Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos os principais conflitos no mundo que marcam a atualidade, com destaque para a situação que envolve a Venezuela e a intervenção dos Estados Unidos, bem como os protestos no Irão. Nesse sentido, hoje contamos com a análise do especialista em defesa nacional, Rui Vilar. Seja muito bem-vindo à antena da Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar da situação na Venezuela. Uma delegação diplomática dos Estados Unidos visitou Caracas para avaliar a reabertura da embaixada do país. Rui Vilar, o que nos diz esta visita norte-americana?

Olá, boa noite, José Rafael Lopes, e boa noite a todos os que nos ouvem na Rádio Observador. Esta visita, primeiramente, acho que é um claro sinal de que o regime venezuelano atual, com a presidência de Delcy Rodríguez, está totalmente alinhado com os Estados Unidos da América. E um dos pontos que Donald Trump tem na agenda para a Venezuela é esse restabelecimento, essa reabertura da embaixada, que está encerrada, salvo erro, desde 2019. Eu acho que isso, num plano avaliativo do que tem acontecido desde a captura de Nicolás Maduro, é uma notícia positiva para o país, para a Venezuela. É uma notícia positiva também para se garantir que não haja conflitos, que não haja guerra civil naquele país. E é uma notícia também positiva para os portugueses, para os milhares de portugueses que lá estão, porque há uma garantia de que os americanos quererão estabilidade e paz naquele país.

Entretanto, já foram libertados alguns dos presos políticos na Venezuela e o candidato presidencial da oposição, Edmundo González, falou com o governo espanhol sobre este tema. Diz que a libertação dos presos políticos na Venezuela não pode ser seletiva. O que é que podemos esperar desta situação nos próximos tempos?

Eu acho que vamos continuar a assistir à libertação gradual de presos políticos, segundo as informações que existem, se bem que não são ainda factuais, mas já se fala na libertação de cerca de oito presos políticos, sendo cinco deles espanhóis. Portanto, eu acho que vamos continuar a assistir, porque isso também é outra das exigências de Donald Trump e dos Estados Unidos da América para o país. Mas penso que aqui Edmundo González quer dar, tal como Corina Machado, quer dar um sinal de vida, fazendo aqui estas conversas com o governo espanhol, uma vez que temos percebido que do lado americano, o objetivo é claramente falarem com Delcy Rodríguez, que para eles é quem governa atualmente a Venezuela. E já percebemos que nos próximos tempos não vamos ter nem Corina Machado, nem Edmundo González a governarem a Venezuela. Vamos ter que esperar pela estabilização do país e depois, sim, acreditamos que se reúnam condições para haver eleições livres e democráticas, e aí sim, depois poderá haver uma mudança na presidência.

Hoje, Rui Vilar, é também notícia que os Estados Unidos interceptaram um petroleiro com a bandeira de Timor-Leste no mar das Caraíbas. Podemos continuar a esperar intervenções deste gênero durante quanto tempo?

Enfim, eu acho que vamos continuar a assistir. São operações transitórias, ou seja, não serão permanentes. O que estamos a ver é a intervenção junto dos petroleiros que saíram da Venezuela após a captura de Nicolás Maduro. Portanto, os americanos certamente estarão a monitorizar a região e identificaram esses alvos que estão a sair da Venezuela. Até se fala que a bandeira de Timor é falsa. Portanto, acho que podem acontecer episódios semelhantes nos próximos dias, mas serão transitórios. Acho que vão terminar. Agora, isso, se me permite, demonstra de certa forma também uma nova abordagem americana aos conflitos e, portanto, as operações são muito cirúrgicas e muito direcionadas.

Temos ainda tempo para abordar a questão da Gronelândia. O jornal político diz que a NATO está a analisar o reforço da presença no Ártico após declarações de Donald Trump. Rui Vilar, este tema aparenta manter-se na agenda. Que desenvolvimentos é que podemos expectar nos próximos tempos?

Sim, é um caso, José, permita-me, bastante paradoxal, porque nós estamos a assistir a uma intenção, uma declaração da NATO, de certa forma, fazer as manobras dissuasoras na região, mas perante uma ameaça de um país que está na NATO, e não por acaso também é o país mais forte dessa aliança. Portanto, é toda uma nova situação, uma nova abordagem que estamos a ter aqui. E sinceramente, eu acho que pelo que temos visto, ainda na questão venezuelana e agora transpondo para a Gronelândia, e isso foi bastante evidente na declaração do Marco Rubio aquando da captura de Nicolás Maduro, é que, como ele disse, esta presidência atua, faz, não avisa só. E de fato, assusta-nos percebermos que esta região autônoma da Dinamarca poderá ser um próximo alvo. Agora resta perceber de que forma, porque se de fato Os Estados Unidos intervirem militarmente para tomarem o controle da Gronelândia, eu acho que fica aqui um desafio enorme quer pra NATO, quer, principalmente, pra União Europeia, de como reagir. Porque efetivamente, em termos factuais, militarmente nós não temos força nem forma de responder, é uma coisa impensável responder a um ataque americano. Portanto, aí terá que ser a diplomacia europeia mais uma vez a ser chamada. E eu acho que é a altura de uma vez por todas a Europa acordar e tentar resolver já este problema de forma imediata, porque a ameaça americana tem sido constante.

É, sem dúvida, uma situação para continuarmos a acompanhar nos próximos tempos. Vamos avançar, falar da situação no Irão, com manifestações em curso há já vários dias. O líder supremo do Irão está a planear fugir do país, pelo menos é o que garante Donald Trump. Parece-lhe um cenário viável tendo em conta toda a contestação?

Sinceramente, não me parece um cenário viável num regime já com tantos anos que haja uma saída do país. Eu acho que neste caso iraniano, nós podemos estar a assistir a um dos momentos mais importantes da história dos últimos 30 ou 40 anos naquela região e naquele país. Nós temos que esperar. De fato, o regime iraniano já sofreu ao longo dos anos vários protestos, mas esses protestos eram quase sempre liderados pelos estudantes ou pequenos grupos. Ainda recentemente tivemos, em 2022, o grande protesto também liderado pelas mulheres no caso da morte de Mahsa Amini, mas que depois, com os cortes habituais de internet e outras coisas que o regime já está também a fazer, consegue acabar com esses protestos. Mas desta vez, sinceramente, parece-me que há mais grupos envolvidos nestes protestos. Já chegou às 31 províncias do Irão, já existem bastantes mortos, fala-se já em 45 mortes, mais de duas mil pessoas detidas. E eu acho que podemos estar a assistir à formação de uma espécie de uma grande coligação bastante mais ampla do que o habitual, não só de pequenos núcleos como os estudantes, mas que podem e que já juntaram trabalhadores, comerciantes, as populações civis, o cidadão comum, também já populações rurais, ou seja, já não fica como normalmente só cingida a Teerão ou às grandes cidades. E agora resta perceber se as elites também se vão juntar, e eu acho que se isso acontecer, as próprias Forças Armadas e a Guarda Revolucionária, percebendo que o regime ou que os rostos do regime estão sem apoio popular, poderá haver ali alguma coisa, mas depois também temos que tentar perceber quem é o rosto que surgirá para garantir ali alguma oposição. Mas, de fato, eu sinto, pelos dados que nos vão chegando do Irão, que esta situação, estes protestos podem ser diferentes daqueles que nós estamos habituados a ver no Irão.

Estivemos a falar do lado norte-americano, com essa garantia de Donald Trump de que o líder supremo do Irão está a planear uma fuga do país. Ora, do lado iraniano, a história é bem diferente. A imprensa internacional diz que Ali Khamenei avisou Donald Trump de que será ele a ser derrubado. Rui Vilar, que força é que tem o Irão para o líder poder ter este tipo de declarações contra o presidente dos Estados Unidos?

Eu acho que o Irão, no panorama internacional e no panorama da região, está cada vez mais diminuído. Temos assistido a um crescendo dos regimes favoráveis ao Ocidente e aos Estados Unidos da América naquela região, e depois do ataque israelita neste verão, no último verão, também percebemos que o Irão está bastante diminuído até em termos de resposta militar. Portanto, são as habituais ameaças do líder supremo do Irão aos americanos e ao presidente dos Estados Unidos da América, mas parece-me bastante diminuído. Nós vimos aquando do ataque israelita que já não houve tanto apoio por parte de países que habitualmente apoiavam o Irão e que já não o apoiaram nesse momento. Portanto, isto também é um sinal daquilo que eu falava há pouco, de que me parece que desta vez poderá acontecer algo mais. Até porque uma facção da classe média que está bastante insatisfeita, também ficou bastante insatisfeita com os rostos do regime pela ausência ou pela quase inútil resposta que o Irão deu ao ataque israelita. Portanto, há de fato grandes camadas da população que estão com bastante insatisfação perante o governo, o presidente e o líder supremo.

Podemos então esperar que estes protestos no Irão aumentem de intensidade, em vez de diminuir?

Sim, é como lhe disse. Existem vários sinais de que desta vez os protestos são diferentes e eu acho que a escalada vai continuar. Já temos tido, e hoje mais uma vez, o apelo de Reza Pahlavi para os Estados Unidos entrarem e terem uma intervenção. Donald Trump já avisou também de que se houverem mortes por repressão policial, os Estados Unidos podem fazer lá uma intervenção. E mais uma vez realço que as ameaças de Donald Trump normalmente são ameaças credíveis. Portanto, nós podemos estar a assistir ao aumento dos protestos e que derivem em alguma coisa, até porque se sente por parte da comunidade internacional, mesmo algumas organizações de direitos humanos já acusam as autoridades iranianas de usarem a força de forma ilegal. Portanto, começa a haver muita força por parte da comunidade internacional a estes protestos. Agora resta perceber o que é que este corte da internet e de comunicações também vai fazer junto dos protestos. Vivemos numa nova realidade, num novo mundo. Elon Musk já disse que ia disponibilizar o Starlink pra os iranianos, ou seja, um Estado já nem consegue controlar o acesso à internet por parte dos cidadãos. Portanto, é uma situação que eu acho que devemos acompanhar todos e principalmente os governos, e tenho a certeza de que o governo português está a acompanhar esta situação com muita atenção e preocupação.

Muito obrigado pelas explicações. Rui Vilar é especialista em defesa nacional, esteve a acompanhar e a analisar as últimas incidências em alguns dos conflitos ativos no globo. Foi o Gabinete de Guerra, que está de regresso amanhã na antena da Rádio Observador.