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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas e mundiais. Hoje contamos com a análise de Bernardo Valente, é professor de Relações Internacionais no ISCSP. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite.
Olá, boa noite.
Muito boa noite. Vamos falar sobre a situação no Médio Oriente. Donald Trump disse estar prestes a chegar à decisão final sobre o acordo com o Irão. O presidente norte-americano está reunido com as altas patentes norte-americanas para as últimas conversas. Vamos finalmente poder falar em fumo branco, Bernardo Valente?
Sim, esperemos que sim. Andamos a falar desta possibilidade de termos um cessar-fogo prolongado ou o início de um processo de paz há 15 dias. Donald Trump há cerca de 15 dias que diz que 95% do acordo está terminado, só que o problema é que os outros 5% são o centro nevrálgico da questão. E que questões são estas? Quais são estes problemas? Diria que temos dois, três, começando pelo primeiro e aquele que é o mais gravoso e que foi talvez o casus belli deste conflito. Portanto, a grande causa para termos tido uma intervenção no Irão, que é feita agora durante a administração de Donald Trump, mas é algo que já vinha sendo antecipado desde os anos 70 pelas linhas de política externa norte-americanas, também é preciso que se diga. Só que também os presidentes norte-americanos desde os anos 70 que não se querem meter neste ninho de vespas que é o Irão, que é o que vemos que está a acontecer agora com Donald Trump, porque não há uma saída possível, precisamente porque o Irão tem esta ideia do anti-imperialismo desde os anos 60, principalmente desde a deposição do Mossadegh, que faz com que tenham preparado toda a sua política externa, preparado todo o seu aparelho diplomático e militar também, inclusive a guarda revolucionária iraniana, como sabemos, para combater a intervenção externa e, neste caso, a intervenção norte-americana. Portanto, indo ao primeiro grande problema, que é o urânio enriquecido. Neste momento, o que temos é urânio enriquecido a cerca de 60%, 70%. Este processo até aos 60%, 70% é mais lento a nível do enriquecimento de urânio e da centrifugação, depois a partir dos 70% até aos 90% é mais rápido. E a partir dos 90% começamos a ter armas e mísseis balísticos bastante consideráveis que podem pôr em causa várias geografias e não apenas aquelas geografias onde são detonados. Portanto, pegando nesse primeiro ponto, Donald Trump tem que conseguir convencer não só a sua administração, mas também o seu eleitorado, de que o acordo que vai tirar daqui é melhor do que o acordo de Obama. O acordo de Obama era o JCPOA, que foi negociado entre 2015 e 2016, e depois Donald Trump veio dizer que era prejudicial para o contribuinte norte-americano e abandonou no primeiro mandato esse mesmo acordo. Esse acordo contemplava então um enriquecimento de urânio para fins civis do ponto de vista do Irão, mas nunca para fins bélicos. E tinha, aliás, o aval do Conselho de Segurança e das Nações do Conselho de Segurança. Portanto, havia aqui alguma estabilidade relativamente ao programa nuclear iraniano. O que é que acontece? Se Donald Trump agora conseguir um acordo relativamente ao nuclear, mas não conseguir tirar o urânio enriquecido do Irão, o que temos aqui é um acordo que não mexe em nada com aquilo que era o acordo do JCPOA de Obama. Portanto, vamos continuar com uma arquitetura de segurança cada vez mais instável no Médio Oriente, sabendo que os Emirados Árabes Unidos têm sofrido agora retaliações do Irão, que a Arábia Saudita tem uma contenda eterna com o Irão para perceber quem será o grande líder daquele bloco regional. E os Estados Unidos, neste momento, não têm dado o apoio necessário à Arábia Saudita também. Temos, para além da questão do Israelita, que poderemos lá ir mais tarde. Se não tivermos esse urânio a ser transportado ou para os Estados Unidos ou para uma terceira parte, neste caso, a Rússia colocou-se a certo ponto na fila da frente para receber esse urânio.
Temos também o Cazaquistão que diz, Bernardo Valente, que está disposto a receber esse urânio enriquecido. Tendo em conta o leque de opções que existe, há alguma que surja como uma opção mais válida?
O Cazaquistão tem a questão das infraestruturas. O Cazaquistão foi um dos grandes centros energéticos da União Soviética e está ali naquela plataforma euro-asiática que ficou conhecida nas relações internacionais como Heartland, por ter muitos recursos e porque se acreditava que quem dominasse a plataforma euro-asiática dominaria o mundo. Portanto, o Cazaquistão tem não só esta base energética muito rica, como também, ao mesmo tempo, as infraestruturas para as trabalhar, que são infraestruturas que ainda vêm da União Soviética. E aliás, convém dizer que depois do fim da União Soviética, fez-se muito turismo de plutónio. O que era turismo de plutónio? As nações iam ao Cazaquistão para ver se ainda conseguiam retirar dali algum plutónio para o fabrico de armas, porque esse plutónio foi abandonado pela União Soviética. Agora, andando uns aninhos pra frente, falamos não do plutónio, mas sim do urânio, e o Cazaquistão surge também como esta possível opção. Só que será uma possível opção que está sempre sob a égide da influência russa, e isto é um problema para os Estados Unidos. Parece-me difícil que os Estados Unidos e mesmo Israel aceitem a solução Cazaquistão. Como dizia, se não tivermos, e não parece que estejamos perto disso, se não tivermos aqui este mediador de urânio, este mediador nuclear que está disposto a receber as remessas de urânio vindas do Irão, o risco de voltarmos a ter um Irão nuclear mantém-se. E esse risco não só não evolui nada, como dizia, relativamente àquele que foi o acordo de Obama, como também daqui a 10, 15 anos vamos estar a falar novamente do enriquecimento de urânio do Estado iraniano, porque repare-se que Donald Trump já disse várias vezes que as infraestruturas nucleares do Irão estavam obliteradas. Nada mais longe disso, porque percebemos que esse receio mantém-se e por isso é que há aqui esta tentativa de transferir o urânio para outro lado. A outra possibilidade, não transferindo o urânio para uma terceira parte, é destruir o urânioSó que destruir o urânio não lhe retira as suas propriedades e, portanto, há a possibilidade também que mesmo destruindo esse urânio, venha a ser enriquecido novamente num processo que vai demorar tempo, por aquilo que estava a explicar do chegar aos 70% ser um processo moroso, mas há a possibilidade de voltarmos a ter um programa de enriquecimento de urânio para fins civis e que cria alguma desconfiança no mundo ocidental, cria alguma desconfiança também em Israel, relativamente às verdadeiras intenções desse programa nuclear iraniano, que foi no fundo, a grande causa deste conflito. Portanto, este é ainda daqueles 5% que sobravam no acordo para serem definidos, este é o grande problema. A reconfiguração do regime, se era um objetivo inicial, neste momento parece estar mais longe que nunca, portanto, não me parece sequer que seja um objetivo estratégico, já nem sequer de Israel, nem dos Estados Unidos. E depois terá uma questão de perceber o que é que os Estados Unidos também estão dispostos a ceder a nível, por exemplo, das sanções e ao nível do desbloquear dos ativos russos iranianos, que recordo que também em tempos foi prometido numa troca de reféns que esses ativos seriam desbloqueados e nunca o foram. E, portanto, há aqui uma falta de confiança de ambas as partes relativamente às negociações, que é visível e por isso é que poderemos ter aqui alguma esperança de pelo menos termos o Estreito de Ormuz aberto. E esse é o ponto fulcral para a economia global, é podermos ter o Estreito de Ormuz aberto, mas depois vêm as segundas negociações, que é quem é que coordena realmente o Estreito de Ormuz, quem é que poderá ter a eventual portagem, como se fala agora, e fazer essa coordenação, tanto do lado de Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, como do lado iraniano. Portanto, é preciso envolver mais Estados do Golfo Pérsico nesta negociação. Aliás, como o Paquistão também tem estado envolvido desde praticamente os primeiros momentos desse conflito.
Bernardo Valente, vamos ainda falar sobre a guerra na Ucrânia e o incidente de um drone que atingiu a Roménia, um país que faz parte da NATO, há queixas da Comissão Europeia. Vladimir Putin diz que apenas ouviu falar de incidente na Roménia e sugere que o drone poderá mesmo ser ucraniano. Que notas há a retirar deste drone deslocado? Estará a Rússia a testar limites?
Parece-me que sim. Parece-me que a Rússia, apesar de ainda não sabermos se foi um erro ou não, e tudo aponta para que tenha sido, mas parece-me que a Rússia tem testado nas últimas duas, três semanas, alguns limites relativamente àquilo que é a união Europa com os Estados Unidos, portanto, a união transatlântica, a NATO. E esses limites foram testados em tempos, há cerca de sete, oito meses, quando começámos a ter invasões do espaço aéreo, neste momento são feitas de forma mais deliberada. Portanto, se fizermos aqui uma radiografia das últimas duas, três semanas, tivemos um governo dos Bálticos a cair na Letónia, precisamente pelo embate de um drone vindo do conflito Rússia-Ucrânia, supostamente um drone ucraniano que foi desviado pelas forças russas, embateu numas infraestruturas energéticas na Letónia, caiu primeiro o ministro da Defesa, que se demitiu de imediato há duas semanas, passado dois, três dias, demitiu-se a primeira-ministra. Portanto, um Báltico que em tempos esteve também sob a égide russa. Segundo, tivemos a semana passada na Lituânia, o embate também de um drone numa escola, que gerou o pânico naquela comunidade, mais um país novamente que esteve sob a égide da Rússia e um país que a Rússia tem quase uma guerra diplomática aberta, porque foi durante muito tempo também o refúgio de opositores de Vladimir Putin, principalmente a embaixada, foi refúgio de opositores de Vladimir Putin em Vilnius. Terceiro, temos agora esta questão da Roménia. E muito rápido, de forma telegráfica, a verdade é que percebemos que é aqui uma tentativa de Vladimir Putin, onde ainda tem algum resquício de influência russa, de partidos pró-russos, como é a questão, por exemplo, da Transnístria e da Moldova, mesmo ao lado da Roménia, creio que existe aqui, mesmo debaixo desta narrativa de que são acidentes, existe aqui uma tentativa de testar qual é realmente a coesão destas sociedades fora da influência russa. Se estas sociedades realmente conseguem sobreviver às ameaças híbridas e aos candidatos, muitas vezes em eleições, como foi o caso, por exemplo, da Moldova, lá ao lado da Roménia, e aos candidatos pró-russos. Portanto, isto irá continuar a acontecer. Agora, a Europa também tem que ter uma palavra a dizer, para além da NATO, e essa palavra a dizer é explicar que a decisão que foi tomada pela União Europeia é a do alargamento e não do aprofundamento. E, portanto, se queremos ser também um polo de atratividade para outros países, como por exemplo, a Geórgia, a Arménia, temos que dar uma resposta cabal a nível de defesa e uma resposta cabal que não pode passar apenas e só pelo guarda-chuva dos Estados Unidos.
Muito obrigado Bernardo Valente, é professor de Relações Internacionais no ISCSP. Chegamos ao final do nosso tempo. O Gabinete de Guerra fica como sempre disponível em podcast.