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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Duas guerras em curso em diferentes partes do mundo, uma na Ucrânia, outra no Médio Oriente. Nos próximos minutos vamos falar sobre os dois conflitos com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde. Começamos pelo Médio Oriente e pela visita do ministro dos Negócios Estrangeiros turco à Síria. Hakan Fidan reuniu-se ontem com o líder do grupo rebelde da Síria. No final do encontro, a nova administração do país anunciou que não iriam ser permitidas na Síria armas fora do controle do Estado para evitar agitação. Ainda garantiu que iria ser anunciada uma nova estrutura, a do Ministério da Defesa e das Forças Armadas Sírias. Podemos olhar para esta visita e para este anúncio que se seguiu como um sinal da nova ordem na Síria que está por chegar?

Boa tarde a todos. Realmente é, por um lado, um sinal da proximidade muito grande entre a Turquia e este movimento. Embora a Turquia tenha sempre este discurso muito antiterrorista, embora isso sirva, sobretudo no caso Erdogan, para visar os curdos, que têm alguns movimentos terroristas, mas muitos outros que não são, mas que a Turquia encara igualmente como terroristas. Mas mantinha aqui uma certa distância. A verdade é que era evidente que este enclave em Idlib, onde este grupo dominava e a partir do qual organizou esta ofensiva vitoriosa, só se mantinha com o apoio tácito da Turquia. Esse é um primeiro sinal importante e é normal que as preocupações turcas tenham agora algum peso na agenda deste novo grupo. Eu diria que aquilo que está implícito sempre, ou que parece estar implícito, por um lado parece uma coisa razoável. Se quer acabar com uma guerra civil, uma das coisas que tem de fazer é desarmar os grupos armados e voltar a garantir o monopólio da violência legítima, o monopólio das armas apenas nas mãos do Estado, ou seja, da polícia, das forças de segurança ou das Forças Armadas. Mas a verdade é que isso geralmente não se faz assim por decreto, não se faz sem negociações, sem garantias de segurança. E aqui o grupo que está mais visado, aquele que ainda mantém uma presença militar significativa, armamento significativo, são realmente os curdos, que são vistos pela Turquia como parte desta ameaça terrorista ao Estado turco, como apoiantes dos separatistas curdos na Turquia. Evidentemente, há aí algumas simpatias e algumas cumplicidades cruzadas, mas a verdade é que este grupo de curdos na Síria está armado porque foi ameaçado de genocídio pelo Estado Islâmico e também não tem totais garantias que este novo grupo lhes dê a segurança que precisam. Seria fundamental haver aqui um processo negocial. Eu diria que o normal seria que, por exemplo, os Estados Unidos, que têm sido os principais protetores dos curdos, que usaram muito estas forças curdas para combater com eficácia o Estado Islâmico, Daesh, que fossem aqui intermediários importantes. Infelizmente, não me parece que essa seja propriamente uma grande prioridade, a segurança dos curdos seja uma grande prioridade do novo presidente americano, Donald Trump, que até parece ter, mais uma vez, como em relação a outros homens fortes, políticos mais iliberais, alguma simpatia por Erdogan.

E na Faixa de Gaza subiu para 20 o número de mortes nas últimas 24 horas, devidos a ataques aéreos israelitas. Há também relatos, avisos do chefe da Agência das Nações Unidas para os refugiados palestinianos, apontando para uma escalada dos ataques. Há ainda notícias de que Israel ordenou o fecho de um dos últimos hospitais que estão em funcionamento no norte da Faixa de Gaza. Tudo isto numa altura em que as negociações para um cessar-fogo estarão quase concluídas, apesar de haver ainda diferenças cruciais. Estas movimentações no terreno podem ser um sinal do que vai acontecer em termos diplomáticos neste conflito?

Em circunstâncias normais, a resposta seria provavelmente não. Se se está a negociar um cessar-fogo, então haver mais atividade militar, mais pressão sobre a população civil, menos condições de apoio a essa população, inclusive médicos, isso tudo seria negativo. A teoria que o atual governo israelita tem seguido é que, no fundo, estes movimentos, o Hezbollah, por exemplo, tal como o Hamas, só percebem a linguagem da força e portanto só a máxima pressão sobre eles, a pressão militar, é que acaba por os forçar a chegar a algum tipo de acordo. E essa teoria parece ter resultado com o Hezbollah. Vamos ver se resulta com o Hamas. Paradoxalmente, não quer necessariamente dizer que seja um problema para esse processo negocial que se arrasta há meses e meses, há quase um ano, praticamente. Esperemos que, quer para a população civil de Gaza, que é apanhada entre dois fogos, quer para os reféns israelitas, que estão presos em condições terríveis há mais de um ano, que realmente essa negociação chegue a bom porto, mas como eu tenho dito sempre, é uma negociação muito difícil, a desconfiança entre as partes é enorme e portanto até vermos o acordo assinado e começar a ser implementado, temos que ser sempre muito prudentes sobre estes sinais de fumo, de que desta vez é que vai haver um acordo.

E na tua opinião, é possível que haja esse anúncio de um acordo de cessar-fogo antes do final do ano?

Tudo é possível. Eu mantenho esta minha linha, infelizmente ela tem se revelado avisada, ou seja, vamos ter de esperar. Acho que não vale muito a pena especular. Pode acontecer. Há sinais crescentes, e desta vez vêm do lado de Israel e do Hamas, e não dos mediadores De que parece haver uma vontade de fechar o acordo dos dois lados. Para o governo israelita era muito importante a libertação de alguns reféns, aqueles que ainda sobrevivem. O Hamas está claramente numa situação militar muito frágil, muito no limite, e também a população de Gaza obviamente está numa situação desesperada há muito tempo e certamente está a pressionar o movimento também para chegar a algum acordo. Tudo isso apontaria no sentido de o acordo estar mais próximo, mas exatamente quando, como eu digo, só as partes é que saberão e mesmo aí, quando tivermos indicações da assinatura, temos que esperar pela assinatura e pela implementação.

Falando agora do conflito na Ucrânia, continuam a chegar relatos que apontam para uma preparação da Coreia do Norte para prestar apoio à Rússia na guerra. O país estará a preparar-se para enviar mais tropas e armas também para território russo para ajudar neste esforço, neste conflito. Recordamos também que o exército ucraniano já tinha relatado nas últimas semanas que tinha encontrado tropas norte-coreanas em incursões em território russo, creio que em Kurks, no último relato neste sentido. É sinal de que a Rússia se prepara para aumentar a intensidade dos ataques ou é um sinal de cansaço neste esforço de guerra?

Eu penso que é provavelmente um sinal das duas coisas, ou seja, se a Rússia não estivesse altamente desgastada, se não tivesse tido baixas de centenas de milhares de soldados, não precisava de ir pedir à Coreia do Norte. Certamente isso cria problemas, até em termos de integração dos soldados, questões linguísticas, questões de treino, de comando, etc. Agora, a verdade é que, ao mesmo tempo, isso dá um fôlego à Rússia, que a Ucrânia não tem, ou seja, a Ucrânia não tem onde ir buscar outros soldados. Ao contrário do que diz a propaganda russa, não há nenhum tipo de envolvimento de tropas ocidentais no terreno, não é provável que isso venha a acontecer. E a Rússia aproveitou-se do facto da Coreia do Norte ser um Estado pária, extremamente isolado, que já não tinha nada a perder em termos de relações, por exemplo, com o Ocidente, que já não mantinha, em termos económicos, etc. Isso deu aqui a possibilidade de uma convergência pragmática de interesses. Para a Coreia do Norte interessava reduzir um pouco o seu isolamento e ter um apoio maior da parte da Rússia e do lado russo, isso permite ter mais carne para canhão para aumentar a pressão sobre a Ucrânia numa altura bastante complicada, em que há esta mudança também na administração norte-americana. O novo presidente norte-americano, como sabemos, insiste sempre neste ponto, que é rapidamente a paz no conflito. Uma paz rápida, à partida, favorecerá a Rússia. Porque a Rússia consegue ainda ocupar algum território ucraniano, embora à custa do enorme sacrifício de vidas humanas, quer ucranianas, quer russas. Uma paz rápida, à partida, não será possível em termos que obriguem, por exemplo, a Rússia a sair desse território. Essa parece ser a aposta de Putin, que é o tempo neste momento favorece-o. Ele comanda um regime autoritário, mesmo que a população esteja economicamente a sofrer bastante com este conflito, mesmo que haja muitas baixas, não consegue traduzir isso em termos políticos, não há eleições livres na Rússia. E tem esta possibilidade de ir buscar mais carne para canhão para aumentar a pressão sobre a Ucrânia e chegar à posse de Donald Trump e à pressão maior para negociações numa posição um pouco mais vantajosa.

E o presidente russo Vladimir Putin reuniu-se ontem com o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, visitou Moscovo. É uma visita rara por parte de líderes da União Europeia. Zelenskiy já veio criticar esta deslocação do primeiro-ministro da Eslováquia. A que é que se deve esta exceção?

Robert Fico faz parte, juntamente com Viktor Orbán, deste clube dos amigos de Putin entre os líderes europeus. É ele próprio um líder populista e liberal, neste caso até veio da esquerda e não da direita como Orbán, mas isso não é o mais importante. No fundo, são líderes que estão disponíveis a tudo para se manterem no poder, inclusive a fazer acordos com ditadores agressivos que estão a invadir outros países. No fundo, a prioridade absoluta aqui, nomeadamente é o interesse da Eslováquia continuar a receber gás russo. Eu diria que também isto é facilitado pelo contexto, ou seja, quando o próprio Donald Trump, o próprio presidente norte-americano, o líder da mais importante democracia pluralista ocidental, ele próprio defende a diplomacia, a prioridade à negociação com Putin, isso obviamente dá outra margem de manobra a estes líderes que, no contexto europeu, da União Europeia, até aqui tinham estado bastante isolados.

Obrigada, Bruno Cardoso Reis, por ter estado conosco a analisar os conflitos no Oriente Médio e também na Ucrânia. Chega assim ao fim mais uma edição de Gabinete de Guerra.

Obrigado e boas festas.

Obrigada.