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Está reunido mais um gabinete de guerra na tarde em directo da Rádio Observador. Vamos analisar os dados mais recentes da guerra na Ucrânia e hoje está conosco o coronel Mendes Dias. Junta-se à Judite França, ao Bruno Vieira Amaral e ao Miguel Vieira.

Gabinete de guerra que coincide com a Cimeira da Comunidade Política Europeia, com Zelenskyy à entrada a reafirmar o objetivo da Ucrânia de aderir à NATO e com o secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, a dizer que Moscovo não pode impedir Kiev de entrar na Aliança Atlântica. Senhor Coronel Mendes Dias, boa tarde. Bem-vindo mais uma vez à Rádio Observador. Está a Ucrânia mais próxima da NATO?

Boa tarde. Mais próxima da NATO não é certamente por esta cimeira. Obviamente que o presidente Zelenskyy está a fazer da cimeira como que uma antecâmara do esforço que poderá ter um passo importante em Vilnius, na cimeira da NATO no final de julho. E pode estar um pouco mais próximo, mas julgo que não será na própria cimeira de Vilnius, para as pessoas perceberem que se dará a adesão ou passos deste ponto de vista, até porque está numa situação de guerra e nesta circunstância é impensável a adesão da Ucrânia à NATO. Eu queria recordar, e não fugindo à questão, porque a pergunta é no sentido da NATO, embora estejamos numa cimeira da comunidade política europeia, que existem critérios que têm que ser respeitados por qualquer país que pretenda aderir à NATO. Obviamente, primeiro é convidado, há um plano de adesão, mas depois há seis critérios ou aspetos que importam respeitar. E às vezes só se fala de um, só se fala de outro. Eles são, sinteticamente, aspetos de natureza política, aspetos de natureza económica, aspetos de natureza de defesa, por exemplo, a organização do Ministério da Defesa ou o planeamento de defesa, etc. Aspetos relativos a recursos, aspetos jurídicos e aspetos de segurança. É por isso, por exemplo, que Montenegro levou neste programa de adesão, julgo, de 2009 a 2017. É no cumprimento desses aspetos todos que levam, ou digamos que é assim, os países respeitam ou cumprem os requisitos todos exigidos pela NATO. É óbvio que dentro do quadro soberano, qualquer país que entenda que fazer parte da NATO constituirá o seu potencial estratégico, pedir a adesão e trabalhar no sentido da adesão. E por conseguinte, isto é claríssimo, seja Portugal, Ucrânia, enfim, outro país que se incida nos objetivos também do Tratado de Washington. Isto é, que é garantir a segurança na área do Atlântico Norte. Importa não esquecer o Tratado de Washington, 1949. A Ucrânia até se insere, porque o Mar Negro é um mar subsidiário, juntamente com o Mediterrâneo, e a Ucrânia faz parte dessa grande área alargada do Atlântico Norte. Parece-me que em Vilnius, na reunião NATO, para além de aspetos que tenham a ver com a própria organização da NATO, que não interessa para aqui, novas reestruturações, passos de interesse estratégico, etc, julgo que o que poderá ser conseguido, pelo menos porque as decisões são todas tomadas por unanimidade no quadro NATO, por exemplo, o caminho para uma instituição. Agora, a colaboração entre NATO e Ucrânia é através de uma comissão. E o caminho pode ser a criação, e é isso que se fala, de um Conselho NATO-Ucrânia. Obviamente que os países do leste da Europa e a própria Ucrânia não se sentirão satisfeitas com isto. O que é que permitiria, por exemplo, este Conselho NATO-Ucrânia? Iria permitir aos responsáveis ucranianos assistir a várias reuniões na qualidade de convidados, participar em debates, iniciando conhecimento sobre o corpo doutrinário da NATO, ir adiantando futura integração. Eventualmente, uma aprovação de um plano de ajuda, incluindo a militar, embora aqui com uma série de reservas, no fundo, assentar bases de reforma, por exemplo, relativos aos aspetos de defesa. Enfim, era um passo no sentido dessa adesão. Mas quero dizer, há coisas a cumprir, mas é claro que do ponto de vista da soberania, e na questão soberana, caso não haja competências exclusivas de organizações nos países, neste caso não há, a Ucrânia é livre de solicitar a adesão à NATO. Mas também os outros são livres. Se virem nisso qualquer desvantagem, de por todos os meios legítimos, legais e outros, dentro deste quadro institucional e legítimo, de tentar impedir se isso for contra os seus interesses, que é o quadro russo.

Certo.

E é isto que se passa.

O diretor do Serviço Federal de Segurança da Rússia disse que a Cimeira da Comunidade Política Europeia, que decorre hoje na Moldova, demonstra o interesse internacional em empurrar o governo de Chisinau para a guerra. Acha que o local escolhido para a realização da cimeira é importante?

Sim, claro que sim. Pelo menos não sai da nossa mente que a seguir a estas ações russas, muito provavelmente poderia seguir num futuro próximo a Moldávia. Já lá tem a Transnístria, esse problema, e isto não é ingénuo. E também a Moldávia ter aceite Que este summit se realizasse lá também é uma clara demonstração que, do meu ponto de vista, falando de forma simples, pretende fechar a porta à Federação Russa e escancarar a porta à União Europeia, à qual aliás, já pediu a adesão, e demonstrar que o lugar da Moldávia é na União Europeia e portanto ficar sob a zona de influência ocidental. Isto parece óbvio, até porque se nós formos a levar à letra as finalidades desta recentíssima organização, não nos podemos esquecer que as finalidades delas, no fundo, é uma plataforma de coordenação política, mas por exemplo, deve promover o diálogo político de cooperação para abordar questões de interesse comum. E portanto há aqui interesses comuns à volta, mesmo no quadro da demonstração de união contra a Federação Russa. E depois reforçar segurança, estabilidade, etc, e prosperidade do continente europeu. Portanto, no quadro geral das suas finalidades, o que a Moldávia pretende é isto e o que a União Europeia também pretende. Factualmente e por colocar a geografia física a falar para nós, a Moldávia é Europa, melhor, é União Europeia, e a ela deve pertencer, ostracizando a possibilidade da esfera de influência se arrastar para leste em lugar para ocidente, independentemente dos 12% de laços russos e da cultura russa instalada, que não tem sido relevante para apoiar a Rússia nas suas ações. Mas claramente, objetivamente, o local escolhido não é ingénuo.

O chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, afirmou esta quinta-feira que está disposto a continuar a luta na Ucrânia se os palhaços, diz ele, de Moscovo não estiverem no comando. Este mal-estar não é novo, mas o que é que explica que se mantenha esta relação entre o Grupo Wagner e o Kremlin? E pedir-lhe por uma resposta rápida.

Rápida. Eu julgo que ainda, que não é tomar muita a atenção, temos a ideia de que Prigozhin não tem acesso direto a Putin. Verdade. Não tem nenhum cargo oficial na administração russa. Verdade. E porventura até existem poucos aliados de Prigozhin no seio da administração russa. O que é que ele pretenderá com isto? Criar dissensões internas? Qual a solução que seria criada para a Rússia menos má que a que temos para o quadro ocidental? Com as pessoas eventualmente disponíveis e acreditando na nossa capacidade de moldar isso. Não existem. Mas deixe-me dizer o seguinte: eu julgo que se o líder do Grupo Wagner, e estou perfeitamente a especular, se tornar muito incômodo para a liderança russa, porventura um dia deste pode cair de uma janela. O que se prefigura no modo de atuação, isto é, pela calada, na penumbra da noite, acontecer alguma coisa, se isso se passar. Mas eu julgo que Prigozhin, e obviamente não queria contrariá-lo, já afirmou até que o Grupo Wagner, após essas afirmações, futuramente, depois da rotação, terá um mês eventualmente de descanso e se calhar até vai combater no interior da Federação Russa contra as formações pró-russas e ucranianas que estão a fragilizar o território russo. Julgo que já há afirmações posteriores a esta e que vão neste sentido.

Agradeço-lhe, Coronel Mendes Dias, aqui com a análise a esta relação tensa entre o Grupo Wagner e o Kremlin com Prigozhin, o líder do Grupo Wagner, desta feita a chamar palhaços aos representantes de Moscovo. Ora, foi mais uma edição de "O Gabinete de Guerra".