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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do coronel José do Carmo. Olá, coronel, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Olá, bom dia. Zelensky diz que foram usados mísseis balísticos norte-coreanos no último ataque russo a Zaporíjia. Avisa também que a Rússia se prepara para colocar até 50 mil soldados de Pyongyang no terreno. Coronel, a integração em grande escala de tropas norte-coreanas vai permitir à Rússia manter a dinâmica de ofensiva sem precisar de decretar uma nova mobilização interna, que é sempre tão impopular?
Sim, esta integração de tropas norte-coreanas já aconteceu antes em menor escala. Mas no fundo, essas tropas o que fazem é libertar forças que estão em situações de defesa, portanto, situações de guarnição, libertar forças russas para a frente. Não é credível que vão ser colocadas forças norte-coreanas nas linhas da frente. Embora, é claro, tudo seja de se esperar, porque essas tropas vêm de um país onde não há um grande escrutínio e, portanto, são basicamente carne para canhão. Mas o que é normal que se faça é usá-las dentro da Rússia, para substituir tropas russas que não estão em grande quantidade, algumas delas estão presas a tarefas na retaguarda. E bastantes, aliás. Sim, isso vai libertar tropas russas para a frente. Mas também não é credível que a Rússia consiga colocar 50 mil homens a mais nas linhas da frente. Não é por aí que a frente vai colapsar. Uma coisa é ter pessoas, outra coisa é ter todos os sistemas que fazem com que o potencial de combate seja multiplicável. Não basta ter tropas, é preciso ter muita coisa mais, é preciso ter armas, equipamentos, integração, e tudo isso não se resolve apenas adicionando homens, isso não basta. Portanto, sim, vai libertar forças russas mais para a frente, não vai causar nenhuma disrupção significativa na linha da frente. Não é por aí que será o colapso.
Entretanto, Kiev entregou uma proposta para a paz a negociadores dos Estados Unidos. Pelos ataques a que temos assistido nos últimos dias, parece-lhe que a Rússia está disponível para negociar?
Neste momento, a Rússia sente que tem uma vantagem. A Rússia não abdicou, pelo menos formalmente, os seus objetivos maximalistas, que no fundo continuam a ser a total dominação da Ucrânia e colocá-la sob uma espécie de suzerania. E, portanto, a Rússia, neste momento, está numa situação que é circunstancialmente vantajosa, porque consegue produzir mísseis balísticos e agora tem com os norte-coreanos também, que no fundo, a Coreia do Norte terá, segundo algumas estimativas, enviado quase duas centenas deste tipo de mísseis que agora lançou sobre Kiev. São mísseis que não são tão bons como os russos, não são tão precisos, mas são mísseis intermédios, de curto alcance, e que no fundo causam o desgaste das defesas e são significativos. Agora, a Rússia neste momento está numa situação de vantagem. A Ucrânia não tem capacidade de defesa contra este tipo de mísseis, neste momento, não tem interceptores. Tem que encaixar os golpes todos, tem que, com medidas de proteção, tentar diminuir os prejuízos que esses mísseis causam. É uma posição em que a Rússia pode fazer-se cara na mesa das negociações, mesmo que vá à mesa das negociações, nestas circunstâncias, vai sempre com mais pretensões e com menos capacidade de fazer cedências.
Vamos agora até ao Médio Oriente. Donald Trump diz que os arsenais norte-americanos não estão em níveis críticos e garante que Washington pode, se quiser, atingir o Irão com muita força, palavras de Donald Trump. Mas Coronel, já vimos, por exemplo, que os Estados Unidos não conseguem abastecer a Ucrânia e que não há interesse em enviar tropas para o terreno iraniano. Este discurso de força é só para mascarar os limites reais da capacidade militar americana ou é mais uma manobra, mais uma vez, para forçar que Irão a ceder na mesa de negociações?
Isto é típico da guerra. Nós temos um caso em Portugal em que Deu-la-Deu Martins, num cerco a Monção, se não estou em erro, espanhol, e quando já não tinha comida, usou a última farinha que tinha para distribuir pães pelos espanhóis que estavam a cercar a vila, para os fazer levantar o cerco e acho que, por sua lenda, resultou. Há sempre esta ideia de nunca mostrar fraqueza, nunca sabemos qual é o estado psíquico do adversário, se está prestes a ceder ou não, muito menos vamos nós dar-lhe essa noção de fraqueza, vamos mostrar que estamos mais fortes. Isso faz parte da articulação. Agora, o que é fato é que os Estados Unidos, neste momento, baixaram o interessado do conflito e mantêm certamente a capacidade de causar uma grande destruição ao Irão, se quiserem. Agora, o problema é realmente que parece não haver, segundo aquilo que vai transparecendo, e segundo aquilo que parece até lógico, a indústria de guerra, nos países ocidentais, menos nos Estados Unidos, mas na Europa muito mais, deixou de fato ter uma capacidade de produção significativa para conflitos de alta intensidade. Isso foi baixando depois do fim da Guerra Fria. E neste momento, estamos num momento de reconhecimento de que as coisas mudaram, mas até lá, já estamos há quatro anos nesta guerra, e até lá, ainda não houve esta capacidade de dar a volta. A Rússia, por exemplo, passou para uma economia de guerra quase total e produz mísseis mais baratos, a um ritmo que depois do lado de cá, muito baseado na alta tecnologia, em coisas muito caras Guerras de pequena intensidade, pequenos golpes, não está preparada. Neste momento, os Estados Unidos podem, de facto, infringir golpes. Não com alguns tipos de armas que neste momento têm menos, Tomahawks, inclusive mísseis de ataques, mas têm aviões e bombas e têm capacidade de fazer muito estrago. O problema depois é manter isto e sustentar a retaliação que o Irão faz à base de mísseis, alguns dos quais já são muito sofisticados e conseguem manobrar. Aliás, esse foi um dos problemas que levou à depleção dos intercetores, foi que o Irão ajustou as suas táticas de ataque com mísseis, ajustou a sua tecnologia, há mísseis que manobram e, portanto, tornam muito mais difícil a interceção. Os Estados Unidos sabem disso, estão a estudar em plena operação, estão a fazer o seu debriefing sobre o que está a acontecer e sabem que o Irão pode causar muitos prejuízos e, portanto, enquanto não tiverem uma situação confortável ao nível de capacidades ofensivas e de ataque, vão manter isto em banho-maria.
E esta narrativa, não é? Claro.
A narrativa é sempre esta. Sempre à espera que o adversário veja que nós somos mais fortes.
E ceda de alguma forma, não é?
Sim, é um bocado. É ver quem pestaneja primeiro, basicamente é isso.
Ainda sobre o Irão, o antigo comandante-chefe da Guarda Revolucionária foi escolhido para liderar o Conselho Supremo de Segurança do País. Coronel José do Carmo, isto demonstra que a fação militarista assumiu, em definitivo, a condução das decisões estratégicas e das negociações também em Teerão?
Na verdade, já tinha assumido. Mesmo no tempo de Khamenei, a memória é curta, a memória histórica, mas a Guarda Revolucionária, no início do mandato de Khamenei, do anterior, do pai deste, Khamenei tentou controlar a Guarda Revolucionária, tentou colocá-la no exército.
E não conseguiu.
Não conseguiu. Aliás, a Guarda Revolucionária sobrepôs-se. E a partir daí, é a Guarda Revolucionária que comanda. Agora, interessa-lhe manter, obviamente, uma aparência de legalidade islâmica, porque o regime é islâmico, tem esta caracterização de regime islâmico, com uma legitimidade divina, que vem de Deus, não apenas nas armas, mas na prática é, de facto, um regime militar. É um regime militar, é uma ditadura militar dirigida por fanáticos, em especial a Guarda Revolucionária, que são sobretudo fiéis ao regime islâmico. O regime islâmico tem que ter um aiatolá, tem que ter uns clérigos, porque senão não é islâmico. Ora, os clérigos não mandam, os clérigos, no fundo, servem de árbitros, servem de legitimação, as decisões são tomadas pela Guarda Revolucionária, desde há muito tempo, na economia, na parte militar, em tudo. E portanto, desde há muito tempo que são eles que decidem isto. Agora, pode haver chefes militares da Guarda Revolucionária mais ou menos pragmáticos. Os que lá estão agora são realmente um piorio, porque muitos deles são procurados até pela polícia internacional, pela Interpol, por participação em atentados terroristas na Argentina, por exemplo, contra judeus. Tudo isso é gente que não é muito dada à saciedade.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. É mais um Gabinete de Guerra. É sempre um gosto contar consigo. Um bom dia.
Obrigado.
Obrigada.