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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas no globo, com foco nos conflitos no Médio Oriente e também na Ucrânia. Hoje conto com a análise do coronel José do Carmo. Seja muito bem-vindo ao Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Coronel José do Carmo, vamos começar com a guerra na Ucrânia. A Estónia está a deslocar tropas para mais perto da fronteira com a Rússia, em preparação para um confronto direto possível. Estarão a preparar-se para agressão russa. Há sinais, efetivamente, nesse sentido?

Não há sinais de uma intenção russa que se manifeste em movimentos de tropas, em concentração de tropas. Não há esse tipo de sinais. Agora, a postura da Estónia e dos países bálticos, que no fundo estão todos na mesma situação, é dissuasão, é mostrarem que estão preparados, é mostrarem os músculos a dizer que estão preparados para um caso desses. Mas, de fato, não há sinais. Há sinais de guerra híbrida, de pressão feita a vários níveis, mas uma ameaça convencional direta, não há sinais desse tipo, até porque seria preciso obrigar a concentrar tropas e neste momento, de fato, não existem. Vai ter mais uma postura dissuasora. E de qualquer maneira, também há nesses países um corpo de exército germano-holandês, que tem à sua disposição nove agrupamentos preparados também para tomar atitudes se o caso disso acontecer, mas não está no horizonte imediato que isso venha a acontecer.

Mas não é um sinal de aumento de tensão?

É um sinal de dissuasão. Estes países bálticos sabem que têm muita pouca profundidade, que qualquer movimento súbito de tropas russas pode apanhar terreno, que depois é um fato consumado e torna difícil tirá-los de lá. Mas é uma postura dissuasora. No fundo, é dizer: "Estou preparado, por isso nem sequer tentem". Mas é evidente que essa tentativa implica sempre concentração de tropas e isso é visível, isso sabe-se. Neste momento, isso não está a acontecer ainda.

Vamos manter o foco neste conflito na Ucrânia, até porque hoje foi conhecido um estudo de opinião que diz que a maioria dos ucranianos defende que Zelensky não deve concorrer a um segundo mandato. Neste momento, não há eleições na Ucrânia devido ao estado marcial em que vive o país por estar em guerra. Mas a minha pergunta, coronel José do Carmo, é se Volodymyr Zelensky é uma figura gasta devido à guerra.

As guerras fazem isso. Basta lembrar o que aconteceu a Churchill, que conduziu a Segunda Guerra Mundial com sangue, suor e lágrimas. E depois perdeu as eleições quando a guerra acabou. Ou seja, as pessoas associam àquela figura todo o sofrimento que aconteceu. Não porque tenham-no culpado, mas porque foi a pessoa que esteve naquele momento num nível diferente. Aconteceu também com Pedro Passos Coelho. Estou a meter-me um bocado de política interna, mas foi um bocado isto. Passámos por uma situação difícil e ficaram associadas a quem está no poder as medidas duras e o período duro que depois dá origem a que as pessoas não identificam uma figura. É natural, não há aqui nada extraordinário. Zelensky foi eleito há muito tempo, a guerra tem estado a decorrer, os sacrifícios têm estado a acontecer e eventualmente, quando isto se resolver, haverá outras figuras menos ligadas a esta realidade. Não é nada de extraordinário, acho que é normal. É o que acontece em democracias desde há muito tempo.

Está Volodymyr Zelensky condenado a sair do poder na Ucrânia quando terminar a guerra, então?

As dinâmicas ucranianas são as que são. Não sabemos se o que está a acontecer neste momento será igual ao que acontecerá no caso da guerra se resolver e também depende do modo como a guerra se resolver. Não podemos antecipar isso. Temos esta dinâmica que já conhecemos em países como a Inglaterra, que foi o caso típico de uma guerra em que o vencedor da guerra acabou por perder as eleições a seguir. Enfim, pode acontecer, mas também não podemos partir do princípio que acontece sempre isso. As dinâmicas ucranianas dependem muito de como a guerra correr, quais são as alternativas internas que surgirão nas eleições. Eu não sou capaz de prever isso a esta distância.

Vamos avançar e falar também sobre o conflito no Médio Oriente. O Irão garante que forças norte-americanas fugiram, é o termo utilizado por Teerão, e se afastaram a 1000 km das fronteiras do país. Coronel, que leitura podemos fazer desta afirmação?

Eu penso que se estará a referir às forças americanas que saíram do Iraque. É uma leitura que convém internamente ao Irão, em termos de propaganda. Agora, esse movimento de saída das tropas americanas do Iraque já estava previsto e planeado há bastante tempo. Não tem a ver com esta guerra, embora, na verdade, ao saírem de lá, reduzem o número de alvos disponíveis para o Irão retaliar. Para o Irão é muito fácil lançar um míssil, embora as consequências depois acontecem, mas é muito fácil lançar um míssil sobre uma base americana, o que também para os americanos obriga, como são tropas muito dispersas, a ter defesas dispersas e, portanto, nunca são tão eficazes como se estiverem concentrados em alguns sítios mais estendidos. Portanto, o Irão obviamente usa esta retórica internamente a dizer que foi por causa deles que os norte-americanos se foram embora. Na verdade, não foi, embora haja vantagens nisso. Para os americanos também há desvantagens, no fundo também acabam por perder ali algumas capacidades locais que tinham de influenciar, nomeadamente a questão dos curdos, a questão dos movimentos islamistas ligados também ao ISIS. Mas não, é propaganda iraniana. Embora há aí um ponto de verdade, ou seja, as tropas americanas na região estão vulneráveis a ataques com mísseis iranianos, com mais ou menos defesas, mas há uma vulnerabilidade que o Irão explora, e tem feito isso nos países vizinhos. No caso do Iraque, a retirada americana não tem a ver com o Irão, tem a ver com um plano que já havia e que também se espera que se responda agora o Iraque, com o desarmamento das milícias ligadas ao Irão.

Ainda sobre este tema, há algum tipo de indicador de que esteja a ser feita alguma progressão nas conversas de paz?

Indicadores, neste momento temos: um grupo de um porta-aviões do Roosevelt que está a caminho da região, não sei se para reforçar ou substituir outro grupo que lá esteja, estão lá dois, e está a caminho também um grupo anfíbio, os Marines, uma força expedicionária de Marines e os navios de apoio para desembarques. No fundo, podem substituir os que já lá estão. Ou pode ser um reforço, que será concretizado no fim do mês de outubro, ou pode ser apenas uma substituição. Isso são sinais militares. Em termos de sinais diplomáticos ou civis, nós sabemos que há negociações, mas essas negociações, neste momento, passam sempre pelo mesmo: o Irão a querer o desbloqueio prévio de fundos e sanções, no fundo, o levantamento de sanções, e a América a querer que o Irão, além de abrir o estreito de Ormuz sem ameaçar, não deixar de ameaçar o estreito de Ormuz, que se comprometa com a parte nuclear, que é o que está aqui em causa. Eu, neste momento, se tivesse que apostar, diria que quem está na mão de cima são os Estados Unidos. Neste momento, as exportações de petróleo da região já estão em níveis superiores aos prévios à guerra, embora claro, com maiores custos, porque há maiores custos associados. Inclusive a proteção americana que é feita ali no estreito de Ormuz para os navios saírem é custosa, tudo isso custa dinheiro. Mas neste momento o Irão está numa situação muito difícil, que é estar a perder a mão, já não consegue impedir que o petróleo circule, sai mais caro, mas está a circular e perde a sua capacidade de forçar uma solução que lhe agrada. Tem como alternativa ou ceder nas negociações, embora possa não ser feito de uma forma humilhante, ou então aumentar a pressão bombardeando os países vizinhos, o que também tem custos para o Irão. Portanto, o Irão está numa situação em que está a ser estrangulado lentamente e não tem muita saída desta situação a não ser ou fugir pra frente ou fugir pra trás, que é neste momento a sua opção, ou cede e faz um acordo que não é perfeito pra eles e deixa a parte nuclear e a parte do estreito de Ormuz neutralizadas em relação às vantagens iranianas, ou então a possibilidade de fazer uma sortida e atacar os vizinhos pra criar custos, só que isso depois tem consequências que acabam por ser más pro Irão. Neste momento está com uma economia bastante difícil, com a inflação a subir, o real a perder valor a um ritmo impressionante e a falta de dinheiro pra manter inclusive o aparelho do regime, está numa situação difícil. Eu, neste momento, apostaria que quem está na mão de cima é a estratégia americana, que inclusive agora está a apostar sanções nas partes ferroviárias, nas partes rodoviárias, tudo que é componentes, tudo que é fabrico de viaturas, enfim, tudo isso está a ser pressionado de uma forma que é nova, que é no fundo inaudita.

Temos ainda dois temas a marcar a atualidade geopolítica, a marcação de eleições antecipadas em Espanha. O que é que lhe parece, coronel José do Carmo, que possa estar no horizonte para a Espanha?

Neste momento, o que se sabe da política espanhola é que Sanchez viu aqui uma oportunidade por esta questão das rendas e como ele aparece agora, ao fim de X anos, não sei quantos anos é que ele está no poder, já há muitos. E agora surge como o paladino da resolução do problema dos custos das rendas. E neste momento vê que tem uma vantagem. Ele fez umas propostas que não foram aceites por elementos dos seus aliados políticos e eleitorais, no caso de um partido da Catalunha, que não aceitou. E portanto, neste momento, ele aparece como o paladino de algo que é: "Vou resolver o problema das rendas" e vê-se neste momento, no melhor momento possível para tentar dar a volta às sondagens muito negativas que resultam das políticas internas, tem a ver com os escândalos internos que ele tem, a questão da imigração. Tudo isso estava a corroer bastante o seu poder, que já é um poder sustentado em uma coligação Frankenstein, com elementos estranhos de vários quadrantes políticos, mas essencialmente independentista de extrema-esquerda. E neste momento ele vê uma hipótese de não perder assim tão rotundamente ou até conseguir uma vantagem. E aproveita, no fundo, marca eleições porque acha que vai cavalgar a questão das rendas e das manifestações que têm havido por causa do custo das casas. Na minha opinião, embora eu não goste muito dele, ele é um tático brilhante, ou seja, ele viu aqui uma opção de dar a volta por cima. E não parece que houvesse nenhuma no horizonte. Esta viu e vai aproveitá-la, vai marcar eleições porque pensa que pode gerir esta tendência sobre a renda, esta indignação súbita que leva pessoas às ruas para se manifestar. Está a aproveitar isso.

Coronel José do Carmo, temos ainda um minuto e meio para falar do Brasil, também num período de eleições. Que leitura podemos fazer da primeira volta das eleições presidenciais? Temos um minuto e meio até o final do programa.

A leitura que faço, embora não seja especialista político, a leitura que faço é que, pra já, tudo que é resultados que se conhecem neste momento, que é uma vantagem de Bolsonaro, contradizem aquilo que eram as tendências eleitorais anunciadas. Eu só conhecia as sondagens pela televisão e o que via era sempre uma ligeira vantagem do Lula. E neste momento parece que Bolsonaro tem uma ligeira vantagem, acho que 2%, se não me engano. Desconheço quais são aqueles outros candidatos menores que ganharam alguns percentuais pequenos, 2% ou 3%.

E como agora estão fora da corrida.

Estão fora da corrida, mas esses votos não sei para quem é que irão cair, não sei quais são as tendências desses candidatos e qual é a sua possibilidade de eles caírem pra um lado ou pro outro, porque no fundo a distância é muito pequena, 2% é muito pequeno. Agora, a tendência, pelos vistos, parece ser de dinâmica de vitória para o candidato Bolsonaro e parece ser uma dinâmica que não é de vitória e que é uma dinâmica de derrota, ou pelo menos não é positiva da parte do Lula. Enfim, acho que está tudo aberto. Será difícil aceitar uma vitória do Lula, acho que vai ser difícil no caso do Bolsonaro. Lula se calhar está mais predisposto a aceitá-la porque neste momento está na mão de baixo. Vamos ver.

Chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigado, José do Carmo esteve na análise na edição de hoje do Gabinete de Guerra.

Obrigado eu, foi um prazer.