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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos esta noite analisar com Orlando Sá Mois, especialista em relações internacionais, alguns dos principais focos de conflito um pouco por todo o mundo. Bem-vindo, Orlando. Boa noite e obrigada por estar conosco mais uma vez.
Muito obrigado pelo convite.
O presidente dos Estados Unidos voltou hoje a ameaçar o Irão, caso não se chegue a um acordo. Donald Trump diz, e vou citar, que a Marinha iraniana foi-se, a Força Aérea foi-se e foi-se tudo. Orlando, se assim é e se há uma superioridade tão evidente dos Estados Unidos face ao Irão, por que Donald Trump não resolve logo o conflito?
Porque na realidade, pode o Irão já não estar com a capacidade mais estrutural definitiva das suas Forças Armadas, mas continua a conseguir infringir danos através da sua tática mais descentralizada, o conjunto dos speedboats, portanto, o conjunto de lanchas e de uma decisão que pode ser tomada por comandantes e que conseguem sempre danificar e até arriscar a vida de quem tentar ultrapassar sem a sua autorização, nomeadamente o estreito de Ormuz, que é onde ainda se centram algumas dessas inquietações. É sempre mais fácil destruir do que construir. E aqui estamos num pouco dessa situação. É muito fácil alguém com poucas possibilidades conseguir infringir dano através de não jogar lealmente, nomeadamente as regras da guerra, mas que boa parte da Marinha, da Força Aérea, que já era até bastante mais fraca, estão definitivamente destruídas? Estão, mas o Irão continua a jogar com as armas que tem e que são essas. Aproximam-se quase de uma espécie de guerrilha.
Ao mesmo tempo, Donald Trump diz que, já nos habituámos também um pouco a estas contradições, não tem pressa em fazer um acordo, sugere que não está pressionado pelas intercalares, visto que ele não se pode voltar a candidatar. Orlando, são eleições que têm pouca importância ou Trump até devia preocupar-se mais com o Partido Republicano?
Na realidade, estamos a ficar numa situação de alguma ambiguidade da posição de Trump. Ele, por um lado, pode querer o Partido Republicano ter alguns mandatos que até se calhar sejam um pouco inesperáveis e se calhar a conseguir virar a vermelho, virar para os republicanos algumas das posições democratas, mas sabemos que de um modo geral, os democratas, haverá possivelmente uma grande mancha azul em muitas das áreas de eleição dos republicanos, principalmente da Câmara Baixa, que é sempre toda discutida de dois em dois anos. A parte do Senado que é discutida desta vez é sempre só apenas aos terços, que significam que o Senado vai sempre manter ali, em princípio, um encontro de forças que faça com que Trump não tenha medo de poder vir a ser removido através do procedimento do impeachment. Em princípio, será difícil. Na Câmara Baixa, nem por isso. E, portanto, ele também pode dar a Câmara Baixa como estando perdida, mesmo até que o Partido Republicano continue a ser representado, não direi em maioria, mas numa posição que o deixasse confortável. Porque, na realidade, o que se está a passar nesta altura é que temos, se calhar, um partido, como eles chamam de GOP, o Grand Old Party dos Republicanos, dividido. Há um partido MAGA, que se calhar Donald Trump apoiaria e que está até a conseguir para já algumas vitórias nas primárias, portanto, algumas pessoas indicadas por Trump até estão a conseguir vitórias acima daquilo que se poderia esperar, mas ele ganha das duas maneiras, porque se essas pessoas mais próximas da forma de estar de Trump ganharem, ele vai dizer que é uma vitória dele. Se perderem, também vai poder dizer que é uma posição do Partido Republicano que não é bem a dele, ele não está no boletim e não está a concorrer. Portanto, parece que ele conseguiu ficar aqui numa posição estratégica enquanto figura, que também é muito centrada em si próprio, que até pode beneficiar de algum enfraquecimento dos Republicanos, porque ele poderia sempre dizer: "Enfraqueceram precisamente porque não sou eu a concorrer e porque a estrutura MAGA não está a competir aliançada por mim, mas sim agora de forma mais descentralizada". Também de dizer que se calhar a derrota que se espera dos Republicanos pode não ser assim tão contundente, porque também está a faltar algum conjunto de figuras democratas que sejam mais agregadoras e cuja mensagem se perceba melhor. E portanto, nós para já pelas primárias que vamos tendo, e visto que para os Estados Unidos as eleições são ao longo de quase todo o ano até chegarmos a novembro. Para já, esta terça-feira deu-nos mensagens um bocadinho contraditórias. Ainda tivemos alguns candidatos de primárias dentro dos Republicanos a ganharem dentro da esfera de influência de Trump, pelo que até a derrota dele, mesmo não estando no boletim, também não está garantida.
Vamos concentrar-nos agora na flotilha humanitária. Têm sido vários os países, em particular europeus, mas não só, que criticaram Israel e chamaram os embaixadores para receber explicações sobre a forma como os ativistas detidos na flotilha têm sido tratados. Israel detém estas pessoas em águas que não são as suas, os países reclamam, e o que é que se faz em concreto para penalizar Israel pelas ilegalidades que comete? Onde é que estão as instituições internacionais com poder para mudar aqui um pouquinho o rumo às coisas?
Eu diria instituições internacionais e também nacionais. Na realidade, o próprio Israel e o governo de Israel deveria estar a tentar, para já, atuar sobre este seu ministro, que fez parte da coligação, mas se recuarmos no tempo, mesmo Netanyahu gostaria de ter formado um governo sem a presença de Ben-Gvir, mesmo Smotrich tinha dúvidas. Eles eram líderes de partidos que chegaram a não estar do mesmo lado, mas depois conseguiram cumprir com os requisitos da chamada cláusula barreira, conseguiram a eleição e passaram a ser indispensáveis. Também porque se juntaram e candidataram-se de uma maneira mais em unidade, porque eles chegaram a estar separados com outros grupos, aliás, também políticos que por vezes partilham algumas destas ideias, mas com os quais não só a comunidade internacional, mas quase todos os países sempre chamaram a atenção, e observadores e pensadores dos problemas políticos, que termos num governo de Israel este tipo de presença seria sempre problemático e iria dificultar até o próprio ambiente no qual se podem discutir os vários temas que seriam necessários. Ou seja, isto acaba por prejudicar muito a imagem de Israel, todos os países, enfim, o Canadá, França, Itália, Bélgica, os Países Baixos, Portugal, mensagens vincadíssimas. Isto é, de facto, absolutamente inadmissível. Israel deveria ter outro tipo de cuidado perante manifestações até livres de crítica. É isso que uma sociedade aberta e democrática faz, até inclui essa crítica e ouve-a. E, portanto, esperava-se muito mais. Agora, esperemos que funcione a separação de poderes e que se calhar que a posição de Ben-Gvir seja revista. Estão muitos antigos embaixadores, pessoas envolvidas no governo de Israel e, portanto, muito próximos de Netanyahu a pedir a demissão deste ministro. Isto mesmo que seja à custa de novas eleições. Sabemos que o sistema é muito esparpilhado e por isso não há governo só de um partido, já há muitos anos que não há, mas Benny Gantz, o Lapid, mesmo a oposição do Yair Lapid, estão agora todos absolutamente estupefactos com esta forma, com este abuso de poder contra os manifestantes da flotilha perpetrado por Ben-Gvir, que estão ou a pensar formar novos partidos, tentar antecipar as eleições. Já se sabe que este adiantamento das eleições não vai é muito adiantado, porque na realidade estamos a falar de uma diferença, creio que estão marcadas para o final de outubro e poderiam ser qualquer coisa como no final de setembro, mas fariam falta para reorganizar um pouco as forças políticas de Israel e se calhar passarmos a ter um governo sem este tipo de pessoas que têm sido, aliás, acusados de todo o tipo de abuso de poder, racismo, de outros tipos de alegações que são feitas contra esta forma de estar na política muito messiânica e que muitas vezes inverte parte do diálogo em torno de Israel para uma espécie de messianismo no qual eles acham que têm o direito a fazer quase tudo. Isto é, de facto, absolutamente lamentável.
Mas Orlando, voltamos só um pouquinho atrás. Já não é a primeira vez que Israel detém pessoas em águas internacionais. Eu pergunto, de acordo com a sua experiência, se Israel pode fazê-lo e se não pode, de que forma é que pode ser penalizado por cometer uma ação como essa?
Nós poderíamos que as organizações internacionais pudessem funcionar de outra maneira, mas neste momento sabemos que não têm capacidade coerciva de poder limitar um país. Portanto, não há muito maneira, mesmo através dos tribunais internacionais, nomeadamente através do Penal Internacional, que pode estar a rever algumas das acusações precisamente até no âmbito deste tipo de notícias, mas depois não consegue atuar. Seria bom que os próprios países tivessem uma capacidade interna, não só de autorreflexão, mas de impor medidas coercivas contra quaisquer abusos de poder. As águas internacionais são, de facto, enfim, é sempre um aspecto um bocadinho mais disputável na maneira como também a lei está escrita. Em princípio, não poderiam ser visados nessas águas, mas chegando a Gaza e dada também a situação de Gaza, se calhar poderiam estar numa situação muitas vezes até pior, porque não sabíamos como é que poderiam ser recebidos. Aquilo que não pode acontecer é, ao serem recebidos manifestantes em Israel, que não sejam tratados com o máximo do humanismo e da melhor maneira possível, até para contrastar precisamente com os grupos que muitas vezes lideram Gaza e que não são propriamente os cumpridores dos direitos humanos. E é aqui esta troca que, pelos vistos, este ministro não percebe, porque já é suficientemente trágico, se calhar, estarmos em águas internacionais a ter este tipo de ação, mas ainda assim é mais ambíguo, porque também não se conhece muitas vezes toda a intencionalidade e todo o contexto para o fazer e o que poderia acontecer se assim não fosse, ou seja, onde é que iriam atracar e de que maneira. Agora, enfim, o que aqui nós devemos fazer é pugnar para que o lado mais democrático, que é Israel, nos oiça e que condene ações más e condenáveis que acontecem sempre, infelizmente, há pessoas dispostas a fazer estas ações de abuso de poder um pouco por todo o mundo. A diferença de uma democracia e de uma cidade aberta é que consegue depois atuar sobre elas, acusá-las, elas podem ter direito à defesa, mas depois um tribunal independente poder deliberar.Que se fosse a nível nacional, seria talvez o mais indicado, pelo menos em primeira instância. Agora, podemos também invocar as organizações internacionais para poderem condenar à sua maneira, sabendo nós que não têm, muitas vezes, poder coercivo para depois actuar.
Temos visto isso mesmo nos últimos meses e nos últimos anos, não só relativamente a Israel, como também relativamente ao conflito ucraniano. As instituições internacionais precisam também de ser um pouco reformuladas e de ganhar um novo poder, Orlando.
Talvez, no sentido de preservarem a paz, podiam ter, mas aquilo que notamos é que muitas vezes os países mais proeminentes nas organizações passaram a ser países que eles próprios também não têm o melhor dos recordes em relação a direitos humanos e indicadores de democracia.
E alguns estão envolvidos em conflitos também.
E também estão, também não dão o melhor exemplo. Veja-se agora a questão deste encontro tão interessante entre Xi e Putin e a maneira como nos seus discursos reforçaram precisamente essa ideia da reformulação das organizações internacionais, mas no quadro da ONU, dos quais eles se acham, de alguma maneira, herdeiros, como se fossem os principais responsáveis por defender o sistema internacional centrado na ONU. Aliás, esta é uma expressão que o Xi usou, como se o mundo ocidental, no fundo, não o fizesse, interferisse sobre outros países. O mundo ocidental foi visado e altamente criticado. Falou-se em hegemonia, numa expansão militar que seria meramente ocidental e portanto temos a Rússia e a China, no fundo, nos seus discursos e na maneira, claro, que sempre lida como interagiram, a darem a entender, Putin até chega a dizer que a China e a Rússia é quem defende a justiça e a ordem mundial democrática e a estabilização mundial. São factores de estabilização esta cooperação que têm de uma amizade sem limites. Isto deixa-nos também numa posição bastante desconfortável, porque são países que à sua maneira também são bastante ameaçadores, nomeadamente para os vizinhos, nomeadamente o caso de Taiwan com a China, mas todo o mar do sul da China, e no caso da Rússia, onde há uma guerra activa com a Ucrânia, que continua no seu quinto ano, e cujo país, aliás, continua a Rússia a ameaçar, de maneira muitas vezes indirecta, outros países. Vimos agora recentemente a Letónia, dando a entender que a Letónia poderia ser um dos centros de decisão.
De ataque da Ucrânia à Rússia.
E ataque mesmo da Ucrânia através dos drones. Portanto, que seria um dos sítios de decisão dos lançamentos de drones, que a Letónia veio explicar e esclarecer que era pura ficção, pura mentira da Rússia. E desinformação. Mas sabemos que a Rússia poderá querer encontrar desculpas para ter alguma posição mais contundente perante, nomeadamente os Bálticos, que não podem ser vistos como elo mais fraco da aliança e a Aliança Atlântica terá que continuar a jogar as suas forças e recalibrá-las, principalmente nessa zona, porque está muito vulnerável, principalmente se for percepcionada que haja alguma divergência de posições da NATO que faça com que não seja cumprido o artigo 5 e que, se calhar, não haja uma defesa de todos contra aquele que for invadido. Putin poderá estar à espera desse momento. Hoje teve na China mais este ganho, mais este aperto estratégico de cooperação, do qual não levou tudo, mas que ainda assim o faz subir a uma posição em que parece estar quase em igualdade. Sabemos que não está, que é uma potência bastante mais reduzida, com muito mais dificuldades do que a posição em que a China expansionista está neste momento, mas que ainda assim, isto para a coreografia da diplomacia, parecem estar muito bem uns com os outros e a reforçarem os laços sino-russos.
Orlando Sá Moys, muito obrigada mais uma vez por ter estado conosco aqui no Gabinete de Guerra. Desejo-lhe o resto de uma boa semana.
Boa semana, muito obrigado.