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Gabinete de Guerra com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington. Olá, Bruno, bem-vindo.

Olá, obrigado.

Grande parte do mundo foi apanhada de surpresa pelos ataques desta madrugada lançados por Israel sobre o Irão. O líder supremo já prometeu uma vingança dura e que Israel preparou um destino amargo para si próprio. Bruno, Netanyahu discursou depois da confirmação do ataque, fala no momento decisivo para a história de Israel, diz que se trata da sobrevivência do país. Mas a pergunta é: por que agora?

Eu confesso que também fiquei um pouco surpreendido. Parecia-me que havia a possibilidade de um ataque iminente, mas apesar de tudo, pensei que pelo menos até domingo.

Sim, era o que se previa.

Ao fim daquela ronda anunciada de negociações entre os Estados Unidos e o Irão, que eventualmente não haveria um ataque, porque obviamente um efeito evidente disso será descarrilar eventualmente isso. Mas em todo caso, a pergunta "por que agora?" faz algum sentido. Eu acho que uma resposta mais imediata tem a ver com isso, que é um pouco o efeito de Donald Trump e de Donald Trump não envolver os aliados nas negociações em assuntos que são muito importantes para a sua segurança. Os europeus, por exemplo, têm esse problema com a Ucrânia. Israel tem esse problema com o Irão e, portanto, uma forma de resolver isso foi antecipar um ataque e descarrilar as negociações. Não estou muito a ver que haja condições para haver negociações entre os Estados Unidos e o Irão no próximo domingo. Outra questão importante foi a Agência Internacional de Energia Atômica, pela primeira vez, vir dizer claramente que o Irão está a violar os termos dos acordos assinados, que há uma série de sítios onde foram detectadas, de fato, presença de urânio que não é explicável e, portanto, dar alguma validação internacional a esta ideia em que Israel insiste há muito tempo, de que o Irão não é fiável e de que está, na verdade, apesar do acordo, na iminência de desenvolver capacidades nucleares atômicas, inclusive de acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica. Basicamente, o Irão duplicou o material de urânio enriquecido que tem. Realmente tem, neste momento, capacidade para muito rapidamente desenvolver armamento atômico. Israel fala de um ano ou mesmo alguns meses. Isso pode ser relativamente otimista, mas com bastante rapidez. E eu diria também, em termos do calendário político israelita, Netanyahu venceu uma moção de censura, mas o governo de Netanyahu é sempre bastante frágil. Há uma enorme pressão também da opinião pública internacional por causa da situação dramática em Gaza e, portanto, isso é uma forma de ter uma outra guerra ainda numa escala maior.

E é escavar problemas para o regime, Bruno?

Para Israel, o Irão é reconhecido como uma ameaça existencial pela generalidade dos israelitas, não há propriamente grandes ilusões a esse respeito. E portanto, isso é uma tentativa de Netanyahu, mais uma vez, conseguir apoio ou pelo menos conseguir evitar dar argumentos à oposição ou tornar mais difícil a vida à oposição, com o argumento de que está em curso um conflito existencial. No caso do Irão, a questão também se justifica muito, porque sabemos que o regime iraniano é um regime híbrido, mas essencialmente mais teocrático do que propriamente democrático. Os candidatos são sempre pré-selecionados e pré-vetados e temos assistido periodicamente a grandes revoltas populares, a última das quais há um ano, contra o regime iraniano. E por isso, por essa questão, o próprio Netanyahu, no seu discurso, geralmente não faz grandes referências políticas, mas aqui até fez. Veio falar da libertação da Síria e do regime de Assad, veio falar da libertação do Líbano, da pressão do Hezbollah e veio dizer: "O nosso inimigo não é o povo iraniano, é o regime ditatorial iraniano. E nós esperamos que em breve o Irão volte a ser livre e que possa voltar a haver colaboração entre o Irão e Israel." É verdade que até 1979, com o regime anterior, até à revolução islâmica, realmente o regime do Xá iraniano e Israel tinham uma colaboração próxima, eram daqueles países muçulmanos, mas não árabes, como a Turquia também, por exemplo, com quem Israel tinha relativas boas relações. Mas eu acho que isso também é questionável que seja exatamente assim, ou seja, a oposição iraniana se neste momento aparecesse contra o regime, facilmente seria acusada de traição ou de ser um instrumento de Israel, e isso também facilitaria a tarefa da repressão, uma repressão ainda muito mais violenta por parte do regime. Portanto, acho que pode parecer tentador. No Médio Oriente, nós estamos sempre a aprender que nunca se deve dizer nunca. Quase tudo é possível, mas eu diria que não é o mais provável.

Além de civis, foi confirmada a morte do comandante-chefe da Guarda Revolucionária Iraniana. Bruno, Israel declarou situação de emergência em todo o país. Resta saber quando será e a dimensão da retaliação do Irão.

Sim, à partida, Israel parece ter visado alguns dos locais conhecidos do programa nuclear iraniano. Temos de ver exatamente, sendo que será difícil obter informação credível, mas qual será o grau de eficácia destes ataques, porque são locais muito protegidos, nalguns casos no interior de montanhas, etc. Os especialistas, os analistas, têm grandes dúvidas sobre a capacidade do Israel sozinho, sem os meios dos Estados Unidos, ser muito eficaz nesses ataques.

Foram atacadas várias bases militares, não é? Também explosão numa estação nuclear de Natanz

Natanz é o alvo mais evidente do ponto de vista do programa nuclear. Talvez por isso Netanyahu também veio falar de um conflito que se pode prolongar, mas foram também atacadas bases militares. Já tinham sido atacados e terão sido novamente, quer os meios de defesa antiaérea, quer os mísseis balísticos, que no fundo são o grande mecanismo de retaliação de ataque contra Israel. Vamos ver que capacidade é que o Irão tem em termos de drones e de mísseis que ainda restem. E depois há esses ataques direcionados, no fundo, o modelo que foi seguido com o Hezbollah, e que explica, por exemplo, essas explosões em várias partes da capital, comandantes militares, cientistas também ligados ao programa nuclear, enfim, responsáveis da estrutura militar e de segurança do Irão, em particular o comandante da guarda revolucionária, a guarda pretoriana do regime, que tem funções militares, tem funções também de apoio a várias missões no exterior e que seria a ponta de lança da retaliação contra Israel. Portanto, a dúvida está no ar. O Irão não foi assim tão eficaz como se pensaria no passado naquele primeiro choque direto com Israel há uns meses atrás. Vamos ver se tinha aqui capacidades escondidas que não foram agora atingidas, se vão revelar mais eficazes ou não, mas obviamente Israel está a levar a sério também essa ameaça, mas terá tentado na medida das suas possibilidades. Também sabemos que terão havido operações especiais, inclusive envolvendo a Mossad, que tem uma longa história de muitas décadas de penetração e de presença no Irão, para tentar lidar ou reduzir essa capacidade de retaliação iraniana. Vamos ver com que eficácia.

Estima-se que a ofensiva dure vários dias, isto numa altura em que, embora as perspectivas de sucesso fossem baixas, como aliás disse Trump ainda esta semana, os Estados Unidos e o Irão estavam em negociações sobre o programa nuclear, como mencionaste há pouco. Bruno, sendo um dos principais aliados de Israel, cai tudo por terra. É o mais certo.

Realmente, há este lado aqui um pouco bizarro, que é não se percebe muito bem se os Estados Unidos não tentaram ou se não conseguiram impedir Israel de fazer este ataque. Agora até a circular esta ideia de que se calhar os Estados Unidos até colaboraram aqui numa espécie de manobra de engano do Irão. Realmente, como eu disse, do ponto de vista militar, para criar alguma surpresa, esta ideia de que havendo negociações no domingo, se calhar Israel não iria atacar antes disso por causa da pressão americana e portanto acabou por atacar criando aqui alguma surpresa, mas realmente não se percebe muito bem. Parece haver aqui, de facto, uma incapacidade dos Estados Unidos de terem uma estratégia negocial coerente, porque realmente do ponto de vista das negociações com o Irão, isto é desastroso, é péssimo e portanto, de facto, não me parece muito provável que, pelo menos no imediato, e nomeadamente no domingo, haja condições para isso acontecer. Os iranianos já vieram de alguma forma culpar também os Estados Unidos.

Depois de Marco Rubio negar qualquer tipo de envolvimento, fala numa ação unilateral de Israel, mas Teerão acusando os Estados Unidos de estar envolvido, o mundo corre o risco de uma escalada. O Irão consideraria atacar os Estados Unidos?

Essa é mais uma dúvida que temos, ou seja, até onde é que irá o Irão. Por exemplo, uma grande dúvida é se eles irão eventualmente tentar estrangular os dois grandes pontos de estrangulamento em termos geoestratégicos nesta região, que é o Golfo de Ormuz, o Estreito de Ormuz, que obviamente é no Irão, e o Estreito de Tiran, no tem os Útis. Isso cortaria a navegação normal, fácil entre a Ásia e Europa, no caso do Estreito de Tiran, dos Útis. No caso do Estreito de Ormuz, a questão do petróleo do Golfo. Vamos ver exatamente de que forma é que o Irão retalia. Mas a verdade é que uma possibilidade sempre seria atacar realmente bases, a presença militar americana. Os americanos já tomaram algumas medidas preventivas, retirando pessoal não essencial. Mas realmente, também há aqui esta ambiguidade. Os Estados Unidos dizem que não estão envolvidos, mas, por exemplo, os Estados Unidos não irão ajudar a defender Israel no caso de um ataque, como têm feito anteriormente. Simplesmente não estiveram envolvidos ativamente nesta parte ofensiva, mas estarão na parte defensiva. Isso será suficiente para o Irão não retaliar contra os Estados Unidos, também para evitar uma escalada maior? Não sabemos exatamente. Para já, parece haver essa possibilidade. O regime iraniano parece estar a apontar nesse sentido, mas teremos de ver como é que as coisas evoluem. Agora, o que parece aqui muito evidente é que a promessa de Donald Trump, de com ele não havia guerras, de que ele seria o grande pacificador, isso claramente não está a concretizar-se e em parte isso parece ter a ver com esta diplomacia um pouco errática, de improviso de Donald Trump e portanto, lá está, se ele queria negociações a sério com o Irão, é evidente que não poderia permitir um ataque israelita e portanto teria de fazer uma pressão eficaz para evitar isso e não simplesmente dizer: "Nós estamos de acordo" ou "Esperamos que não aconteça" e depois acabar por acontecer. Isso seria, no mínimo, uma prova de impotência ou de incompetência.

Bruno, a comunidade internacional tem sido muito crítica das ações de Netanyahu em Gaza. Como é que esperas que olhem agora para esta ofensiva?

Apesar de tudo, o Irão está menos isolado do que no passado, sobretudo tem um forte apoio russo, que também será eventualmente outro fator a explicar a maior preocupação israelita. Isso pode ajudar bastante o Irão em termos de modernização das suas tecnologias militares. Mas a verdade é que é também um regime autoritário, ditatorial, portanto, isso limita aí algumas solidariedades. Agora tem essa vantagem, que é mesmo muita gente no Ocidente, de facto, por razões compreensíveis, sente uma grande simpatia e empatia pela população civil de Gaza e em muitos casos isso leva a que depois não se faça aqui algumas destrinças, algumas diferenciações cruciais sobre expressar preocupação com a população civil, exigir de Israel que respeite a lei internacional, que não cometa crimes de guerra, etc. E depois achar que não há problemas, que o Hamas não é um movimento ele próprio com objetivos genocidas, um movimento terrorista, que é um aliado do Irão e que uma das razões do ataque de 7 de outubro foi descarrilar um processo de paz regional mais amplo, que tudo isso torna extremamente difícil um processo de paz negociado com aquilo que resta da Autoridade Palestiniana e, portanto, o próprio Mahmoud Abbas, por exemplo, o presidente da Autoridade Palestiniana, foi muito crítico não só do Hamas, mas também do Irão e do seu papel no 7 de outubro. Mas é verdade que o Irão vai certamente tentar aqui misturar as coisas e chamar a si também este papel de solidariedade com a luta da Palestina, embora até aqui, até o Irão ser diretamente atacado, essa solidariedade, na verdade, até foi bastante limitada. Terá sido certamente muito menor do que aquilo que o Hamas inicialmente esperaria.

Esperam-se dias intensos. Bruno Cardoso Reis, obrigada pela análise a partir de Washington. Bom fim de semana, Bruno.

Obrigado.

Muito obrigada.