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Abrimos a porta mais um Gabinete de Guerra, programa em que analisamos os conflitos em curso na Europa e pelo mundo, neste caso, na Ucrânia e na Faixa de Gaza. Hoje com a Madalena Mayer Resende, especialista em Ciência Política e também investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais. Madalena Mayer Resende, bem-vinda.
Obrigada. Boa tarde.
Boa tarde. Começamos pelo encontro entre Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, e o presidente francês Emmanuel Macron, com vários temas em cima da mesa: o cessar-fogo na Ucrânia, na Faixa de Gaza, também um possível acordo nuclear com o Irão. Continua o presidente francês a tentar fazer de principal figura europeia, apesar de um certo enfraquecimento interno?
Sim, de facto é um sinal positivo esta presença de Marco Rubio em Paris. É de notar realmente que Rubio é mais pró-europeu do que Witkoff, ou do que Hegseth, ou mesmo o vice-presidente JD Vance. Portanto, esta visita parece ser, de facto, um bom sinal, no sentido em que demonstra que os Estados Unidos está a ter mais em conta as posições europeias em relação aos vários conflitos em curso, nomeadamente em relação à Ucrânia e, portanto, que esta parceria dos Estados Unidos e da Europa está um pouco mais viva hoje do que esteve nos últimos meses. É também talvez necessário ver que estas negociações têm lugar sob o signo das declarações de Trump acerca das tarifas, no sentido em que as negociações destas tarifas serão relacionadas com outros assuntos, ou seja, são realmente armas políticas para ganhos diplomáticos.
Uhum. Marco Rubio que, de resto, tem tido um pouco o papel de justificar declarações de Donald Trump, sendo que aparece aqui Marco Rubio como a figura de proa desta delegação norte-americana no encontro com Emmanuel Macron. Tem margem de manobra ou vem apenas representar os interesses de Donald Trump?
Eu penso que os interesses de Donald Trump nunca são muito fixos, ou seja, que as várias figuras do governo de Trump têm alguma influência e vão moldando as posições do presidente. Embora não tenhamos provavelmente resultados até amanhã, só a presença de Rubio em Paris e da delegação americana já é um bom sinal no sentido de demonstrar que Trump e a sua administração estão preparados para tomar em conta as posições dos europeus em relação aos vários assuntos, nomeadamente aqui está obviamente em cima da mesa a questão do processo de paz na Ucrânia, e que a posição de Macron e dos europeus em geral irão provavelmente ser tidas em conta neste contexto.
E terá algum significado que o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia também esteja em Paris exatamente no mesmo dia, ou será apenas coincidência?
Nunca é uma coincidência completa, mas obviamente que são duas visitas separadas. Haverá com certeza algum encontro e haverá provavelmente oportunidade para negociações, mas de facto é um sinal de que a Europa passou a fazer parte deste conjunto de forças que têm influência no processo de negociações entre os Estados Unidos, a Rússia e a Ucrânia. E percebemos que as potências europeias conseguem, de facto, ou têm conseguido, enfim, tornar-se parte do jogo político no qual estiveram sempre implicadas, obviamente pela sua presença e pelo seu apoio à Ucrânia, mas que no início da administração Trump pareciam ter perdido completamente quando a administração tentou fazer negociações diretas com Moscovo, sem ter em conta as posições europeias.
E nesse sentido, Macron aparece como a figura principal da Europa?
Não, obviamente que o que está a decorrer neste momento é, de facto, o posicionamento da Alemanha e de Berlim como a potência que, nos vários pontos de vista, nomeadamente em termos de encabeçar o apoio à Ucrânia e, de certa maneira, substituir os Estados Unidos e o apoio dos Estados Unidos, por um lado, à Ucrânia e, em segundo lugar, do seu compromisso pelo rearmamento para se tornar, de facto, a principal potência militar europeia, faz com que Berlim se torne cada vez mais central. Obviamente que Macron não quer deixar que a posição francesa seja relegada Um lugar muito menos importante e obviamente que diplomaticamente Macron e a França continuam a ser muito importantes e muito ativos, mas sem dúvida que o centro da política europeia se está, de facto, a deslocar para Berlim de forma cada vez mais óbvia.
E precisamente nesse ponto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia diz hoje que se a Ucrânia utilizar os mísseis Taurus, que foram fornecidos pela Alemanha à Ucrânia, a Alemanha torna-se aqui um participante direto do conflito. Eu pergunto, Madalena Mayer Resende, que consequências é que isso pode ter e até onde é que pode ir o envolvimento e a ajuda das potências europeias nesta guerra?
É óbvio, de facto, que a Alemanha, em particular agora com o chanceler Merz, passou a ter um papel de liderança muito mais ativa e um dos sinais mais palpáveis disso é esta disponibilidade para que os mísseis Taurus alemães possam ser usados na Ucrânia. E de facto, as potências europeias aparecem como crescentemente disponíveis para substituir os Estados Unidos, no que parece ser um movimento muito claro de retirada, e de substituir exatamente os mísseis americanos de longo alcance que os Estados Unidos estão paulatinamente a deixar de fornecer. Isto, de facto, torna-se um turning point, uma viragem muito clara da posição da Alemanha, como eu já disse, não só na disponibilidade para encabeçar o apoio militar à Ucrânia, como de se tornar a potência militar europeia mais expressiva. Desde que a guerra na Ucrânia começou, que o chanceler Scholz, na altura, declarou a chamada Zeitenwende, ou seja, uma mudança de tempos, no sentido em que a Alemanha se iria tornar uma potência militar, iria mudar o seu paradigma da Pós-Segunda Guerra Mundial, em que se retraía como potência militar. Mas na prática, é agora com a chancelaria de Friedrich Merz, que a Alemanha está, de facto, a pegar em todos os instrumentos político-diplomáticos para se tornar, de facto, uma líder, não só em termos econômicos, mas também em termos militares e diplomáticos. Portanto, eu penso que, de facto, as potências europeias estão disponíveis e esta posição de Moscovo é apenas uma tentativa, como muitas outras, de ameaçar e tentar dissuadir os europeus.
E continuamos a falar da Rússia, porque daqui por duas, três semanas celebra-se o Dia da Vitória em Moscovo. Apesar da pressão da União Europeia, o presidente sérvio vai participar, disse isto esta semana. Também surgiram notícias de que Donald Trump iria a Moscovo nesse dia 9 de maio, entretanto nunca foram confirmadas. Mas o que pergunto, Madalena Mayer-Resende, é se inevitavelmente começamos a ver, especialmente na Europa, uma divisão entre os países pró-Ucrânia e os países pró-Rússia, falo da Sérvia neste caso, mas também, por exemplo, da Hungria, e se isso, a médio e longo prazo, pode obrigar a uma reorganização.
Os países da Europa Central e Oriental, do qual a Sérvia é um exemplo muito acabado, mas temos outros casos, da Hungria, da Eslováquia, todos eles têm sido, ao longo da história, também pela sua posição geográfica e pela sua posição de pequenos Estados, adeptos de uma tentativa de serem os chamados fence sitter, de se sentarem na fronteira e verem sempre para que lado é que se hão de virar. E, portanto, é muito claro que esta presença do presidente sérvio, que tem tido ligações muito estreitas com Moscovo, mas também uma grande presença do investimento chinês, vai continuar a tentar jogar este jogo de se relacionar com os dois lados. E, portanto, este posicionamento, para mim, não é passageiro. É uma coisa que é quase uma tradição de política externa de alguns destes Estados, que a guerra da Ucrânia tornou mais difícil, mas de qualquer maneira para países em particular que não estão dentro da União Europeia, mas também temos a Hungria que está na União Europeia, e que tentam manter este jogo. E, portanto, não me admira e não me parece que seja algo que indicie uma mudança na sua política externa.
Mas é sustentável para a União Europeia ter Estados que fazem essa escolha de ficar em cima do muro, como a Hungria não obrigará, como vários países também têm sugerido, a sanções, por exemplo, para a Hungria?
Até agora a Hungria nem quis sair da União Europeia, nem desistir da sua ligação com o Trump. Para a Sérvia, que ainda não faz parte da União Europeia, é realmente um grande desafio manter-se nesta situação e é também um desafio para a Europa, obviamente, tentar impedir que países na sua periferia, com quem tem assuntos sérios para tratar, nomeadamente em relação à imigração e a todo o trânsito para aquela zona geográfica, é um desafio ter países com alinhamentos tão ambíguos. E portanto, a União Europeia e os países europeus estão sempre a tentar, de certa maneira, trazer para a sua órbita estes governos. Mas não é fácil e obviamente que este assinalar por parte do presidente sérvio é também uma boa forma de pôr pressão para os europeus para que aumentem o seu apoio a este país.
Temos pouco tempo, mas queria também ainda olhar para o cenário na Faixa de Gaza. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão está na Rússia para se reunir com Vladimir Putin. O Irão, que claro, é um dos principais aliados da Palestina. Podemos esperar um papel mais ativo da Rússia e de Vladimir Putin daqui para frente no conflito em Gaza?
Não, não parece de todo provável. A Rússia tem realmente um lado muito bem definido ao lado dos palestinianos, mas também é óbvio que a Rússia não tem, neste momento, condições para se envolver de forma mais ativa. É de relembrar que ela se retirou da Síria, onde tinha uma posição muito valiosa para si própria e que, portanto, a posição da Rússia, neste momento, no Médio Oriente, é bastante periclitante. Obviamente que há sempre esta defesa do Irão e esta conglomeração de defesa da Rússia e do Irão é antiga e obviamente não está para terminar, mas a verdade é que com a China em retraimento, o eixo Rússia-Irão tem muito menos capacidade de afirmação estratégica e, portanto, é pouco provável que, neste momento, a Rússia faça mais do que tentar substituir-se aos recuos da administração Trump em relação aos ataques do Irão. E portanto, isto é uma forma de pressionar, obviamente.
E falando no Irão, já agora volto também a essa visita do secretário de Estado, Marco Rubio, à França. Eu perguntava se este possível acordo nuclear ucraniano tem, de facto, pernas para andar, ou se neste momento há preocupações maiores para a Europa e para os Estados Unidos.
Enfim, é pouco claro até onde é que a administração Trump está preparada para negociar este acordo com o Irão, mas até amanhã teremos, com certeza, algumas novidades, mas é difícil de tornar claro para que lado é que serão.
E para terminar, o Hamas diz que as negociações para a entrega da proposta de tréguas a Israel estão quase concluídas. Até quando é que podemos esperar pelo retomar do cessar-fogo?
Acho que não está para breve, de todo. Não há forma de podermos trazer para o plano do possível esse desenvolvimento e, portanto, vamos ter que continuar a viver com um terrível conflito em Gaza.
Muito obrigado, Madalena Meyer Resende. Fica então por aqui mais um Gabinete de Guerra com Madalena Meyer Resende, especialista em Ciência Política e também investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais. O Gabinete de Guerra está de volta na próxima semana.