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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Analisamos dois dos principais conflitos no globo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Para tal, convidamos Afonso Moura, geopolitólogo, a quem agradeço ter aceitado este nosso convite. Seja muito bem-vindo, Afonso Moura. Vamos começar na Ucrânia, com os Estados Unidos que anunciaram a redução no fornecimento de armas à Ucrânia. A minha primeira pergunta é: depois de a Rússia ter saudado esta decisão, comprova-se que é o pior cenário possível para a Ucrânia?

Muito boa tarde. Eu não sei se é o pior cenário possível. É um cenário mau, isso sem dúvida, mas é algo que não nos deveria surpreender. Donald Trump, durante a sua campanha, ainda antes de ser eleito, disse que o tipo de política que estava a ser seguida pela administração democrata de Joe Biden não era algo que ele queria continuar, tendo em conta o conflito na Europa de Leste. E isto, em alguma medida, é algo que já tem vindo a acontecer há meses. Existe sempre esta ideia: "Bem, mas os Estados Unidos da América vão sair completamente, não vão sair completamente". Ou seja, nós temos concretamente a ideia de que eles vão saindo pouco a pouco. Agora, também devemos ter em conta que existe muita gente no quadro político norte-americano que é contra esta medida de Donald Trump. Ou seja, nós temos muitos políticos na América, não só democratas, mas também republicanos, que querem continuar o apoio à Ucrânia. E continuam, por algumas portas que não são portas oficiais, e continuam também através de Londres. Aqui é importante sempre recordarmos que através das estruturas da Aliança Atlântica, nós temos muita gente que está a colocar-se atrás de Londres, e isso é extremamente visível depois da reeleição de Donald Trump, para continuar este apoio total à Ucrânia. Qual é que é o problema? O problema aqui é a ordem de grandeza. Ou seja, o Reino Unido com outros parceiros europeus, como a própria França ou a Alemanha, não tem o arcaboiço necessário para dar à Ucrânia tudo aquilo que ela precisa para continuar a resistir aos avanços russos. Os avanços russos que continuam de uma ponta à outra do mapa. Agora nós falamos muito da questão em Sumy e da questão de Kharkov também. Eu acho que temos que perceber que esses dois pontos são pontos secundários. Aquilo que é mais importante no conflito que ali se desenrola é aquilo que se passa no Donbass e principalmente aquilo que se passa no Oblast de Donetsk. E aí os russos manobraram de maneira extremamente inteligente, porque toda a gente estava a pensar que os russos iam continuar na parte norte desse Oblast e iam apontar as miras primeiramente a Kramatorsk e Sloviansk. Ora, como as defesas ucranianas eram mais fortes nesses pontos, os russos foram pela parte sul do Oblast e já estão mesmo à porta de um outro Oblast ucraniano, o Oblast de Dnipropetrovsk. Nós temos que perceber também, e para voltar aqui à importância de Londres, neste momento, Londres já está a preparar aquele que gostaria que fosse o substituto de Zelenskyy, porque a um determinado momento, é normal que Zelenskyy seja removido, ou seja, muito provavelmente vai ser uma espécie de bode expiatório. Eles vão dizer: "Bem, a culpa disto tudo, no final, foi do Zelenskyy, porque ele não soube liderar, porque ele não soube isto, não soube aquilo". O embaixador ucraniano em Londres, Valer Zaluzhnyi, está já em grande medida a ser preparado pelos britânicos e por outros parceiros da NATO para ser um próximo líder na Ucrânia quando a altura de substituir Zelenskyy chegar. Agora, nós temos também que guardar aqui sempre a ideia de que os Estados Unidos da América, neste momento, e aqui é um bocado aquela linha de Henry Kissinger. Kissinger, antes de morrer, disse que estava preocupado com o desequilíbrio do mundo. E Donald Trump acaba por concordar com Henry Kissinger, apesar de ter um historial completamente diferente. Ou seja, qual é que é a visão de Donald Trump? É que a Rússia não pode ser subjugada, nem pode ser esmagada. Nós sabemos que o rolo compressor do liberalismo tem vindo a destruir ao longo dos séculos aquilo que classifica como despotismos. O Império Otomano, o Império Austro-Húngaro, o Império Alemão. Muita gente pensou que em 1917, através da revolução leninista na Rússia, esta revolução ia acabar por fragmentar a própria Rússia. Ora, isso não aconteceu e Trump junta-se aqui a esta visão de Kissinger, que é: a Rússia é um polo independente e a Rússia não pode ser nem subjugada, nem esmagada, logo, temos que lidar com ela. Em alguma medida, é também aqui este realismo político de Donald Trump a perceber: bem, nós tentamos fazer qualquer coisa. Os Estados Unidos tentaram fazer qualquer coisa naquela parte do mundo para enfraquecer estrategicamente a Rússia, falharam e têm que perceber que falharam. Ou seja, não vale a pena insistir quando sabemos que as coisas já não vão dar certo. Vale a pena reconhecermos os nossos erros e recuarmos para nos reposicionarmos estrategicamente para o próximo confronto.

Vamos também aqui neste Gabinete de Guerra reposicionarmos de forma estratégica para falar sobre este telefonema de Macron, que falou ontem com o Putin, primeiro, depois com Zelenskyy. Peskov, por parte do Kremlin, diz que a conversa com Putin foi uma boa oportunidade para transmitir as posições de ambas as partes. O que é que há a retirar destas conversas do presidente francês, Afonso Moura?

Primeiro que tudo, temos que ver que Macron estava a fazer birra desde 2022 e lá foi ele que ligou ao Putin, porque é importante vermos que isto é algo que parte do lado francês, ou seja, o lado francês diplomaticamente passa esta mensagem, que o presidente Macron queria falar com o presidente Putin, e é uma mensagem que é recebida do lado russo, à qual os russos acedem, porque os russos, em última instância, poderiam ser eles a ligar a Macron, mas é o contrário, é Macron a ligar a Putin. Este primeiro elemento acho que é importante e demonstra-nos que, em alguma medida, a França e Macron às vezes têm uma espécie de tiques gaullistas. E nós sabemos que o general de Gaulle tinha uma noção muito importante do papel da Rússia no mundo. Ele tem aquela frase, quando as pessoas estavam muito preocupadas que o comunismo ia conquistar o mundo, de Gaulle disse a Alain Peyrefitte: "A Rússia beberá o comunismo como o párovo bebe a tinta". Ou seja, de Gaulle sempre aqui encaixado numa lógica das nações acima das ideologias. E Macron, com esses tiques gaullistas que por vezes tem, tenta abrir agora uma porta com a Rússia. Mas Macron é também extremamente subtil, porque o ponto inicial deste telefonema não é a questão na Ucrânia, é a questão no Irão. E em alguma medida, Macron pode vender isto até: "Não, existiu esta intervenção norte-americana contra o Irão e a Rússia é um player determinante no tabuleiro mundial e nós não podemos nos remeter numa posição de não falar com a Rússia". Também já vi que o vox parola do Estado francês disse que, em alguma medida, Macron e Putin têm uma convergência maior no dossiê iraniano do que no dossiê ucraniano, como era expectável. De qualquer forma, nós não podemos pensar que isto não faz parte de uma estratégia francesa. Vemos aqui, em alguma medida, um destaque do aliado britânico, que é um aliado ferozmente anti-russo, ou seja, é algo que nos remonta ao século XIX, aquilo que se chamava o Grande Jogo. E Macron aqui, em alguma medida, tenta reabrir um diálogo que se antevê extremamente difícil com a Rússia, mas eu acho que é positivo que ele tenha tomado essa decisão. Os grandes líderes têm que falar com as grandes potências e a Rússia, quer gostemos, quer não, é uma grande potência e é bom ter a França como interlocutor. É bom também, diria eu, para uma Europa latina como Portugal, Espanha e Itália, que regra geral não são países anti-russos, e faz sentido que a França, em alguma medida, como nós não temos força suficiente para o fazer, passe aqui uma narrativa, que é uma narrativa que não cola com a propaganda anglo-americana num combate face à Rússia.

Vamos avançar, olhar para o Médio Oriente com uma viagem de Benjamin Netanyahu aos Estados Unidos, que está prevista para este sábado, vai encontrar-se com Donald Trump. O que é que podemos esperar deste encontro?

Neste momento, aquilo que podemos esperar é que Donald Trump não sucumbiu a todos os desejos de Benjamin Netanyahu e sem dúvida que aborreceu o primeiro-ministro israelita. Aqui é importante nós termos noção que Donald Trump, e nós aqui temos muito esta ideia fixa na Europa, que é o princípio de não contradição, que às vezes remonta a Aristóteles, mas Trump aqui é mais visível através do pensamento de Heráclito, ou seja, da unidade dos opostos. Ou seja, em Trump coexiste o intervencionismo e o não intervencionismo. O que eu quero dizer com isto? Trump tem duas fações internas completamente distintas que o apoiam. Uma fação, e é a fação que está alinhada com Israel e com Netanyahu, quer um regime change, ou seja, uma mudança de regime no Irão. E nós vimos isso até mediaticamente na Europa romano-germânica, tentou-se meter à frente uma ideia de uma suposta rebelião que aconteceria no Irão, que derrubaria o regime. Ou seja, esta fação, em alguma medida, quer exercer uma bushificação de Donald Trump. Querem que Trump faça ao Irão aquilo que Bush fez ao Iraque. Por enquanto, Donald Trump está a resistir. Donald Trump fez uma intervenção, mas é uma intervenção cirúrgica à fação intervencionista e diz: "Vejam, vocês dizem que eu sou intervencionista, e não sou. Eu fiz uma intervenção cirúrgica". Àqueles que são contra a intervenção, Donald Trump diz: "Não, eu não fiz nada semelhante àquilo que Bush fez. Eu não meti boots on the ground, eu não meti o exército terrestre norte-americano a invadir o Irão como Bush fez na questão do Iraque". E é muito importante nós termos aqui em conta também que existe um papel das personalidades neste tipo de conflito. Donald Trump, em alguma medida, é muito influenciado por uma filha dele, a Ivanka Trump. Ivanka Trump converteu-se ao judaísmo. Aqui também é lembrar que qualquer pessoa que esteja a escutar, que não seja judaica, pode se converter ao judaísmo, porque o judaísmo, ao contrário do que muitos tentam avançar, não é uma realidade étnico-rácica, é uma realidade religiosa e nós temos durante os séculos e durante as histórias, diferentes povos que se converteram ao judaísmo.

Afonso Moura, para concluir, tem mais um tema que gostaria de abordar consigo?

Sim, só mesmo para concluir. Eu acho que a influência de Ivanka Trump ao ouvido do pai, ao ouvido de Donald, é extremamente importante na relação que Donald Trump desenrola com Benjamin Netanyahu e vai continuá-lo a ser, tanto neste encontro como nos vindouros

Temos ainda três minutos neste gabinete de guerra para falar sobre o ministro da Justiça de Israel, que declarou que o país tem em mãos uma oportunidade histórica que não deve perder para anexar a Cisjordânia. Israel está a demonstrar que esta política de expansionismo está longe de chegar ao fim. Temos três minutos para abordar esta questão.

Eu creio que sim, e aqui é algo que é muito antigo. Israel, a partir dos acordos de Camp David, onde houve uma normalização com o Egito no século passado, houve esta ideia que Israel teria que abraçar a solução dos dois Estados, que era um Estado israelita e um Estado palestiniano. Ora, no que for interior das elites israelitas, nós sabemos que isso nunca aconteceu. Ou seja, esta ideia expansionista sempre se manteve. Eu gosto de mencionar recentemente, porque percebi que várias pessoas não percebem isto, o próprio Ben Gurion, nas suas memórias, fala do sul do Líbano, ou seja, da parte do Líbano a sul do rio Litani, como território israelita. Há aqui um problema, e Anna Aaron falou também disso no século passado, a questão de Israel é cada vez mais um Estado que parece mimicar Esparta, ou seja, um Estado que vive para a guerra e que vive através da guerra. Ora, é uma oportunidade, eu tenho que concordar com o ministro, de facto é uma oportunidade de ouro para anexar a Cisjordânia. Agora, é possível, é legal à luz do direito internacional positivo existente? Claro que não, mas nós já nos habituamos que existem Estados, Israel, os Estados Unidos da América, a própria Rússia, noutros parâmetros, que não cumprem o direito internacional e que o violam. Nós estamos face a uma realidade que é uma realidade cada vez mais perigosa e, em alguma medida, eu creio que Israel tem este plano não só para a Cisjordânia, como também para a Faixa de Gaza. De relembrar aqui, também Moshe Feiglin, já há mais de uma década, tem esta ideia que temos aqui que nos recordar que os israelitas já tiveram colonos na Faixa de Gaza. Ora, esses colonos foram removidos e houve uma querela no seio da elite israelita, porque uns diziam: "Não, nós não devemos remover os colonos de Gaza", mas agora nós percebemos que os colonos foram removidos, porque isso permite que o Estado de Israel faça a carnificina que está a fazer na Faixa de Gaza e, infelizmente para o povo palestiniano, a sua liberdade e a sua emancipação parece cada vez mais longe. De recordar também que a queda de Bashar al-Assad foi extremamente importante, não só para Israel conseguir desferir este ataque ao Irão, mas atenção, os Estados Unidos da América entram também porque Israel estava a sofrer dos mísseis iranianos que caíam no seu próprio solo. Nós temos aqui um xadrez no Médio Oriente que se complica cada vez mais e eu acho que nós temos que olhar essencialmente para três Estados na região, e não estou a falar da Arábia Saudita. Estou a falar da Pérsia, do Irão, de Israel e da Turquia. É a partir destes três Estados que nós vamos ver o futuro da região e provavelmente o futuro do mundo.

O nosso tempo chegou ao fim. Agradeço ao Afonso Moura, geopolitólogo, pela análise que fez neste gabinete de guerra que está de regresso amanhã na Rádio Observador.

Boa tarde.