipo. Entretanto, o gabinete Macron negou que ele tivesse usado essas palavras, mas isso é diferente dizer que não terá dito algo parecido, ainda que por outras palavras. Isto é no contexto de uma chamada em que estava também o chanceler alemão, o presidente da Finlândia, além do presidente Zelensky, e todos eles realmente expressaram essa preocupação com a atuação americana, em particular destes dois negociadores, do Steve Witkoff e do Jared Kushner. No fundo, esta ideia de que era fundamental os europeus mostrarem aqui solidariedade e coesão entre si, também em relação à Ucrânia, porque realmente temos ainda esta semana, ainda ontem tivemos este dado excepcional que é um Conselho do Atlântico, este encontro regular dos ministros dos negócios estrangeiros da Aliança Atlântica, da NATO, em Bruxelas, porque a NATO não é simplesmente uma aliança, não é simplesmente uma organização militar, também é uma organização política. O tratado fundador estabelece um princípio de solidariedade entre os aliados e de consulta mútua em questões que sejam de interesse mútuo, em questões de segurança, questões de interesse mútuo. Ora, é evidente que não há questão mais relevante há muitas décadas para a segurança da Europa do que o futuro da Ucrânia, o futuro das relações com a Rússia. Nesse contexto, o responsável máximo da diplomacia norte-americana, o Marco Rubio, decide não ir a Bruxelas. É a primeira vez em 20 anos que isso acontece, mas pode às vezes acontecer por alguma razão excepcional, algum imprevisto, alguma questão de saúde. Neste caso, nada disso é apresentado como justificação e o que está em cima da mesa, evidentemente, são negociações entre os Estados Unidos e a Rússia, em que sistematicamente, em particular estes dois senhores, Whitcomb e Kushner, mas em particular o senhor Whitcomb, têm procurado marginalizar os europeus, não têm consultado, não têm informado os europeus e portanto, tudo isso justifica todas as desconfianças, mesmo que elas não se venham a confirmar. Esta forma de conduzir as negociações sem envolver os europeus por parte dos norte-americanos, obviamente alimenta e justifica estas desconfianças.
Isto acontece numa semana em que houve a reunião da NATO e em que vimos também da parte da Europa essa intenção de utilizar o dinheiro congelado por parte da Rússia naquilo que é o financiamento da defesa da Ucrânia e de todo este conflito, mas a Bélgica não está muito satisfeita com isto. Aliás, a Bélgica utiliza até expressões fortes como "a Europa está a preparar-se para deixar a Bélgica lidar sozinha com a Rússia no futuro". Isto é, de facto, um entrave e estas dificuldades da União Europeia em muitas vezes tomar decisões por ter de agradar a tantos países ao mesmo tempo, cria aqui dificuldades também para que a Europa possa, de facto, ter uma posição mais forte durante este conflito e neste momento importante de decidir o futuro ou do conflito ou daquilo que poderá ser um caminho para a paz.
Sim, isso é algo que é uma opção dos europeus, e uma opção legítima, e uma opção que tem longa história, esta questão de termos 27 Estados no seio da União Europeia. Portanto, isso obviamente torna-se sempre mais difícil chegar a decisões rápidas, robustas, dá oportunidades aos nossos inimigos, aos nossos adversários, de tentar explorar essas divisões. Agora, não é inevitável que esse esforço de divisão ou de exploração dessas divisões resulte. Isso depende também, de facto, de cada país. Aí, realmente, a Bélgica tem tido um papel lamentável. Nós falamos muitas vezes da Hungria, mas eu já tenho dito isto aqui várias vezes. Eu, em certo sentido, tenho mais respeito pela Hungria de Órban, porque embora haja aqui muitos interesses econômicos à mistura neste apoio à Rússia, há pelo menos também uma dimensão de alguma simpatia ideológica, de alguma convicção na proximidade entre Órban e Putin. No caso de Bruxelas, é mesmo só uma lógica puramente mercenária. Primeiro foi a questão dos diamantes, que também se arrastaram durante anos por causa da Bélgica, não queria perder uns tostões, e agora é esta questão em que a Bélgica andou basicamente a gozar com os parceiros, que tiveram meses a desenhar uma série de soluções para dar garantias à Bélgica e no final a Bélgica diz que afinal não servem e que já agora isto também é mau para a paz. Obviamente, sobretudo esta última ideia é absolutamente um disparate. É evidente que a Rússia só reagirá a demonstrações de força, o próprio Trump também. A Europa, no fundo, mostra aqui mais uma vez este problema de base que é, num mundo cada vez mais sem regras, os europeus passam o tempo a tropeçar em múltiplas regras que mais ninguém respeita, em argumentos do gênero: "bem, isto pode ser problemático para captar investimento na Europa", como se a Europa estivesse tão desesperada que precisasse andar a pedir investimento a países que invadem países europeus. Se algum outro país decidir invadir um país europeu, não me parece muito provável. Não vejo muitos candidatos a isso para além da Rússia. É evidente que sim, devia temer este tipo de retaliação, mas se não for o caso, não vejo razões para o argumento ser precedente. No fundo, a questão de base é esta, que a Europa muitas vezes queixa-se dos Estados Unidos, do Donald Trump, com alguma razão. É preciso dizer que os Estados Unidos garantiram a segurança da Ucrânia. Isto não foi nenhuma imposição da Europa, foi uma garantia dada voluntariamente pelos Estados Unidos em 1994, nos tais acordos de Budapeste, em troca da Ucrânia ceder as suas armas nucleares à Rússia, numa das múltiplas tentativas ocidentais de apaziguar, de conciliar, de acolher os interesses russos. Os Estados Unidos assumiram essa Realmente essa é a obrigação, mas há aqui este ponto que é: se a Europa se queixa dos Estados Unidos não apoiar mais a Ucrânia, então tem de mostrar que ela própria está disponível para apoiar mais. E se aí há limites nos recursos próprios, que se podem ir buscar aos orçamentos nacionais, porque há outras prioridades, então algo que é evidente é utilizar estes bens russos congelados e usá-los num momento crítico para demonstrar a coesão, o poder da Europa, que a Europa tem aqui uma palavra forte a dizer, nomeadamente por causa desta interdependência económica com a Rússia, e que pode realmente ajudar seriamente também a Ucrânia. Não está apenas dependente da boa vontade dos Estados Unidos, que essa claramente não estará muito disponível com Donald Trump.
Vladimir Putin, entretanto, está a fazer uma visita à Índia, uma potência. A Índia vai tendo também um papel importante. Não é que tenha uma posição tomada quanto este conflito, mas não deixa de ser um parceiro importante para a Rússia, principalmente a nível comercial.
Sim, a Índia é neste momento o maior país do mundo, já ultrapassou a China em população, mais de 1,3 mil milhões de pessoas. É um enorme mercado, é um mercado que está a crescer muito, mais uma vez ultrapassou a China a esse respeito, é a grande economia que mais cresce, que mais cresceu e que mais se espera que cresça no próximo ano. Teve a crescer 8% o PIB. É realmente, desse ponto de vista, muito importante também para a Rússia, nomeadamente porque a par da China, é o grande comprador, o grande mercado alternativo, nomeadamente para o petróleo russo. A Índia importava volta de 5%, já está nos 35%. Isso criou um conflito, ou foi um pretexto para um conflito comercial com os Estados Unidos. Eu digo que é um pretexto, porque muitos especialistas, e eu tendo a concordar, consideram que é muito estranho que isso seja assim, porque também se justificaria aqui medidas muito fortes contra a China e até contra outros países, mas no caso da Índia, isto coincide com o facto de o primeiro-ministro Modi se ter recusado a dar crédito a Donald Trump pela trégua entre o Paquistão e a Índia, que ele reclamou como parte daquela famosa lista das tais oito guerras com que ele tinha terminado. Foi a seguir a isso que se deu realmente esta crise. E a Índia está a tentar demonstrar que realmente tem uma estratégia de autonomia estratégica, de não alinhamento, não quer fazer parte de nenhum bloco, quer ser uma potência por direito próprio. Eu diria que isso também limita, no entanto, o grau de simpatia ou o nível de acordos que irão ser assinados com a Rússia. Vamos ver em termos concretos se isto altera assim tanto as coisas. Obviamente, para a Rússia, faz parte desta estratégia demonstrar que não está isolada, continua a ter amigos no sul global. Isso é realmente assim até certo ponto. Agora, há sempre que destacar isto: em termos de apoio militar, por exemplo, as únicas potências, os únicos Estados que a Rússia conseguiu arrebanhar para lhe dar o tipo de apoio que mais de 50 Estados dão à Ucrânia, em termos de armamento, etc., foram a Coreia do Norte e o Irão, ou seja, Estados completamente pária. A Índia não dá esse tipo de apoio, não dá apoio militar à Rússia, mas realmente tornou-se um parceiro económico importante.
Temos dois minutos, Bruno. Israel está a atacar o sul do Líbano. Por quê? E o que pretende aqui Israel?
Israel tem esta estratégia, já falámos disso aqui várias vezes, que é, no fundo, uma interpretação destes cessar-fogo com o Hezbullah com o Líbano ou com o Hamas em Gaza, que no fundo não significa uma completa cessação de hostilidades. Significa que não há ataques todos os dias, que não há uma guerra continuada, mas que há ataques ocasionais que Israel justifica com argumentos ou de que o Hezbullah ou de que o Hamas estão a rearmar, ou de que há um ataque iminente, ou de que houve até algum tipo de ataque contra forças israelitas. E o problema aqui é que realmente, por exemplo, no caso do Líbano, isto parece estar a ir num certo crescente. A questão é até que ponto é que se tem de ir para deixar de fazer sentido falar num cessar-fogo e até que ponto é que isso não poderá voltar a significar um intensificar da resposta pelo outro lado. É verdade que o Hezbullah parece estar muito enfraquecido e Israel claramente continua a ter muito boas informações, que são cruciais neste tipo de conflito, com grupo armado não convencional como o Hezbullah, mostrou isso com a eliminação do seu chefe militar há uns dias. Mas em todo caso, realmente, isto sobretudo tem esta questão que é: no Líbano havia esta expectativa, esta esperança de que isto pudesse levar também a uma viragem política, uma maior marginalização política do Hezbullah. E de facto, este tipo de ataques de Israel são contraproducentes desse ponto de vista, provavelmente. Ou seja, no fundo acabam por justificar que o Hezbullah resista à ideia do desarmamento e de se tornar um partido normal e não um partido armado que continua a funcionar como uma espécie de Estado dentro do Estado no Líbano.
Está feita esta edição do Gabinete de Guerra. Um abraço, Bruno.
Obrigado.