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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que destacamos os principais conflitos e pontos de tensão na geopolítica mundial. Hoje conto com a análise do especialista em Relações Internacionais, Orlando Samões. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar por França, um fim de semana marcado por manifestações violentas. O presidente francês prometeu ser implacável. Foi determinado o recolher obrigatório em certas zonas, não só da capital, mas também de outras cidades. A minha pergunta, Orlando Samões, é se esta ação por parte do governo é suficiente para travar os protestos.
Bom, boa noite, muito obrigado pelo convite. Estamos, de facto, a dar continuidade a estes distúrbios, que neste momento já não têm sequer bem uma dimensão política. Não resulta daqui nenhuma ideia, nem parece que esteja, neste momento, minimamente nas ações meramente violentas, muitas delas, qualquer restício daquilo que iniciou este processo e que começou por ser até uma questão sobre algumas questões de educação, para dizer a verdade, difíceis de entender, porque não só os orçamentos da educação são muito generosos em França, como a França é um país próspero e avançado que naturalmente consegue apresentar níveis de vida, até mesmo condições económicas que não se coadunam muito com este tipo de protestos, a não ser se nos lembrarmos da própria história da França e da tendência que por vezes a França tem para de tudo fazer protestos que ganham uma dinâmica própria e que se tornam muito violentos, sem grande até ponto. E desta feita, parecem estar coniventes ou a tentar absorver algum deste efeito os candidatos mais aos extremos, neste caso, em parte Le Pen, mas acima de tudo Mélenchon. Mas também é importante ver que mesmo numa área da esquerda, estamos a ver aquele candidato Glucksmann, que se distancia mais e que tem outro tipo de narrativa, e naturalmente os dois candidatos que vêm da área de Macron, os dois ex-primeiros-ministros. Desta feita, achei interessante que nem o ministro do Interior se conseguiu demitir e que Macron tenta manter não só o apelo à moderação, mas todo o seu governo em funcionamento, tem mais esta medida de recolher obrigatório. Infelizmente, é nestas situações que as liberdades se perdem, sempre em nome da segurança. Percebe-se que a insegurança e esta instabilidade tenha que ser combatida, mas é uma pena que as pessoas não percebem que é através dos mecanismos democráticos e da sociedade civil e dos partidos e da discussão que devem tentar melhorar o que ainda houver para melhorar. E França já é um país muito desenvolvido, mas que pode sempre fazer melhor e neste momento, provavelmente o governo vai ter que acautelar o que se está a passar, mas também esperar que haja uma certa erosão natural. Há vários autores que muitas vezes quando falam deste tipo de distúrbios, dizem que depois dos três dias é muito difícil dar continuidade, porque há um relaxamento, um precisar até de descanso por parte dos ativistas que sejam mais ativos e que, portanto, estejam mais com este sentido de oportunidade deste momento, que constitui sempre também uma oportunidade para algumas pessoas até para cometerem meros crimes. Tem havido meras pilhagens que podem, a partir desta altura, começar a ter que desligar um pouco e provavelmente a situação poderá estar neste momento num pico, mas esperemos que volte ao normal. Enfim, pelo meio haverá o recolher obrigatório.
Certo é que no meio desta problemática em França, Emmanuel Macron, o presidente francês, viajou para o Golfo numa tentativa de encontrar soluções para um dos problemas que têm feito subir o custo de vida, que também fez parte dessas manifestações, o preço do petróleo e dos combustíveis. O que é que podemos esperar desta viagem de Emmanuel Macron e o que é que significa no contexto da geopolítica mundial?
Note-se que nós, em França, temos esta dinâmica constitucional em que os assuntos internos mantêm-se não só com o primeiro-ministro, com o Lecornu, como depois há um conjunto de ministros que está ao corrente da situação. O presidente da França tem esta função que tem uma dimensão de política externa, que é natural que continue com a sua agenda e o seu trabalho, que desta feita tem mais uns meses pela frente e é uma maneira de tentar mostrar que continua empenhado e que não mistura as várias camadas do poder. Ou seja, neste momento é Laurent Nunez, que é assim que se chama o ministro do Interior, é que deverá ter em cuidados, assim como o primeiro-ministro, a situação e até de permitir que Macron tenha essa visão mais macro, mais abrangente e que tente ver até que ponto é que não se consegue melhorar um pouco das condições, neste momento, dos mercados energéticos. E portanto, é natural que ele tente apontar para essa visão mais de longo prazo. Sabemos que as pessoas muitas vezes querem efeitos muito rápidos, mas nestas coisas da economia envolvem processos sempre muito lentos de oferta e disponibilização, neste caso, de energias, para as quais as decisões têm que ser tomadas e que a seu prazo começarão a ter efeitos. E Macron goza dessa respeitabilidade externa, que aliás, não coincide com a dimensão interna, onde já é criticado há muito tempo, onde a sua popularidade interna não é muito grande. Mas enfim, é externa e, portanto, ele mantém a sua agenda
Vamos avançar, falar também de uma situação que envolve o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, até porque o Kremlin propôs uma reunião tripartida entre o presidente norte-americano, o presidente chinês e o próprio presidente russo para discutir o futuro da guerra na Ucrânia. Uma reunião proposta, para já, pelo Kremlin, sem que a Ucrânia faça parte dos convidados. Faz qualquer tipo de sentido uma discussão sobre o fim da guerra sem um dos países beligerantes?
Nós estamos mesmo a viver história e Putin é, de facto, um dos políticos mais hábeis que se poderia ter imaginado. Ele está a conseguir enrolar-nos aqui bastante bem, fazendo propostas que até nem sempre percebemos como é que acontecem, mas que vão surgindo, obrigam-nos a comentar e a pensar sobre um assunto, mas o sentido é mesmo muito pouco. Claro que na mente de Putin, ter o apoio, a conivência de Xi, como tem tido, e como provavelmente pode ter havido um conjunto de autorizações tácitas dada por Xi. Se Xi fosse uma espécie de mediador e se tivesse a possibilidade de coartar ou limitar Putin, se calhar a guerra na Ucrânia seria diferente. Mas Xi também pode ter as suas pretensões nos mares do sul da China, também pode ter as suas posições sobre o bloco que considera asiático e do sudoeste e que naturalmente teve agora estas reuniões com Trump. E Trump pode ficar aliado na perspectiva de estar perante estes outros dois interlocutores que ele respeita e no qual ele vê pessoas com imenso poder, vencedores e que não estão sujeitos ao conjunto de freios e contrapesos constitucionais que Trump está, nomeadamente vai ter agora as intermédias precisamente porque o Congresso tem esta possibilidade de, passados dois anos do seu mandato, ter mais possibilidades de bloquear o presidente se as pessoas votarem no partido contrário, coisa que até historicamente acontece muitas vezes. E por isso esta proposta aparece ao jeito de Putin, que faz lembrar que a pequena Rússia, como era muitas vezes a Bielorrússia ou a Ucrânia, no fundo não existe. Quer dizer, há aqui uma dimensão de Putin que está a nos tentar dizer que Zelensky nem precisa de estar. É caso para dizer não está na mesa, está um pouco no menu, porque estaríamos então as três potências nas quais Putin está de bicos dos pés, porque Trump e Xi são, de facto, as duas grandes potências mundiais. Putin, se calhar, quanto muito do ponto de vista militar. Portanto, tínhamos aqui uma partição da Ucrânia, se calhar as terras raras, se calhar a possibilidade da influência política, no fundo, seria uma forma de a Rússia ganhar. A Europa não deve, de facto, aceitar esta situação. Não sabemos que tipo de negociação Putin estaria disposto a fazer. Repare-se que nunca se fala em qualquer tipo de cedência, nem em prioridades. E ele vai lançando estas ideias que nos baralham numa altura em que sente que Trump está do seu lado. São pelo menos 60 dias com levantamento de sanções e, portanto, com aquelas propostas de Lindsey Graham a serem para já coartadas e limitadas. Sabemos que os mísseis estão muitas vezes a cair nas principais cidades ucranianas sem soarem os alarmes. Portanto, os sistemas de defesa não estão a funcionar. Pode ter sido limitado o acesso ao Starlink ou pode ter sido abrandado ou ao Starshield, por parte da Ucrânia. Enfim, Trump pode tê-lo feito de uma maneira voluntariosa. Ele está a querer dar a entender que no fundo estas coisas acontecem um bocadinho por acaso, mas permitir também à Rússia até a venda do gasóleo, portanto, que vai contra a política do próprio norte-americana, está a revelar esta posição de Trump, que interessa muito a Putin, que aliás, não tem tido assim grandes sucessos no campo de batalha. Há algum impasse, os ganhos são comedidos, são alguns, e, portanto, a Ucrânia está de facto aqui numa situação em que foi apanhada em contrapé, em que os Estados Unidos está a falhar aqui alguma da leitura que podiam fazer. Ainda hoje temos Lavrov no Irão a culpar a instabilidade no mundo aos Estados Unidos, portanto culpa os Estados Unidos da instabilidade, dos preços da energia e Trump a deixar-se levar numa situação em que claramente Rússia e Irão partilham de mundividência. É Putin quem tenta trazer Xi à colação, muito embora não deveria ser assim tão claro por que a presença da China seria importante. E a Europa é que continua aqui a tentar fazer o que pode em favor de Zelensky e da Ucrânia, mas também sem grandes ideias ou planos, porque a situação é mesmo, neste momento, muito difícil. E parece que este bloqueio nos vai deixar aqui numa situação em que é Putin que ganha tempo e que ganha possibilidades de uma quebra da resistência ucraniana, lançando ideias que até podem não se concretizar.
Orlando Sá Mões, temos ainda dois minutos para o final deste gabinete de guerra para abordar a tensão entre Kiev e Washington. Aparentemente, estão quase de costas voltadas. Há aqui algumas intrigas, digamos assim, entre Zelensky e Donald Trump. Como é que a Rússia olha para este momento da relação entre Kiev e Washington e Putin tem aqui motivos para esfregar as mãos? Temos dois minutos até o final do programa.
Tem. Isto é uma altura que, de facto, o plano gizado por Putin está mais ou menos a surtir efeito. Ele conseguiu prever um Ocidente com as suas divisões e vicissitudes e agora o brinde foi uma postura como a de Trump, que é um tipo de personalidade que ele consegue manobrar bastante bem. Lembremos aquelas situações em que a União Europeia elogiava Trump para tentar manter algum do apoio, nem que fosse as informações ou aqueles sistemas do Perla, em que no fundo a Europa compra aos Estados Unidos o material e os equipamentos que seguem para a Ucrânia. Mas neste momento, Trump está mesmo a deixar passar apenas aquilo que é a mensagem de Putin. Diz e disse ainda hoje nas suas redes que no fundo Zelensky é que se calhar nunca quis terminar a guerra, que tem a ganhar com isto devido ao financiamento europeu. E, portanto, este descolar é um ziguezague que no fundo parece-nos agora, no ponto em que estamos, fazer perceber melhor as situações que no início do mandato, mas ao longo do mandato de Trump nos deixaram sempre muito de pé atrás.
Para concluir.
Porque, de facto, Trump já demonstrou muitas vezes que estaria disposto a deixar Zelensky cair, mas desta vez e ao dar a entender que era bom ser substituído e que é ele que está ainda investido na guerra, revela as suas cores. Mas também podemos notar o seguinte para terminar: os americanos podem não estar a partilhar esta admiração de Trump pela Rússia, ele continua com níveis de popularidade muito baixa e, portanto, se a democracia funcionar, poderá estar aqui um caso em que o próprio Trump pode não estar a sair bem deste desapoio à Ucrânia.
E há eleições intercalares nos Estados Unidos muito em breve. Chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigado pela análise, Orlando Samões, especialista em Relações Internacionais. Esta edição e todas do Gabinete de Guerra ficam disponíveis em podcast.