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Este é o último encontro do Gabinete de Guerra esta semana, aqui na tarde em direto da Rádio Observador. Recebemos o historiador Bruno Cardoso Reis. Olhamos para os últimos desenvolvimentos da guerra na Ucrânia, com a ajuda também da Judite França, do Bruno Vieira Amaral e da Vanessa Cruz.
Começou por ser um engano, mas uma das figuras de Estado ucranianas vem mesmo a Portugal, e não é Volodymyr Zelenskyy, o presidente do país, como inicialmente disse Augusto Santos Silva, mas sim o presidente da Assembleia Ucraniana, que vai discursar no Parlamento português. Falamos de Ruslan Stefanchuk. Foi um engano rapidamente esclarecido. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Pode trazer mais uma dor de cabeça politicamente, tendo em conta a composição parlamentar em Portugal, mas é uma visita importante?
Olá, boa tarde. Sim, eu acho que é importante, sobretudo importante para a Ucrânia. É mais uma ocasião para passar a mensagem, é mais uma ocasião para dar alguma visibilidade midiática também à guerra e à visão ucraniana da guerra, num contexto em que à medida que a guerra se prolonga, há sempre este risco de haver um certo desgaste, um certo cansaço, um certo desinteresse. E, portanto, acho que a Ucrânia tem mostrado aí grande eficácia na gestão também dessa dimensão da guerra da informação, que é sempre um aspecto importante em todas as guerras, como é este aspecto também da conquista de aliados. Portanto, criar aqui uma coligação é importante e obviamente isso é ainda muito mais importante para a Ucrânia, que é um país que estruturalmente é bastante mais fraco do que a Rússia. Temos aqui um conflito estruturalmente assimétrico. A Ucrânia, em termos militares, quando começou a guerra, tinha um diferencial 10 para 1 favorável à Rússia em tudo que eram os principais equipamentos militares, tanques, aviões de combate, etc. E, portanto, é muito graças aos aliados que tem conseguido, em parte, compensar essa assimetria de mais recursos, de capacidades militares e aí, de facto, não há países dispensáveis. E Portugal mostrou, por exemplo, na questão dos Leopard, que podia ser um país importante à sua escala. E acho que foi especialmente também apreciado, aliás, pelos ucranianos, o facto de termos sido dos primeiros, juntamente com a Suécia e a Alemanha, de facto, a avançar com isso. Portanto, imagino que também haja aí algum reconhecimento desse aspecto, mas sobretudo há esta gestão aqui muito pragmática da necessidade de manter a versão ucraniana da guerra no topo da agenda, dar-lhe o máximo de visibilidade, enfim, sobretudo nos países que fazem parte desta coligação da volta de 50, que têm sido os que mais apoiam a Ucrânia.
Estamos a aproximar-nos do dia 9 de maio, um dia muito importante para a União Soviética, para a Rússia agora, o dia da vitória sobre os alemães. Antes de mais, Bruno, acreditas que Putin irá aparecer nas celebrações como sempre aconteceu? E entretanto, já que estamos a falar de poderio militar, a Ucrânia veio fazer um alerta de que o Grupo Wagner está a ser reforçado para tomar Bakhmut, precisamente até esse dia, com muito simbolismo que o dia acarreta. Achas que as tropas russas vão ter essa capacidade?
São questões muito importantes. Em primeiro lugar, realmente é um dia que se tornou cada vez mais importante e que o regime de Putin tem muito usado como parte desta renovação do nacionalismo russo e portanto, tornou-se aqui num ritual patriótico muito importante, especialmente a par da parada militar, que tem sido, aliás, também uma das apostas do regime de Putin, no fundo, reinvestir nas Forças Armadas e na ideia de que a Rússia é novamente uma grande potência, uma grande potência também militar. Obviamente, aqui o problema é que no contexto desta guerra, é muito mais difícil manter essa narrativa. E portanto, temos aqui este problema, a Rússia tem neste momento este problema, que é não ter tropas para multiplicar estes desfiles, porque, ao contrário daquilo que diz a versão oficial do Kremlin, é muito evidente que há aqui seríssimos problemas de baixas. Depois, em relação a Bakhmut, obviamente seria a cereja no topo do bolo, seria uma forma exatamente de lidar com esses problemas crescentes da narrativa, de manter o mínimo de credibilidade da narrativa da propaganda russa, até em termos internos. Por muita censura que se faça, é evidente, por exemplo, que o número de baixas é muito significativo. Mas temos aqui informações muito contraditórias. Temos ao mesmo tempo os ucranianos a dizer que o Grupo Wagner está a ser reforçado para afinal conquistar o que resta de Bakhmut, que ainda está em mãos ucranianas. Temos o próprio líder do Grupo Wagner a dizer que afinal ele vai retirar porque não lhe estão a dar apoio suficiente. Portanto, quem é que está a dizer a verdade? O que é que aqui é desinformação, o que é que é a realidade? Estamos também numa fase da guerra em que, perante esta expectativa também de ofensivas iminentes, é natural que surja muita desinformação, que surja muita desinformação dos dois lados e portanto, isso torna a análise um pouco mais difícil. Temos aqui informações muito contraditórias. Eu tenderia a achar que não vejo vantagem no Grupo Wagner escalar tanto esta guerra verbal, nomeadamente com o Ministério da Defesa, inventar dificuldades, tal ordem. Enfim, nada é impossível, mas se for esse o caso, realmente está aqui a fazer um teatro muito bem-sucedido, o senhor Prigozhin, porque realmente, de acordo com as informações que temos, isso parece ser mais crível do que realmente esta ideia que o Grupo Wagner está aqui a ser fortemente reforçado e que a queda de Bakhmut estaria iminente, como os ucranianos aparentemente dizem.
Bruno, já que a Rússia prometeu retaliar com ações concretas ao ataque com drones, para além dessa possível tomada de Bakhmut, que outro tipo de ações poderia pôr em prática a Rússia?
Eu acho que este é um teste desde logo para percebermos um bocadinho o que é que será mais credível em termos de quem é que foi realmente o autor do ataque e portanto acho que se houver uma retaliação muito forte, mas também se houver repercussões, por exemplo, até em termos de cancelamento de paradas, etc., ou medidas de segurança reforçada, isso pode dar aqui alguma credibilidade, mas enfim, tudo isso é bastante complicado de interpretar. Pode-se até achar que há aqui um ataque de falsa bandeira promovido pela própria Rússia, isso podia ser uma forma de justificar precisamente o cancelamento das paradas, porque não há tropas suficientes. Estamos de facto num contexto que torna a análise rigorosa bastante mais difícil. Agora, em termos de meios de retaliação, a par dos militares, mas aí também temos esta questão que é a Rússia dá sinais de ter algum esgotamento das suas capacidades de ataque aéreo de longo alcance. Já está a usar muitas vezes sistemas de mísseis antiquados ou que não foram desenhados originalmente para este tipo de missão e portanto vamos ver se tem essa capacidade, que capacidade é que tem. Há uma dimensão política onde isso seria mais fácil, que será a questão do acordo de cereais, mas mesmo aí também isso coloca problemas à Rússia, que já falámos várias vezes, que é o acordo é bastante popular a nível do sul global, a nível de muitos países africanos e do Médio Oriente, que dependem muito das importações de cereais e portanto não querem aumentos de preço e também não querem escassez de cereais. Isso desde logo politicamente é muito complicado de gerir e também é complicado diplomaticamente para a Rússia, porque obviamente interessa-lhe manter algum apoio nesse sul global, é onde consegue procurar alguns apoios contra esta diplomacia ocidental que procura no fundo isolar o mais possível a Rússia, criar sanções de vários tipos para a invasão russa e arrisca-se a ser algo que é contraproducente para a própria Rússia. Isso está claramente em cima da mesa, ou seja, houve vários responsáveis russos que vieram falar nessa questão. Volta a aparecer esse fantasma ou essa chantagem dos cereais. Seria de facto uma outra área possível, mas eu também aí acho que a retaliação russa não é assim tão fácil como isso.
Bruno, só rapidamente, aqui um outro ponto que gostarias de abordar hoje no Gabinete de Guerra. O ex-chanceler Schroeder ficou sem gabinete e sem staff por não se ter afastado da Rússia.
Sim, tal como em vários países, inclusive em Portugal. Em Portugal isso existe para o Presidente da República, mas no caso ele não existe para o chanceler, para o chefe do governo. Portanto, os antigos chanceleres têm algumas prerrogativas, uma delas é ter um pequeno staff de apoio e também local para trabalharem. Houve aqui uma sanção política e simbólica a este antigo chanceler do SPD, que é o partido que está, aliás, agora no poder e a coligação liderada pelo SPD tem a maioria no Parlamento. Isso também é significativo desta viragem de página ao nível da Alemanha. Temos um antigo chefe do governo, que foi uma das pessoas que mais promoveu a aproximação, os negócios com a Rússia, que depois, e isso também minou muito o seu prestígio, sobretudo depois da invasão russa, se associou a várias dessas empresas e vários desses negócios conjuntos russo-alemães, entrou para administrações de empresas, enfim, aquelas funções que se percebe que são às vezes uma forma de recompensa por uma relação próxima anterior. Mas claramente isso tornou-se politicamente tóxico na Alemanha depois da invasão e acho que é muito significativo exatamente até que ponto é que as elites políticas alemãs mudaram a sua atitude em relação à Rússia e até que ponto é que há muitos sinais que essa mudança é realmente irreversível. Acho que esta rutura também com alguém como um estadista ancião, como Schroeder, acho que é um sinal exatamente até que ponto houve esta mudança e parece-me que ela estará para durar.
E é importante darmos conta dessa notícia também aqui. Bruno Cardoso Reis, obrigada pela tua análise mais uma vez. O Gabinete de Guerra esta semana chega ao fim. Tu estás de volta como sempre no Cinco Continentes com o Diogo Teixeira Pereira e com a Catarina Miranda ao fim de semana. Bruno, bom fim de semana.
Obrigado.