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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos esta noite analisar os principais focos de conflito com a nossa convidada, Helena Ferro Gouveia. Seja muito bem-vinda, Helena, e muito boa noite. Começamos pela guerra no Irão, depois do secretário de Defesa dos Estados Unidos ter declarado concluída a fase ofensiva e de Washington falar agora no Projeto Liberdade. Até que ponto é que este suposto fim desta fase ofensiva significa realmente uma redução duradoura da violência no terreno ou apenas uma mudança de rótulo numa guerra que, afinal de contas, continua ainda com um bloqueio naval e a presença militar reforçada no Golfo?

Boa noite, Diana, e obrigada pelo convite. Nós estamos num momento em que se espera a resposta do Irão a uma proposta de memorando de entendimento que foi apresentada pelos Estados Unidos. Tivemos ontem as declarações de Marco Rubio, que diz que chegou ao fim aquilo que é a operação militar, mas essas declarações são contraditadas hoje por um tweet ou um post de Donald Trump na sua rede social, na Truth, onde ele diz que se o Irão não aceitar as condições deste memorando de entendimento, que haverá novamente uma intervenção militar ou operações militares no Irão. Portanto, este fim poderá não ser bem um fim, poderá ser se quisermos, um momento de paragem. O que me parece ser importante, e isto está a suceder a um ritmo vertiginoso, é esta ideia de se escrever numa página um conjunto de propostas que depois abrirão uma pausa negocial de 30 dias e que passam, sobretudo, por uma questão que é importante para os Estados Unidos e para Israel, que é a questão do nuclear. E segundo aquilo que tem vindo a ser avançado, quer pela imprensa israelita, quer pela imprensa norte-americana, o Irão poderá, ou aqueles que no Irão estão a negociar com os Estados Unidos, por via do Paquistão, poderá aceitar o envio do urânio enriquecido para um país terceiro, que seria a concretizar-se, de facto, uma vitória para os Estados Unidos e contribuiria para a segurança da região. Mas há, naturalmente, neste plano, pontos que estão longe de estar aceites ou de estar fixados. Por exemplo, há uma moratória para o enriquecimento do urânio, que os Estados Unidos pretendem que sejam de 12 a 15 anos. Inicialmente, haviam sugerido 20 anos, o Irão queria só cinco anos e a partir dos quais poderia voltar a enriquecer urânio ao nível de 3,67%, o nível que é utilizado para fins energéticos e não para fins militares ou para fins de produção de armas. Este é um dos grandes pontos deste memorando de entendimento. Depois há um segundo ponto também importante, que é a questão da reabertura do estreito de Ormuz, que não estava fechado antes deste conflito, mas que importa aos Estados Unidos, por via da pressão que tem sofrido, quer interna, quer externa, dos seus aliados e também da própria China, para que reabra este estreito. Estamos no momento em que se espera que estas negociações, que foram prosseguindo sempre, apesar das escaramuças em Ormuz, apesar das trocas de palavras. No entanto, há que pôr aqui também uma nota menos positiva, quando nós ouvimos ou lemos as declarações feitas pelos responsáveis iranianos, nomeadamente o porta-voz dos negócios estrangeiros ou o presidente da Assembleia Nacional do Parlamento iraniano, eles estão muito menos otimistas e afirmam que os Estados Unidos não estão a negociar de boa-fé. Portanto, é esperar agora ver as próximas 48 horas e ver se, de facto, se consegue chegar a algum entendimento ou se entramos numa nova fase do conflito.

Mas essas medidas de que a Helena falava, assim como o levantamento por parte dos Estados Unidos de todas as sanções sobre Teerão, parecem-lhe medidas sensatas. Uma fonte paquistanesa, por exemplo, confirmou que os dois lados estão mais próximos do que nunca de alcançar uma base, pelo menos uma base, para pôr fim à guerra.

Todas as guerras se resolvem de duas formas: ou por uma capitulação de uma das partes, que aliás vai-se celebrar agora a 8 de Maio, a capitulação alemã e a libertação da Alemanha do regime nazista. A Segunda Guerra Mundial resolveu-se com a capitulação da Alemanha nazista, ou se resolvem à mesa das negociações. Este conflito parece tudo apontar que se irá resolver à mesa das negociações. No entanto, o voltar às operações militares não está de todo excluído. Há aqui uma proximidade, mas também há aqui várias incógnitas, porque nós não sabemos com quem é que os Estados Unidos estão a negociar, é o primeiro ponto, se estão a negociar com Ghalibaf, com Araqchi, portanto, com uma ala, se quisermos, mais pragmática desta teocracia, desta ditadura iraniana, ou qual é a força da Guarda Revolucionária neste processo negocial e, sobretudo, qual é a força de um homem, do general Ahmed Wahidi, o comandante da IRGC, que é o único contato direto com o aiatolá Khamenei. Qual é a força destas fações, porque de facto o regime iraniano, ou o que resta dele, está bastante dividido em relação à forma como encarar as negociações com os Estados Unidos, havendo uma ala que quer que haja negociações, que quer este pragmatismo, quer o levantamento de sanções e quer de alguma forma procurar pacificar a situação. Isto parece-me ser uma das alas, mas depois há uma ala bastante mais radicalQue está a emergir e que não está de acordo, ou pelo menos não tem estado de acordo com a negociação ou com a cedência de qualquer ponto aos Estados Unidos. Nós passamos aqui, se quisermos, de uma república islâmica, passamos da primeira fase com o Khomeini, que é quando foi fundada e se instalou como um regime teocrático, depois tivemos com o Khamenei, o pai, a consolidação deste regime e a criação das instituições deste regime, que são muitíssimo fortes. E agora temos a emergir algo novo, uma república islâmica 3.0, que nós não conhecemos ainda as suas características ou para onde irá evoluir, mas poderá ser uma autocracia que venha a abdicar de alguma ortodoxia ideológica, poderá ser. Poderá abrir a economia e esta parece ser a ala mais pragmática, permitindo aqui alguma, se quisermos, dissidência social, mas nenhuma dissidência política. Esta é uma das possibilidades para o Irão. Ou podemos ter um regime 3.0, uma república islâmica 3.0, ainda mais radical, dominada por esta guarda revolucionária, que é a guarda pretoriana do regime, que também é uma máfia, importa dizê-lo, uma máfia econômica e que beneficia, e muito, dos recursos iranianos e que não tem interesse nenhum em ver-se afastada do poder e, sobretudo, daquilo que são as suas fontes de recursos.

Helena, e relativamente a Israel, haverá consonância entre Israel e os Estados Unidos, tendo em conta que, por exemplo, ontem líamos aqui uma notícia que nos dizia que Estados Unidos e Israel estavam a preparar uma nova onda de ataques contra o Irão. O que Israel terá a dizer sobre estas bases que estão agora a ser, acreditamos nós, construídas para um possível acordo de paz?

Eu acho que é importante nós estarmos bastante atentos aos sinais. Agora enquanto falávamos, ou aliás, minutos antes de falarmos, Israel lançou um ataque.

A Beirute.

No Líbano, a Beirute, neutralizando o chefe das Forças Radwan, que são as forças especiais do Hezbollah. O que significa que há aqui uma grande concertação entre Israel e os Estados Unidos. Há muita coisa que não é dita publicamente.

Claro.

Israel continua a ter aqui uma mão livre em relação ao Irão, porque se há concordância naquilo que toca, por exemplo, ao programa nuclear e a uma eventual transferência deste urânio enriquecido para um país terceiro, mas também não se sabe qual é o país terceiro, porque isto também vai ter aqui bastante importância, porque imaginemos o que é transferir este urânio enriquecido para a Rússia, íamos criar aqui um novo problema. Isto é apenas um cenário, um dos muitos sobre a mesa. Mas em relação ao nuclear, parece haver aqui a mesma posição. Em relação ao programa balístico, que é uma das grandes preocupações de Israel, e temos visto os estragos que tem feito em Israel, as mortes que tem causado, e só não causa mais porque como todos sabemos, Israel tem um sistema de defesa antiaérea absolutamente extraordinário e que tem permitido manter a salvo os seus civis, este nem aparece sequer neste memorando de entendimento. É uma preocupação para Israel. Israel tem planeado uma série de cenários possíveis e não exclui uma operação militar com o conhecimento dos Estados Unidos, mas a solo ou quando achar que está em causa aquilo que é a sua segurança nacional. Nós temos sempre, e isso é importante perceber, entre estes dois países, uma relação muito especial, muito próxima e que nem sempre vem naquilo que são os leads dos jornais ou nas manchetes dos jornais. Porque temos que perceber que Israel é o principal aliado dos Estados Unidos na região, mas está a configurar ou a reconfigurar o Médio Oriente e nós, neste momento, temos um conjunto de países do Golfo que se estão a aproximar de Israel e que consideram Israel não apenas um aliado válido, como um aliado precioso, porque contribui para aquilo que é a sua segurança e defesa. E isto são variáveis que têm que ser tidas em conta quando se faz a análise daquilo que se está a passar no Médio Oriente. Mas tudo isto, e eu tenho muitas dúvidas, é muito frágil, porque basta haver uma voz iraniana que ponha em causa este acordo, para ele não valer nada. E aquilo que nós temos aprendido ao longo do tempo é que o Irão não negoceia de boa-fé, este regime não negoceia de boa-fé. É hábil em fazer prolongar as negociações, em ter a aparência de que está a negociar. Nós sabemos que o ministro dos Negócios Estrangeiros foi à China antecedendo a viagem de Donald Trump e poderá haver aqui também conversações, e certamente que existem, entre a China e os Estados Unidos, porque a China está a ser muito afetada pelo fechamento do estreito de Ormuz e poderá estar a pressionar não apenas o Irão para ceder, mas também os próprios Estados Unidos para contribuírem, para darem uma resolução a esta questão. Há muitas variáveis nesta equação que nós não conhecemos. Podemos unir os pontos, perdoe uma linguagem simplista, e tentar traçar aqui um quadro. Agora, as incógnitas são mais do que as certezas.

São mais do que as certezas, precisamente. Helena, vamos dar aqui também um salto antes de nos despedirmos. Ao conflito ucraniano. Foi decretado um cessar-fogo unilateral para estes dois dias, antes mesmo da trégua decretada pela Rússia nos dias oito e nove. E Zelensky já acusa Moscovo de violar o cessar-fogo ucraniano, que está agora em vigor. Esta decisão do presidente Zelensky de antecipar a trégua terá sido estratégica precisamente para que a Ucrânia não tenha depois de respeitar a pausa decretada por Putin nos dias seguintes e de alguma forma criar aqui uma sombra sobre o Dia da Vitória, que é tão importante para o presidente russo?

Este dia da vitória, aliás, fala-se na Grande Guerra Patriótica, como se a União Soviética sozinha tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial, o que é factualmente incorreto. E os resultados soviéticos nunca teriam sido o que foram sem o programa de lend and lease norte-americano. É verdade que há um grande número, estamos a falar de cerca de 20 milhões de soldados soviéticos que perderam a vida e que contribuíram para o esforço de libertação da Europa, mas não o fizeram por boa vontade, apenas porque pretendiam substituir uma ditadura por outra, como se viu no que se seguiu à Segunda Guerra Mundial e na partição da Europa em duas, na criação do Pacto de Varsóvia e na subjugação de uma série de países sob o jugo soviético. Putin quer celebrar aqui a grande vitória patriótica contra aquele que é sempre o inimigo projetado, que é o nazi. Todos nós nos recordamos que um dos objetivos da operação militar especial, e estou a usar aspas nestas palavras, de Vladimir Putin, era livrar a Ucrânia de nazis, que não existem. Aliás, há muito mais nazis na Rússia do que na Ucrânia, mas essa retórica fez escola. Portanto, Putin, para poder celebrar, pede aqui um cessar-fogo, e isto demonstra fraqueza da parte do presidente russo, porque ele teme aquilo que são os ataques em profundidade ucranianos, porque a Ucrânia tem vindo a demonstrar uma cada vez maior capacidade de atingir alvos dentro do território russo. Temos visto as refinarias, as instalações elétricas e até mesmo Moscovo. Chegámos a ter drones em Moscovo, o que levou a que esta parada não vá ter um conjunto de armamento que era expectável, porque há o receio precisamente destes ataques. Portanto, Putin, magnânimo, apresenta aqui a proposta de cessar-fogo. Zelensky, que é alguém que aprendeu ao longo destes anos todos a ler muito bem a sala, faz uma contraproposta, antecipando aqui o cessar-fogo, demonstrando boa vontade e dizendo que Kyiv tem todo o interesse num processo de paz, em ter paz, que não tem interesse nenhum em continuar este conflito, mas nas condições ucranianas. Mas é absolutamente extraordinário quando nós pensamos que há aqui um pedido de cessar-fogo e Moscovo ataca um jardim infantil esta noite. Não há aqui do lado russo nenhum interesse no cessar-fogo, nem sequer em travar a guerra, embora neste momento pareça haver entre analistas militares internacionais algum consenso de que a Rússia tem muita dificuldade com este conflito e poderá mesmo, do ponto de vista militar, perder a guerra. Este é o ponto onde nós estamos e por isso a Putin interessa festejar e tentar projetar poder num momento em que ele está a ser contestado internamente, num momento em que a economia russa dá sinais muito claros de estar enfraquecida e a receber o impacto do conflito. Embora a Rússia se tenha preparado para o conflito, não esperava uma resistência ucraniana ao longo de cinco anos. E a preocupação, que era impensável em Moscovo até há muito tempo, que drones pudessem circular ou sobrevoar a Praça Vermelha a 9 de Maio. Isto demonstra claramente uma inversão de posições e que, apesar da superioridade do exército russo em termos numéricos, a guerra ser assimétrica e tudo isso, a capacidade da Ucrânia, com o apoio naturalmente da Europa e dos aliados, não apenas europeus, mas de todos aqueles países de boa vontade que apoiaram o esforço pela liberdade e pela soberania ucraniana e também dos Estados Unidos, tem conseguido resistir. E isto está a ser uma humilhação claríssima para Vladimir Putin.

Helena Ferrão Gouveia, muito obrigada pela sua análise.

Muito obrigada.

É mais um Gabinete de Guerra. Desejo-lhe um bom resto de semana.