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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Vamos começar pela Rússia e pelas eleições legislativas que começam hoje. São as primeiras desde o início da guerra. Ninguém duvida propriamente do resultado nas urnas, nem do controle exercido pela Rússia unida. No entanto, com a guerra na Ucrânia a arrastar-se há mais de quatro anos e a ter um impacto cada vez maior na economia e também na vida quotidiana dos russos, qual é o verdadeiro objetivo do Kremlin com este ato eleitoral? Trata-se apenas de encenar uma máquina de legitimação interna do esforço de guerra ou Vladimir Putin precisa de medir até onde a sociedade russa está disposta a aguentar os custos deste conflito?

Olá, boa noite, Laura e obrigado pelo convite. Relativamente àquilo que é o objetivo do Kremlin nestas eleições, eu diria que há, na verdade, dois objetivos principais. O primeiro objetivo é legitimar-se a nível interno, sabendo que os resultados serão altamente controlados pelo Kremlin, como têm sido até agora. O primeiro objetivo passa por isso, passa por fortalecer a posição do Kremlin, da administração russa, da elite russa, se quisermos, no momento em que os cidadãos russos comuns começam a sentir, nos últimos dois meses, de forma bastante até acérrima, aquilo que são as condições de vida a deteriorar-se por um esforço de guerra, por um esforço económico na frente ucraniana. Por outro lado, o segundo objetivo está intimamente ligado com o primeiro, mas está mais relacionado com a relação Vladimir Putin, Vladimir Zelensky. Ou seja, o objetivo de Putin também é demonstrar que mesmo em tempo de guerra, a Rússia continua a ser uma democracia. Atenção, sabemos perfeitamente como é que funciona a democracia na Federação Russa, muito semelhante àquele que era o estilo soviético, mas estão a levar a cabo eleições agora a começar hoje. Por outro lado, o que Vladimir Putin vai dizer depois destas eleições é precisamente que se por um lado a Rússia avança com o ato eleitoral, a Ucrânia não teve a capacidade de o fazer, nem Vladimir Zelensky teve a vontade política de levar a cabo esse ato eleitoral. E portanto, vai usar isso para legitimar também a sua narrativa, mais uma vez, de que Zelensky não tem vontade de ir a sufrágio e não tem essa vontade de ir a sufrágio porque não é um líder democrático. Estes são os dois principais objetivos do Kremlin perante esta eleição. Agora, a verdade é que, e apesar dos resultados serem altamente manipuláveis, a verdade é que tivemos ao longo destes meses de campanha ou de semi-campanha, uma série de mensagens da Rússia que mostram também o quão antidemocrático é o sistema e o garrote apertado que Vladimir Putin tem perante todo o sistema político russo. O Yabloko, que foi o partido que surgiu, e um partido que surgiu, que era o único partido que iria a estas eleições, e digo que iria porque já não vai, que iria a estas eleições com um manifesto antiguerra, o Yabloko foi, e passo aqui o pleonasmo, foi logo bloqueado de poder ir a eleições e foi bloqueado com base numa regra que faz pouquíssimo sentido. Utilizaram um slogan que poderia ser confundido com uma música de um artista russo e ao fazê-lo, Vladimir Putin ou a elite do Kremlin veio dizer que estavam a infringir os direitos de autor e que, portanto, estavam excluídos das eleições, não poderiam continuar a concorrer. O Yabloko era o único partido que era declaradamente antiguerra. Agora, a única esperança, e mais uma vez, mesmo que os resultados sejam muito controlados, há ainda uma pequena esperança que um partido ecologista, que não é necessariamente antiguerra, mas que preocupa-se bastante com as condições de vida de pessoas que têm sofrido muito com este conflito entre a Ucrânia e a Rússia, porque na zona da Sibéria, que sempre foi das zonas mais esquecidas pela administração russa, neste momento as condições agravam-se e agravam-se ainda por cima com os ataques às refinarias, que fazem com que a Sibéria, que é a zona mais difícil de aquecer, sinta muito o inverno, ou que vá sentir muito o inverno, e a possibilidade de esse partido conseguir algum tipo de representação significativa pode ser importante para essa população e é um partido que não tem grande simpatia por Vladimir Putin. Portanto, este é o momento em que estamos da política russa, sabendo que independentemente do resultado, a agenda do governo, a agenda do regime não irá mudar. Mas há aqui uma nota positiva, que é esta eleição criou aqui um espaço em que o aparelho militar mobilizou-se para proteger as urnas e isso fez com que muitos jovens que estão com medo de ser recrutados após as eleições, porque se fala no recrutamento russo de cerca de 500 mil efetivos para a guerra contra a Ucrânia. E é importante dizer aqui que na frente de batalha, pelo que se sabe, um militar russo dura cerca de 35 minutos em média, por isso o nível de mortalidade é brutal. E o que temos agora são os jovens a aproveitar este momento eleitoral em que o aparelho militar está não só preocupado com a questão ucraniana, mas também preocupado com garantir a segurança dos locais de voto, para fugir para a Arménia, para fugir para a Geórgia. E temos então uma série de relatos de jovens que têm feito esse percurso para tentar fugir a esta mobilização de cerca de 500 mil efetivos da parte russa.

E olhando para o dia seguinte ao fecho das urnas, se o resultado esperado for uma vitória esmagadora do regime, isso dá a Vladimir Putin o cheque em branco de que precisa para avançar com uma nova vaga de mobilização militar ou, pelo contrário, o fosso entre o apoio formal nas urnas e o descontentamento social, algo silencioso, pode transformar-se no maior risco para a estabilidade do próprio Kremlin?

Não creio que haja risco para a estabilidade do governo, independentemente do resultado. O que estamos aqui a falar será sempre de algo na ordem dos 80%, manipulado ou não manipulado. Esta oposição silenciosa está muito condicionada nos locais de voto e, para além disso, não veem também uma capacidade coletiva, não reconhecem nos seus pares uma capacidade coletiva de sair à rua e de se manifestarem. As manifestações que temos são muitas vezes manifestações esporádicas relativamente à falta de combustível nas bombas de abastecimento. É o que temos tido. Esses são realmente os únicos momentos em que se percebe que existe uma assimetria neste momento económica dentro da população russa e que os cidadãos comuns estão insatisfeitos com a situação. Mas até os opositores do regime estão calados, aqueles que estão em exílio na Lituânia. Não se ouvem agora perante este novo ato eleitoral. Por isso, a verdade é que por muito que exista esse descontentamento, e sabemos que há, até porque foi crescendo agora com o agudizar das condições de vida, isso não se reflete hoje realmente numa oposição declarada ao Kremlin. Por outro lado, Vladimir Putin e o regime não irão abanar, não irão largar aquilo que são os seus objetivos principais e vamos olhar aqui apenas para os objetivos principais a curto prazo, que do ponto de vista bélico, é conseguirem ultrapassar aquela linha de defesa ucraniana constituída pela zona oeste do Donbass, ou seja, por Kramatorsk, Sloviansk, e que parece que tem perdido território até na última semana com uma contraofensiva ucraniana em Liman, que fica ligeiramente acima dessas cidades, e o objetivo seria capturar essas cidades por oeste, vindo de noroeste, conseguir atacar essas cidades e esse cinturão de defesa. E esse é o objetivo bélico na fronteira, claro, ou seja, na fronteira contestada ou, se quisermos, na linha de combate. É este o objetivo. Só que para isso, Vladimir Putin, como estávamos a falar há pouco e como a Laura também referiu muito bem, precisa de efetivos militares. E este recrutamento agora vem precisamente pela falta de efetivos militares, que como explicava, os níveis de baixas são altíssimos. E então o que têm feito agora é procurar recrutar em zonas onde, por exemplo, o grupo Wagner se tem estacionado e se tem perpetuado no território, zonas como o Sahel, em que o grupo Wagner mudou de nome, mudou para Africa Corps e que continua a recrutar aí. Zonas como a Colômbia e o Brasil, onde continuam a ser recrutados soldados para a linha da frente e são recrutados com a promessa de salários milionários. E é muito fácil ver este tipo de promessas e este tipo de procura e oferta de trabalho, não acontece às escondidas. Acontece nas redes sociais e é muito fácil entrar num grupo, por exemplo, de jovens colombianos à procura de trabalho no Leste Europeu e invariavelmente há anúncios do exército russo ou às vezes até do exército ucraniano, que é o exército russo a fazer-se passar pelo exército ucraniano, a oferecer trabalho a estes jovens, principalmente que vêm da América do Sul e que estão nestes grupos à procura de uma vida melhor nos respectivos países do Leste Europeu. Isto é uma realidade perante aquilo que é a falta de efetivos russos. E o que temos agora a curto prazo, diria eu, vai ser a continuidade deste regime que se vai perpetuando com o objetivo último de concretizar os seus objetivos finais, que era não só a conquista de todo o Donbass, porque acreditam que é através do Donbass que vão conseguir a grande recuperação econômica, mas também com a tentativa de abanar os alicerces do mundo ocidental, que é o que temos visto com os ataques que se vão desenrolando ao longo do último mês, e que para isso é preciso também que a Ucrânia consiga ter uma capacidade forte de apoio dos seus aliados para que perante este novo ímpeto de recrutamento russo, a Ucrânia consiga manter a sua posição, principalmente no concerno o não deixar ultrapassar a Rússia daqueles 20% que já têm de território conquistado ou contestado.

A imprensa internacional avançou hoje que o principal enviado econômico de Vladimir Putin e a liderança do partido de extrema-direita alemão AFD estarão em preparativos para uma reunião no próximo ano para ser discutido o recomeço do fornecimento de gás russo à Alemanha. Acha que este tipo de situações podem vir a crescer nos próximos tempos, ou seja, uma aproximação dos partidos emergentes e com força para capturar eleitorado na Europa, a Vladimir Putin e à Rússia?

Sim, creio que o caminho será esse, e por um motivo muito simples, que é a Europa está se a fragmentar a partir de movimentos nacionalistas, uns mais orgânicos que outros, e que vão aparecendo não só em estados dentro da Alemanha, mas que neste momento terão também uma mão na presidência francesa com a aproximação da Marine Le Pen, no caso das sondagens francesas. E isto vai acontecendo um pouco por toda a Europa. Tivemos uma eleição muito disputada também na Suécia, que acabou por cair para o centro-esquerda, para os sociais-democratas suecos no último fim de semana, mas que os democratas da Suécia, o SD, o partido radical mais nacionalista, esteve muito próximo e teve um crescimento claro relativamente ao último sufrágio. Por um lado, este ímpeto nacionalista procura combater uma série de desinvestimentos do Estado Social que fizeram com que muitas pessoas, muitos europeus se sentissem abandonados e que sentissem que o seu país foi tomado pela imigração, que os seus trabalhos foram tomados pela imigração, deu azo a uma série de teorias como a substituição populacional, o califado islâmico na Europa e que vão sendo cada vez mais propagadas, não só nos meios de comunicação tradicionais, mas principalmente nos meios de comunicação menos tradicionais. O interessante é que nós precisamos, para a segurança europeia, e quando falo para a segurança europeia, falo de uma possível invasão de uma potência externa, e neste caso, da Rússia, nós precisamos garantir o apoio à Ucrânia. E o interessante desta dicotomia entre os partidos nacionalistas via questão da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, é que querem fechar as suas fronteiras para se proteger dentro de portas. Só que esse fechar de fronteiras para que não entrem, por exemplo, mais imigrantes, não haja mais fluxos migratórios, não aconteça o que aconteceu em Ceuta, isso leva a que esses partidos que apoiam este nacionalismo e que vão fragmentando o projeto da União Europeia por dentro, também não estejam dispostos a financiar um esforço de guerra que não é o seu, ou seja, que não estejam dispostos a alimentar o esforço de guerra ucraniano. O problema é que a Ucrânia, neste momento, é a defesa das fronteiras europeias e estes partidos nacionalistas que vão emergindo, todos eles tiveram, ou quase todos eles, tiveram relações econômicas com o Kremlin ao longo da sua existência, ora no seu início em que o Kremlin financiou, ora através de ações de cibersegurança, de guerra híbrida, durante períodos de campanha em que a Rússia consegue meter o seu intelligence, consegue meter os seus serviços cibernéticos ao serviço desses partidos. E por isso vivemos aqui numa dicotomia, neste momento, bastante preocupante para a sobrevivência da União Europeia, porque, por um lado, temos estes partidos nacionalistas que tentam conservar aquilo que é a entidade de cada um dos Estados membros da União Europeia. Por outro lado, não estão dispostos, e foi o próprio líder da AFD, Ulrich Siegmund, que disse durante a campanha que não estava disposto a mandar nem mais um cêntimo para a Ucrânia porque já gastaram bilhões e nada mudou. E o que temos agora é um objetivo claro de expansão da defesa europeia, ou seja, fora do âmbito da NATO, porque também já percebemos que Donald Trump não é o aliado mais confiável neste momento e os alicerces da NATO vão aos poucos se erodindo. Então, o que temos agora é uma nova dimensão, que é uma dimensão relacionada com uma proteção europeia fora do âmbito da NATO. E essa proteção europeia passa por aquilo que é chamado o escudo dissuasor, o escudo nuclear dissuasor francês. Este escudo nuclear dissuasor francês, o que diz é que a França começará a ceder armamento nuclear, portanto, a França, uma das grandes potências nucleares do mundo, começará a ceder armamento nuclear aos países, principalmente aos países fronteiriços ou próximos da Rússia, para que haja assim uma dimensão de dissuasão se a Rússia procurar invadir ou procurar continuar a perpetuar este tipo de ataques híbridos, como temos visto junto dos aliados da NATO ou dos aliados europeus, neste caso. O problema é que esse programa, daqui a poucos meses, poderá cair, como dizia, nas mãos de Marine Le Pen. E Marine Le Pen e a Frente Nacional tiveram, desde o seu começo, investimento russo e aliás, tiveram que responder até por isso sobre as regras de transparência de financiamento do sistema francês e foram a sede própria discutir essa questão. Por isso, tudo isto faz com que a questão da Rússia e da Ucrânia seja muito mais profunda para a Europa do que aquilo que alguns Estados parecem querer acreditar. É uma questão existencial para a Europa, porque a Rússia já está dentro da Europa através deste financiamento e foi um processo que demorou anos e que nós achamos sempre que nunca se iria concretizar em nada, porque essas forças estavam adormecidas dentro dos países e porque a Rússia estava longe e teve aquela pequena tentativa, ou de fato conseguiu tomar ou retomar a Crimeia, mas sempre achamos que era isso, não havia força russa para mais. E se calhar não há força militar russa para mais, de fato, mas o que tem havido é a capacidade da Rússia de mostrar que já tinha os braços longos do seu regime dentro da Europa, antes sequer de nós darmos por isso.

Chegamos ao final do nosso tempo. Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Muito obrigada pela sua análise.

Obrigado, boa noite.

Fica por aqui o Gabinete de Guerra. Está de regresso na segunda-feira.