Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete Guerra na Rádio Observador é o programa em que analisamos os principais conflitos a marcar a atualidade. Hoje temos conosco António José Telo, antigo professor catedrático de História na Academia Militar. António José Telo, boa noite, obrigado por estar conosco.
Boa noite e um bom ano para todos.
Um bom ano também para si. Começamos hoje e eu trago-lhe aqui um estudo feito pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev que diz que 74% dos ucranianos rejeitam a cedência territorial do Donbass à Rússia e só 16% acreditam que a guerra vai terminar na primeira metade do ano. Eu pergunto-lhe, António José Telo, que efeitos a guerra está a ter na população, ou seja, o efeito social. Este número, apenas 16% a acreditar que a guerra está para acabar, é preocupante para Zelenskyy, por exemplo?
Os efeitos na população são devastadores. Basta lembrarmo-nos que 9 milhões de ucranianos tiveram que ser deslocados, 6 milhões para o estrangeiro, 3 milhões internamente. Portanto, isto é uma parte muito importante da população. E depois esta guerra, de facto, está praticamente a exceder, a alcançar o que foi a participação russa na Segunda Guerra Mundial. Portanto, é uma guerra longa, é uma guerra de erosão, é uma guerra intensa, com muitas mortes, muitos feridos, muita destruição, como nunca se pensou que viesse a ocorrer na Europa, portanto, é devastador pra sociedade e pra população. E é normal que muitas famílias tenham, infelizmente, a lamentar mortes e feridos nesta guerra, seja militares ou seja civis na retaguarda. Como tal, isso é até devastador. Que apesar disso, mais de metade da população, segundo informou, não esteja disposta à cedência do Donbass para acabar com a guerra, mostra bem o que tem sido esta resistência ucraniana, que se tem batido como leões contra um inimigo mais poderoso, contra um inimigo que tem tudo a seu favor, inclusive uma ajuda externa direta militar, com voluntários, nomeadamente da Coreia do Norte, e que mesmo assim falha sempre os seus prazos e falha sempre as promessas e continua a ter avanços muito reduzidos, embora já há vários meses esteja de facto ao ataque e tenha avançado no terreno.
E a combinação destes números, ou seja, a ideia de que mesmo que a maior parte da população não acredite que a guerra esteja pra acabar, continue a opor-se a esse plano de paz que ofereça território à Rússia, é um sinal para Volodymyr Zelenskyy de que o povo apoia os esforços de guerra?
Bom, é só questão de ages, vale o que vale. O presidente Zelenskyy já disse que se houver um acordo para uma paz, coisa que ele também pareceu, pela maneira como disse, que não acreditaria muito. Mas se houver um acordo para uma paz, terá que ser feito e ele quer fazer um referendo. E se o referendo der uma ideia melhor, embora o referendo seja também muito complicado de organizar pra Ucrânia, que tem 6 milhões fora do seu território, que tem 3 milhões de deslocados, eu imagino como estão aqueles cadernos eleitorais. Que tem uma guerra a decorrer e ainda por cima, sem haver uma garantia, pelo contrário, que a Rússia fará um cessar-fogo para que se possa fazer o referendo. Portanto, é uma situação muito complicada, mas o presidente Zelenskyy disse isso. Ele só aceitará um acordo de paz que implique, não propriamente cedência do território, mas que implique a aceitação da ocupação do território, depois do referendo. A Ucrânia fará tudo para não aceitar formalmente uma cedência de território. Agora, o que pode fazer é o que o presidente Zelenskyy parece disposto a fazer, é dizer: "Nós reconhecemos que uma parte do território está ocupada pela Rússia e aceitaremos cessar a guerra, trazer a paz, mesmo continuando essa ocupação". Mas uma coisa é dizer isso, outra coisa é dizer que cedem o território à Rússia. São coisas diferentes.
E aproveitando que hoje é dia 2 de janeiro, que estamos a começar o novo ano, eu perguntava-lhe também, António José Telo, se lhe parece que este pode ser o ano em que a guerra de facto termina ou o ano em que se chega a uma primeira solução para um cessar-fogo, nem que seja temporário.
Depende de várias coisas, porque aí já excede bastante a própria Ucrânia. Essencialmente, depende de dois países, da Rússia e dos Estados Unidos. A Rússia, eu pessoalmente não estou ainda convencido que o presidente Putin tenha aceito que não consegue obter os objetivos que ele próprio oficialmente determinou pra guerra, ou seja, a ocupação da totalidade do Donbass, coisa que, apesar das muitas promessas, a última das quais é que seria até o final do ano, o ano passado, é claro, não foi cumprido. Portanto, isso é o programa oficial para condição de paz. Agora, há um outro programa que tem sido desde o princípio o programa máximo da Rússia, que é derrubar o governo de Kiev e provocar um regime fantoche, regime semelhante ao da Bielorrússia. Portanto, Putin não dá sinais de que esteja convencido que não consegue, a curto prazo, alcançar esse objetivo O que significa que, se for assim, ele continuará na política que já segue há muitos meses, que é a política do mim. Quer dizer: "Sim, com certeza, estamos interessados na paz e num acordo de paz", mas depois pôr sempre condições e fazer sempre incidentes, como por exemplo, o ataque à sua residência por drones que não atacavam, de facto, a sua residência, segundo os ucranianos. Mas provocar incidentes para à última hora dizer: "Afinal não temos as condições, a Ucrânia não quer a paz, como tal, não podemos aceitar o cessar-fogo", que tem sido o que tem feito há muitos meses. Por outro lado, há a posição dos Estados Unidos e em particular do presidente Trump, que embora há muito diga querer a paz, na realidade tem retirado uma parte significativa do apoio que era dado anteriormente à Ucrânia, dificultando, nomeadamente, a continuação da sua resistência. O presidente Zelenskyy diz claramente que não conseguem aguentar a guerra sem o apoio americano, ou seja, que a Europa não é suficiente para dar o apoio que permita aguentar a guerra. E como tal, esta posição do presidente Trump dificulta bastante qualquer processo e qualquer entendimento. E o presidente Trump, aliás, indiretamente, através da Estratégia Nacional de Segurança que foi aprovada em novembro do ano passado, até deu a indicar o que ele pretendia. Ele diz claramente nessa estratégia. O presidente Trump tem estratégias que não seguem não só os métodos normais, mas que não seguem os objetivos normais de uma estratégia de um grande Estado. E um dos seus principais objetivos é sempre ideológico e político. E o que é muito desenvolvido nesse documento americano é a necessidade de alterar a trajetória da Europa, em que a guerra da Ucrânia tem sido uma importante ajuda para que Trump consiga alterar no sentido que ele quer. Qual é o sentido que ele quer? Também vem lá dito nesse documento. Quer uma Europa das pátrias, ou seja, que o processo de integração europeia não avance, e quer ajudar aquilo que ele chama de Europa das pátrias, que ele chama os partidos patrióticos, que também querem mudar a trajetória da Europa. E, portanto, significa que Trump vê também esta guerra como uma forma de fazer um ataque direto àquilo que normalmente se chama o sistema liberal dominante em Bruxelas. Eu não vou lhe chamar sistema liberal, porque, de facto, não tem muito liberal. Eu prefiro chamar o sistema do politicamente correto que domina Bruxelas. E o presidente Trump apresentou claramente esse documento como um alvo a abater. E, portanto, tendo isso em conta, a gestão da guerra da Ucrânia é feita dentro deste pensamento estratégico, que há uns tempos dizia que o presidente Trump tinha uma estratégia, uma parte das pessoas diziam: "Nosso Senhor, ele não tem estratégia nenhuma, depende só da última pessoa com quem fala". Agora viu-se que não. Tem uma estratégia, é pérfida, é certo, é uma estratégia bastante prejudicial à Europa, mas tem. E a Europa tem que se prevenir em relação a isso. Aliás, uma das consequências mais tristes para a Europa desta guerra da Ucrânia é a maneira como ela não se tem sabido defender no último ano da situação muito desfavorável que está a criar à sua volta. Uma situação que irá apressar bastante, se não forem tomadas as medidas necessárias, a decadência da Europa, que já é evidente desde há décadas para cá.
António José, ele falou há pouco também do ataque à residência de Putin. Ainda não é certo o que terá acontecido, se a residência era mesmo o alvo e se foi mesmo atingida. Mas o Ministério da Defesa da Rússia publicou hoje um vídeo em que entrega provas desse ataque aos Estados Unidos. Eu pergunto-lhe se esta é uma estratégia para dentro ou para fora, para fora para culpar a Ucrânia por este ataque, para tirar credibilidade aos esforços ucranianos, ou se é para dentro também para valorizar esse esforço de guerra que é feito pela Rússia.
Repare, o ataque à residência de Putin é improvável. Não posso garantir que não existiu, mas é improvável. Até porque Putin tem muitas residências e todas elas, de certeza, pelo menos aquelas que ele frequenta, e parece que essa casa era frequentada meramente por uma das suas amantes, mas que as casas que ele frequenta certamente têm abrigos subterrâneos à prova das maiores bombas para caso de um ataque surpresa. Portanto, é extremamente improvável que esse ataque seja bem-sucedido. Por outro lado, é verdade que volta e meia o presidente Zelenskyy faz erros, e erros importantes. Por exemplo, quando ele faz uma mensagem de Natal e diz que todos queremos a morte do presidente Putin, essas coisas não se dizem publicamente. Não é que não se deseje, mas não se dizem publicamente. E o presidente Zelenskyy que faz esta afirmação e depois a seguir vem o Rússia dizer: "Atenção, foi atacada a casa de Putin". Ou seja, aproveitando o deslize, na minha opinião, um deslize do presidente Zelenskyy para dizer que aquilo é a concretização da ameaça que Zelenskyy fez no seu discurso de Natal. Portanto, o ataque é improvável. Agora, é evidente que é utilizado como uma arma de guerra, uma arma para propaganda, que é uma frente importante desta guerra Pela Rússia, tanto como arma interna como externa. Sendo, no entanto, improvável, duvido que haja uma prova evidente. Aliás, a própria Ucrânia disse que havia drones que foram disparados para um alvo militar, quando foi, não especificou, na zona. Mas como disse, se o alvo fosse o presidente Putin, não se recorria a este meio, porque é um meio extremamente improvável de ser bem-sucedido em termos da morte do presidente Putin, como o presidente Zelensky desejou na sua mensagem de Natal.
António José Telo, eu aproveito para lhe fazer uma última pergunta e ainda sobre a questão ucraniana, mas mais virada para dentro. Isto porque depois de um período mais atribulado para o governo ucraniano, Zelensky parece estar a limpar a casa, nomeou um novo chefe de gabinete presidencial, também um novo chefe de espionagem externa ou um novo líder para as secretas militares. Estes nomes parece-lhe que vêm também amenizar essa pressão interna de que Zelensky estava a ser alvo?
Alterações em termos do governo e das principais postos administrativos eram praticamente inevitáveis depois do escândalo financeiro de corrupção que abalou o governo ucraniano. Portanto, isso teria que acontecer. É também normal que o presidente Zelensky, que continua a ser a figura central criada para esta guerra em termos da própria Ucrânia, queira nomear pessoas que se adaptem ao que é, sem dúvida, uma nova fase, independentemente desta nova fase sair um cessar-fogo e uma paz de compromisso. Mas que é uma nova fase na qual entramos, sobretudo depois destas longas negociações com os Estados Unidos para chegar a um documento que possa ser apresentado à Rússia. Ou seja, a Rússia para poder recusar, tem que ter um documento que recusa. E aliás, também diga-se, negociações conduzidas como sempre até aqui, ou seja, primeiro os grandes entendem-se entre si, Estados Unidos e a Rússia, depois chamam a Ucrânia e Trump consegue fazer com que a Ucrânia aceite o que aparentemente é uma solução de compromisso. E depois é dito: "Bom, então vocês, meninos da Europa, já podem entrar. Nós já temos tudo decidido, podem vir e sentar-se à mesa e tirar a fotografia final". Ou seja, uma das coisas que é mais incrível nesta guerra é a maneira como a Europa por completo perdeu a sua credibilidade em termos do sistema internacional e da diplomacia internacional. Ela não entra em nada que seja importante e no máximo, por deferência dos Estados Unidos, é chamada pra fotografia final quando já está tudo decidido, para eventualmente pôr o OK por baixo. Ora, isto tendo em conta que hoje a Europa é o grande apoio da Ucrânia nesta guerra, é muito significativo sobre os erros que a Europa cometeu em termos da condução desta guerra, que são erros da própria estrutura europeia, esta estrutura europeia, tal como existe, e quando digo europeia, estou a dizer da União Europeia.
Para terminar, por favor.
Não está adaptada ao mundo que mudou. É uma estrutura de parque jurássico, de tempos de dinossauros, não responde aos problemas atuais.
António José Telo, muito obrigado por ter estado no gabinete de guerra da Rádio Observador.
Boa noite e bom ano.
Boa noite, obrigado.