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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E vamos começar por olhar para o Médio Oriente. Donald Trump recuou, decidiu travar, pelo menos por agora, uma grande ofensiva militar contra o Irão, com vista a reabrir o Estreito de Ormuz. O presidente norte-americano terá agora optado por dar uma oportunidade à diplomacia. Acha que Donald Trump está a perceber que ataques contínuos não vão, de facto, pôr fim ao conflito?
Boa noite, Laura, e muito obrigada pelo convite. Nós temos, neste momento, aquilo que se chama uma estratégia de recalibração da operação militar, que terá tido lugar a pedido de alguns dos países da região, mas também porque há preocupações norte-americanas relativamente àquilo que é o estoque de munições do Pentágono e também pelo fato de os Estados Unidos serem uma democracia e terem que passar pelo Congresso, portanto, as aprovações à guerra, as aprovações para o orçamento. Não é muito claro durante quanto tempo irão decorrer estas negociações, porque há aqui um conjunto de questões que, do meu ponto de vista, continuam por responder, quer do lado americano, quer do lado da República Islâmica do Irão. Do lado americano, nós não percebemos muito bem, não é claro aqui no "Gabinete de Guerra", quais são os objetivos desta operação militar. Começaram por ser definidos em fevereiro como a obliteração do programa nuclear, como debilitar aquilo que é a capacidade do Irão projetar forças além de fronteiras, seja por via dos seus programas de mísseis balísticos e de drones, seja por via dos proxies, Hamas, Hezbollah, os Houthis e também as células que têm na Europa. Aliás, veja-se a relação que há entre o Irão, a República Islâmica do Irão, e o ataque que houve este fim de semana em Berlim. Um dos autores era de origem libanesa, embora tendo nascido na Alemanha, o segundo era iraniano e não é o primeiro caso, e há aqui muitos alertas dos vários serviços secretos para a presença disruptiva também do Irão em solo ocidental e em solo europeu, as várias ameaças à Trump, etc. Mas temos esta questão dos objetivos. Nestes objetivos norte-americanos nunca constou uma mudança de regime, embora fosse um dos objetivos do governo israelita, e nomeadamente Benjamin Netanyahu. Os norte-americanos nunca declararam isso como objetivo, mas parece ser mais claro, acreditando naquilo que são as análises geopolíticas feitas nos Estados Unidos e feitas também por analistas militares norte-americanas, que este é o ponto decisivo, ou seja, só com uma mudança de regime é que se consegue resolver o Irão como fator disruptor, não apenas no Médio Oriente, como também no Médio Oriente alargado, como também no chamado eixo das autocracias. Isto do lado americano. Depois temos aqui um outro problema, que é uma questão de fundo, que é quem manda no Irão. Porque Marco Rubio disse, e disse muito bem, que os negociadores também estão a negociar internamente quem é que eles representam. Representam a linha de Ahmad Vahidi, o comandante da IRGC, a Guarda Revolucionária Iraniana, representam uma linha, se quisermos, menos radical do presidente Pezeshkian, do Ghalibaf, do ministro dos Negócios Estrangeiros, representam uma linha bastante mais dura, ainda mais dura do que a IRGC, que é a frente Paidan, e não se sabe quem é que manda no Irão, não se sabe de onde emanam as ordens e também entre as diversas elites iranianas, há diferenças em relação à forma como devem sequer negociar com os Estados Unidos ou se devem aceitar sequer que vão para negociações, porque aquilo que foi desenvolvido pelos iranianos ao longo de muito tempo para poderem resistir a um eventual ataque dos Estados Unidos, porque isto já está pensado há muito tempo, foi a chamada, já temos falado isso muitas vezes, estrutura mosaico. Ora, o que nós temos é agora comandantes da Guarda Revolucionária situados em portos ou em locais-chave estratégicos do Estreito de Ormuz e em toda a zona costeira, que não estão dispostos a acatar as instruções que lhes são dadas e que não pretendem também negociar. Tudo isto é muito confuso. Trump quer agora dar espaço às negociações, mas não sei durante quanto tempo teremos este espaço ou sequer se vamos ter negociações.
Entretanto, também os países mediadores do conflito disseram hoje que os Estados Unidos e o Irão podem estar perto, de facto, de regressar à mesa das negociações. Acha que o Catar e o Paquistão podem vir a ter um papel fundamental no desfecho deste conflito?
Tanto um como o outro têm interesses regionais em que este conflito acabe. O Paquistão pela fronteira que faz com o Irão e pela sua dependência energética do Irão, está a ter internamente muitos problemas do ponto de vista económico e tem todo o interesse em resolver esta questão. O Catar, porque foi sempre um aliado dos proxies do Irão. E nós não nos podemos esquecer que além do Irão, um dos grandes financiadores do Hamas na Faixa de Gaza foi o Catar, e o Catar usando aquela que é a sua máquina de propaganda, a televisão Al Jazeera, foi implementando uma agenda muito própria, que defende os seus interesses nacionais. Nós não nos podemos esquecer, por exemplo, que a Arábia Saudita proibiu a Al Jazeera há muito tempo e também há aqui uma competição estratégica entre a Arábia Saudita e o Catar. Mas estes dois países têm, por razões diferentes, interesse em que haja aqui uma pacificação, se quisermos, na situação, tanto que o Catar também tem visto os seus interesses econômicos muito afetados por este conflito e sente a sua economia também a ser perturbada. E depois há sempre esta questão: quando se pensa no Médio Oriente, nós temos que pensar nos vários atores e temos que pensar que, por estarmos a falar de monarquias do Golfo, elas não pensam todas da mesma forma, muitas vezes são rivais, e o relacionamento que estas monarquias do Golfo foram tendo ao longo dos anos Com o Irão também é um relacionamento diferenciado, mas sim, há aqui esforços por estes dois países no sentido de tentar que se volte à mesa das negociações. Mas há aqui uma outra questão, Laura: vamos negociar exactamente o quê? Voltamos a um mau memorando de entendimento, um memorando que permitiu que ambos os lados que o assinaram tivessem leituras diferentes daquilo que lá estava escrito? Essa também é uma das grandes questões. Eu diria que estamos, uma vez mais, num ponto de impasse. Há aqui muitas declarações, há aqui muito fog of war, muito nevoeiro de guerra e, na verdade, nós não conseguimos, quer do lado norte-americano, quer do lado iraniano, perceber muito bem onde é que nos movimentamos e o que é que poderá estar efectivamente sobre a mesa.
Apesar desta possibilidade de voltar à mesa das negociações, Donald Trump também deixou hoje claro que está preparado para uma ação militar forte contra o Irão se as negociações falharem e avisou igualmente que não vai esperar muito tempo por uma solução diplomática. Esta impaciência dos Estados Unidos é prudência ou pode ser o que afasta cada vez mais o conflito do fim?
Eu, e vou lhe dar a minha leitura, tenho muitas dúvidas que este conflito chegue ao fim rapidamente e que haja aqui uma escolha diplomática que permita resolver o conflito. Esta é a minha leitura. Eu vi as declarações feitas, aliás, li as declarações feitas por Donald Trump ao portal noticioso Axios, onde ele diz que mantém todas as opções sobre a mesa. Se, por um lado, dá aqui espaço às negociações também para contentar aquilo que é a frente interna e até o seu próprio vice-presidente, que claramente tem uma posição diferente daquela que é a posição do presidente norte-americano e de alguma forma também para acalmar alguns dos elementos do seu partido que estão muito preocupados com as eleições intercalares e com uma eventual derrota nas intercalares, embora isso seja comum. Os presidentes normalmente quando estão a meio de mandato e quando se realizam as eleições intercalares, o partido que está no poder acaba por ter resultados menos bons nas intercalares. Não vejo porque é que aqui poderia ser diferente. Mas há, de facto, uma preocupação que, perdendo as intercalares, perdendo a maioria que Trump tem, que os últimos dois anos de presidência possam fazer deste presidente um lame duck, ou seja, um presidente que só pode governar por decreto, tornando muito difícil aquilo que é a ação política. Mas isso são preocupações dos republicanos. Eu não tenho a certeza que o presidente Donald Trump tenha o mesmo tipo de preocupações que tem o seu partido ou que tem o vice-presidente. Por outro lado, conhecendo aquilo que é a personalidade de Donald Trump, e a Laura deverá se lembrar, que publicou que só aceita aquilo que seja uma rendição incondicional. Pois estamos muito longe de uma rendição incondicional do Irão. Estamos muito longe de termos o estreito aberto, que era um dos objetivos declarados, e todos nós nos lembramos que Donald Trump até ficou muito zangado pelos líderes europeus não terem participado neste esforço de abertura, de livre navegação no estreito. E por isso é que me parece que este momento é um momento onde pode prender para todos os lados. Agora, tenho aqui, eu, na minha leitura, muitas dificuldades em crer que vamos ter negociações ou que essas negociações venham a ser bem-sucedidas. As partes até se podem sentar à mesa, mas temos aqui posições muito díspares, muito diferenciadas e, sobretudo, a confiança que já não existia legitimamente do lado americano, que está a lidar com um regime que tem as características que o regime iraniano tem, que esmaga a sua população, que é o principal patrocinador de terrorismo no Médio Oriente alargado e não só no Médio Oriente alargado, que está longe de ser uma democracia e, por outro lado, do lado iraniano, que vê os Estados Unidos dizer que vão negociar e depois bombardeia, depois temos aqui esta troca de bombardeios e ataques a navios. Há aqui uma desconfiança profunda que não começou agora, que começou em 1979, e a história da inimizade do Irão contra os Estados Unidos é muito longa, porque basta lembrar que antes da revolução islâmica, estes dois países eram países aliados e havia uma relação muitíssimo profícua. Isto alterou-se tudo com a chegada da revolução islâmica ao poder em 79, que declarou como inimigo os Estados Unidos e Israel, e depois que procurou exportar esta sua revolução para o restante Médio Oriente. Face a este contexto todo, é muito difícil nós acreditarmos aqui numa situação diplomática. Eu não estou a dizer que não seja possível, é um cenário, tenho é muitas dúvidas em relação a este cenário. E depois nós temos países na região, e eu gostava de introduzir aqui a Arábia Saudita, que também olham com muitas reticências para o Irão. Nós não nos podemos esquecer que a Arábia Saudita é tida como a guardiã do Islão, tem as duas cidades santas, Meca e Medina, mas que foi desafiada em 79 pela revolução islâmica, que não considera que uma monarquia possa ser guardiã do Islão e que um verdadeiro modelo de um Islão político assenta num regime que tenha um líder supremo, é conselhado por clérigos e que tenha aqui um parlamento. O próprio modelo político da revolução islâmica põe em causa a Arábia Saudita. Isto é apenas um dos elementos que torna tudo isto muito complicado. Depois teríamos que introduzir, não vamos ter tempo, a Turquia, o Egito. Há aqui um conjunto de países que têm interesses conflituantes e que olham para este conflito de forma diferenciada. Isto é tudo muito difícil.
Vamos olhar também para a Ucrânia. Volodymyr Zelensky diz que Vladimir Putin está a preparar uma nova mobilização de até 500 mil pessoas depois das eleições de setembro na Rússia. Se isto de facto vier a acontecer, não pode pôr a população russa ainda mais descontente com a liderança do Kremlin? Putin não começa a arriscar demasiado?
Parece-me que Putin não se preocupa com a opinião da sua população. E todos aqueles que ousam de alguma forma opor-se à sua liderança ou acabam a cair de uma varanda ou de uma janela, ou acabam envenenados, ou então são detidos. E tem sido isso que a liderança de Trump nestas últimas décadas nos tem mostrado. Parece-me que quando nós olhamos para aquilo que é o teatro de operações, temos a guerra num impasse, com vantagem para a Ucrânia, e com a Ucrânia a conseguir demonstrar diariamente que tem capacidade de penetrar naquilo que é o território russo. E vemos agora com os ataques aos vários armazéns da Wildberries, que fizeram a guerra chegar de uma forma clara e inequívoca ao solo russo e deixou de ser uma operação militar especial escondida, até pela censura que existe nas redes sociais. Não há meios de comunicação social livres na Rússia, aqueles que existem estão fora da Rússia. Eu lembro-me de Meduza, que ganhou, por exemplo, o prémio Nobel, mas na Rússia não há. Mas os cidadãos russos, além de usarem ou através de VPN, de procurar informação fora, também veem agora perante os seus olhos as consequências desta guerra e a escassez de combustível, o racionamento de combustível. Tudo isto faz com que aquilo que era falado à boca pequena comece num crescendo de descontentamento. Naturalmente que com esta mobilização de jovens e de menos jovens para a frente de batalha, este descontentamento irá aumentar, porque se nós tínhamos visto até agora que o recrutamento era sobretudo nas regiões russas mais recônditas, mais pobres, porque os desgraçados que iam para a frente de batalha eram aliciados com pacotes salariais interessantes, com ofertas às famílias. E estamos a falar de regiões muito pobres, porque a Rússia não é Moscovo, nem é São Petersburgo, é um país profundamente pobre, onde boa parte da população nem saneamento tem. Este descontentamento pode aumentar. Agora, isso não interessa a Putin. Putin está entrincheirado naquela que é a sua posição e naquela que é a sua obsessão, que é a conquista da Ucrânia e impossibilitar que a Ucrânia se torne ou que se mantenha como um país soberano, que faça as suas escolhas de alianças políticas e de alianças militares. Não me parece que irá parar face àquilo que sejam as preocupações da população ou a insatisfação popular.
Muito obrigada pela sua análise, Helena Ferrão Gouveia, é analista de assuntos internacionais. Obrigada. Fica por aqui "O Gabinete de Guerra", está de regresso amanhã.
Adeus, Lara. Boa noite.
Boa noite.