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Gabinete de Guerra está com a Rádio Observador, no programa em que falamos de conflitos em curso, hoje muito centrado no conflito no Médio Oriente. Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo está Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais no ISCSP em Lisboa. Bernardo, muito boa tarde, já boa noite. Vamos falar do primeiro grande discurso do novo líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, o filho de Ali Khamenei, líder supremo do Irão que hoje discursou, mas não foi de viva voz. Foi um discurso lido na televisão estatal iraniana. Como é que vê a forma, antes de irmos ao conteúdo, mas a forma como acontece este primeiro discurso? Esperaríamos, naturalmente, algo com a imagem do líder, com a voz do próprio líder. Acabou por não ser assim.

Olá, boa noite mais uma vez e obrigado pelo convite. Parece-me que há aqui também algumas dimensões que importa analisar. O facto de ter sido este discurso um pouquinho em diferido, se quisermos chamar assim, pode indicar alguma falta também de conforto político num momento que é extremamente sensível para o Médio Oriente, num momento que é extremamente sensível para o Irão. Pode indicar também alguma falta de conforto político, alguma falta de conforto também na sua comunicação, porque sabemos que o Irão é uma sociedade extremamente fragmentada, cada vez mais a partir do momento que temos uma ameaça direta ao poder e a possibilidade de termos outros grupos sociais ou outros grupos políticos a serem também empoderados de alguma forma por potências externas. Portanto, num momento muito delicado há esta opção por fazer este tipo de discurso mais em diferido. Esta primeira dimensão, que é a falta de conforto do próprio líder político, aliás, falta de conforto essa que foi apontada por alguns membros daquela associação clerical que são os sábios, que acabam também eles por ter um grande pendor ou um grande poder naquilo que é a decisão dos líderes políticos do Irão. Muitos deles achavam que o líder político poderia ser então um líder mais moderado e até surgiram algumas críticas assim que foi nomeado o Mojtaba, exatamente porque havia uma esperança dentro de um colégio ou de uma parte do colégio mais reformista que se optasse agora por um líder que se aproximasse de alguma forma daquilo que são os interesses dos Estados Unidos também para retomar as negociações por um processo de paz e as negociações também relativas àquilo que é o enriquecimento de urânio. E estamos a falar, por exemplo, da figura de Rouhani, um dos primeiros que foi já líder deste colégio de sábios e foi um dos primeiros, aliás, ou um dos mais vocais a explicar que esta escolha de Mojtaba era também uma forma de colocar o regime iraniano em risco por ser uma escolha que parte principalmente do corpo da guarda revolucionária e não necessariamente daqueles que têm sido os líderes políticos do regime teocrático iraniano. Importante também dizer aqui que este regime teocrático iraniano tem agora esta nova vicissitude e daí ser um pouco, não diria estranha, é fruto da necessidade do regime, mas não deixa de ser curioso que Mojtaba acaba por vir numa linha dinástica, que é exatamente por isso que se fez a revolução islâmica e se estabeleceu a República Islâmica, exatamente para terminar com essa linha dinástica que vinha dos xás, essa monarquia. E agora, por outro lado, temos então o xiismo, o regime xiita a adotar também esta perspectiva dinástica que faz com que o líder seja também muito contestado internamente. Agora o facto de ser contestado internamente só provoca uma coisa, não provoca a queda do regime, como já vimos, porque a administração Trump teve esta intervenção no Irão, no entanto, não fez o regime cair, as instituições cristalizam-se. No entanto, o facto de termos cada vez líderes políticos mais inexperientes no Irão, também porque grande parte daquele corpo que eram os líderes experientes do Irão acabaram por ser também mortos como danos colaterais da primeira intervenção que foi dirigida ao Aiatolá. Portanto, quando temos esta falta de corpos políticos qualificados, esta falta de recursos humanos qualificados dentro do sistema teocrático iraniano, o que poderemos ver e o que irá continuar a acontecer parece-me a mim é uma repressão ainda mais forte do regime quanto àquilo que são as possíveis insurreições ou as possíveis demonstrações de descontentamento da população iraniana.

Sim. Vamos então ao conteúdo, porque este novo líder, Mojtaba Khamenei, agradeceu ao povo do Irão, agradeceu a todas as classes sociais que se opõem ao inimigo. Justificou também os ataques aos países vizinhos, até porque o presidente do Irão é outra figura. Já tinha falado também nas últimas semanas a dizer que pedia desculpa, de certa forma, por esses ataques aos países vizinhos. Agora, Mojtaba Khamenei, o líder supremo, diz que o Irão quer atacar apenas as bases americanas e que não tem nada contra esses países vizinhos. E há aqui um aspecto essencial, e vamos ter de falar sobre isto, o Estreito de Ormuz, porque o líder supremo do Irão, o novo líder, diz que o encerramento do Estreito de Ormuz é uma medida eficaz e acima de tudo é uma medida que se vai manter. E é por aqui que o Irão tem a principal arma neste conflito.

O Irão tem utilizado as armas que pode e são poucas, principalmente devido ao seu isolamento no sistema internacional, principalmente porque a Rússia está preocupada com outra frente de batalha que não é o Irão. Também porque a China tem princípios políticos que vão mais ao encontro daquilo que é uma ascensão pacífica, portanto outro modelo de olhar para as relações internacionais e que vem mais de uma supremacia tecnológica, de uma supremacia econômica e menos deste apoio beligerante a nações do seu eixo, como é o Irão, não quer dizer que não o apoiem a nível de armamento. E o Irão então o que é que faz perante este isolamento? Procura sim jogar as cartas que tem. Quais são as cartas que o Irão tem? Bom, por um lado, a primeira retaliação foi muito óbvia, que é colocar pressão nos Estados Unidos, portanto parceiro histórico de Israel Foram ambas estas nações que levaram a cabo a intervenção no Irão. Portanto, pressionar aqueles que são os Estados do Golfo, que são, por um lado, parceiros históricos, ou não diria históricos, parceiros económicos de Donald Trump. Sabemos que, por exemplo, quando tivemos o início das negociações para a paz em Gaza em setembro ou outubro do ano passado, e quando houve aquela explosão em Doha, onde estavam a decorrer as negociações, uma explosão causada pela IDF, causada por Israel, logo no dia seguinte, Jared Kushner, genro de Donald Trump, foi a correr para esses Estados do Golfo para provar que havia estabilidade na região e que Israel não voltaria, sob a tutela dos Estados Unidos, a fazer outro tipo de ataques. Há laços económicos muito importantes, não só entre os Estados Unidos e os Estados do Golfo, mas mesmo entre os interesses pessoais da esfera de Donald Trump e esses Estados do Golfo. Portanto, o Irão a primeira coisa que fez foi precisamente retaliar, não retaliar diretamente contra os Estados Unidos e contra o Irão, mas violar também o direito internacional. Ou seja, se há uma violação do direito internacional por parte dos Estados Unidos e de Israel ao entrarem no Irão e ao matarem o aiatola, existe também uma violação do direito internacional depois a partir do momento que o Irão retalia contra Estados que não atacaram o Irão. Portanto, ao fazê-lo, tenta colocar pressão económica nos Estados Unidos. Isto para quê? O objetivo é principalmente fragmentar a aliança Israel-Estados Unidos.

Pressão económica nos Estados Unidos e no mundo inteiro, não é?

E no mundo inteiro. E aqui podemos transitar para o estreito de Ormuz. Se esta carta de atacar os Estados do Golfo está mais relacionada com a pressão que coloca na administração Trump e a pressão que coloca naquilo que é uma aliança entre os Estados Unidos e Israel, por outro lado, o estreito de Ormuz coloca uma pressão, e como todos sentimos agora mesmo em Portugal, com a subida do preço dos combustíveis generalizada em Portugal, na Europa e no mundo, o encerramento do estreito de Ormuz não só perpetua a instabilidade na região, mas também acaba por dificultar aquele que é cerca de 20% do comércio energético total no mundo. Quando isto acontece e quando temos o Irão como dono e senhor do estreito de Ormuz e aliás, como a ameaça beligerante a quem passar pelo estreito de Ormuz, principalmente embarcações ligadas aos Estados Unidos e a Israel, criam aqui outro problema. Por quê? Quando falamos muitas vezes dos Estados terem um ímpeto extrativista ou intenções extrativistas, os Estados não são eles próprios que extraem os recursos, os Estados não são eles próprios que fazem este transporte pelo estreito de Ormuz. Estamos a falar muitas vezes de cadeias de valor globais que passam também pela vontade das empresas.

Claro, empresas privadas.

Empresas privadas, exato. Tal como aconteceu na Venezuela, as principais empresas privadas do mercado petrolífero não quiseram entrar imediatamente após a intervenção ao regime de Nicolás Maduro, isto falamos de empresas privadas norte-americanas, exatamente porque tinham não só o trauma de terem sido confiscadas pelo governo de Chávez antes de Maduro, mas também porque a instabilidade era demasiado elevada no território para se garantir a boa extração desse petróleo e depois o transporte para o consumidor final ou para a transformação, se quisermos. E a mesma coisa se vai passar aqui no Irão. Ou seja, as empresas norte-americanas que podiam eventualmente, e não sei se seria esta a ideia de Donald Trump, mas se estas empresas norte-americanas pudessem beneficiar também um pouco desta entrada dos Estados Unidos no Médio Oriente e esta expansão da esfera de influência dos Estados Unidos e de Israel no Médio Oriente, acabando com aquele que é o poderio da principal nação da região, ou neste caso, do Irão, que tem uma luta histórica com Israel naquela região, o seu interesse era mesmo esse interesse económico, esse interesse extrativo, pois o bloquear do estreito de Ormuz e esta atitude muito beligerante do Irão relativamente a qualquer passagem no estreito de Ormuz, faz com que todas estas empresas, não só norte-americanas, mas de outros destinos, de outras geografias que pudessem ponderar apostar no comércio iraniano, apostar naquilo que é a exploração do petróleo da zona do Golfo, agora estão extremamente condicionadas por esta instabilidade política e económica.

Portanto, temos a pressão no mercado do petróleo, que influencia o mercado dos combustíveis e que está diretamente a influenciar toda a economia, porque os combustíveis acabam por ser uma parte importante para diferentes setores. Espera-se aqui um choque em cadeia naquilo que são os preços, primeiro dos combustíveis e depois de todos os outros produtos na economia. Vamos falar ainda deste estreito de Ormuz, porque há aqui já diferentes posições. A Guarda Revolucionária do Irão promete manter o estreito de Ormuz fechado. Isto foi uma das primeiras reações ao discurso do novo líder supremo do Irão. Só que, entretanto, surgem aqui discussões sobre a proteção ou não de navios destas empresas privadas. A Marinha norte-americana, por exemplo, disse que não está preparada para escoltar petroleiros no estreito de Ormuz. Isto é o que diz a Marinha norte-americana. Das últimas horas, já do final desta tarde, temos informação de que alguns navios podem utilizar o estreito de Ormuz, mas apenas se estiverem coordenados com a Marinha iraniana. Isto foi dito por Teerão. Pode estar aqui uma das chaves, ou seja, o Irão definir que barcos podem circular, que barcos não podem circular e ser tudo feito em articulação com a Marinha do Irão?

Sim. Não é novo no sentido em que já quando tivemos os ataques a Fardo em junho do ano passado, a primeira ação do Irão foi também ameaçar que fecharia o estreito de Ormuz, e acho que até, se bem me recordo, chegou a fechá-lo parcialmente. Portanto, este é o grande instrumento do Irão, como tinha dito, principalmente do ponto de vista económico. A Guarda Revolucionária, com esta nomeação do novo líder supremo do Irão, vem provar que Não irá ceder. Portanto, esta nomeação é clara, é mostrar que a guarda revolucionária continua forte. Não quer dizer que assim o continue do ponto de vista prático, devido aos ataques norte-americanos. No entanto, do ponto de vista narrativo, a mensagem que querem passar é que continuam fortes e que continuam a acreditar neste regime teocrático opressor. Portanto, agora em relação ao Estreito de Ormuz, o que o Irão pode fazer é tentar encontrar uma solução à semelhança daquela que foi encontrada noutros casos de intervenção dos Estados Unidos, nomeadamente no caso bem recente da Venezuela. Se bem que me parece também difícil, porque as vicissitudes do regime iraniano e as vicissitudes do contexto histórico de conflito entre o Irão e os Estados Unidos, e mesmo entre o Irão e algumas das nações do Golfo, parece que nos vão dificultar este tipo de tutela iraniana no Estreito de Ormuz, em que os Estados Unidos eventualmente poderão ter a capacidade de negociar a passagem de alguns petroleiros. Por quê? Porque se os Estados Unidos não entrarem nesta negociação, Donald Trump não vai querer arriscar ter a Marinha norte-americana, não vai querer arriscar ter a possibilidade de um confronto naval, devido àquilo que é a sua baixa popularidade, ou o declínio de popularidade cada vez maior que Donald Trump tem tido nos Estados Unidos, com umas eleições intercalares a aproximarem-se. E perante esta possibilidade de termos agora um conflito comercial que obriga a Marinha americana a proteger os petroleiros das empresas privadas, como falámos, e talvez não só de empresas norte-americanas, de outras empresas que possam passar pelo Estreito de Ormuz e assim garantir aquilo que é a livre circulação da mercadoria, neste caso petrolífera. No entanto, isto acarreta uma responsabilidade que Donald Trump, quando quis ou quando ditou a intervenção ao Irão há cerca de pouco mais de uma semana e meia, não estava nos seus planos. No entanto, o Irão foi rápido a reagir e a verdade é que, mesmo com falta de lideranças políticas, o Irão tem conseguido prolongar o conflito, porque o grande objetivo deste regime iraniano será sempre prolongar o conflito e irão prolongá-lo como puderem, usando os instrumentos que puderem. E portanto, eu não excluiria a possibilidade de termos algum tipo de ação beligerante no Estreito de Ormuz por parte do Irão nas próximas semanas.

Muito obrigado por esta análise. Bernardo Valente é professor de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Chega ao fim este Gabinete de Guerra. Estamos de regresso amanhã para continuar a analisar os conflitos em curso.