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Abrimos a porta mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador, é o programa em que olhamos para os dois conflitos ativos no mundo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente, e hoje contamos com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito boa tarde. São 21 mil milhões de euros em apoio à Ucrânia. Foi o que saiu da reunião que aconteceu hoje do grupo Ramstein, entre os ministros da Defesa dos aliados. Ao todo estiveram representados 57 países. O ministro da Defesa britânico falou num apoio recorde ao financiamento militar da Ucrânia. Certo é que, pelo menos presencialmente, a Casa Branca, os Estados Unidos não marcaram presença. Pete Hegseth fez-se representar, mas por videoconferência. E o que eu te quero perguntar, Bruno, é se isto é um sinal de alguma reticência norte-americana em continuar a participar na ajuda militar a Kiev.
Boa tarde a todos. Espero que me estejam a ouvir. Realmente, é um sinal muito importante de que a Europa está a tentar fazer aqui um esforço para se substituir aos Estados Unidos. Agora, há esse dado positivo, que é há mais apoio pra Ucrânia e é num volume significativo, mas isso não disfarça este dado também fundamental, que é pela primeira vez realmente os Estados Unidos não estão presentes e não há nenhuma oferta americana e não é previsível que volte a haver no curto prazo. Já não será mau se não houver um corte da ajuda que já está na calha, já está comprometida por parte dos Estados Unidos e até um apoio que não tem grandes implicações financeiras, como em termos de informações para targeting, etc. No fundo, o que assistimos aqui é esta tentativa da Europa passar a mensagem que a Ucrânia não está, apesar de tudo, completamente abandonada. Vamos ver se isto é suficiente para, quer em termos materiais, quer em termos morais, quer em termos psicológicos, garantir que pelo menos a Ucrânia tenha o suficiente para se continuar a conseguir defender, porque realmente a guerra continua, todas estas conversas de cessar-fogo não se traduziram em nada no terreno.
Sendo que a esta hora, Bruno, a reunião entre Steve Witkoff, o enviado dos Estados Unidos, e Vladimir Putin já começou. Já vimos fotografias dos dois lado a lado a apertar a mão, aqui fotografias da agência russa TASS, que até partilhou um curto vídeo do início do encontro, é uma reunião que está a acontecer em São Petersburgo. Podemos esperar alguma coisa diferente ou apenas uma confirmação da tendência que temos vindo a assistir?
Vamos ver. À partida, os próprios russos deram o sinal de que não estavam à espera de grandes decisões ou de grandes mudanças. Não há a expectativa que saia daqui um cessar-fogo ou uma proposta de cessar-fogo minimamente viável, pelo menos a acreditar nessas informações vindas do lado russo. E realmente isso parece corresponder à estratégia russa, que é de ir tentando limitar, no fundo, avançar com supostos cessar-fogo, que na verdade são tentativas de limitar a ação ucraniana em certas áreas onde ela tem sido mais eficaz, na questão dos ataques em profundidade contra alvos ligados a infraestruturas críticas na Rússia ou a questão do conflito no Mar Negro, mas de resto manter o conflito ativo, manter os ataques aéreos em grande escala contra alvos civis na Ucrânia, manter esta pressão sobre a linha da frente. Há sempre também aqui o receio que a grande prioridade para a administração Trump seja não um verdadeiro cessar-fogo, mas algum tipo de acordo, por exemplo, da dimensão mais econômica, que seja do interesse dos Estados Unidos ou pelo menos do interesse que o Donald Trump entende como sendo interesse norte-americano, que é sempre esta visão muito curto prazo e muito focada em aspectos econômicos curto prazo. Vamos ver se em relação a isso também há alguma indicação. Isso seria à partida negativo, diria eu, no sentido de se alcançar um cessar-fogo com as garantias que seriam indispensáveis. Mas realmente as expectativas não são muito positivas em relação a todo este processo, desde logo porque os Estados Unidos estão aparentemente a partir aqui de premissas erradas, que é a ideia de que a Rússia está de boa-fé a tentar negociar um acordo, que isso inclusive permite dispensar questões como garantias de segurança, que são cruciais pra Ucrânia e para os aliados europeus. E isso também significa que do lado russo não há grande interesse em chegar a um acordo no curto prazo.
Bruno, no terreno esta semana vimos Volodymyr Zelensky denunciar a captura de soldados chineses, cidadãos chineses no exército russo, na Ucrânia. Pequim já veio reagir, negar que esteja a intervir de forma ativa no conflito da Ucrânia. No entanto, Zelensky diz que já foram identificados mais de uma centena de soldados chineses no exército de Moscovo, em operações militares na Ucrânia. O que esse possível envolvimento chinês quer dizer? A China vai acabar por ser arrastada para este conflito?
A China claramente não quer ser arrastada, mas no fundo temos este lado irônico também ao mesmo tempo, que é a Rússia sempre utilizou o argumento que havia alguns ocidentais, alguns europeus ou norte-americanos a combater ao lado da Ucrânia Apesar de haver zero provas e, pelo contrário, em muitos casos os Estados europeus e até os Estados Unidos desaconselharem os cidadãos de se voluntariarem, de participarem no conflito por sua própria conta, a Rússia usava isso como argumento para dizer que isso era prova de que a NATO estava envolvida, que os Estados Unidos estavam envolvidos, etc. E todo o tipo de apoio, mesmo que indireto, ocidental, em armamento, etc, era um risco da Terceira Guerra Mundial. Depois a Rússia vai buscar soldados norte-coreanos e aparentemente está a recrutar agora também cidadãos chineses. Vamos lá ver, eu não tenho aqui informação classificada, portanto não faço ideia, mas à partida até pelo número, eu diria que é mais provável aquilo que a China diz, que é não há aqui um envolvimento direto. Isto são cidadãos chineses que, tal como há fenómenos de imigração entre um lado e outra fronteira, que no fundo sentiram-se tentados pelos contratos milionários que a Rússia está a oferecer para conseguir desesperadamente soldados, portanto são realmente, do ponto de vista financeiro, propostas interessantes e terá sido isso que estará a acontecer. Agora, apesar de tudo há argumentos para dizer que a China claramente também não parece estar aqui a fazer um grande trabalho de impedir isso. Se realmente a ideia fosse impedir, apesar de tudo, a China é um Estado autoritário, não é propriamente um Estado democrático liberal como os países europeus ou os Estados Unidos, que têm mais dificuldades em limitar os movimentos dos seus cidadãos, mas no caso da China, também custa a acreditar que se o Estado chinês quiser mesmo acabar com isto, que não consiga de todo fazer isso. Mas para já, eu diria, tendo em conta até a escala, parece-me que será mais este fenómeno de uma certa permissividade chinesa, corresponde a esta postura genérica que é, de um modo geral, facilitar as coisas à Rússia, não aparecer aqui a fazer pressão sobre a Rússia, mas também não alinhar completamente e sobretudo não arriscar alienar demasiado, sobretudo os países europeus, que também são um mercado bastante importante para a China.
Bruno, e olhando brevemente para a guerra no Médio Oriente, na Faixa de Gaza, vimos nos últimos dias o Hezbollah admitir desarmar-se para chegar a um acordo com Israel. Acreditas que esta seja uma proposta genuína do lado do Hezbollah?
Sim, de facto no Líbano o Hezbollah em si é uma força fundamental, é geralmente considerada melhor armada do que o próprio exército libanês, com mais capacidade, mas realmente sofreu aqui um desgaste enorme com esta campanha muito bem sucedida da parte de Israel, que revelou em relação ao Hezbollah ter um nível de informações, de intelligence, de penetração que não tinha em relação ao Hamas e portanto isso levou àquela campanha devastadora de decapitação. Também foi muito eficaz no ataque aparentemente a paióis e a tudo que eram reservas de armamento, mísseis, etc. E portanto, isso foi muito eficaz, de facto, em desmobilizar, em desmoralizar o Hezbollah, tanto mais quando foi acompanhado também pela queda do governo do regime sírio, de Assad, que era o grande ponto de apoio e trânsito entre o Irão e depois o Hezbollah no Líbano. Portanto, eu diria que tudo isso pode dar alguma credibilidade a esta posição. Ela não foi assumida publicamente pelo líder atual do Hezbollah, portanto foi um elemento da direção. Portanto, vamos ver se isso se confirma. Se confirmar, realmente mostra que no Médio Oriente a dimensão militar tem um peso decisivo, que a paz pela força muitas vezes é a forma de se avançar. Agora, apesar de tudo, é preciso um processo político e aqui também há um teste fundamental do lado de Israel. Israel conseguiu grandes resultados militares, será que vai conseguir dar algum passo político, fazer alguma cedência, algum compromisso para consolidar isso em termos políticos numa paz mais duradoura? E isso implicaria, neste caso, a retirada de Israel das zonas que ocupou no sul do Líbano e portanto, neste momento a bola diria também estar do lado de Israel. E com este governo Netanyahu não é de todo garantido que Israel esteja disposto a fazer isso, a transformar vitórias militares também em vitórias políticas e negociadas.
Vamos esperar para ver na análise do historiador Bruno Cardoso Reis no Gabinete de Guerra desta tarde. Bruno, obrigado. Um abraço.
Obrigado. Boa tarde.