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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos os principais focos de tensão geopolítica no globo. Na edição de hoje conto com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito obrigado por teres aceitado este nosso convite. Sê bem-vindo de novo à Rádio Observador.

Obrigado.

Vamos começar por falar sobre a Rússia, que admite poder vir a aliviar restrições à exportação de petróleo, numa altura em que os Estados Unidos dizem precisamente o contrário. Bruno, o que está aqui a acontecer no mundo da exportação do gasóleo, um bem essencial para praticamente todo o mundo, numa altura em que ainda há também o estreito de Ormuz a condicionar este mercado?

O que isto mostra realmente é que estamos num mundo extraordinariamente imprevisível. Os europeus e, em geral, a nível global, os Estados Unidos eram uma referência de estabilidade e segurança, mas em particular para os seus aliados europeus. Isso está completamente posto em causa com Donald Trump. Não se pode dizer que ele não tenha avisado, que a única coisa que importava era os interesses americanos entendidos da forma mais paroquial, mais restritiva possível. Neste contexto, em que tem sido a prática desde o primeiro choque petrolífero, aliás vai haver agora uma reunião de emergência do G7, que foi criado exatamente como o clube das grandes economias ocidentais, as europeias, o Canadá, os Estados Unidos, o Japão, precisamente para responder ao primeiro choque petrolífero. A ideia foi sempre que a melhor resposta era haver uma resposta coordenada e solidária. E na verdade, o que vemos aqui é exatamente os Estados Unidos a fazerem o oposto. A pensarem apenas nos interesses americanos e a criarem uma volatilidade adicional no mercado, sendo que, como referiste, a causa inicial de toda esta volatilidade, toda esta imprevisibilidade, esta inflação de preços, é precisamente a guerra sem qualquer estratégia, sem qualquer plano de saída que Donald Trump lançou contra o Irão. E depois temos a Rússia a tentar aproveitar-se disso e a tentar passar aqui a mensagem que faz parte também de uma estratégia mais ampla, tentar dividir os europeus e tentar criar hostilidade na Europa ao apoio à Ucrânia, esta ideia de que os russos estão dispostos a voltar a ser nossos amigos, a voltar a vender energia barata numa altura de dificuldade. No fundo, é a Rússia e não os Estados Unidos que são aqui o parceiro mais previsível. Obviamente isso é de uma enorme hipocrisia, mas é o que é possível precisamente por causa desta imprevisibilidade que vem da administração de Donald Trump.

Entretanto, Bruno, há também a posição da União Europeia que rejeita essa ameaça dos Estados Unidos de proibir exportações de gasóleo e de petróleo caso não liberte reservas. O que é que nos diz esta posição europeia, Bruno Cardoso Reis?

O que nos diz é que aparentemente os europeus estão um pouco a ficar fartos desta forma de fazer a diplomacia de Donald Trump e acharam que era a altura de mostrar alguma força e de apontar para certas linhas vermelhas. Francamente, a mim parece-me que a melhor altura para fazer isso tinha sido nas negociações comerciais com os Estados Unidos. Aí houve grandes cedências. Fez-se um mau acordo com a ideia de que isso iria estabilizar relações, que seria possível com isso comprar a boa vontade de Donald Trump, por exemplo, nestas áreas mais da segurança e defesa militar na gestão da questão da Ucrânia ou da Rússia, ou mesmo questões como a segurança energética. E obviamente não foi isso que aconteceu. Com Donald Trump nunca nada é definitivo, tudo pode voltar a ser renegociado em termos que ele ache mais convenientes.

Bruno, temos também ainda tempo para avançar e falarmos sobre o Médio Oriente. Aqui dois tópicos em cima da mesa. O primeiro é o Irão, que classificou esta sexta-feira como desumano e ilegal o bloqueio aéreo imposto pelos Estados Unidos e que provocou já a suspensão de voos iranianos para países da região como os Emirados Árabes Unidos, Omã e o Iraque. De que forma é que podemos olhar e falar sobre este bloqueio? É efetivamente desumano e ilegal como classifica o Irão?

Em um conflito armado sempre houve bloqueios. E obviamente o Irão não tem nenhuma autoridade pra poder falar de respeito pela lei internacional ou de ações desumanas, quando o Irão tem décadas de apoiar grupos armados por toda a região que se dedicam ao terrorismo. O Irão soube antecipadamente e apoiou publicamente o ataque do 5 de outubro, por exemplo, por parte do Hamas, aquele massacre inqualificável de homens, mulheres e crianças desarmadas. Há suspeitas, por exemplo, de envolvimento do Irão ainda neste último incidente com o avião de passageiros, que poderia ter provocado um massacre, um número enorme de mortes civis. Realmente o Irão não tem nenhuma legitimidade pra poder vir invocar a lei internacional. Agora, outra questão é perceber se isso terá condições para criar dificuldades aos civis iranianos, obviamente, isso cria. Mas também nós sabemos que há aqui uma grande hipocrisia da parte do regime, que não tem mostrado propriamente grande preocupação com a segurança ou até com a vida dos civis iranianos que se opõem ao regime. Mas se isso é suficiente pra fazer vergar o regime, pra o fazer aceitar as condições dos Estados Unidos, parece-me bastante mais duvidoso. O que não quer dizer que realmente este acumular de restrições de bloqueios não crie realmente problemas à economia iraniana, a algumas elites iranianas. A dúvida é saber se, mais uma vez, as elites do regime estão assim tão preocupadas. Por um lado, se não aceitam que haja aqui um preço a pagar, sobretudo se forem outros a pagar, e por outro, o que também sabemos é que no passado, muitas vezes essas restrições, essas sanções até deram margem a que as elites do regime acabassem a lucrar com tudo o que é este esforço para contornar sanções, fazer contrabando e até economicamente, pelo menos uma pequena parte das elites iranianas mais ligadas ao regime até acabarem, paradoxalmente, por beneficiar com tudo isto. Há razões pra ter dúvidas que isto seja assim tão eficaz no sentido de levar o Irão a acabar com o conflito, a acabar com estas ameaças no Estreito de Ormuz e também no Estreito de Áden, por via dos houthis Realmente acho que aí temos ter alguma prudência.

Bruno, temos ainda um minuto e meio para falar sobre este último tema, até porque está relacionado com isto. Trump ameaça o Irão com consequências muito graves se a capital Teerão não chegar a acordo com Washington. Novamente, o discurso das consequências, o discurso bélico e de ameaças. Este tipo de ação tem capacidade de vergar Teerão, Bruno Cardoso Reis, e que consequências são essas? Temos um minuto e meio até o final deste Gabinete de Guerra.

Aí o problema é da falta de credibilidade do Donald Trump. Por um lado, mesmo que as ameaças fossem credíveis, não quer dizer que o regime iraniano não apostasse nesta ideia de que consegue encaixar ataques da parte de Israel e dos Estados Unidos sem precedentes, mas apenas por via aérea, portanto, sem haver uma intervenção terrestre. A ideia de que por muito intenso que seja o ataque americano, ele nunca será uma invasão terrestre, que colocaria enormes riscos e seria politicamente também ainda mais impopular nos Estados Unidos. E portanto, o que nós sabemos realmente é que os iranianos aí têm o padrão histórico do seu lado. Realmente não há um histórico de campanhas puramente aéreas terem resultados decisivos. Por um lado, isso. Por outro lado, temos este problema de base que é que as ameaças do Donald Trump não são credíveis. Como ele próprio se gaba, ele passa o tempo a mudar de ideias e portanto, o problema é que nunca ninguém sabe muito bem se isto é pra levar a sério ou não. E recordo que já tivemos múltiplos casos, nos últimos meses, de ameaças de destruição total do Irã, etc., que depois acabaram por não dar em nada. O problema é quando esse tipo de declarações se multiplicam, muitas vezes as ameaças acabam por perder credibilidade. Não quer dizer que desta vez não se venha a concretizar alguma coisa, mas é normal que o regime iraniano parta do princípio que é mais uma vez uma ameaça vã, simplesmente para tentar assustá-los de forma a chegar a um acordo. E realmente, o regime iraniano tem mostrado que não é muito fácil de assustar.

Muito obrigado, Bruno Cardoso Reis. É historiador, esteve na análise no programa de hoje. Esta edição do Gabinete de Guerra fica também disponível em podcast.