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Começa agora mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar dos rankings das escolas que foram conhecidos na sexta-feira da semana passada. Olá, Eduardo. Muitos alunos das chamadas más escolas aprendem com muito sacrifício, crescem apesar de muitas limitações. O que essa resiliência ensina que um ranking não consegue medir?

Olá, Judite. Ensina que as dificuldades para muitas crianças e para muitos adolescentes são uma escola de vida tal que isso tudo associado àquilo que a escola lhes pode trazer faz, de facto, toda a diferença. Ensina-nos também a necessidade de explicarmos aos nossos filhos que quando têm um conjunto significativo de privilégios, têm que os respeitar com todo o carinho e com toda a gratidão, porque há muitos miúdos da idade deles que não sabem aquilo que é metade das coisas que os nossos filhos têm ao seu dispor, que consideram naturais e que obviamente fazem com que tenham muito mais probabilidades de ter bons resultados, sendo certo que eu às vezes tenho medo dos rankings e dos quadros de honra, de mérito e de excelência. Eu percebo que se permeiem os alunos que têm bons resultados. Não tenho nada contra as boas notas, como imagina. Mas há alunos que não chegam lá ou ficam à porta desses quadros todos e que têm tantas dificuldades, têm que andar tanto até lá chegar, têm carências tão graves, mesmo em termos de recursos para enfrentarem as dificuldades, por exemplo, da Matemática ou da Físico-Química, que às vezes é a grande dor de cabeça do secundário, e ainda assim batalham e vão lá e se calhar, às vezes, pela vida fora, acabam por ter outro tipo de genica e outro tipo de determinação, quando se trata de pegarem naquilo que aprendem e se trata de levarem isso para o mundo do trabalho e crescerem com isso.

Como é que os pais podem falar deste tema com os filhos sem os dividir entre vencedores e vencidos?

Judite, eu acho que isto de nós falarmos de boas escolas, eu percebo, porque é uma média, é um número que permite escalonar tudo isto e permite, de alguma forma, termos uma ideia macro das escolas. E eu acho isto razoavelmente sensato, desde que depois as manchetes não dividam as escolas entre as boas e as más, porque o trabalho que supostamente aquelas que são piores fazem é um trabalho tão insubstituível que eu tenho muita dificuldade em percebê-las como más. Mas eu acho muito importante que os pais não deixem de explicar aos filhos que os privilégios que eles têm, desde o acesso a uma banda larga, Judite, que é uma coisa que quando foi da pandemia parecia democratizar-se para todos, e é o que é, em relação a um computador, que às vezes são jurássicos para uns miúdos e que são topo de gama para outros, até à possibilidade de aprenderem fora da escola aquilo que a escola infelizmente não consegue ensinar. E, portanto, eu acho que os nossos filhos têm que ter da nossa parte a sensatez de lhes explicarmos que o melhor que eles têm para merecer tudo isto é empenharem-se com lealdade, com a sensação de que não há só isso na vida deles, mas no fundo, têm que dar um bocadinho deles para que tudo isto que nós lhes damos seja merecido, porque eu acho que às vezes os nossos filhos têm como adquirido que tudo isto lhes é devido e perdem uma ideia de perspectiva em relação a muitos miúdos da idade deles que não têm nem metade e que às vezes com um esforço enorme conseguem ir a jogo por boas notas, inclusivamente, tal como os nossos vão de uma forma mais suave.

O ranking tem poder sobre as escolhas dos pais?

Tem um poder tão grande, Judite. E eu percebo que tenha, porque quando há escolas que são ano a ano referenciadas como as melhores escolas, mas quem são os pais que desprezam esta informação? Claro que tem. E claro que estas escolas não merecem que nós estejamos de dedo esticado em relação a elas a dizer: "Ah, que horror, são escolas privadas." Coisa nenhuma. Estas escolas seriam um exemplo magnífico para as escolas públicas, por exemplo, se as escolas públicas pudessem constituir as suas equipas de professores, se as pudessem manter com estabilidade, se as pudessem enquadrar no mesmo projeto educativo, se pudessem trazer os pais para a escola, como tantas vezes são trazidos nessas escolas. E, portanto, eu acho que tem, como não podia deixar de ser, mas eu tenho esperança que um dia a escola pública possa pegar em muitos exemplos bons das escolas privadas, as escolas privadas o mesmo em relação às escolas públicas, para que de facto se criem condições para que aqueles professores tenham mais oportunidades de crescimento profissional e aqueles alunos possam usufruir com condições que muitas vezes não têm. Dou um exemplo, Judite. O parque escolar de muitas escolas públicas tem condições que em muitos momentos são claramente superiores a muitas escolas privadas. Já se deu um passo importante, agora é importante fazer o resto.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outro para si, Judite, e até amanhã.