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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos analisar nos próximos minutos alguns dos fatos mais recentes relacionados em boa parte com a guerra no Médio Oriente. Hoje o nosso convidado é o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo. Obrigado mais uma vez pela disponibilidade.
Olá.
Hoje é dia de nova ronda negocial entre delegações de Israel e do Líbano em Washington. O que esperas deste encontro, desta nova ronda de negociações?
Boa tarde a todos. Eu penso que quem achar que esta ronda de negociação vai ser suficiente pra resolver o problema do Líbano estará sendo talvez excessivamente otimista. Portanto, acho que essa possibilidade podemos infelizmente descartar. Acho que já seria importante se saísse daqui o sinal de que há algum avanço e, sobretudo, se saísse alguma indicação também de que este cessar-fogo estará pra durar e que nunca é um cessar-fogo completo, porque Israel não aceita isso, mas que pelo menos haverá aqui uma garantia de que não haverá um intensificar do conflito novamente no Líbano. Mas realmente teremos de ver se é assim, porque a minha percepção e a percepção da maior parte dos analistas é que Israel foi forçado a aceitar este cessar-fogo e que tendencialmente, a verdade é que o governo Netanyahu resiste muito a apostar a sério nesta dimensão negocial e tende a dar prioridade sempre à dimensão mais militar. Do meu ponto de vista, de fato, no Líbano temos uma oportunidade pela primeira vez que há em muitos anos. Há uma grande impaciência dos libaneses com o Hezbollah estar constantemente arrastando o país pra novos conflitos, um país que já tem imensos problemas por causa da sua ligação umbilical ao Irão, a ligação do Hezbollah, deste movimento xiita ao Irão. Mas isso também não quer dizer que seja simples traduzir isso realmente num acordo que seja aceitável pras partes. Por exemplo, é muito difícil a qualquer governo libanês aceitar que possa haver aqui uma ocupação de uma parte do seu território por Israel, e o governo israelita também já terá sinalizado que não está muito disponível a abdicar desta zona tampão pra dar alguma segurança à população do norte de Israel.
Há também um apelo por parte do governo israelita para que o Líbano ajude no combate ao Hezbollah. Está o governo libanês, o Estado libanês, em condições de o fazer?
Essa é também outra grande questão. Ou seja, tem havido algum investimento, algum reforço do exército libanês por parte de países, inclusive dos próprios Estados Unidos, dos países ocidentais, dos países do Golfo, mas a verdade é que o Hezbollah é um Estado dentro do Estado e militarmente costuma ser visto como inclusive mais forte do que o exército libanês. Tem pelo menos mais experiência de combate, isso é bastante evidente. E, portanto, sobretudo há esta questão do receio realmente também dos libaneses voltarem a ter uma guerra civil. E realmente há esse risco, se o Estado libanês avançar para um desarmamento forçado do Hezbollah, realmente voltar-se a uma guerra civil. Portanto, não há aqui realmente opções fáceis, opções que sejam evidentes, mas há realmente sinais de que há essa impaciência da parte dos libaneses. Portanto, vamos ver. Aqui o que seria realmente muito importante era haver um consenso internacional amplo nesse sentido, no sentido de isolar o Hezbollah e realmente o forçar a desarmar. Mas eu não estou certo que o contexto atual seja consciente realmente a isso, seja suficiente pra isso acontecer. Mas realmente há sinais da parte do governo libanês de que quer pelo menos limitar muito a ação do Hezbollah. A questão é se isso será suficiente pra Israel, e do meu ponto de vista, os sinais são que não será. Israel está convencido que sem o desarmamento do Hezbollah, o Hezbollah será uma ameaça permanente em relação ao norte de Israel.
E o Hezbollah não revela debilidades do ponto de vista militar, tendo em conta o eventual menor apoio por parte do Irão a este movimento?
O Irão está condicionado nesse apoio. Já está condicionado, aliás, antes desta guerra, por causa da perda do ponto de apoio logístico aqui crucial que era a Síria, o regime de Bashar al-Assad, mas com a guerra estará mais condicionado. Por outro lado, ainda estará mais determinado, de alguma forma, em manter o mais possível este eixo que ele chamou de eixo da resistência, estes aliados, estas milícias armadas, alinhadas e armadas e financiadas pelo Irão em toda a região. Mas é verdade que o Hezbollah à partida estará mais enfraquecido. Foi alvo de muitos ataques da parte de Israel, muita da sua liderança tem sido morta. A questão, lá está, é se isso será suficiente para realmente permitir ao Líbano impor o seu desarmamento. E parece-me provavelmente esse será o ponto crucial nestas negociações. Israel quererá perceber se o governo libanês estará disposto a ir até esse ponto. Se estiver, provavelmente o governo de Israel estaria disponível para, no fundo, apoiar militarmente até essa opção e conter as suas operações militares ou coordená-las com o governo libanês. Mas se o governo libanês der sinais de ter aqui uma posição mais equívoca ou mais prudente, se quisermos, de só querer limitar a ação do Hezbollah e não impor o seu desarmamento, provavelmente isso acabará por levar a um falhanço das negociações com Israel, sendo que aqui há um fator crucial também, que é o papel dos Estados Unidos, que potencialmente pode ser muito importante, quer no apoio a essas ações do governo libanêsQuer também no sentido de pressionar Israel para ter alguma paciência e manter o cessar-fogo por mais tempo.
Estados Unidos que, pela voz do presidente Donald Trump, veio hoje dar conta que a Marinha norte-americana recebeu instruções para disparar e destruir qualquer embarcação que coloque minas no estreito de Ormuz, foi isso que revelou através da rede social Donald Trump. Há aqui um risco de combates navais entre a Marinha norte-americana e iraniana no estreito de Ormuz, um acentuar deste conflito?
Estamos com um cessar-fogo muitíssimo frágil, embora seja revelador que, apesar de tudo, ele se tenha mantido, apesar de todas as ameaças de Donald Trump, ele tenha recuado esse respeito. Há, de facto, aqui uma disputa pelo controle da navegação. Neste momento, há dois Estados que estão a tentar impedir a navegação segura e normal no estreito, não apenas o Irã, mas também os Estados Unidos, nesse caso em relação aos navios de origem iraniana. A questão da ameaça de algum tipo de ação contra navios coloca-minas, a questão é que a Marinha convencional do Irã já está em boa parte eliminada. O problema da minagem é que ela pode ser feita por todo tipo de navios, inclusive navios civis, navios tradicionais, aqueles dhows, aqueles navios à vela tradicionais desta região, pequenas traineiras supostamente de pesca, o que for. Há múltiplas formas de lançar minas e o risco é que eventualmente navios civis sejam atingidos indevidamente ou que o Irã consiga contornar estas ameaças ou torná-las nulas, precisamente porque não precisam de ser navios muito visíveis. Podem ser navios realmente de pequena dimensão, tradicionais, rápidos, etc., que muito rapidamente façam esse tipo de ações. Não me parece que esta retórica muito agressiva se vá traduzir necessariamente em grande eficácia e por essa via podemos dizer que o risco de escalada também não aumenta significativamente, mas é verdade que ele existe sempre.
Subsiste o impasse em torno do agendamento de uma nova ronda negocial e este impasse está a provocar também uma nova subida do preço do barril de Brent, já está acima dos 100 dólares. Isto é um fator de pressão para Donald Trump ou nem por isso?
Toda esta estratégia de bloqueio do estreito é mais um exemplo do caos estratégico que tem caracterizado toda esta guerra. É uma guerra, como dizia o Economist aqui há uns tempos, à procura de uma estratégia. Não há objetivos claros, não há objetivos coerentes, eles estão constantemente a mudar, e isso é um problema enorme. Além disso, nesta questão, à partida, a grande arma do Irã é realmente a arma económica, é a guerra económica, é o preço que está a fazer pagar a todo mundo, o preço deste bloqueio do abastecimento normal de petróleo a partir de uma região que é central pro mercado energético, 20 a 25% do petróleo e do gás, ainda mais importante pro gás, e outros produtos derivados, questões dos fertilizantes, etc. À partida, os Estados Unidos, o governo americano, é muito mais vulnerável a isso do que o governo iraniano, que é uma autocracia, é um governo autoritário que há décadas mostra que está disposto a assumir aqui um enorme custo económico ou fazer sofrer o povo iraniano pelo seus objetivos estratégicos, políticos, ambições regionais, etc. De facto, não se percebe como é que Donald Trump acha que isto é uma arma contra o Irã. Quer dizer, percebe-se a lógica de dizer: "Se o Irã não deixa passar navios, eu também não vou deixar passar navios iranianos", até como uma forma de pressionar para a reabertura do estreito. Agora, aparentemente, Donald Trump está convencido que isto será uma arma decisiva para forçar o Irã a negociar. Ora, não há nenhum sinal de que isso seja eficaz, tendo em conta o passado. Donald Trump parece estar aqui a agravar ainda mais o problema pra ele próprio, porque como dizias, obviamente, o resultado disso é alarmar ainda mais os mercados e potencialmente voltar a aumentar o preço do petróleo, que é algo que nós sabemos que nos Estados Unidos, em geral, mas nomeadamente também nos Estados Unidos, é extremamente impopular e Trump tem eleições este ano, já estão a decorrer, aliás, eleições primárias para o Congresso.
Deixa-me fazer ainda uma pergunta sobre o conflito entre a Ucrânia e a Rússia. A União Europeia aprovou ontem, os embaixadores dos 27 Estados membros junto de Bruxelas aprovaram ontem um empréstimo de 90 bilhões de euros da União à Ucrânia, facto já saudado hoje pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Está recuperado o sentimento de convergência entre os Estados membros na estratégia a seguir relativamente a este conflito, agora que Viktor Orbán está de saída, pese embora esta decisão ainda tenha sido tomada com Viktor Orbán a chefiar o governo húngaro.
Confirma-se realmente aquilo que era a minha impressão, era que, por exemplo, em relação a esses dois aspetos, o pacote de sanções e o grande empréstimo à Ucrânia, a derrota de Orbán levaria rapidamente a uma mudança da posição da Hungria e que isso avançasse também rapidamente. Desse ponto de vista, parece-me um bom sinal. Isso não quer dizer que não continuem a haver divisões, que não haja alguns países do Leste, inclusive a própria Hungria com o novo líder, que defendam uma posição mais pragmática ou mais favorável a manter algum tipo de ligações econômicas com a Rússia, porque isso economicamente é interessante pra eles ou tem um custo demasiado elevado fazer esse corte imediato. Não me parece que passe a haver aqui uma convergência total, isso aliás nunca existe na União Europeia, que tem 27 Estados membros que fazem muita questão de defender as suas prioridades, mas eu acho que muda muito neste sentido, que deixa de haver um líder que soprattutto nos últimos meses, no último ano, sistematicamente a bloquear tudo ou quase tudo e muitas vezes alinhado abertamente com potências hostis à União Europeia, também declaradamente hostis à União Europeia, como era o caso da própria Rússia. Desse ponto de vista, parece-me que é uma evolução positiva que se confirma, embora não resolva todos os problemas, nem acabe com todas as divisões ou as diferenças de interesses estratégicos dos diferentes Estados membros.
O que acaba este Gabinete de Guerra de quinta-feira, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, obrigado e até breve.
Obrigado.
Fica por aqui o Gabinete de Guerra hoje dedicado a essa ronda negocial que vai juntar uma delegação israelita e do Líbano, também o bloqueio no estreito de Ormuz e este empréstimo de 90 bilhões de euros finalmente desbloqueado pela União Europeia, empréstimo a Kiev. Até amanhã.