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Está reunido o gabinete de guerra da Rádio Observador, hoje com a ajuda do coronel Carlos Mendes Dias. Junta-se aos membros residentes a Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz. Vanessa, vamos falar dessa coligação de caças que a Ucrânia quer, mas também da alegada abertura do Kremlin para a paz.
Porque o porta-voz do Kremlin diz que a Rússia está pronta para ouvir quaisquer propostas que ajudem a resolver o conflito e o "quaisquer" é uma palavra importante, coronel Carlos Mendes Dias. Bem-vindo. É para levar a sério, vindo de quem vem?
Sim, julgo que sim. É tão a sério como tão a brincar. Vem na sequência das diferentes propostas de paz ou caminhos de paz que se procuram com os diferentes países envolvidos. Aliás, quer a Rússia, quer a Ucrânia, nesta altura, não estão em condições, mas embora a Ucrânia também diga que quer ouvir a proposta de paz e não feche caminho. Mas julgo que vão ouvir, desde que não haja aquelas cedências iniciais que ambos os lados reclamam, julgo que não há proposta que se aguente.
Já agora, deixe-me fazer uma pergunta, porque daqui a pouco o primeiro-ministro deverá falar. Esteve reunido na última hora com o secretário-geral da NATO. O que o senhor coronel espera deste encontro?
Certamente terá sido falada ou vai ser falada de novo a questão dos F-16 e eventualmente mais algum apoio de forças que possam estar alocadas à NATO, mas que a NATO, nesse seu apoio indireto, contemporize e possam ser projetadas na Ucrânia. Vejo pouco, vejo os F-16, mas os F-16 estão em Portugal, nesta altura têm 28 em duas esquadras. Quatro deles já estão numa missão da NATO no policiamento aéreo da Lituânia, mas não espero muito mais que isso, a não ser aquela contemporização de eventualmente forças dadas à NATO que possam ser desviadas, salvo seja, para a projeção na Ucrânia. De resto, não vejo que outros assuntos possam ser, até porque nós, do ponto de vista dos meios, não existem, estamos esgotados, só resta os submarinos.
Isso de alguma forma está ligado com o pedido que o presidente ucraniano foi fazer ao Reino Unido da coligação de caças. É um projeto que tem pernas para avançar e já de alguma forma respondeu à pergunta, será que Portugal poderia também participar nesse esforço?
A minha convicção, julgo que há 48 horas, que estará mais que decidida a projeção de caças F-16 para a Ucrânia, com a exceção exemplar, pelo menos publicamente, dos norte-americanos. Os norte-americanos têm cerca de 500 F-16. Não quero errar muito entre os F-16 Charlie C e os Delta, 410 de um lado, 90, 91 do outro, são cerca de 500. É o país que tem mais F-16. Já agora dizer que o F-16 custa à volta de US$ 20 milhões no seu conjunto. E, por conseguinte, isso está praticamente decidido. Agora, deve ver que porque os norte-americanos não se querem envolver diretamente na cedência dos meios, jogas aqui uma coligação de boas vontades, no qual Portugal poderia estar envolvido. Portugal tem missões atribuídas, isto no documento público, é missões às Forças Armadas, quer no caso da segurança ou defesa do território português, a vigilância das parcelas interterritoriais, até policiamento aéreo nas áreas sob jurisdição e soberania portuguesa e, por conseguinte, quer por condicionamentos de natureza política, podemos imaginar alguns, mas não sabemos todos, mas também condicionamentos na lógica operacional, Portugal terá dito que não. Portugal julgo que tem nesta altura cerca de 28 F-16 divididos entre duas esquadras, os Falcões, é 201, e os Jaguares, 301. Mas é isso. E, por conseguinte, os norte-americanos são os grandes detentores, porque andam a rondar os 2500 por todo o mundo, mas só 500 ou mais de 500 estarão nos Estados Unidos. E não julgo que haja muita projeção sem o conhecimento norte-americano, ou sem a anuência norte-americana, mas isso está praticamente dado. Os aviões é que não vêm dos Estados Unidos, pelo menos diretamente.
Mas que contributo, coronel Carlos Mendes Dias, é que podem os caças dar efetivamente para a resolução desta guerra?
Os caças em si não dão a capacidade, que é tudo, isto é, o treino, o caça, os sistemas de armas, os sistemas de integração. Portanto, o F-16 fala com o AWACS, por exemplo, fala com outros sistemas de comunicações. E eu vou lhe chamar o quantitativo. Estamos a falar de um caça, estou a dizer agora de corte, cabeça, que tem uma envergadura praticamente de 10 metros. Consegue voar a 12 km de altitude a mais de 2000 km/h. Pode fugir muito aos radares, porque pode voar ao nível do mar, embora a menos velocidade, cerca de 1400, 1500 km/h. Tem todo o tipo de armamento, aquele canhão Vulcan que vemos rodar, uma cadência de tiro brutal, rockets da família LAU, os mísseis ar-ar, sei lá, os Sparrow, Sidewinder, os mísseis ar-terra, os Maverick, os Javelin, etc. Mísseis antinavio, um conjunto de bombas notável. E, por conseguinte, tudo isto, e manutenção, etc, significa capacidade. Mas depende do quantitativo, isto é, se projetarmos dois ou três, e eles funcionam em parelhas, como sabem. Uma parelha, dois, mas convém pelo menos uma esquadra estar. E consegue dar esta profundidade porque lança os mísseis a maior alcance e no apoio próximo também às forças, graças ao seu canhão Vulcan, consegue fazer tiro a 600, 700, 800 metros na frente das forças que estão em primeira linha E isso é muito importante, porque ajuda a força a progredir e depois a consolidar terreno. Isto é o que o F-16 pode dar, para além daquela coisa que eu disse, que é falar com os sistemas de comunicações, com os radares, com os satélites, com os aviões de reconhecimento, etc. Obviamente, tudo isto é completamente digitalizado. Tudo isto precisa de ser treinado, demora tempo, mesmo depois da decisão, a não ser que já haja pessoas, embora só tenha sido feito o anúncio há pouco tempo, até estou desconfiado que já há ucranianos a treinar em caças F-16, mas isto é meramente especulação. É, digamos, no padrão comportamental do apoio, é a minha base.
Só para terminarmos, o impasse que aconteceu com os tanques pode acontecer também com os caças, sendo que no final a Ucrânia pode conseguir o que quer ou desta vez pode ser diferente?
Não, eu julgo que vai conseguir F-16. É a minha convicção, já tinha anunciado. E esse impasse com os carros de combate também se deu, e mesmo agora, havia um acordo no total ter 150 carros de combate Leopard, o que estamos muito longe de atingir. Mas a utilização do carro de combate dessa tipologia, até de mais avançada, está decidida e está no terreno. Posso-lhes dizer, julgo já ter afirmado de manhã, no teu órgão de comunicação social, que os tais 31 carros de combate Abrams norte-americanos, que só viriam depois do outono, já estão na Alemanha. E julgo que já está a haver projeção de 250 militares ucranianos para iniciar o treino no tal carro de combate Abrams norte-americano. Portanto, F-16 sim, e muito brevemente teremos militares ucranianos a treinar com o carro de combate americano Abrams.
Obrigada pela sua análise, coronel Carlos Mendes Dias.
Obrigado eu.
O Gabinete de Guerra fica hoje por aqui. Estamos de volta, como sempre, amanhã. Até lá.