Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Já sabe que é por aqui que todos os dias olhamos para os dois principais conflitos pelo mundo, não só a guerra na Ucrânia, mas também a guerra no Médio Oriente. Hoje junta-se a nós o professor e historiador Bruno Cardoso Reis, para olhar conosco para estes dois temas. Bruno, bem-vindo mais uma vez. E vamos começar pela guerra na Ucrânia. Começamos com a reeleição de Ursula von der Leyen, que foi reeleita presidente da Comissão Europeia com uma maioria muito sólida. Foram 401 votos a favor, o que vai fazer com que seja a presidente do organismo até final da década. Esta reeleição de Ursula von der Leyen é uma boa notícia para a Ucrânia quanto à guerra com a Rússia, Bruno?
Sim, acho que é uma boa notícia para a Europa e é também uma boa notícia para a Ucrânia. Ursula von der Leyen foi crucial durante estes cinco anos a reagir a várias crises, uma delas a pandemia, mas também a questão da Ucrânia. A União Europeia tem aqui um papel muito importante de mobilização de recursos, sobretudo financeiros e económicos, mas mesmo até ao nível militar. Foi muito reforçado, por exemplo, o mecanismo europeu de apoio à paz. Em tudo isso, Ursula von der Leyen tem tido um papel muito ativo e sobretudo é muito importante em termos mais genéricos, por isso é que eu acho também uma boa notícia para a Europa, que num contexto global muito conflituoso, em que há crescentes ameaças da parte de autocracias muito agressivas, não só a Rússia, mas outras, o Irã, a China, etc. Enfim, que temos a perspectiva até de Donald Trump ser reeleito, alguém que à partida sempre mostrou muita hostilidade em relação à União Europeia. Eu recordo que ele chegou a dizer que a União Europeia era um inimigo dos Estados Unidos. Face a tudo isso, acho que é crucial que realmente a União Europeia mostre coesão, mostre capacidade de ação. E um teste disso muito importante, depois destas eleições no Parlamento Europeu, era rapidamente haver uma decisão em torno destes cargos de FIA e haver não só uma decisão rápida, mas com maiorias expressivas. E foi o que aconteceu também já no caso do António Costa, mas agora novamente também no caso da presidente do Parlamento Europeu, da Roberta Metsola, e da presidente da Comissão, da Ursula von der Leyen.
Ainda sobre a Ursula von der Leyen, Bruno lançou críticas esta manhã a Viktor Orbán por ter ido a Moscovo, diz que foi uma missão de paz que serviu apenas para normalizar os russos. Qual é que é o impacto que esta viagem de Orbán pode ter e o que significam também estas reações europeias, tendo em conta que esta semana também foi aprovada uma resolução precisamente contra as viagens que o primeiro-ministro húngaro fez, não só a Moscovo, mas também à China?
Eu estive um pouco envolvido na presidência da União Europeia por Portugal, nestas presidências rotativas em 2021 na área da defesa. Há uma prática mais do que estabelecida, que tem a ver com os tratados, mas até com o que é normal, que é haver uma coordenação entre as iniciativas do Estado que tem a presidência e correspondem um pouco à sua agenda, às suas prioridades. Essa é exatamente a ideia, mas certificar-se que isso não vai completamente contra aquilo que querem os outros 27. E é uma das missões, quer da presidente da Comissão, quer do presidente do Conselho, é exatamente garantir isso e articular com esses serviços, nomeadamente da Comissão e o Serviço Europeu de Ação Externa, esse tipo de ações. Aquilo que fez Orbán, sendo parte daquilo que é a soberania húngara, se fosse uma iniciativa puramente húngara, foi um completo abuso. Ele usar este estatuto de presidente rotativo do Conselho da União Europeia, que nem sequer é o órgão que tem propriamente a responsabilidade nesta área, é sobretudo o Conselho, onde ele não tem a presidência. Há um presidente do Conselho, neste momento o Charles Michel, depois o António Costa. Há um alto representante, atualmente o José Borrell. Nada disso foi articulado a esse nível e foi realmente um completo abuso, porque realmente não só ele tinha de se certificar que os países não se opunham, como, na verdade, a esmagadora maioria dos Estados-membros opunham-se completamente a esta iniciativa, porque consideram que isso, como disse aliás a Ursula von der Leyen, era uma espécie de normalização da narrativa russa. Não era o momento adequado, não eram os termos adequados, não houve nenhum acordo quanto aos termos em que se poderia negociar com a Rússia. Realmente foi uma quebra muito grave daquilo que são as práticas habituais na forma como funciona a União Europeia, que passa por este princípio que é o Orbán não se pode queixar de que a União Europeia quer impor coisas à Hungria, e muitas vezes queixa disso, mas depois achar que ele sozinho, porque tem rotativamente este cargo, passa ele a dirigir sozinho e sem consultar os outros a política externa, a ação externa da União Europeia. É um completo disparate e completamente contraditório até com o discurso soberanista do Orbán. Acho que a reação da Comissão sendo bastante forte e de vários Estados-membros, inclusive Portugal, dizer que no fundo vão boicotar uma série de iniciativas da presidência, acho que corresponde muito à gravidade daquilo que foi feito por Orbán, nesta apropriação indevida de funções.
Bruno Cardoso Reis, temos apenas três minutos até o final. Vamos olhar aqui para dois temas da guerra no Médio Oriente. Começamos precisamente pela Ucrânia, que enviou 1000 toneladas de farinha para a Palestina. Temos aqui uma declaração de apoio cruzada entre estas duas guerras, na tua opinião?
É uma ação humanitária bastante relevante. Recorda o fato de que a Ucrânia é um grande produtor de cereais e era o maior contribuinte para o Programa Humanitário Mundial antes da guerra. Felizmente, graças também aos ganhos que tem conseguido na guerra naval no Mar Negro, voltou a conseguir exportar cereais em quantidade e continua a levar a sério esta responsabilidade humanitária, o que só lhe fica bem, porque ao mesmo tempo é ele próprio um país em guerra, que tem as suas próprias necessidades e não esquece aqueles que estão em circunstâncias também igualmente difíceis e de conflito. E é verdade também que entre aqueles que, por exemplo, mostram muita preocupação com a causa palestiniana e com crimes de guerra no caso da Palestina, também há muitos que ao mesmo tempo apoiam A causa ucraniana, nem todos, estranhamente. Há aqui preferências ideológicas que interferem na forma como se avaliam os mesmos fatos ou os mesmos crimes, mas realmente há também essa dimensão e portanto acho que é algo que fica bem à Ucrânia e que certamente ajudará também na sua imagem externa. A Ucrânia, eu recordo, veio dizer sempre que condenava o ataque do 07/10 da parte do Hamas, veio também dizer que a solução que sempre defendeu foi da existência de dois Estados convivendo em paz, a Palestina e Israel.
E Bruno, para fechar, a Organização Mundial da Saúde anunciou mais de 1000 ataques a infraestruturas de saúde na Palestina desde 07/10. A comunidade internacional, na tua opinião, tem feito o suficiente para proteger estas infraestruturas e principalmente quem está dentro delas?
Sim. Eu recordo que aconteceu algo muito semelhante no conflito na Ucrânia, aí é quase o dobro dos ataques, mas no caso da Ucrânia ainda com o agravante de não haver nenhum tipo de pré-aviso, portanto não haver nenhuma possibilidade de evacuar essas instalações. São realmente instalações especialmente protegidas e o meu ponto tem sido sempre: há aqui uma responsabilidade clara do Hamas, no sentido que em muitos casos é possível comprovar que estão a usar essas instalações ou muito próximo delas para realizar ataques contra forças israelitas, contra alvos israelitas e, portanto, a colocar essas instalações em risco. Mas isso não isenta Israel de, apesar disso, ter a máxima precaução a lidar com forças hostis nessa zona, porque é realmente uma instalação especialmente protegida por razões evidentes. O problema aí da comunidade internacional é o mesmo que na Ucrânia, ou seja, a não ser que haja uma intervenção militar da comunidade internacional, aquilo que a comunidade internacional pode fazer é criticar, denunciar, apelar, eventualmente até punir, por via do Tribunal Penal Internacional, etc., mas não pode fazer mais do que isso. Ou seja, em última análise, cabe às partes beligerantes assumir essas responsabilidades e empenhar-se efetivamente em respeitar a lei internacional. E claramente isso não tem sido feito em muitos casos.
Bruno Cardoso Reis, obrigado mais uma vez por ter estado conosco. Amanhã estamos de volta para mais uma edição de Gabinete de Guerra, para olhar para o que se passa na guerra na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Mais uma vez, Bruno, obrigado e até uma próxima.
Obrigado.