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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares. Hoje temos conosco o especialista em política norte-americana, Nuno Gouveia. Boa tarde, Nuno. Obrigado por se juntar a nós neste Gabinete de Guerra.
Boa tarde.
Nuno, o conflito entre Israel e o Irão escalou nas últimas horas, sendo que entretanto os dois lados já decidiram, ou pelo menos anunciaram que vão parar com os ataques. No caso de Israel, é dito que a decisão foi tomada depois de um pedido de Donald Trump. Deixe-me só sinalizar, entretanto, que há também previsto para os próximos minutos uma declaração de Netanyahu, que se entretanto também surgir, havemos de tentar fazer aqui alguma análise sobre ela. Mas Nuno Gouveia, tudo isto mostra que o presidente norte-americano ainda tem influência sobre Netanyahu?
Obrigado pelo convite. Sim, certamente terá alguma influência, visto que Israel, neste momento, tem um grande aliado no mundo que é os Estados Unidos, que têm suportado toda a política externa de Israel. Portanto, Benjamin Netanyahu, apesar de estarmos em ano eleitoral, de termos eleições daqui a três meses em Israel e ele estar numa situação muito fragilizada, não se pode dar ao luxo de ignorar um pedido de Donald Trump. E parece-me que terá sido isso que aconteceu nestas últimas 24 horas. Eu penso que Israel sentiu que não podia deixar de responder ao Irão depois do ataque de mísseis, mas certamente pressionado novamente por Donald Trump, Benjamin Netanyahu teve que ceder e suspender, por ora, os ataques contra o Irão.
Ou seja, se não acedesse a esse pedido, poderia correr o risco de perder o apoio dos Estados Unidos?
Eu não me parece que perder o apoio. Agora, neste momento, até pela forma como Israel é visto também internamente nos Estados Unidos e com o degradar da imagem que o país tem sofrido nos Estados Unidos, é preciso dizer que neste momento já não existe um consenso que durou durante décadas na política externa americana do apoio inefetível a Israel. Há vozes muito audíveis dentro do Partido Democrata e também até já dentro do Partido Republicano, a questionar este apoio a Israel. Portanto, Donald Trump tem sido um fiel aliado de Israel e com este contexto todo, o governo israelita sabe também que não pode perder este apoio e tem que ceder, por vezes, a Donald Trump e parece-me que foi isso que aconteceu.
Nos últimos dias, tem havido aqui uma ideia de que parece que Donald Trump e Netanyahu não estão na mesma sintonia e essas últimas horas também acabam, de certa forma, por mostrar que há aqui uma dessintonia nos discursos, com Donald Trump a ter que fazer esta pressão e a fazer esses pedidos para Netanyahu aceder a que os ataques parem pelo menos durante algum tempo. Que resposta pode dar Donald Trump caso Israel, em alguma altura, não venha a acatar estes pedidos por parte dos Estados Unidos? O que é que Donald Trump pode fazer se isso eventualmente acontecesse?
Eu penso que os objetivos neste momento são, de facto, diferentes. Israel pretende continuar a degradar a posição iraniana. Aliás, os responsáveis israelitas têm dito que esta é uma oportunidade histórica para acabar com o regime de Teerão, enquanto os Estados Unidos, já percebemos, se calhar pouco depois desta intervenção se iniciar, que não é vontade dos Estados Unidos ter uma guerra duradoura. Aliás, nas últimas semanas, meses, o objetivo principal de Donald Trump é terminar esta intervenção. Eu penso que se voltar a suceder este tipo de momentos de maior tensão entre os dois países, Donald Trump não deixará de fazer ver ao primeiro-ministro israelita, aliás, como sabemos que o fez na última semana, que ele não pode colocar em causa as diretrizes do governo americano e obviamente sendo o maior parceiro de Israel econômico, mas também sobretudo militar, os Estados Unidos neste momento têm forças de pressão sobre Israel que podem colocar em causa. Por exemplo, Israel não tem capacidade para fazer um longo ataque ao Irão sem ter apoio norte-americano, em termos de armas, em termos de serviço de inteligência. Portanto, os Estados Unidos têm mais do que armas suficientes para impedir que Israel prossiga durante muito tempo contra a vontade do governo americano.
E há também a questão do apoio norte-americano a Israel na própria defesa de Israel. Há informações contraditórias de que os Estados Unidos ajudaram a interceptar mísseis iranianos. Já houve também quem viesse desmentir essa informação, mas o que é certo é que tudo isto acontece numa altura, Nuno Gouveia, em que continuamos sem vislumbrar um acordo de cessar-fogo para a região, com o Irão a acusar os Estados Unidos de apoiar Israel. Ainda há condições ou que condições é que existem para que possamos chegar a um entendimento, sendo que há uma declaração também do primeiro-ministro paquistanês a dizer que o objetivo final nas negociações de paz entre o Irã e os Estados Unidos está prestes a ser alcançado, mas é algo que já nos habituámos a ouvir bastante nas últimas semanas.
Sim, mas na verdade, parece-me que os dois países têm o objetivo de alcançar a paz. Donald Trump, por várias questões, pela situação interna, por ser ano de eleições, pelo preço do custo de vida estar a subir, pela grande impopularidade desta guerra, tem muitos motivos para querer acabar com esta guerra. Mas o próprio Irão também, que está numa situação muito fragilizada, que viu parte dos seus dirigentes serem eliminados. A situação econômica no Irão é preocupante, também sofreu uma destruição devido aos ataquesSabemos que a contestação, apesar da repressão da ditadura iraniana ter conseguido acalmar, existe uma grande contestação dentro do regime, dentro do país. Portanto, o Irão também tem necessidade de acabar com esta guerra. O que me parece que está a acontecer é que ambos os lados estão a tentar esticar ao máximo para conseguir obter mais ganhos políticos e, no caso iraniano, ganhos económicos também com esse possível acordo de paz. Parece-me que a resposta a essa pergunta é que ambos os lados precisam de um acordo de paz para prosseguir. Donald Trump por causa do seu ano eleitoral e o regime iraniano por uma questão de sobrevivência também do regime e do próprio povo, que neste momento está em condições muito adversas.
Entretanto, Nuno Gouveia, e até porque é especialista em política norte-americana e estamos a caminhar para as intercalares de novembro nos Estados Unidos, vamos falar um pouquinho também daquilo que já têm sido os primeiros resultados, nomeadamente as eleições primárias para escolher o governador da Califórnia. Indicam que o democrata Xavier Becerra está à frente da corrida e passará à próxima ronda, muito próximo também do segundo candidato, o republicano e antigo apresentador da Fox News, Steve Hilton. A confirmar-se esta vantagem, ainda que ligeira, do democrata, este poderá ser um resultado surpreendente se depois também se confirmar na própria eleição?
Eu diria que na Califórnia o expectável é que o Partido Democrata e o candidato do Partido Democrata vençam com grande margem nas eleições gerais. O que se passa na Califórnia é de facto um caso muito curioso, muito particular, que há uns anos mudaram o sistema de eleições primárias e deixaram de haver eleições primárias de um partido e de outro para haver uma grande eleição primária onde passariam à segunda volta os dois mais votados. Isto aconteceu porque o Partido Democrata domina grande parte da máquina eleitoral do Estado e com isso consegue em muitas eleições levar dois candidatos democratas às eleições gerais. Aqui na questão das eleições para o governo da Califórnia, de facto, chegou a haver a expectativa de passarem dois republicanos às eleições gerais, porque havia uma grande divisão entre os candidatos do Partido Democrata, porque havia quatro, cinco candidatos bastante fortes. O que aconteceu nas últimas semanas foi que os eleitores democratas se concentraram mais em dois candidatos, este Xavier Becerra, que foi membro da administração Biden e que aparentemente irá vencer estas primárias, e o milionário Tom Steyer, que irá, em princípio, ficar em terceiro lugar nessas primárias. Portanto, os eleitores democratas concentraram os seus votos nesses dois, os outros candidatos democratas implodiram, e assim teremos umas eleições gerais mais tradicionais entre um candidato republicano e um candidato democrata. Aqui parece-me que o Partido Democrata irá ter uma vitória confortável, até pelo contexto atual e também pelo contexto da política local do estado da Califórnia.
Nuno Gouveia, e a que outros dados devemos começar a estar atentos nestas próximas semanas até às intercalares?
Parece-me que neste momento a situação está muito adversa para o Partido Republicano e para os candidatos do Partido Republicano. As sondagens indicam uma grande insatisfação em relação ao presidente Trump, em relação a esta guerra do Irão, que nunca foi popular desde o seu início e que agora é ainda mais impopular, e sobretudo com o custo de vida e com aquilo que os americanos percecionam como um custo de vida muito elevado, agora até muito fomentado pelos preços energéticos, que depois têm um efeito de arrasto sobre tudo o resto e que os americanos responsabilizam Donald Trump, porque se percebe que é devido a esta intervenção que os preços energéticos subiram bastante. Agora, é importante também perceber de que forma é que o Partido Democrata vai aproveitar esta insatisfação crescente contra Donald Trump e o Partido Republicano para vencer as eleições. E aí parece-me que teremos que acompanhar muito claramente como é que esta guerra vai terminar, como é que isso vai ser percecionado pelos americanos, nomeadamente se os preços energéticos baixarem rapidamente, como Donald Trump diz que irá suceder, ou, pelo contrário, se haverá uma longa agonia. E aí sabemos que é difícil que os americanos retirem essa percepção de que o custo de vida está alto e que a vida está difícil, porque essa foi uma das principais, senão a principal promessa de Donald Trump, que iria fazer baixar os custos e iria baixar os preços para os americanos. E isso não só não sucedeu, como tem vindo a aumentar. E parece-me que se a situação não mudar nos próximos dois, três meses, que o Partido Democrata poderá ter vitórias não só na Câmara dos Representantes, onde será mais fácil, pois a maioria republicana é muito curta, mas também no Senado, onde há a expectativa que o Partido Democrata consiga algumas vitórias importantes em vários estados.
E isso é um fator adicional também de pressão sobre Donald Trump para tentar encontrar uma solução para o conflito no Médio Oriente.
Sim, sem dúvida. Agora, Donald Trump também tenho dito que não está preocupado com as eleições intercalares de novembro. Ele pode não estar, eu acredito que esteja, mas certamente está todo o Partido Republicano, que nestas últimas semanas também tem colocado mais pressão sobre Donald Trump, não só em questões relacionadas com a guerra, mas também com outro tipo de questões até mais laterais, como a construção do salão de baile ou a criação de um fundo para indemnizar pessoas que supostamente teriam sido perseguidas pela administração Biden. Portanto, também há uma pressão do partido para que Donald Trump termine com esta guerra.
Nuno Gouveia, muito obrigado por ter estado neste Gabinete de Guerra. Nuno Gouveia, especialista em assuntos norte-americanos e política norte-americana. Muito obrigado. Boa tarde.
Boa tarde.