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Recebemos a esta hora no Gabinete de Guerra a jornalista do Observador, Tânia Pereirinha, que publicou no site do Observador um texto sobre a saúde mental de Vladimir Putin. Tânia, a CNN diz que a compreensão do estado de espírito de Putin é uma das prioridades das agências ou dos serviços de espionagem. O caráter imprevisível ou a raiva com que Putin terá reagido às sanções são, para já, características que parecem não fazer sentido, tendo em conta o historial de Putin. O que eu te pergunto é: falaste com psicólogos e psiquiatras, que retrato é que eles traçaram do presidente russo?
Falei com psiquiatras apenas, não com psicólogos também. Aquilo que me transmitiram foi exatamente o contrário, é que estes traços e aquilo que Putin está a revelar nestes últimos dias não é de todo diferente daquilo que tem revelado ao longo de toda a sua vida. E a verdade é que basta uma pesquisa rápida para nós vermos que Putin, ao longo da história, tem dito uma coisa e o seu contrário, com muito pouco tempo de intervalo. Em primeiro lugar, o que estes especialistas me disseram? Afastaram a ideia de que ele possa ter enlouquecido ou que esteja a vivenciar um surto psicótico ou algo do gênero. Um deles, o doutor José Luís Pio de Abreu, disse-me inclusivamente que não pode haver aqui nenhuma colagem a uma doença mental, aquilo que se está a passar. Disse-me que existem homens bons e homens maus, só isto. Os outros especialistas com quem falei traçaram um retrato de alguém que sofre de um distúrbio de personalidade narcísica, que é uma coisa muito em voga nos últimos tempos entre os líderes mundiais. Aliás, Donald Trump supostamente sofre do mesmo. E este distúrbio tem todos estes traços associados: a raiva, a megalomania, esta ideia de dominação mundial, será tudo condizente com isto.
Putin já conduziu outras operações militares no passado, uma das mais recentes na Crimeia. Há alguma diferença entre o Putin de hoje, desta invasão ao território ucraniano, e ao Putin de 2014, quando se deu a invasão da península da Crimeia?
Eu acho que tanto daquilo que me disseram os especialistas como daquilo que li noutras fontes, a diferença será talvez a escala, porque de resto, não há grandes diferenças. Aliás, aquilo que muita gente diz é que isto é um caminho que ele tem vindo a trilhar ao longo dos últimos anos e que não há aqui nada que saia da caixa. Estava planeado ser feito assim.
Um homem esfíngico. Vladimir Putin tem aquele olhar quase intraduzível, ninguém sabe o que ele está a pensar. Também foi falado isso nas conversas que tiveste com os psiquiatras, Tânia Pereirinha, a expressão do olhar?
Não, por acaso não falámos sobre isso.
Não é revelador de nada, só do mistério, então.
Exato, sim.
Do botox, exato. Mas há aquela questão do culto da imagem, não é? Das fotografias, que ele faz questão.
Sim, e isso é mais um traço.
Se não me falho, no teu texto está até uma dele a pescar em tronco nu.
É surreal a quantidade de fotografias que existem do presidente russo em tronco nu, a pescar, em termas.
É capaz de o embriagar com o nosso presidente na praia, se calhar.
Sim, por aí. Mas o Marcelo ainda não tem um calendário com fotos suas todos os meses, como o Putin tem, pelo menos desde 2016.
São pequenas ilustrações dessa tal-
Dessa megalomania
Exatamente. E a questão da idade, que vi também referido no texto. Vladimir Putin vai fazer 70 anos e isso tem também peso naquilo que é a forma como ele querá ficar recordado e daí também poder influenciar estas ações?
Sim, em outubro ele faz 70 anos e disse-me um dos psiquiatras com quem falei, o doutor Vítor Amorim Rodrigues: a chegada a esta idade ou esta passagem de uma década pra outra, nesta fase de vida, costuma dar azo a este tipo de coisas. As pessoas com estes problemas de narcisismo ou de distúrbio de personalidade narcísica costumam fazer balanços de vida e provavelmente aquilo que se estará a passar com Putin, segundo ele, é que ele está a pensar aquilo que queria ter alcançado e aquilo que não alcançou ainda, e no pouco tempo que já terá para isso. Até porque na Rússia, a esperança média de vida para os homens é de 71 anos.
Pois, ou seja, já está a ver o fim, digamos assim, mais perto. Ia pegar também na questão da pandemia, porque há aqueles rumores de que pode já ter sido infetado pela Covid-19, mas há também aquelas imagens icónicas dele a reunir até com o staff mais chegado, com muita distância, pra salvaguardar essa segurança dele. Isso é também uma preocupação de um líder como Vladimir Putin?
Sim, outro traço desta perturbação é a hipocondria também e o medo, provavelmente, de desaparecer antes do tempo. Portanto, lá está, no Putin e na Rússia, são tudo rumores. Poderá ter estado infetado, não poderá ter estado infetado, também há relatos de que esteja doente com câncer ou com qualquer outra coisa. Não há confirmação de nada, mas sim, esta distância que ele tem mantido em relação às outras pessoas pode estar relacionada também com esta perturbação.
Criando até uma certa paranoia putiniana em relação à Covid, não é?
Sim. Aliás, ele tem uma coisa que é, durante uns tempos, não sei se ainda acontece, obrigava os seus colaboradores mais próximos, antes de se aproximarem dele, a passar por uma chuva de desinfetante e por uns raios ultravioleta para supostamente se descontaminarem antes de chegarem ao contacto físico com ele.
Portanto, é cada vez mais um homem só, não é?
Sim. É aquilo que dá a entender.
Isso também é, por si só, nas conversas que tiveste com os psicólogos, matéria de preocupação? Claro, é.
Sim. Estas características de antissocial. Alguém que se isola, alguém que provavelmente fica a pensar no seu problema ou naquilo que quer alcançar sozinho.
Seja como for, estamos perante um homem com uma personalidade muito forte, isso é visível, e que está a marcar, obviamente, os nossos dias pelas piores razões. Tânia Pereirinha, jornalista do Observador, obrigado por ter estado no Gabinete de Guerra aqui na Rádio Observador, com novas pistas para entendermos o que vai dentro da cabeça de Vladimir Putin.