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Gabinete de Guerra na Rádio Observador é o último desta semana e hoje temos aqui em estúdio o Bruno Cardoso Reis, connosco também, como sempre, a Judite França e a Vanessa Cruz. Vanessa, entre o que está previsto na ordem de trabalhos, temos a central nuclear de Zaporíjia, um ponto de situação sobre a contraofensiva ucraniana e também a reunião do G7.

Esse grupo de países anunciou um acordo para limitar o preço do petróleo comprado à Rússia. A Secretária do Tesouro dos Estados Unidos fala, entretanto, num passo em frente crítico, um passo crítico para diminuir a pressão nos preços globais da energia, ao mesmo tempo que impede também Vladimir Putin de fazer receitas para continuar a financiar esta guerra na Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, e a pergunta é esta: é mesmo um passo crítico?

Eu acho que, em todo o caso, é uma prenda de despedida do Mário Draghi pro Putin. Há muitas suspeitas de que eventualmente terá havido aqui alguma manobra russa na política italiana para afastar o Mário Draghi e realmente ele foi apresentado como o autor intelectual desta ideia. Eu acho que aqui, de facto, é uma iniciativa do G7. No fundo, nos temos habituado a ver aqui de novo como uma espécie de núcleo duro de gestão do Ocidente, sobretudo nesta dimensão da guerra económica e da guerra também da energia. Foi realmente assim que foi criado o G7 em 1973 para lidar com a primeira crise do petróleo. Agora, para ter um real impacto, um impacto grande, era importante isto pegar, ou seja, haver outros compradores importantes a aderirem à ideia. Eu acho que aqui, no fundo, o raciocínio de Draghi, que nos habituou de facto a ter boas ideias em relação a questões económicas ao longo destas décadas, realmente é que isto é do interesse até daqueles que não querem cortar relações com a Rússia, ou seja, a Índia ou a China, que de facto estão a reforçar as suas compras de petróleo e se calhar não acham má ideia pagar mais barato o petróleo russo. E, portanto, acho que é um pouco este o jogo que se está aqui a tentar fazer. Agora, obviamente, é uma aposta que só resultará a sério, só terá um impacto sério, se realmente houver outros grandes compradores também a aderirem a esta ideia.

Bruno, outro dos temas que está neste momento na agenda é a visita da Agência Internacional de Energia Atómica a Zaporíjia. O diretor da Agência, Rafael Grossi, disse que a integridade física da central foi violada, portanto, há um perigo iminente ou há um perigo real de termos um desastre nuclear. Em princípio, dois inspetores irão ficar lá permanentemente. Crês que a Rússia aceitará estas condições, concordará com isto?

Teremos de ver. Eu acho que é muito difícil prever o comportamento russo em toda esta crise. Por um lado, podia-se pensar: "Bem, é uma forma de evitar que haja ataques ucranianos", porque no fundo eles teriam testemunhos lá para poder dizer que sim. Por outro lado, condicionaria a ação das tropas russas, quer em relação aos funcionários ucranianos que estão a assegurar o funcionamento da central, e também complicaria, provavelmente, desmentir esta ideia de que de facto aquilo está a ser utilizado para outros fins, inclusive como uma espécie de paiol, como um local para fazer também barragens de artilharia. Portanto, não sei qual é o equilíbrio que prevaleceria. Agora, eu acho que é uma boa iniciativa. Acho que realmente o diretor da Agência Internacional de Energia Atómica, que é um diplomata especialista nestes temas, tem-se revelado também ter bom instinto político, ou seja, o facto de ele ter ido na missão, acho que foi fundamental para conseguir que a missão realmente chegasse ao sítio e, no fundo, aqui está a tentar um pouquinho criar um facto consumado. Depois de ter as pessoas lá, diz: "Eu quero aqui deixar dois". E portanto, no fundo, coloca a bola aqui do lado da Rússia e eu espero que realmente, acho que seria bom que isto se concretizasse, mas teremos de ver.

Achas que da parte do diretor da Agência Internacional houve também a vontade de criar alguma preocupação ou de pelo menos chamar a atenção para esta situação, exagerando um pouco o perigo que a central correu, ou achas mesmo que corremos o risco já de ter havido um incidente?

Eu obviamente não sou especialista, mas tenho tentado ler os especialistas, pelo menos aqueles que me parecem merecer mais crédito e também ter uma argumentação mais de bom senso, também o que dizem é: à partida, uma central nuclear e sobretudo estas de gerações mais avançadas em relação, por exemplo, a Chernobyl, têm de facto medidas de segurança reforçadas. Agora percebeu-se, por exemplo, em Fukushima, que já fazia parte desta nova geração de centrais, mesmo assim há coisas que às vezes não estão previstas. E obviamente as coisas mais imprevistas que podem acontecer é termos explosões, mísseis, enfim, barragens de artilharia a acontecer numa central. A central, de facto, é feita pra resistir a muita coisa, mas não é feita pra estar no meio de um campo de batalha. Portanto, parece evidente que isso é de evitar a todo o custo. Aqui, qual é que é o equilíbrio entre criar alarmismo e criar alguma consciência de um risco que ainda não se concretizou, eu acho que é sempre um equilíbrio difícil. Eu percebo que, no fundo, a missão da Agência Internacional de Energia Atómica é chamar a atenção pra possibilidade de um risco de um acidente nuclear e, portanto, acho que é compreensível que eles tenham procurado dar o máximo de visibilidade a este caso e acho que objetivamente há algumas razões para estarmos preocupados, mesmo que os tais peritos nos venham dizer, mesmo no pior cenário, não será tão mau como Chernobyl, por causa do tipo de central nuclear, de reator, seria sempre uma coisa mais parecida a Fukushima. Mas Fukushima é uma zona que hoje em dia é uma zona fantasma. Há toda uma zona do Japão, uma antiga cidade que deixou de ser habitável e, portanto, mesmo um pequeno acidente nuclear é uma coisa muito séria.

Vamos ao nosso terceiro ponto aqui na agenda, que é a contraofensiva ucraniana. Temos o ministro russo da Defesa a dizer que isso é uma ilusão criada por Volodymyr Zelensky. Qual é o ponto da situação que podemos fazer agora?

Eu acho que claramente há duas coisas que nós podemos dizer. Uma é que a iniciativa está muito mais do lado da Ucrânia. Basicamente, a Ucrânia conseguiu travar a ofensiva no Donbass e até há notícias também de alguma recuperação de território mesmo nessa zona. E está claramente também com a iniciativa no sul. Qual é o grau de ambição, se há aqui uma estratégia de, até com essa ameaça de uma grande ofensiva, deslocar tropas, travar a ofensiva no Donbass e criar aqui uma situação ideal para o mais possível flagelar, ir dizimando estas forças russas no sul. Se a ideia é, de facto, procurar aqui um rompimento, é ainda cedo. Em todo caso, há um segundo sinal que pode apontar nesse sentido, que é de facto muitas limitações à presença de jornalistas e as próprias autoridades ucranianas a dizer: "Nós estamos aqui num momento especialmente delicado do ponto de vista operacional e, portanto, não vamos poder dar o tipo de acesso, o tipo de informação que estávamos a dar até este momento". Portanto, essas duas coisas mostram que há, de facto, aqui algum dado novo. Agora, mesmo que esteja a decorrer uma grande ofensiva, ela não tem um resultado garantido, isso é da natureza da guerra. Uma coisa que é garantida é que, de facto, não faz sentido dizer ao fim de dois ou três dias que a ofensiva falhou. Uma ofensiva deste tipo é uma coisa para durar semanas. Mesmo quando está a correr muito bem. Portanto, é preciso romper as várias frentes russas. Os russos têm pelo menos três linhas defensivas, trincheiras, vamos dizer assim. É preciso depois explorar essas brechas. É preciso lidar com os contra-ataques russos, que provavelmente existirão. Não era expectável que a Ucrânia decidisse avançar e de repente tudo se resolvesse em dois ou três dias.

E o que temos percebido é que, apesar dessas operações estarem sempre envoltas em secretismo, a verdade é que seria uma contraofensiva já de cariz lento, porque não pode ser só em dois ou três dias. Bruno Cardoso Reis, muito obrigada por teres estado no "Gabinete de Guerra". Voltamos a encontrar-nos a partir da segunda-feira. Até lá.

Até para a semana.