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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Esta noite contamos com o João Albuquerque, que é especialista em Relações Internacionais, para analisar comigo os principais focos de conflito no Médio Oriente e na Ucrânia. Bem-vindo, João.
Olá, Dina, bom dia. Boa noite.
Como assim, boa noite? Começamos com o eventual acordo entre Estados Unidos e Irão. Todos os dias Donald Trump afirma que está por um fio a tomada de decisão de colocar botas no terreno ou ataques em larga escala. Ao mesmo tempo, saúda o fato de um acordo estar cada vez mais perto. Os prazos dados pelo presidente ucraniano também são sempre ultrapassados e o Irão, como se costuma dizer, parece não ligar nenhuma. João, vale a pena Trump continuar com esta narrativa de vai e vem?
Descredibiliza, sem dúvida, a postura negocial da parte dos Estados Unidos, porque já estamos com isto há mais ou menos dois meses, talvez até um pouco mais, com estes sucessivos avanços e recuos, em que o presidente americano acaba sempre na última hora por recuar e adiar mais uma vez os prazos que inicialmente ele próprio tinha estabelecido. E, de certa maneira, esse é o ponto mais bizarro de tudo isto, é que são prazos que o próprio presidente impõe para a ação que ele próprio pode determinar, em particular a ação que os Estados Unidos pode levar a cabo como retaliação ao Irão, e depois acaba por nada acontecer. Isto, obviamente, no meu entender, evidencia duas coisas. A primeira é que, de facto, os Estados Unidos correm um risco muito grande e, sobretudo Donald Trump, do ponto de vista político, correm um risco muito grande de avançar com tropas no terreno e reforçar o contingente militar na região, porque obviamente as consequências de mortes de soldados americanos têm uma repercussão política muito significativa e Trump está a caminhar rapidamente para as eleições intermédias nos Estados Unidos e isso é obviamente um peso a ter em conta, porque tem impacto naquilo que são os resultados eleitorais que o Partido Republicano pode ter. E o segundo é que, de facto, o Irão tem tido uma capacidade de não só lidar com esta ofensiva americana, mesmo que ela seja só do ponto de vista da retórica e da narrativa, como tem sabido muito bem controlar aquilo que são os pontos nevrálgicos de pressão sobre os Estados Unidos e aquilo que efetivamente faz Donald Trump recuar. Isso acaba só por ter repercussões mais negativas para o presidente americano e para a credibilidade que têm essas ameaças cada vez que elas são expressas.
Falamos agora da chamada tensa entre Trump e Netanyahu. De acordo com o Wall Street Journal, Netanyahu criticou duramente a possibilidade de um acordo diplomático para travar o conflito, enquanto Trump defendeu a continuação das negociações com Teerão. Há aqui duas questões, que é se podemos esperar uma contenda mais a sério entre estes dois líderes e se os Estados Unidos, de alguma forma, podem estar a perceber que esta guerra pode ser mais de Israel do que propriamente dos norte-americanos.
Também aqui há duas coisas que saltam mais à vista. A primeira é aquela que temos vindo a falar já há algum tempo, que é, de certa maneira, os Estados Unidos acabam por entrar neste conflito arrastados pela vontade de Netanyahu e, de certa maneira, forçados por aquilo que eram as intenções que Netanyahu durante vários anos, décadas até, foi expressando em relação aos objetivos que tinha em relação ao Irão e o presidente americano acabou por se deixar enredar naquilo que era a visão que Netanyahu tinha para toda a região, na qual o Irão surgia sempre como sendo o principal inimigo e havia que neutralizar aquele ponto de maior tensão. E a segunda é que Donald Trump percebe que não pode continuar a permitir que Netanyahu tenha roda livre em todo o leque de ação que Israel tem tido nos últimos quase dois anos e vê-se forçado a chamar outra vez a si a liderança do processo e a mostrar que tem ascendente sobre o primeiro-ministro israelita e que tem ainda a capacidade de ser ele a determinar os termas da intervenção. Há aqui um ponto de tensão, na medida em que Israel também sabe que perder o apoio, seja ele direto do ponto de vista da intervenção militar, seja ele de impedir uma condenação mais abrangente daquilo que são as ações que Israel tem levado a cabo nos tempos mais recentes, depende muito daquilo que é o apoio da Casa Branca e nesse aspeto, este é o principal ponto de tensão e de certa maneira de dependência que Israel tem, em particular Netanyahu, para poder continuar a levar a cabo aquilo que são as suas intenções e objetivos em relação ao Irão.
E por falar em Israel, seguimos com o caso da flotilha e dos ativistas detidos, que foram maltratados por Israel, como podemos ver no vídeo ontem publicado. Pergunto, João, o que é que as instituições internacionais podem fazer para penalizar Israel por estes atos ou se Israel sabe que faça o que fizer, nada acontece.
Primeiro que tudo, importa recordar que estes ativistas da flotilha foram detidos mais uma vez de uma forma ilegal.
Em águas internacionais.
Em águas internacionais, perto da Grécia, relativamente longe ainda da proximidade das águas territoriais de Israel. E essa foi a primeira violação que aconteceu. Não foi a primeira, creio que também não será a última, mas foi mais uma vez uma violação clara de Israel, violação de águas internacionais e de utilização de força para captura de ativistas pacíficos. Esse é o primeiro ponto. O segundo é que de facto aquelas imagensApesar de não constituírem particularmente uma novidade, não deixam de ser chocantes. São de uma desumanização total daquilo que são aquelas pessoas que estão ali com a intenção de dar voz e visibilidade numa missão humanitária, e são fruto de um clima político do qual Ben Gvir é certamente um dos principais rostos do extremismo fundamentalista que grassa no governo israelita, de extrema-direita e hipernacionalista. Este não foi um ato isolado. Ben Gvir tinha há pouco tempo, no seu aniversário, recebido um bolo, e essas imagens também ficaram bastante famosas, com uma corda simbolizando a medida recente que Israel passou para permitir a pena de morte para palestinianos, portanto, criando um estado de procedimento de exceção para uma nacionalidade em particular. Isto é mais uma vez a demonstração de um comportamento completamente às margens daquilo que é o Estado de direito, daquilo que é a integração do Estado de Israel numa ordem internacional de plano de direito, e demonstra que Benjamin Netanyahu, infelizmente para todos nós, conduziu Israel a uma situação de um Estado completamente isolado no planejamento internacional e que neste momento merece a total condenação de todos os líderes europeus, vários deles que se pronunciaram. Portugal, inclusive, neste caso em particular, teve uma ação muito positiva e de facto é este o caminho que tem que continuar.
Mas normalmente não passa disso, de condenações, e depois volta a acontecer a mesma coisa. Por isso é que eu estava-
Eu concordo inteiramente. Eu acho que falta o passo seguinte, que é aquele que vários líderes têm pedido, mas que voltou a estar bloqueado na última reunião. Tínhamos, aliás, falado disso da última vez que conversamos, que de facto foi bloqueado no Conselho de Negócios Estrangeiros, em que os Estados não conseguiram chegar a um acordo para suspender o acordo de associação entre Israel e a União Europeia.
O que isso significa, João, ao certo? Essa suspensão parcial dos acordos com Israel, em que isso se traduz na prática? Só para percebermos.
Ela não foi aprovada como nós tínhamos referido. Agora o primeiro-ministro português veio dar nota de que, pelo menos parcialmente, ela devia ser suspensa. Significava, pelo menos naquilo que era a formulação que estava em discussão no Conselho de Negócios Estrangeiros, de sancionar os colonos em expansão ilegal em território fora daquilo que é o território reconhecido como sendo israelita, suspender trocas comerciais e importação de produtos que provenham desses territórios, e um conjunto de outras medidas de sanção que têm implicações diretas no comércio internacional de Israel com a União Europeia, que poderiam ser muito importantes, tendo em conta sobretudo aquilo que é o peso que o mercado europeu tem na economia e nas exportações israelitas. Portanto, apesar de ser uma medida mais do foro econômico, podia ser uma medida de pressão muito significativa, porque obviamente a economia acaba por ter depois repercussões laterais naquilo que é a capacidade de Israel de se financiar e de continuar a levar a cabo os seus esforços militares.
Claro. Vamos só mudar aqui um pouquinho antes de fecharmos este gabinete para a guerra na Ucrânia. Tem estado em segundo plano porque a atualidade assim o impõe, mas Lukashenko, o presidente bielorrusso, afirma que está pronto para se encontrar com Zelensky em qualquer lugar, seja na Ucrânia ou na Bielorrússia. João, a proximidade de Lukashenko com Putin é favorável ou prejudicial à Ucrânia?
Eu acho que talvez importe esclarecer, e sobretudo para os ouvintes, que essas declarações de Lukashenko acontecem depois de a Bielorrússia ter participado em alguns exercícios conjuntos com a Rússia, alguns que poderiam ter eventualmente potencial para uma futura utilização nuclear por parte da Rússia, e no momento em que Zelensky e a Ucrânia, em particular, deslocou um forte contingente militar para a zona de fronteira com a Bielorrússia, perante estes exercícios militares e perante aquilo que pressentiu ser um aumento do risco de a Bielorrússia se juntar à Rússia nos esforços militares. Portanto, Zelensky tinha dado nota de que as consequências para a Bielorrússia de se juntar à guerra de uma forma mais direta, não contando aquilo que foi a sua participação indireta no passado, mas agora juntando-se à Rússia com a participação direta de tropas bielorrussas, teria consequências muito nefastas. Portanto, Lukashenko, de certa maneira, viu-se um pouquinho obrigado a diminuir a tensão e a dizer que essa possibilidade não estava em causa e que poderia estar disponível para reunir com Zelensky. Parece-me, de certa maneira, um pouco sarcástico este comentário do presidente bielorrusso, porque ela vem neste contexto de intensificação de proximidade entre a Bielorrússia e a Rússia, e as consequências que isso eventualmente poderia ter para o desenvolvimento do conflito entre as duas partes.
João Albuquerque, muito obrigada pela sua análise mais uma vez neste gabinete de guerra. Desejo-lhe o resto uma boa semana.
Foi um gosto, muito obrigado, Diana.
Até à próxima, João.