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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa em que damos destaque às principais questões da geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar do Médio Oriente. O Irão está disponível para participar em nova ronda de negociações com os Estados Unidos da América, é o que dizem fontes paquistanesas, uma informação dada à AFP. Teerão volta assim à mesa das negociações. Tivemos já também Donald Trump a abordar este tema. Bruno Cardoso Reis, é de saudar esta decisão iraniana. O que é que podemos esperar deste regresso às conversas?
Para começar, acho que temos de esperar para ver se há mesmo regresso às conversas. Como dizes, é relevante que o mediador esteja a dizer que estarão. Eu acho que também é relevante que a delegação americana esteja aparentemente também a preparar-se para viajar para a própria questão, e incluirá também o vice-presidente. Do ponto de vista da viabilidade das negociações, seria má ideia, de facto, o Irão simplesmente não estar presente, mas eu acho que não podemos afastar nenhuma possibilidade. O que para já podemos afirmar é que se estas negociações já eram difíceis, acho que ainda se tornaram mais difíceis nos últimos dias e nas últimas horas. Acho que a confiança entre as partes, que era muito baixa, não melhorou, pelo contrário. As declarações, nomeadamente do lado do Irão, são muito claras a esse respeito, que os Estados Unidos não estão a negociar de boa fé, que não aprenderam com os episódios anteriores em que optaram pela via militar e não pela via negocial. Por outro lado, temos esta questão do Estreito de Ormuz, que era a mais importante para o resto do mundo. Parecia ter-se conseguido encontrar aqui, de facto, uma saída, mas como eu alertei no final da semana passada, havia esta questão que surgiu logo que foi Donald Trump dizer que ia continuar a bloquear o estreito para pressionar o Irão. Não fazia de facto muito sentido que de um lado o Irão reabrisse o estreito, mas os Estados Unidos que tinham fechado o estreito, aliás só ao fim de várias semanas de guerra, aos navios iranianos precisamente com a justificação de que isso era uma retaliação pelo fecho do estreito, depois quando ele é reaberto não fizessem o mesmo e portanto era bastante previsível que isto não teria um bom resultado, mas ainda por cima nas últimas horas tivemos este ataque também a um navio iraniano que terá tentado furar esse bloqueio norte-americano. Portanto, acho que realmente não temos aqui razões para estar muito otimistas, embora eu continue a afirmar aquilo que eu também já escrevi nestas semanas de guerra, que é o cenário mais racional para os dois lados, sobretudo para o Irão, para o governo, para o regime iraniano e para a administração Trump, parece-me que seria de facto um cessar-fogo e um acordo, mesmo que parcial, que permitisse às duas partes declarar vitória e seguirem em frente, concentrarem-se nas questões internas, nos problemas internos. A questão continua a ser a mesma, é se os dois lados percebem que não estão a ganhar a guerra, ou seja, que há aqui um certo impasse. Do meu ponto de vista, apesar de tudo, um prolongar do conflito tende a ser mais difícil, mais custoso para os Estados Unidos, para Donald Trump do que para o Irão, porque isso é o padrão histórico. Sempre que uma grande potência está a projetar muitas forças a grande distância do seu território, isso não só tem em si mesmo um custo enorme, como depois tem também um custo político. É preciso estar a explicar à opinião pública interna e internacional porque é que se está a fazer isso. Historicamente, a experiência mostra que isso tende a favorecer o lado mais fraco, mas que está a jogar no seu próprio campo, o caso do Vietname ou do Talibã no Afeganistão ou agora do regime iraniano. Mas em todo o caso, independentemente de qual é a opção mais racional, eu não dou por adquirido que seja ela que prevaleça, porque na política muitas vezes as emoções, sobretudo numa guerra acabam por pesar mais do que a razão.
Bruno, Donald Trump tinha dito que J.D. Vance, o vice-presidente, não ia participar na segunda ronda de negociações, mas o vice-presidente, ao que tudo indica, vai liderar também esta delegação norte-americana que vai aterrar em Islamabad nas próximas horas. O que te parece que possa ter feito Donald Trump mudar de ideias? E gostaria também de abordar as mais recentes declarações do presidente norte-americano. Diz Donald Trump que se o cessar-fogo, que expira na quarta-feira, terminar sem um acordo, que vão cair muitas bombas sobre o Irão. Este tipo de pressão por parte do presidente norte-americano ajuda em quê nas conversas para um acordo de paz definitivo?
Eu acho que é difícil estar a fazer grandes interpretações. À partida, eu diria talvez a interpretação mais provável seja que o Irão tenha continuado a insistir que queria a presença de J.D. Vance e que se ele não estivesse, seria ainda menos provável que o Irão voltasse atrás nesta ameaça de não estar presente, porque de facto é uma forma de marcar que estas são negociações mais a sério, de marcar também o desagrado com a forma como acabaram as negociações anteriores, que tinham sido lideradas por Steve Witkoff e Jared Kushner. É possível que tenha sido isso, mas com Donald Trump é difícil saber exatamente o que é que se está a passar. Não é propriamente um processo político muito institucionalizado, muito organizado e, portanto, seja fácil de analisar ou de prever. Em relação à questão das ameaças Essa tem sido a estratégia de Donald Trump, de fazer ameaças até muito violentas, mas depois, em muitos casos, não se concretizam. E portanto, a mim parece-me que cada vez mais um dos problemas aqui é que, de facto, não se sabe muito bem contar com Donald Trump. Ele acha que isso é uma grande estratégia negocial. Eu não tenho nada certeza de que seja assim. Um dos problemas é que inclusive estas ameaças perdem credibilidade também. É possível que sim, que avance, mas pode não avançar. Será que isso pesa assim tanto do lado iraniano? Não estou convencido disso, sobretudo também porque o regime iraniano tem esta vantagem, que é um regime essencialmente autoritário e teocrático e não depende, pelo menos não depende da mesma maneira do voto popular de um regime democrático normal, pluralista. Isso significa que tem mostrado ao longo das décadas uma enorme capacidade para aceitar grandes custos econômicos em vidas para a sua população das suas ambições em termos de política externa, e imediatamente também no choque com os Estados Unidos e eu não vejo sinais de que isso tenha mudado. Eventualmente, se alguma coisa, até como resultado destas ações militares, parece-me que temos sinais de que está a ter mais peso uma ala mais dura, que sempre foi muito crítica da ideia de negociação com os Estados Unidos e que sempre acusou os moderados de acreditarem em promessas ilusórias da parte dos Estados Unidos.
Bruno Cardoso Reis, falamos ainda do bloqueio naval que se mantém por parte dos Estados Unidos aos portos iranianos. Terão mesmo apreendido um navio iraniano no Golfo de Omã. De um lado, Teerão mantém as acusações de que os Estados Unidos estão a fazer pirataria, do outro, as forças norte-americanas insistem nas ações contra navios iranianos. Até quando é que esta questão do bloqueio naval vai manter-se na agenda?
Todos os sinais são de que vai continuar a ser absolutamente central na agenda. Parecia, como eu digo, ter estado resolvido. Aliás, uma das interpretações possíveis é que o facto de os Estados Unidos terem mantido o bloqueio, no fundo, ajudou a ala mais dura, que não gostou da ideia da reabertura do estreito, a voltar a controlar a agenda no Irão. É extraordinário que o Irão faça essas acusações de pirataria em relação aos Estados Unidos, porque a verdade é que até hoje os Estados Unidos não tinham usado a força contra navios civis iranianos e apesar de tudo, foi aqui aparentemente um uso de força relativamente limitado. O Irão tem passado o tempo a atacar navios civis, provocou destruições, feridos, inclusive mortes entre tripulantes civis destes navios que tentaram, de acordo com o direito internacional, atravessar o Estreito de Ormuz. Acho que é extraordinário realmente este lado de hipocrisia, de contradição na posição iraniana. Agora, do ponto de vista do resto do mundo, o problema é que independentemente de quem é que tem mais ou menos razão, tudo o que seja bloquear, impedir o trânsito no estreito com a importância geoeconômica, geoestratégica do Estreito de Ormuz em si mesmo é terrível, tem um preço enorme pra economia global, como estamos a ver, e cria um precedente também terrível, sobretudo se avançar esta ideia iraniana de transformar isto num sistema mais ou menos permanente. Isso seria o colapso da norma da liberdade de navegação civil, que tem sido um pilar da ordem internacional há vários séculos e que tem sido crucial também para a nossa prosperidade. Todos nós estamos aqui a ter uma lição em tempo real do que seriam os custos de os países começarem de repente a bloquear um estreito quando estão em conflito com outros ou começassem a cobrar uma peagem, um milhão de dólares por passagem de navio nestes estreitos internacionais.
Bruno, esta situação no Médio Oriente acaba por dominar grande parte da geopolítica mundial, mas a verdade é que não é o único conflito ativo no globo. Vamos falar um pouco sobre a guerra entre a Ucrânia e Rússia. Temos dois minutos para o fazer, numa altura em que Zelensky diz que os ataques ucranianos a infraestruturas petrolíferas da Rússia tirou mais de 2 mil milhões de dólares à Rússia, isto só em março. São declarações de Zelensky numa altura em que a imprensa russa, em sentido inverso, diz que a indústria petrolífera da Rússia está a crescer. Há alguma forma, Bruno Cardoso Reis, de perceber o que realmente está a acontecer na economia russa?
É muito difícil e aliás, hoje temos uma reportagem de fundo no Financial Times, com base nos serviços de informações suecos, que dizem que há aqui uma estratégia de manipulação, inclusive manipulação estatística deliberada pelo Estado russo para tentar passar a mensagem de que a economia russa está num estado muito melhor do que aquilo que está e inclusive, a confiarmos nessas informações suecas, mesmo com o aumento do preço dos hidrocarbonetos agora como resultado do conflito com o Irão, que mesmo isso não está a ser suficiente para salvar o orçamento russo, o Estado russo, a economia russa das dificuldades em que está. Uma regra geral nestes conflitos é que temos que ter muito cuidado com as declarações dos diferentes beligerantes. A Rússia sempre se tem caracterizado por ser muito pouco credível nas suas declarações e tem um longo histórico de desinformação, de manipulação ativa da informação, como acontece muito também com os Estados autoritários, mas a Rússia realmente é uma particular perita nisso, também recorrendo à herança soviética. E eu acho que a resposta curta e simples é não, não temos maneira de saber. Há alguns indicadores que aparentemente os suecos estão a utilizar, que apontam pra dificuldades, e temos estes dados objetivos, que é os ucranianos têm estado a ser muito eficazes a atingir infraestruturas muito importantes, por exemplo, a capacidade de refinação e exportação, os terminais de exportação destes produtos petrolíferos que são cruciais para sustentar a economia e também o orçamento de Estado e portanto a máquina de guerra russa.
Chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigado pela análise. Bruno Cardoso Reis é historiador. Está feito mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Fica como sempre disponível em podcast.