Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador, no dia em que as delegações da Rússia e da Ucrânia voltam a sentar-se à mesa das negociações em Istambul, na Turquia. As expectativas não eram elevadas e confirma-se que ainda não foi desta que se atingiu um cessar-fogo. Para este Gabinete de Guerra contamos com a presença, colaboração e análise do especialista em assuntos internacionais, Francisco Pereira Coutinho. Boa tarde e bem-vindo mais uma vez à antena da Rádio Observador. Dizia nesta introdução que não havia grandes expectativas em torno daquilo que poderia sair deste encontro e, na verdade, tal como se esperava, ainda não temos um caminho para a paz.

Boa tarde, Miguel. Obrigado pelo convite. Não temos, mas como refere, de facto, as expectativas eram baixas. Ainda assim, parece que existirá nova reunião, porque a dúvida que eu tinha, pessoalmente, é se esta seria mesmo a última reunião, porque aquilo que nós observamos no fim de semana é, no essencial, o recrudescimento do conflito, com ataques com drones, quer da Ucrânia, quer da Rússia, como não vimos até agora, e já estamos no quarto ano do conflito. Ainda assim, as partes reuniram, foi uma reunião relativamente rápida. Já se sabia que não haveria fumo branco para um cessar-fogo, até porque especialmente a delegação russa nem sequer tem esse tipo de poderes para tomar esse tipo de decisões. Ainda assim, aquilo que se vislumbra, e eu acho que isso é muito interessante, é a Federação Russa mostrar algum empenhamento em continuar com este processo negocial. Não sabemos sempre se de boa-fé, se simplesmente pretendem procrastinar ainda mais estas negociações, mas a verdade é que aceitaram uma nova troca de prisioneiros. E hoje há notícias que vêm de Moscovo que Putin se prepara para devolver centenas de crianças ucranianas que foram raptadas, tiradas dos pais. Aliás, esse rapto esteve na origem dos mandatos de detenção sobre Putin e sobre Belova, que é a Provedora da Criança, com quem ele esteve reunido. Essa era uma das condições que os ucranianos tinham indicado para avançar para um cessar-fogo: a troca de prisioneiros, a devolução das crianças raptadas e o cessar-fogo propriamente dito. Dessas três condições, duas foram preenchidas. Falta a mais importante, claro.

Vai contrariar um pouco aquela ideia de que a Rússia não está verdadeiramente empenhada em alcançar a paz?

A Rússia está empenhada em alcançar a paz, mas está empenhada em alcançá-la nos seus termos. Aquilo que se esperava também hoje é que os russos enviassem o tal memorando que continha as condições para a paz. Ainda não se sabe exatamente o que está nesse memorando. A reunião terminou há muito pouco tempo, mas se é aquilo que os russos têm dito que querem, que é no fundo eliminar as causas do conflito, isso é um caminho para lado nenhum, porque já se sabe que os ucranianos verdadeiramente não aceitam. Agora, também já se percebeu que a Federação Russa está muito interessada em continuar as negociações. Claro, não está interessada em uma paz justa, porque essa paz justa não levará a eliminar, segundo a Rússia, as causas do conflito. Estamos a ter negociações porque foi isso que foi exigido por Donald Trump. São negociações que os próprios russos sugeriram, inclusivamente o local, em Istambul, e estão a mostrar, pelo menos com estes gestos de boa vontade, alguma abertura a continuar as negociações. Na perspetiva dos ucranianos e do próprio Ocidente em geral, dos europeus, existem imensas dúvidas da boa-fé russa, se não passará apenas de algum teatro e de algumas concessões, que são concessões mínimas. Por exemplo, a troca de prisioneiros já foi feita dezenas de vezes ao longo dos últimos quatro anos. Agora, realmente, a questão das crianças é diferente. É a primeira vez que vemos abertura por parte da Rússia em devolver as crianças aos pais. Isto é um avanço significativo das negociações de hoje e, de facto, é preciso dizê-lo, é um sinal de boa vontade por parte da Federação Russa. Agora, vamos ser francos, é uma cedência mínima por parte dos russos, não tem qualquer impacto nas causas do conflito propriamente dito. Em todo o caso, é um sinal positivo e se isso acontecer, já valeu a pena ter avançado por este processo negocial.

Há pouco fazia referência aos ataques deste fim de semana. O que é que visaram esses mesmos ataques, essa ofensiva militar? Fortalecer a posição negocial de Rússia e Ucrânia neste encontro de Istambul?

Acima de tudo, mostrar as capacidades que os dois Estados desenvolveram ao longo dos últimos três anos. A Rússia, no fim de semana, numa das noites do fim de semana, atacou a Ucrânia com centenas de drones, estima-se quase 500 drones, o que objetivamente é um enorme problema para a Ucrânia, para a defesa antiaérea ucraniana. Como é possível defender-se de um número tão elevado de drones? No fundo, mostra à Ucrânia o que vai ser o seu futuro. A Rússia está a produzir um número crescente de drones e vai ser cada vez mais difícil à Ucrânia encontrar as contramedidas. Isto, evidentemente, causa o terror entre a população civil. Por outro lado, tivemos ontem, possivelmente, o ataque mais espetacular da Ucrânia na Rússia, que levou, estima-se, a que um terço dos aviões estratégicos, bombardeiros estratégicos russos possam ter sido destruídos E veja só, Miguel, estamos a falar de drones que foram transportados em caminhões, drones que podem custar 300, 400 euros, e um destes drones pode ter destruído um avião que custará 100 milhões de euros. E os russos, desde o início dos anos 90, já não constroem a maior parte destes aviões. Portanto, são aviões que os russos não conseguem sequer substituir e isto causou também um dano psicológico enorme sobre a Rússia e mostra que a Ucrânia ainda vai tendo iniciativa, apesar de estar muito acossada no campo de batalha. Agora, foi este o espírito com que se avançou para as negociações de hoje. Se as partes quisessem as duas ir para a paz, não estariam a ter este tipo de ataques como nunca tiveram ao longo do conflito. Mas vamos ver como é que as coisas evoluem a partir daqui.

Vamos dar um salto até ao Médio Oriente. Hoje, notícias, diferentes reações da comunidade internacional a um alegado ataque das forças israelitas a um ponto de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, em Rafah, no sul do enclave palestiniano. A pressão internacional de nada tem valido para travar o modelo de ofensiva militar de Israel em Gaza?

Não, de facto, não tem. O grande problema neste momento é que Israel alterou o modelo como está a distribuir a ajuda humanitária. E essa é que é, neste momento, a grande preocupação da comunidade internacional. Tudo isto era feito através das Nações Unidas, que são uma organização internacional, e agora está a ser feito por uma ONG americana e por mercenários. E evidentemente, isto causa imensas dúvidas sobre o tipo de resultado que este tipo de intervenção por parte de Israel pode levar. Há uma situação objetiva de fome em Gaza que tem que ser resolvida e não há confiança nenhuma neste novo modelo que Israel está a pretender implementar, porque nós sabemos que ao longo do último ano e meio diabolizou as Nações Unidas, considerou que era um modelo que levava a alimentar o Hamas e não apenas a população palestina. Mas este modelo alternativo é bastante problemático e nós temos visto que a sua implementação tem sido profundamente caótica e estes ataques ocorrem porque justamente ele está a ser testado no terreno, numa situação dramática, porque ainda por cima Israel não permitiu que a ajuda humanitária chegasse a Gaza durante dois meses e só há muito pouco tempo, há cerca de uma semana, é que voltou a deixar que caminhões entrassem em Gaza. Portanto, obviamente, neste contexto, é muito difícil que o resultado não seja este que estamos a ver neste momento. Agora, em relação à pressão internacional, ela só pode vir de um lado. Porque já se percebeu que Israel só reage à pressão que vier dos Estados Unidos. E aquilo que estava a ser discutido nos últimos dias era a possibilidade de haver um novo acordo de cessar-fogo, que foi desenhado por Witkoff, o grande amigo de Donald Trump, enviado especial para o Médio Oriente. Já haveria acordo de Israel, mas ainda não do Hamas, porque o Hamas exige que Donald Trump de facto garanta que o conflito vai terminar e que não vamos ter uma trégua humanitária de 60 dias, finda a qual voltaremos ao conflito como temos neste momento. E portanto, esta é a situação neste momento e de facto tudo depende muito daquilo que os americanos queiram fazer, que tipo de capital político é que Donald Trump de facto quer investir neste conflito confrontando os israelitas, mas ele não dá grandes sinais, neste momento de estar sequer a olhar para este conflito. Ele está distraído com outra coisa qualquer e enquanto não voltar a ter o foco em Gaza, eu não acredito que se avance nada.

A paz no Leste da Europa, mas também no Médio Oriente, ainda num horizonte bastante longínquo. Agradeço-lhe, Francisco Pereira Coutinho, especialista em assuntos internacionais, no gabinete de guerra desta segunda-feira com alguns dos factos mais relevantes da guerra da Ucrânia e também da guerra em Gaza.