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Bruno Cardoso Reis, boa tarde. Bem-vindo a esta edição de Gabinete de Guerra, à sexta-feira, sempre em formato mais curto. Sugeria que começássemos por um tema que provocou um sobressalto em alguns de nós. As informações dão conta da possibilidade de ataques contra países da NATO. "El Mundo" dava conta que a CIA alertou para eventuais intervenções, por exemplo, em Itália, Espanha e França, sendo que Emmanuel Macron já foi hoje negar que França tenha sido avisada dessa eventualidade. Os serviços secretos dinamarqueses também dão conta que a Rússia pode atacar países da Aliança Atlântica. Há motivo para recear, Bruno?

Acho que temos de ter em conta talvez três aspectos. Por um lado, de acordo com o próprio jornal "El Mundo", quem transmite a informação são fontes lituanas, embora a fonte primeira ou última seria a CIA, o Serviço de Informações americano. Não me espantaria que, mesmo sendo a CIA, a questão da Lituânia não é indiferente. Basicamente, temos os países bálticos a avisar, por interposta pessoa, que realmente não são apenas eles os únicos visados pelos ataques russos. Ainda hoje tivemos a notícia que houve mais uma vez a necessidade de aviões da NATO serem utilizados para avisar que um jato russo estava a entrar em espaço aéreo dos países bálticos. Por um lado, isso. Depois, a informação é credível? É, porque realmente a Rússia tem esta frota fantasma, que não respeita regras ambientais, não respeita regras de seguros. Basicamente, serve para fazer contrabando de petróleo, etc. E também não há razão para respeitar outras regras. Por exemplo, não se pode usar drones para visar alvos em países que não estão em conflito e que são alvos civis. À partida, essa ameaça é credível e a Rússia tem investido muito nessa dimensão dos drones, inclusive com drones a jato, que são mais difíceis de interceptar. O terceiro ponto é: objetivamente, a verdade é que tem havido uma escalada nesta chamada guerra híbrida, ou seja, ataques de todo o tipo, inclusive coisas como ações de sabotagem, assassinatos, etc., pela Europa, por parte da Rússia, com aquelas dificuldades de atribuição absolutamente segura que nós conhecemos, mas tudo aponta realmente para que são alvos de interesse da Rússia. Mas, sobretudo, isso tem acontecido, estamos a falar mais de 100 casos bem documentados, mas tem tido lugar, sobretudo, realmente nos países do Leste, no países do Norte, na Alemanha, países da Europa Central, e muito menos na Europa do Sul. Por exemplo, Portugal não tem nenhum incidente desses mais graves, de sabotagem ou de assassinato. A Espanha, talvez dois assassinatos suspeitos, um deles um desertor russo que foi assassinado em Espanha, tudo apontaria para isso. Agora, nós não devemos ser complacentes, não devemos ser o elo mais fraco. Acho que isto tem a utilidade, confirme-se ou não exatamente qual foi a fonte da informação, se é exatamente assim ou não, acho que tem a utilidade de, eventualmente, dissuadir um pouco a Rússia, alertar que nós estamos alerta. E também incentivar os países do Sul, e aqui obviamente incluindo-se Portugal, que têm de acelerar os seus processos de rearmamento com muita atenção a esta dimensão da defesa antiaérea, da defesa contra drones. Acho que, em todo caso, venha a se confirmar ou não, o risco existe.

É preciso estar atento. Decorre em Nova York a Assembleia Geral das Nações Unidas. Ontem interveio Benjamin Netanyahu. Representantes de 77 países abandonaram a sala a coincidir com o início desta intervenção. Israel está cada vez mais isolada?

Sim, está realmente cada vez mais isolado e muitos israelitas reagem com grande irritação a isso. Agora, têm de perceber que o atual governo de Israel age como se não tivesse nenhum interesse por mostrar a mínima preocupação com respeitar a lei internacional ou as preocupações dos seus aliados tradicionais. Aquilo que se está a passar, nomeadamente, em particular na Cisjordânia, realmente é absolutamente inaceitável. Não estamos a falar sequer da resposta a um ataque, a um massacre inqualificável, genocida da parte do Hamas no 7 de outubro, mas Israel, em parte, tem de se culpar a si próprio. Depois, também é verdade que outra coisa que Israel diz também faz algum sentido, que realmente é extraordinário. Obviamente, os países têm o direito de se manifestar, não quererem ouvir sequer. Eu acho que, apesar de tudo, a ideia das Nações Unidas é ouvirmos todos, mesmo aqueles que não gostamos, mas há, de facto, esta forma de demonstração, desagravo. Acontecia, por exemplo, com Portugal, no período das guerras coloniais, também com a delegação portuguesa, quando o ministro Franco Nogueira ia falar ou algo assim. Também é legítimo perguntar: "Mas então por que não se levantaram quando falou o Irão ou quando falou a Rússia?" Apesar de tudo, temos mais alguns Estados que estão a cometer atrocidades, crimes de guerra, crimes contra a sua própria população. No caso do Irão, estamos a falar de dezenas de milhares de mortes, por exemplo, na repressão das manifestações no início deste ano. Aparentemente, isso aí já não se justifica levantar. Realmente também é um pouco questionável.

Estas manifestações de desagrado podem ter o condão, eventualmente, de condicionar a atuação de Israel neste conflito do Médio Oriente, ou Benjamin Netanyahu é pro lado que dorme melhor?

Em Israel há uma posição que é cada vez mais consensual, não é apenas do governo israelita ou dos setores de direita mais extremista, de que a ONU não tem credibilidade quando se trata de Israel. E mais uma vez, há que reconhecer que Israel, quando nós olhamos para os números e vemos que há mais condenações de Israel, por exemplo, no ano em que a Rússia invadiu a Ucrânia, do que condenações da Rússia nas Nações Unidas, realmente é difícil não concordar que é capaz de haver aqui algum enviesamento do ponto de vista de muitos dos países que estão representados nas Nações Unidas.

Das últimas horas, temos também o encontro de Donald Trump com Xi Jinping. O presidente dos Estados Unidos recebeu Xi Jinping na Casa Branca. No final, promessas de cooperação e uma designação consensualizada da inteligência artificial e mais alguma coisa, Bruno.

Eu acho que foi muita parra e pouca uva. É também muito o estilo diplomático de Donald Trump. Muita retórica, muita pompa, e talvez alguma circunstância, mas nenhuma substância ou muito pouca substância. Ter-se-á falado, em inglês, fala-se dos três Ts, agora dos quatro Ts, que é trade, portanto, comércio, tecnologia, coisas como a inteligência artificial, Taiwan, que é o tema habitual, e Teerão, que se acrescenta agora a questão do Irão, mas em nenhum desses aspectos se viu realmente avanços substanciais. Acho que, apesar de tudo, não é mau que tenha sido anunciada esta ideia de que haverá aqui alguma troca de informações sobre incidentes sérios que envolvam a inteligência artificial, mas realmente o que nós temos é, apesar de tudo, e paradoxalmente, uma posição aparentemente mais sensata, razoável do presidente chinês, que diz que era importante que os seres humanos controlassem a inteligência artificial e que tratássemos disso com algum cuidado, do que Donald Trump, que diz que não há problema nenhum e que isto tudo se resolve passando a falar em superinteligência, em vez de inteligência artificial, e que ele, como um presidente altamente inteligente, trata de qualquer problema que possa existir.

Muita parra, pouca uva, o resultado, o desfecho deste encontro entre Xi Jinping e Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos recebeu o presidente chinês na Casa Branca. Fica por aqui a edição de sexta-feira do Gabinete de Guerra contou com a preciosa colaboração e presença do Bruno Cardoso Reis.