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E hoje no Gabinete de Guerra contamos com a análise de Liliana Reis, investigadora especialista em Relações Internacionais. Bom dia, Liliana.

Bom dia.

Bom dia. Registámos nos últimos dias encontros ao mais alto nível. Trump recebeu no Alasca Vladimir Putin, Zelenskyy reuniu-se com líderes europeus e hoje vai a Washington, ou já estará em Washington acompanhado por vários líderes europeus. Vamos falar primeiro do que aconteceu, o que é que resultou de todos estes encontros?

Aquilo que nós temos desde já, pelo menos a informação que nos tem chegado, é que Zelensky não irá sozinho. E isso pode fazer toda a diferença se nós recordarmos aquilo que aconteceu em fevereiro deste ano, quando Zelensky se deslocou a Washington e se reuniu com Donald Trump e saiu praticamente humilhado da Casa Branca. Ora, o facto de Macron, Starmer, Meloni, Mirz, Stubb, o presidente da Finlândia, os secretários General Benato, Mark Rutte e também a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o acompanharem, pode reforçar a posição de Zelensky hoje do ponto de vista negocial. Ainda assim, não é de excluir possíveis tensões. E digo porque realmente Donald Trump também escreveu na última noite na rede social Truth Social, que o presidente Zelensky da Ucrânia poderá terminar a guerra com a Rússia imediatamente se ele quiser, ou ele pode continuar a lutar. Ou seja, este tipo de ultimato e a não compreensão por parte de Donald Trump daquilo que neste momento está a acontecer na Ucrânia, pode revelar e pode gerar tensões durante o dia de hoje. Ainda assim, eu tenho algum otimismo, devido ao facto de ele não ir sozinho e não se apresentar sozinho nesta reunião com Donald Trump. Agora, aquilo que nós não conseguimos antecipar ainda é efetivamente o que é que foi negociado entre Donald Trump e Vladimir Putin na cimeira do Alasca ou no encontro entre ambos, não se pode chamar bem cimeira, no Alasca. Se de facto houve cedências por parte de Donald Trump, em relação àquilo que são as ambições de Putin, ou se, por outro lado, aquilo que Donald Trump tem em cima da mesa para dar aos europeus é efetivamente algum tipo de garantias de segurança. A informação de que dispomos neste momento é que Macron e Starmer já vieram também confirmar que estão disponíveis para enviar uma força de dissuasão para ajudar a proteger o território ucraniano. Nós não sabemos é que tipo de território, que tipo de cedências já foram dadas por Donald Trump. Tivemos alguma especulação no sentido que os Donbass, nomeadamente Donetsk e Lugansk, teriam sido apresentados como já encerrados para a Rússia e que provavelmente ainda poderia haver negociações ou pelo menos congelamento das linhas em Zaporizhzhia e Kherson. Ainda assim, nós não conseguimos antecipar, efetivamente, aquilo que poderá estar hoje, do ponto de vista territorial, em cima da mesa para a Ucrânia.

Como dizia há pouco, Volodymyr Zelensky faz-se acompanhar de vários líderes europeus. Será também um teste à unidade europeia, esta guarda de honra?

Naturalmente. Aliás, aquilo que nós vimos nos últimos tempos foi uma exposição da fragilidade da unidade europeia, completamente diferente daquilo que aconteceu logo aquando da agressão em fevereiro de 2022. Aliás, muitos analistas têm vindo a reiterar que uma das conquistas de Vladimir Putin com o prolongamento desta guerra, foi também a exaustão dos europeus e das opiniões públicas no quadro dos vários Estados membros. E nós vimos isso não apenas com a Hungria, mas com outros Estados que entretanto se foram juntando. Mais a própria perceção da ameaça que constitui hoje a Rússia é diferente, por exemplo, para os Estados bálticos e para os Estados nórdicos, e não deixa de ser assinalável a Finlândia ter estado presente na declaração da presidente da Comissão Europeia e de vários chefes de Estado logo após a cimeira, como nós vimos, e essa declaração falou três vezes numa paz justa e duradoura. Falamos do país que tem efetivamente a maior fronteira com o território russo e que aliás, se juntou à Aliança Atlântica já no decorrer da agressão russa à Ucrânia. Mas aquilo que também nos torna visível, ou que nos é apresentado, é que na verdade esta unidade europeia, hoje, não é de todos os Estados, exatamente por causa da perceção da ameaça, que é diferente entre os 27 E para além do poder, ou seja, nós temos os Estados mais fortes da União Europeia, temos um Estado que já não pertence à União Europeia, mas continua ao lado da Ucrânia, que é o Reino Unido e é importantíssimo nas relações transatlânticas, e depois temos a presidente da Comissão Europeia. Aquilo que nós fomos observando ao longo do tempo é que efetivamente os poderes hegemônicos no quadro europeu também se destacam naquilo que tem sido o assumir da liderança desta Europa, ou seja, o que se expôs foi que nem todos os Estados têm o mesmo poder no quadro institucional europeu.

Quanto mais próximo se está do conflito, mais consciência se tem da ameaça. Portanto, podemos deduzir que a Liliana Reis não está muito confiante em relação ao que poderá sair do encontro hoje entre Zelensky e Donald Trump, ou sim?

Eu estou com um otimismo moderado, ou seja, como referi logo desde o início, há efetivamente algo positivo, que é o facto de Zelensky não ir sozinho. E isso reforça, não apenas do ponto de vista negocial, mas também do ponto de vista político. Por outro lado, vai depender da força que os europeus que o acompanham tiverem em manterem efetivamente as condições que falaram na declaração que apresentaram logo após o encontro. Repare, e eu estou recordada que os principais pontos dessa declaração conjunta, é que a Ucrânia deveria ter garantias de segurança para defender a sua soberania e integridade territorial. Nós, neste momento, temos que perceber qual é que é a integridade territorial que os europeus vão defender. Depois, quais são as garantias de segurança que vão exigir, porque essa mesma declaração apresentava que a Rússia não pode vetar o caminho da Ucrânia para a União Europeia e para a Aliança Atlântica, para a NATO, e no tal post que o Trump escreveu, também referiu que o caminho para a NATO estava afastado. Ora, então que tipo de garantias de segurança é que a Ucrânia pode receber sem ser efetivamente o artigo quinto do Tratado do Atlântico Norte? Nós sabemos o que aconteceu em 1994 com o Memorando de Budapeste, que o Reino Unido e os Estados Unidos também deram garantias de segurança à Ucrânia e, na verdade, nós vimos o que aconteceu. Aliás, a própria Cimeira de Bucareste em 2008 afastou a possibilidade de adesão da Ucrânia e afastou por completo a garantia de segurança mais forte que teria, que é efetivamente a adesão à NATO. Ora, os Estados Unidos poderão comprometer-se com outro tipo de garantias, mas elas serão sempre muito frágeis. E nós também não conseguimos perceber, neste momento, se o próprio acordo económico realizado, como nós nos recordamos, há muito pouco tempo entre a União Europeia e os Estados Unidos, acomodou qualquer tipo de condições de segurança atribuídas à Ucrânia por parte dos Estados Unidos. Nós, neste momento, não sabemos. Agora, o que sabemos é que Zelensky é muito pouco provável que saia humilhado da Casa Branca, porque se tal acontecer, não é apenas Zelensky, são também os europeus que o acompanham.

Que o acompanham. Temos aqui muitas peças neste complexo puzzle a moverem-se com muitas subtilezas. Liliana Reis, agradeço-lhe muito. Obrigado por ter estado conosco no "Gabinete de Guerra" de hoje. Muito obrigado.

Muito obrigada. Bom dia.