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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e conosco temos esta hora João Albuquerque, especialista em relações internacionais. Bem-vindo, João, uma vez mais. João, começava por uma declaração feita pelo ex-enviado especial dos Estados Unidos, Elliott Abrams, que disse à CNN que Donald Trump só tem duas opções no conflito com o Irão: ou há uma escalada contra o regime ou dentro de uma ou duas semanas Trump vai saltar fora deste conflito. É uma possibilidade os Estados Unidos saírem deste conflito com ele ainda em andamento?
Viva Luís, boa noite. É difícil prever o que poderá acontecer. Um conflito desta natureza, e é típico de qualquer guerra, sabe-se sempre como começa e dificilmente se sabe como é que acaba. Pode parecer um pouco clichê, mas a verdade é que os Estados Unidos entraram para esta guerra com muitas certezas e com o seu presidente declarando que em poucos dias dizimaria todas as capacidades de resistência e capacidades defensivas do Irão. E a verdade é que o conflito já leva duas semanas e não há um aparente fim à vista, nem sequer se consegue vislumbrar exatamente qual é que será a estratégia dos Estados Unidos em relação ao Irão e à intervenção que iniciaram. Isto porque, contrariamente àquilo que Trump poderia pensar ou aquilo que se viu que aconteceu na Venezuela, no Irão dificilmente se conseguiria encontrar um cenário em que uma intervenção militar pudesse vir a dar origem a uma mudança de regime ou uma mudança de liderança que pudesse depender da decisão dos Estados Unidos. E a escolha que foi feita recentemente pelo Conselho de Peritos, nomeando o novo líder supremo do Irão demonstra precisamente não só a capacidade de resistência militar e política do Irão, mas também a própria capacidade de estabilidade das instituições iranianas e que permitiram que o Irão continuasse a funcionar apesar da invasão e dos bombardeamentos de Israel e dos Estados Unidos.
Entretanto, hoje soube-se que França e Itália iniciaram negociações com o Irão a propósito do Estreito de Ormuz. Supostamente haverá também outros países envolvidos nestas negociações. Sabemos bem da importância deste estreito, estamos a senti-lo até quando pomos nomeadamente combustível todos os dias. Aquilo que lhe pergunto é se faz sentido esta negociação partir especificamente destes dois países e se haverá ou poderá haver algum ganho de causa com esta negociação.
Eu acho que era fundamental duas coisas. A primeira é garantir que há, de certa maneira, uma coesão europeia na forma como se olha para este conflito. Nós temos um Conselho Europeu marcado pra próxima semana em Bruxelas. António Costa convocou os líderes europeus e era um conselho que já estava marcado e agendado há bastante tempo. E obviamente este será um ponto central na discussão dos líderes europeus no final da próxima semana. E será importante perceber quais é que serão as decisões tomadas em conjunto pelos 27 a este respeito. Em segundo lugar, é preciso também não só que a Europa permaneça como um ponto de previsibilidade em todo este conflito, mas que tenha também capacidade de dar resposta do ponto de vista político e econômico àquilo que são as consequências colaterais que nós estamos agora a começar a sentir. Eu julgo que nós estamos a entrar num cenário não muito diferente daquele que aconteceu em 2022 aquando do início da invasão da Rússia à Ucrânia, com consequências diretas no aumento do preço da energia e depois as consequências que daí advêm, em particular o aumento dos custos de produção, dos custos de contexto, etc. E, portanto, é expectável ou desejável que os líderes europeus na próxima semana tenham uma resposta também firme a esse nível, porque ela será fundamental para garantir alguma estabilidade aos cidadãos europeus, que obviamente estão a começar a sentir de uma forma muito grave e séria os efeitos desta crise. Como primeira consequência, eu acho que é importante realçar o compromisso de alguns líderes europeus, ou pelo menos o pedido de alguns líderes europeus, pra que a União Europeia não abandone as suas ambições do ponto de vista de combate às alterações climáticas e de investimento nas energias renováveis, o que é obviamente um dos fatores de maior garantia da autonomia estratégica que a União tem para oferecer à sua população.
O certo é que o secretário de Defesa norte-americano acusa o Irão de estar em puro desespero ao colocar a hipótese de fechar em definitivo a navegação no estreito de Ormuz, mas garante que os Estados Unidos estão a lidar com a situação, que não há motivos para preocupação. João Albuquerque, esta tentativa dos Estados Unidos, aparentemente de desvalorizar aquilo que se passa no estreito de Ormuz, parece, no entanto, não colar com a realidade, não é?
Não é sem pena que eu digo que torna-se difícil conseguir encontrar não só alguma previsibilidade naquilo que são as declarações dos altos responsáveis americanos, no sentido de nós conseguirmos identificar as razões para as ações americanas que estariam naturalmente ligadas àquilo que são os interesses do país, mas também não é sem pena que digo que se tornou difícil reconhecer a credibilidade que nós estávamos habituados a conceder às autoridades americanas quando se tratava da forma como enfrentavam, quer do ponto de vista narrativo, quer do ponto de vista operacional, conflitos desta natureza. E quando nós neste momento duvidamos ou temos dificuldade em conferir credibilidade a algumas das afirmações que são Que são feitas começando pelo próprio presidente norte-americano. É de facto lamentar que um parceiro tão vital para a Europa e para o desenvolvimento que nós conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, se tenha tornado hoje em um parceiro não só pouco fiável, mas infelizmente também muito pouco credível.
E entretanto, sabemos bem que tudo isto está ligado e há essa decisão também dos Estados Unidos de permitir temporariamente a venda de petróleo russo devido ao aumento dos preços provocados pela guerra no Irão, uma situação que já gerou preocupação, nomeadamente por parte de líderes europeus, que já manifestaram preocupação com o impacto desta decisão na segurança e também na economia da Europa, sublinhando também o potencial para financiar, por outro lado, a guerra e daqui a ligação da Rússia na Ucrânia. Aquilo que eu lhe queria perguntar é, João, se a Rússia acaba por ficar também a ganhar com este conflito no Irão.
Essa parece ser, de todas, uma das consequências mais negativas do início deste conflito. E esta decisão dos Estados Unidos é absolutamente incompreensível e cede a uma lógica que não só é difícil de perceber qual o seu racional, mas também de aceitar que os Estados Unidos favoreçam e beneficiem de uma forma tão direta uma potência que está há quatro anos a invadir a soberania e o território de um outro país. A crítica e a condenação explícita que foi feita, quer pelo presidente do Conselho Europeu, quer por vários líderes europeus, o chanceler alemão Friedrich Schmerz, mas também pelo Sánchez, Emmanuel Macron e vários outros líderes que obviamente condenaram esta decisão dos Estados Unidos de suspender temporariamente as sanções, é absolutamente lógica e natural, porque a consequência direta é evidentemente um reforço da capacidade económica russa, que estava a conhecer verdadeiramente muitos desafios e muitas dificuldades. E nós temos visto isso na dificuldade que a Rússia tem tido nos últimos meses e nas últimas semanas na frente de batalha e os avanços que a Ucrânia tem conseguido pontualmente em alguns pontos de conflito. E, portanto, esta capacidade, esta bolha de ar que os Estados Unidos agora concedem à Rússia é obviamente muito desfavorável à Ucrânia e é incompreensível do ponto de vista das alianças e até do próprio suporte à Ucrânia, que não podemos nunca esquecer, é sempre a potência que foi invadida e o Estado que foi invadido e viu violada a sua soberania.
De resto, o presidente da Ucrânia assume isso mesmo, admite que o facto da atenção global se virar agora para o Médio Oriente não beneficia a Ucrânia, apesar de Zelensky considerar que isso é compreensível perante a situação que estamos a viver. O que é que Volodymyr Zelensky pode fazer para que não se disperse tanto a atenção para este conflito? Há alguma coisa que ele possa fazer, nomeadamente a nível dos contactos com os parceiros europeus?
O Zelensky nesse aspecto sabe muito bem o que tem que fazer e a sua ação diplomática continua intocável e continua, obviamente, procurando estreitar o relacionamento com os líderes europeus. Há, obviamente, neste momento, um ponto de grande tensão na relação da Ucrânia com a União Europeia, em particular com um dos seus Estados membros, a Hungria. Zelensky tem razões de sobra para estar desagradado com o comportamento da Hungria nos últimos quatro anos e a forma como Viktor Orbán posicionou o país, neste caso, na falta de apoio à Ucrânia, não só do ponto de vista económico, bloqueando muitas vezes decisões do Conselho Europeu, mas também na recusa que sempre teve de prestar apoio militar e económico à Ucrânia. Mas há obviamente uma necessidade, porque do ponto de vista da política realista, realpolitik, há uma necessidade neste momento de resolver um problema relativamente aos gasodutos que foram bombardeados e que a Hungria acusa como sendo um boicote ucraniano à entrada de gás no país. E portanto, há aqui uma necessidade de resolver em demonstração de boa vontade para que, espera-se, a Hungria possa aliviar o bloqueio que tem tido no Conselho Europeu e de certa maneira garantir que a União Europeia continua, do ponto de vista das decisões, mas também do apoio direto a ser o principal aliado da Ucrânia e não de maneira nenhuma claudicar e diminuir o seu apoio numa fase tão crucial como é esta para a própria sobrevivência e a capacidade defensiva ucraniana.
Entretanto, noutra frente, a Turquia deu conta de que um míssil iraniano foi abatido no espaço aéreo pela NATO. Trata-se já do terceiro. O presidente turco diz que se recusa a permitir que a Turquia seja arrastada para uma guerra por provocações após este terceiro míssil disparado do Irão, que foi destruído pela NATO no espaço aéreo turco. João, corremos o risco de um escalar deste conflito, nomeadamente com a entrada da NATO também, tendo em conta aquilo que têm sido, e citando o presidente da Turquia, as provocações do Irão.
Esse é o primeiro risco, sem dúvida, seja ele deliberado ou indeliberado. Eu recordo que a primeira vez que tivemos esse incidente, o Irão se apressou a clarificar que não havia intenção de atacar a Turquia, mas este terceiro ataque, como o Luís referia, levanta já mais questões sobre efetivamente as intenções reais do Irão, sejam elas de provocação, sejam elas de certa maneira criar alguma tensão crescente. E esse é o primeiro risco, efetivamente, que é o de arrastar a Turquia e com o arrastar da Turquia, arrastar os outros países da NATO O segundo risco é que isto acabe por descambar num cenário em que as alianças existentes entre as diferentes potências, em particular as duas grandes potências mundiais neste momento, os Estados Unidos e a China, sabendo nós que estão os dois, neste caso também em pontos completamente opostos. A China num momento raro daquilo que é a sua política externa, tem se demonstrado muito vocalmente ao lado do Irão e garantindo que o apoiará incondicionalmente. Portanto, que isto acabe por acelerar ou de certa maneira, provocar a ativação dessas alianças que teriam consequências de uma ordem mais global. E isso é o cenário mais indesejável possível, porque se há coisa que nós todos devemos querer evitar coletivamente é que haja pontos de tensão abertas e diretas entre os Estados Unidos e a China.
Entretanto, já falamos há pouco também da questão de em que estado está o regime iraniano. O secretário de defesa diz que o novo líder supremo do Irão está ferido e provavelmente até desfigurado. O certo é que a mensagem de ontem do novo líder supremo não foi lida por ele, mas sim por um apresentador da televisão pública iraniana. Este pode ser um sinal disso mesmo, João, de alguma fragilidade do novo líder supremo e eventualmente também do regime iraniano ou não podemos ainda concluir isso?
Eu diria que é difícil concluir ou tirar essa conclusão no imediato. Aquilo que se sabe ou pelo menos aquilo que os indícios apontam para que o novo líder supremo tenha sido atingido durante o ataque que vitimou o seu pai e que acabou por matar efetivamente Khamenei no primeiro ataque desferido por Israel e pelos Estados Unidos, e que será por isso que está ainda longe ou afastado dos holofotes. Eu não julgo que haja ainda indícios fortes de que o regime esteja, de certa maneira, em fase de erosão completa. Agora não há também dúvidas de que as alianças estratégicas e tradicionais que o Irão vinha a ter na região sofreram duros golpes nos tempos mais recentes, a começar pela queda do regime sírio e o apoio fortíssimo que o Irão tinha na Síria, mas também o enfraquecimento de algumas das organizações terroristas mais ativas na região, que têm vindo a ser fortemente atacadas e devastadas por Israel ao longo dos últimos dois anos, o Hezbollah obviamente no Líbano, mas também o Hamas em Gaza, e que isso obviamente levanta também dificuldades na convergência de forças e de aliados que o Irão tinha na região. E isso obviamente não favorece a capacidade ofensiva do Irão ou de resistência se os bombardeamentos de Israel e dos Estados Unidos se intensificarem nos próximos tempos.
O certo é que os Estados Unidos e Donald Trump já fez saber que pode vir a oferecer dinheiro a quem conseguir encontrar e a quem conseguir capturar o novo líder supremo do Irão. É mais um fator que vem aqui de alguma forma reforçar essa ideia de que, afinal, não se saberá muito bem onde é que estará o novo líder supremo do Irão.
Claro, depois daquilo que aconteceu com o Khamenei e com a ameaça que eu julgo que de certa maneira insólita e inédita da parte de Israel, de que qualquer que viesse a ser o novo líder do Irão seria um alvo a abater. Isto obviamente mina por completo qualquer hipótese de resolução do conflito por via diplomática ou por via pacífica, quando não se reconhece legitimidade a qualquer sucessor do regime iraniano e demonstra que a intenção real é a destruição total do regime dos Aiatolás e uma alteração profunda na governação do país. Portanto, há todo um reforço das condições de segurança que o Irão leva a cabo neste momento para proteção daquele que é hoje o seu novo líder procurando ao máximo salvaguardar a sua integridade e garantindo que há condições em prática muito diferentes daquelas que havia anteriormente.
João Albuquerque, muito obrigado por ter vindo a este Gabinete de Guerra. João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais, bom fim de semana.
O gosto é meu, muito bom fim de semana.