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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Vamos começar pelo Médio Oriente. Donald Trump afirmou hoje que o Irão ainda não viu nada e que os Estados Unidos têm sido bonzinhos. Isto depois de 10 dias consecutivos de ataques. O que é que isto significa? É uma ameaça real ou é mais uma espécie de marketing de guerra, esta narrativa do presidente norte-americano?

Boa noite, Laura, e muito obrigada pelo convite. Nós neste momento estamos numa fase diferenciada deste conflito e parece-me que nos aproximamos daquilo que é um intensificar do conflito e um alargamento regional. Houve aqui um conjunto de baixas norte-americanas, de jovens soldados que morreram, três são conhecidos. Há pelo menos uma centena de soldados norte-americanos em diversas bases em países do Golfo que ficaram feridos devido a bombardeamentos e ataques iranianos. E há, sobretudo, a manutenção de uma posição inflexível pela parte do Irão, posição essa que agora fica expressa com o apelo que foi feito pelo Irão aos houthis para que bloqueassem também o Estreito de Bab-el-Mandeb, tornando impossível a navegação, sobretudo de navios sauditas, aliados norte-americanos, nesse estreito, e que significa também que cerca de 10% do petróleo que é comerciado a nível mundial fica ali retido e há aqui um impacto muito considerável sobre a economia global. Face a estas baixas norte-americanas, face à posição irredutível do Irão, face à dificuldade em encontrar uma resposta, é expectável que haja esta retórica norte-americana. Mas em simultâneamente, aquilo que nós vemos é também uma tentativa de conseguir manter canais negociais abertos e vemos aqui os mediadores em esforços para manter a manutenção destes canais abertos.

Entretanto, Donald Trump garantiu também que os Estados Unidos estão a degradar as capacidades militares do Irão. Diz que Teerão precisaria de 25 anos para se reconstruir depois dos ataques norte-americanos. Começo por lhe perguntar se isto é verdade e também como é que estão, na realidade, as capacidades militares do Irão.

Aquilo que tem sido feito do ponto de vista operacional militar, têm sido ataques a alvos militares. Estamos a falar de radares, de bases militares, de lançadores de mísseis, a locais onde são produzidas munições e drones. Passámos agora para uma segunda fase. Já começou a haver bombardeamentos de infraestruturas civis de duplo uso, as pontes, por exemplo, e à capacidade norte-americana. Nós temos que perceber que estamos perante a principal potência mundial em termos militares e que se os Estados Unidos quisessem ou tivessem essa intenção, têm a capacidade de causar dano e de arrasar o Irão. Mas esse nunca foi o objetivo, nem político, nem militar. Aquilo que se procura fazer e que se tem tentado fazer é a degradação das capacidades. Conseguiu-se reduzir aquilo que é a capacidade, por exemplo, de lançar mísseis, mas o Irão tem ainda algumas capacidades, algumas delas estavam subterrâneas e que neste momento têm vindo à superfície e têm, sobretudo, a capacidade, temos falado bastante nisto desde o início desta Guerra do Golfo, que é a capacidade de com pequenas embarcações, os chamados navios mosquito da Guarda Revolucionária, de causar dano a navios que circulem, por exemplo, pelo estreito de Ormuz. Temos a degradação de capacidades, houve aqui a concretização de um objetivo militar, mas não se deve subestimar a capacidade que o Irão tem e também capacidade que tem, porque nós não nos podemos esquecer que o Irão cultivou ao longo destes 47 anos uma rede de proxies e que tem aliados na região, sejam eles o Hezbollah, sejam eles os Houthis, que o Irão financiou, que o Irão armou e que neste momento servem também como um braço armado deste regime. Não será fácil para os Estados Unidos combaterem este regime, porque utilizam aquilo que é a guerra assimétrica e metodologias que não cabem dentro das leis das guerras. Porque se os Estados Unidos quisessem destruir o Irão, o que seria ir contra tudo aquilo que é o normativo do direito internacional, do direito humanitário, em termos de pura capacidade militar, teriam essa capacidade. O que se procura aqui fazer é pressionar o Irão para voltar às negociações e, até ao momento, com infelizmente pouco efeito.

Mas antevê que essas negociações possam dar frutos brevemente?

Eu tenho muitas dúvidas. Neste momento, aquilo que eu vejo, e porque os sinais estão todos aí, a deslocação de forças e levantaram muitos aviões das bases militares americanas que estão em solo alemão e deslocaram-se em relação a Israel. Nós temos uma quantidade de aviões caças, de aviões reabastecedores, há aqui uma projeção de forças que indicia duas coisas: um, ou se está a preparar uma defesa do Estado de Israel contra um ataque do Irão, que é previsível, e em Israel toda a gente espera que este ataque venha a acontecer. Dois, ou se está a preparar uma nova ofensiva norte-americana bastante mais extensa e provavelmente às instalações do programa nuclear iraniano. Há aqui estes dois cenários possíveis Acho muito difícil, não apenas porque os Estados Unidos perceberam que o Irão não é um parceiro negocial de confiança, e eu às vezes estranho ver tantos analistas e comentadores acreditarem na boa-fé do Irão e quase sentirem uma espécie de Schadenfreude pelo Irão estar a conseguir de alguma forma obstaculizar os Estados Unidos. E do outro lado, temos os Estados Unidos que não podem sair humilhados desta batalha. Batalha esta que não diz respeito só a ele. E esse ponto é extraordinariamente importante. Todos os relatórios que têm vindo a ser publicados pelos serviços de intelligence europeus e ocidentais, têm dado conta das movimentações iranianas em países europeus e ocidentais, onde se prepara um conjunto de atentados terrorista contra alvos europeus, contra alvos israelitas e judeus na Europa. Ainda muito recentemente, na Grécia, foram detidos operacionais do Hamas que preparavam estes atentados, que tinham ligações à Alemanha, que tinham ligações à Áustria. Nós temos aqui o Irão como o principal financiador, patrocinador, instigador e que já concretizou muitos destes ataques, começando logo com a estreia do Hezbollah em 84 no Líbano, que matou 251 soldados marines norte-americanos e que veio a concretizar uma série de atentados. Às vezes, quando se faz esta análise, seja por militante antiamericanismo, seja por não se gostar de Israel, esquece-se que o Irão também nos ataca a nós e que o projecto da revolução islâmica, concretizado em 79, é um projecto expansionista e que visa impor aquele regime, aquela visão de mundo xiita ao restante Médio Oriente, mas não apenas ao Médio Oriente. Quando os Estados Unidos combatem o Irão, quando Israel combate o Irão, que aliás, desde a sua fundação, este regime tem dito: "Morte a Israel, morte aos Estados Unidos", está a combater também pela defesa daquilo que são as sociedades livres, por aquilo que são as democracias liberais, aquelas onde nós nos encontramos. E eu acho que este aspecto, às vezes, não é suficientemente focado, é muito esquecido. E também a questão dos direitos humanos. O Irão tem executado todos os dias jovens, mulheres, homens que participaram nos protestos do início deste ano. E aquilo que eu vejo é um silêncio atroz e o ignorar-se que tipo de regime é este. Se calhar é aqui um esforço que todos nós, sociedade ocidental, temos que começar a fazer. É muito desagradável pagar €2 pela gasolina ou pelo gasóleo? É, sem dúvida, e há aqui um impacto. Mas não será mais desagradável nós vermos o que está a acontecer aos iranianos que estão a sofrer nas mãos deste regime torcionário e à ameaça que eles representam ou que este regime representa para todos nós e para as nossas sociedades?

O presidente do Líbano esteve hoje reunido com Donald Trump na Casa Branca. O que é que esperava que saísse deste encontro?

Este encontro é muito importante que aconteça. Nós estamos a assistir a algo que é histórico, que é um processo de normalização das relações entre Israel e o Líbano. Estamos a assistir à implementação da primeira zona-piloto em que Israel se retira, as suas forças, a IDF, se retiram e a LAF, as Forças Armadas do Líbano, tomam posição. Estamos a assistir ao governo legítimo do Líbano, aquele que foi eleito e que foi escolhido pelos libaneses. Está a conversar com Israel, visando, por um lado, garantir a segurança a que Israel e os cidadãos de Israel têm direito e, simultaneamente, levar a que Israel, tendo confiança nessa segurança, se retire do sul do Líbano e possam ter uma relação normal de vizinhos. Estes encontros que estão a ocorrer sob mediação norte-americana são históricos e é um processo que o Irão tentou bloquear a todo o custo, porque nunca nos podemos esquecer que o criador, o financiador, aquele que armou sempre este movimento terrorista, que é o Hezbollah, foi o Irão. É uma vitória político-diplomática, não apenas para o Líbano, não apenas para Israel, mas também para os Estados Unidos, porque se conseguir chegar aqui a uma pacificação, a uma normalização da relação entre estes dois Estados, teremos aqui um passo muito considerado dado naquela que é a estabilização da região.

Os Estados Unidos, entretanto, anunciaram hoje também um acordo comercial com a Jordânia. Qual é a importância disto neste momento?

A Jordânia é um dos locais onde os Estados Unidos têm estacionados um contingente militar significativo, que aliás, tem estado sob ataque. Aquilo que os Estados Unidos procuram há muito tempo fazer no Médio Oriente é manter estes aliados por perto, porque são importantes para aquilo que é a sua projeção de forças naquela região, mantê-los por perto e fazem-no através de uma garantia de segurança, simultaneamente, de vários acordos comerciais e de várias trocas comerciais, aquilo que é normal na atividade diplomática. É importante que o faça agora, no momento em que a Jordânia tem vindo a ser muito fustigada pelos ataques de um país que pertencia também ao mundo árabe e que se está a virar contra aqueles que seriam países irmãos.

Vamos também olhar para a Ucrânia. Têm sido dias agitados devido à remodelação do governo, mas sobretudo devido à demissão do ministro da Defesa, Mikhail Fedorov, e à escolha de Syrskyi para o cargo. Por que os ucranianos não querem este novo ministro da Defesa e, pelo contrário, por que exigem o regresso do anterior?

Mikhail Fedorov conseguiu ter aquilo que é sucesso no campo de batalha. É um tecnólogo, é alguém que apostou forte na utilização de drones, fez a ligação entre o Starlink e aquilo Que é as capacidades militares, fez uma reforma das Forças Armadas e é alguém que conseguiu poupar muitas vidas no campo de batalha e conseguiu um conjunto de vitórias militares importantes ao penetrar em profundidade naquilo que é o território russo. E todos nós nos recordamos dos ataques com drones feitos, por exemplo, contra a capital Moscovo, e ainda ontem 400 drones entraram no espaço aéreo moscovita. Seria alguém bem-sucedido e que usando aquilo que é a tecnologia, usando aquilo que é a inovação, conseguiu poupar vidas e conseguiu sair daquela lógica de guerra de atrição, que custa muitas baixas ao lado russo, mas infelizmente também custa muitas vidas do lado ucraniano. Quando pensamos naquele que é o seu sucessor, vemos alguém da velha escola. E os ucranianos não sei se querem estar a sacrificar os seus filhos, as suas filhas, as suas vidas, para um regresso a uma tática militar soviética ou uma guerra de atrição. Felizmente, isto também nos mostra uma coisa, que a Ucrânia, ao contrário da Federação Russa, é uma democracia e que é um país que apesar de estar em guerra há quase cinco anos, continua a ter a liberdade para os cidadãos saírem à rua, para os cidadãos protestarem contra o presidente, para os cidadãos questionarem aquelas que são as decisões políticas levadas a cabo ou tomadas por Volodymyr Zelensky. E isto é algo muito positivo e que nos diz das escolhas da Ucrânia. E é essa a principal motivação para a Rússia ter iniciado esta guerra, é o facto da Ucrânia querer ser uma democracia, querer estar naquele que é o concerto das democracias europeias e querer poder escolher aquelas que são as suas alianças políticas e militares, seja a União Europeia, seja num futuro que se crê a médio-longo prazo, a NATO. E isto é muito importante quando nós fazemos a análise, percebermos o que está aqui em causa. E depois há um cansaço também dos ucranianos, o que é normal, um desgaste muito grande da figura presidencial de Volodymyr Zelensky, porque nós vendo de fora, vemos como um herói e, de facto, tem sido alguém incansável naquele que é a defesa da sua soberania, do direito à Ucrânia existir, do direito à Ucrânia fazer as suas escolhas, mas internamente há todas as questões de política interna, do funcionamento do Estado, as questões ligadas à corrupção, tudo isso, tudo normal funcionamento, se quisermos, da pequena política, que leva os ucranianos a questionar e a democracia é isso mesmo. Quem está há muito tempo no governo e sobretudo em circunstâncias como estas, é questionado. Eu vejo isto como normal funcionamento da democracia na Ucrânia, o que é muito de saudar.

E perante esta onda de protestos e esta crise, o que lhe parece que Volodymyr Zelensky vai fazer? Vai manter a decisão ou pode dar um passo atrás quanto ao ministro?

Eu não tenho uma varinha mágica. Eu diria que Zelensky é sensível também àquelas que são as posições da sua população e percebeu aqui que Fedorov é alguém muito querido e alguém que tem, de facto, se quisermos, obra feita. E poderá haver aqui uma reversão da decisão. Agora, eu também não sei quais são os considerandos de política interna de Zelensky, nem sei dentro do Estado-Maior General ucraniano, que guerras internas aqui existem, mas elas são conhecidas, entre o Estado-Maior General das Forças Armadas e o ministro da Defesa. Aliás, elas são comuns na Ucrânia, são comuns numa série de países. Não é nada de novo isto acontecer.

Muito obrigada pela sua análise, Helena Ferré Covoia, analista de assuntos internacionais. O Gabinete de Guerra fica por aqui, está de regresso amanhã.