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E aqui vemos nós para a edição de sexta-feira de Gabinete de Guerra. Hoje temos como convidado o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo. Entrou em vigor às 10h, hora de Lisboa, o acordo de cessar-fogo no Médio Oriente proposto por Donald Trump e assinado por Israel e Hamas. Não há notícias de violação deste acordo. Sei que olhas com algumas reservas para este entendimento, no sentido de até que ponto terá alicerces sólidos ou não para ser executado. O facto de não haver violações até ao momento deste acordo de cessar-fogo é uma boa notícia?

É uma excelente notícia. Eu tenho uma posição que pode parecer contraditória, mas que eu acho que não é. Eu acho que é uma excelente notícia, acho que é um acordo muito importante e muito de saudar, mas o acordo que para já foi alcançado é só em relação aos cinco primeiros dos 20 pontos do plano.

O mais difícil está por vir.

Portanto, o mais difícil está por vir. Os passos mais políticos, e nomeadamente o último de todos, que é ele próprio muito vago, que é vai haver conversações, vai-se reformar a autoridade palestiniana para eventualmente vir a ser possível criar um Estado palestiniano. Realmente, esses aspetos estão ainda muito longe. Agora, acho que realmente era crucial que houvesse um cessar-fogo nesta altura. A situação da população civil era absolutamente desesperada. A situação dos reféns que ainda tinham conseguido sobreviver a dois anos de uma detenção em condições terríveis pelo Hamas, estavam certamente em risco de vida, todos estes 20 que ainda estarão vivos. Portanto, acho que é uma ótima notícia, é muito de saudar este acordo, mas é apenas sobre os aspetos, apesar de tudo, mais fáceis e iniciais deste plano muito mais ambicioso e muito mais difícil depois de implementar.

O que é que se segue, o que é que é mais difícil de concretizar?

Para já, o que se segue é: temos de ver se o cessar-fogo se mantém, não é violado e se não há problemas com as trocas de reféns e de prisioneiros. Se não começamos a ter um ou outro lado, ou os dois a dizer que o outro lado está a violar os termos do acordo. Se isso for ultrapassado, no fundo, o que é crucial é manter-se o cessar-fogo para haver cessar-fogo enquanto se negoceia os passos seguintes. E aí temos questões como a questão de providenciar tropas, quem é que vai enviar tropas para a região. Enfim, temos indicações que o Egito e a Jordânia estariam disponíveis, isso seria muito importante. São Estados com capacidades militares significativas, exércitos profissionais. O Egito também é um ator regional muito relevante, é o único vizinho de Gaza para além de Israel, portanto, haveria aqui um efeito também dissuasor adicional, ou seja, a ideia de entrarem só com tropas egípcias seria no fundo comprar uma guerra também com o Egito, isso pode servir um pouco de dissuasão. Mas será um teste importante, não podemos dar nada disso por adquirido, não temos ainda indicações sólidas a esse respeito. É preciso tropas, essas tropas terão de treinar forças palestinianas, é preciso selecionar quem é que vai gerir Gaza, não só os responsáveis internacionais, a parte Tony Blair, que é muito contestado, outros, e depois os tais tecnocratas palestinianos, quem é que são eles. Há tecnocratas fora da autoridade palestiniana, se forem da autoridade palestiniana, Israel irá aceitar? Portanto, logo aí começam questões que são em si complicadas. Agora, eu acho que no fundo também aqui o ponto é: não se vê grande alternativa. Portanto, eu acho que pode-se apontar muitos problemas ao plano e muitas áreas muito vagas e obstáculos potenciais, mas realmente não se vê alternativa. Eu diria que há aqui um problema, em todo caso, que é relevante sublinhar desde já, é que está tudo muito focado em Gaza, também por razões compreensíveis. Era lá que o conflito estava mais ativo e tinha atingido proporções dramáticas, mas a situação na Cisjordânia, que basicamente é ignorada neste plano, até ao ponto final, é muito complicada também, está longe de estar estabilizada, tem-se degradado, tem havido cada vez mais incidentes violentos com colonos armados, tem havido uma expansão de colonatos e o anúncio da intenção de expansão de colonatos, e é aí que vive a maior parte da população palestiniana. Isso mostra bem como realmente há aqui muitas zonas que estão fora do acordo ou que ainda não estão acordadas, que podem complicar depois as coisas, mesmo que em Gaza as coisas continuem a correr de acordo com o plano.

O acordo de cessar-fogo, como disse, entrou em vigor esta manhã, a coincidir com o anúncio do Prêmio Nobel da Paz. É uma coincidência?

Eu penso que é possível que para Donald Trump não fosse uma coincidência. Ou seja, é possível que Donald Trump se tivesse empenhado mais e tivesse exercido uma pressão maior para tentar ter, no fundo, um plano, um cessar-fogo, não apenas um plano, mas um cessar-fogo em cima ou antes do anúncio do Prêmio Nobel. No fundo, eu acho que Donald Trump não é muito atento a estas coisas mais formais, a estas regras mais formais. À partida, isso não deveria contar muito, porque formalmente o Prêmio Nobel é atribuído hoje, mas diz respeito a 2024. No fundo, a entrega de candidaturas e o processo de análise das candidaturas começa em janeiro, porque é suposto haver aqui alguma base para a decisão e, portanto, é preciso alguns meses para decidir. E portanto, à partida, o comitê Nobel tem aqui uma escapatória fácil, que é dizer esperar pelo próximo ano, quer dizer, o processo de paz já em 2025. Além do mais, é preciso ver se realmente dura o suficiente para ser merecedor realmente de um Prêmio Nobel.

Como é que interpretas esta vontade de Donald Trump querer ser agraciado com esta distinção? É uma questão meramente relacionada com o ego do presidente dos Estados Unidos?

Eu acho que é uma ambição perfeitamente legítima. Acho que realmente os presidentes americanos foram os líderes mundiais mais agraciados com prêmios Nobel Quatro presidentes americanos receberam o Prêmio Nobel, logo no quinto ano em que o prêmio é atribuído, em 1906, e o primeiro chefe de Estado ou chefe de governo a ser agraciado com o Prêmio Nobel é o presidente Teddy Roosevelt, por causa do processo de paz entre a Rússia e o Japão na Guerra Russo-Japonesa em 1906. Acho que aqui há um lado pessoal no caso do Donald Trump. Há esta ambição, no fundo, de ganhar o que houve para ganhar, de uma certa validação. Acho que há um lado também interessante que é, muitas vezes, os trumpistas são muito "dismissive", como se diz em inglês, tendem a desprezar um pouco a velha Europa, mas na verdade, eu acho que em particular Donald Trump valoriza muito a velha Europa e o soft power, o poder de atração, o prestígio, enfim, dos convites para o Castelo de Windsor ou o Prêmio Nobel. Portanto, acho que isto é um sinal de que a velha Europa ainda tem algum poder de influência, de atração. Mas eu acho que há um lado também pessoal, no caso do Donald Trump, que é a questão da rivalidade com o Obama. Ou seja, eu acho que uma das grandes razões por que Donald Trump decida concorrer é aquele famoso episódio no encontro dos correspondentes da Casa Branca, dos jornalistas da Casa Branca, em que há sempre um humorista e em que o presidente também faz geralmente um discurso bem-humorado, divertido, e em que Obama, no fundo, vamos supor assim entre aspas ou sem aspas, goza com Donald Trump e diz: "Donald Trump está sempre ocupado com grandes coisas, o que é que vai pôr na sua rede social ou que show televisivo é que vai participar. Eu só estive aqui ocupado a lidar com a paz e a guerra no mundo." E, portanto, eu acho que o fato de Obama ter recebido também o Prêmio Nobel, e Trump muitas vezes refere isso, ele recebeu e foi injusto. E diga-se até, até concordo com o Donald Trump nesse caso, e acho que até o Obama reconhece isso, o próprio Obama, segundo as memórias que temos, quando recebeu o Prêmio Nobel, ficou muito surpreendido porque estava na presidência há poucos meses e disse: "Mas eu ainda não fiz nada". Quer dizer, é basicamente um prêmio por ter ganho as eleições e no fundo haver esta expectativa de que será um bom presidente americano. Mas portanto, acho que essa rivalidade pessoal com Obama também explica muito esta opção do Donald Trump de mostrar que também ele pode ganhar um Prêmio Nobel.

Vamos agora falar da guerra na Ucrânia, no leste da Europa. Têm sido notícia nas últimas horas vários ataques a instalações energéticas ucranianas por parte das Forças Armadas russas. Que leitura? Por que instalações energéticas? Estamos próximos do inverno, tem a ver com isso?

Eu acho que faz parte deste calendário bélico a que nos temos habituado, que é quando começa a ser mais difícil avanços no terreno, no fundo, a Rússia começa a investir cada vez mais, ou seja, genericamente no período do inverno, começa a investir cada vez mais nos ataques à infraestrutura energética. Ela é obviamente muito importante em qualquer país, mas ainda mais em países como a Ucrânia ou a Rússia, em países do norte da Europa, em que, como sabemos, muitas vezes as temperaturas vão muitos graus abaixo de zero e, portanto, realmente é crucial haver aquecimento. E tipicamente também esse intensificar começa antes do inverno. Algumas semanas antes, alguns meses antes, para no fundo ir criando problemas que se vão acumulando antes de realmente o inverno também chegar. Portanto, parece-me que desse ponto de vista corresponde a isso, sendo que a Rússia realmente investiu muito no último ano em reforçar a sua capacidade de produção de mísseis e de drones, de forma a conseguir reforçar esta estratégia de guerra aérea, genericamente contra alvos civis, de forma completamente indiscriminada, mas em particular também contra esta infraestrutura crítica, procurando quebrar a vontade e resistência da população ucraniana, que incrivelmente se tem mantido ao longo destes três anos extremamente difíceis.

Ao contrário do Oriente Médio, estamos longe de conseguir chegar a um acordo de cessar-fogo?

A mim parece-me que talvez se Donald Trump, no fundo, transpuser as lições do Oriente Médio para a Rússia e para a Ucrânia, a situação possa mudar um pouco. Ou seja, aquilo que me parece que Donald Trump fez de diferente nos últimos meses foi uma grande pressão sobre as partes e em particular sobre Israel também, no caso do Oriente Médio. Neste caso, e obviamente já fazia uma imensa pressão sobre os estados árabes e sobre o Hamas, para o Hamas também aceitar o cessar-fogo. No caso da Ucrânia e da Rússia, aquilo que aconteceu foi uma pressão enorme sobre a Ucrânia, inicialmente, mas uma ausência de pressão sobre a Rússia, esta ideia de que bastava a relação pessoal que Donald Trump tem com Putin para Putin fazer um favor ao seu amigo e avançar de boa fé para um processo negocial. A generalidade dos países europeus e a própria Ucrânia foram dizendo que isso não era realista, com base na experiência histórica, que a Rússia só percebia realmente a linguagem do poder, da força, e que Putin só iria negociar com o mínimo de boa fé, só poderia ponderar um cessar-fogo, se achasse que militarmente não ia continuar a ter alguns ganhos. E para isso era crucial que os Estados Unidos dessem o sinal, não de que iam retirar apoio à Ucrânia, que iam pressionar a Ucrânia, mas pelo contrário, que iam continuar a apoiar e até reforçar o apoio à Ucrânia. É por isso que esta questão, por exemplo, da possibilidade de fornecimento de mísseis Tomahawk, que tem aparecido nas últimas semanas, me parece em si mesmo muito útil. Só esta especulação já é útil, porque há alguma pressão sobre a Rússia e se vier a verificar, ao contrário do que diz Moscovo, acho que é mais provável que leve eventualmente a haver algum esforço de negociação do que propriamente levar a uma escalada para uma Terceira Guerra Mundial, que seria realmente suicida.

É essa a ameaça de Vladimir Putin.

É sempre essa ameaça e esse também é o problema, é que a Rússia já está num ponto em que nem as promessas de paz, nem as ameaças são levadas muito a sério, porque são tantas as vezes em que a Rússia diz coisas que depois não são verdade, manifestamente, a começar pela própria invasão da Ucrânia. Como sabemos, a Rússia foi desmentindo basicamente até acontecer. Depois de acontecer, Putin por várias vezes disse: "Não vamos anexar território ucraniano", depois anexou, como sabemos. Portanto, realmente temos aqui um problema de descrédito da Rússia que torna problemático inclusive essa gestão da escalada. Apesar de tudo, a mim parece-me De um ponto de vista racional, isso não faz nenhum sentido. A Rússia não tem nenhum interesse em desencadear uma Terceira Guerra Mundial. Putin e a elite russa têm demasiado a perder nisso, como teríamos todos nós também.

E tem algum interesse em prolongar esta guerra na Ucrânia?

À partida, eu acho que o problema é muito familiar nestes conflitos armados prolongados, com custos muito elevados. É um pouco o repetir da dinâmica da Primeira Guerra Mundial. Também no terceiro ano da Primeira Guerra Mundial, com milhões de mortos já dos dois lados, houve imensos esforços negociais para a paz. Havia um reconhecimento muitas vezes dos líderes de ambos os lados que fazia sentido chegar a algum compromisso. O problema é que tinha-se investido tanto na guerra, as perdas tinham sido tão grandes, os custos tinham sido tão elevados, que os líderes tinham muita dificuldade em politicamente vender esse compromisso, esse cessar-fogo, essa paragem da guerra. E portanto, a mim parece-me que, nomeadamente no caso russo, isso é bastante evidente. Putin associou esta guerra ao seu legado, à legitimidade do seu regime e portanto, tem muito pouca margem de manobra para recuar. No caso da Ucrânia, além disso, há da parte do presidente Zelensky um compromisso de submeter qualquer acordo a um referendo, não só ao Parlamento, mas até à população. E para já, a indicação que temos da parte da população é que os ucranianos querem muito a paz, como é evidente, mas têm muito receio de uma paz a qualquer preço que pudesse significar que a Rússia se poderia rearmar, a Ucrânia não, que teria de deixar de contar, como preço por essa paz, pelas condições que a Rússia apresenta, com o apoio ocidental e portanto, isso seria dar tempo à Rússia para preparar um ataque futuro com muito mais hipóteses de sucesso em relação à Ucrânia. Portanto, dos dois lados, parece-me que há grandes dificuldades realmente em chegar a um compromisso.

E portanto, uma equação que torna difícil vislumbrar no horizonte uma solução que permita o calar das armas no leste da Europa. Bruno Cardoso Reis, obrigado pela tua presença neste gabinete de guerra dedicado às duas guerras no Médio Oriente e no leste europeu.

Obrigado.