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Em destaque nesta edição: as duas cimeiras negociais, uma com Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, outra com os Estados Unidos e o Irão. Começamos por esta reunião tripartida da Rússia, Ucrânia e os Estados Unidos, que terminou sem acordo. Volodymyr Zelensky, presidente ucraniano, admite que algum trabalho preparatório foi feito, mas que, por agora, Rússia e Ucrânia continuam afastados relativamente a questões essenciais, como os distintos territórios ocupados pela Rússia na Ucrânia e a gestão da central nuclear de Zaporizhzhia. Senhor Major-General João Vieira Borges, boa tarde. Bem-vindo, mais uma vez, à antena do "Observador". Causa algum espanto o desfecho desta ronda negocial?

Muito boa tarde. Não causa qualquer espanto esta terceira ronda. Era expectável que, com a alteração que houve daquilo que é o chefe da delegação russa passar a ser novamente Vladimir Medinsky, sabíamos que a questão política não ia ter qualquer evolução. Medinsky, eu recordo, tinha faltado às duas reuniões anteriores. Ele, que tinha sido negociador-chefe também já em 2022 e 2025, é um homem de narrativa histórica, é um homem de construção histórica que sistematicamente, como diz Zelensky, anda a filosofar sobre aquilo que ele chama as raízes históricas da guerra. Portanto, nunca saem do mesmo quando é a dimensão política. Ao contrário, a dimensão militar, porque há essas duas dimensões nas negociações, houve alguma evolução, que também era expectável, designadamente até por pressão dos Estados Unidos, no que respeita à monitorização do cumprimento do cessar-fogo. Penso que aquilo que obtivemos de informação é que os Estados Unidos assumiram a participação e assumiram com tecnologia, não com homens no terreno, designadamente através do recurso a drones. E, portanto, há aqui dois níveis: a evolução do nível militar expectável, até porque também os militares russos já devem estar cansados da guerra, mas na dimensão política não há qualquer alteração das exigências impostas pela Rússia desde o início da guerra.

Donald Trump tinha estabelecido o prazo do mês de junho para que fosse possível acordar um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia. À luz do desfecho desta terceira ronda negocial, parece plausível que tal possa vir a acontecer?

Não, minimamente plausível. Ele também dizia que acabava com a guerra em 24 horas. Nós sabemos há quanto tempo continua a guerra, e quase a fazer os seus quatro anos. E, portanto, não acredito, até porque há uma das questões que também é importante, que a Ucrânia sugeriu 60 dias para a realização de um referendo em termos de cessar-fogo, e a Rússia respondeu que só daria um dia. Nós sabemos que na Rússia as eleições nem precisam de um dia, precisam de umas horas para anunciar os resultados pré-concebidos ou pré-definidos. Mas num Estado como a Ucrânia, democrático, a querer fazer eleições, obviamente, ou um referendo por todo o país, só a preparação, nós sabemos, e tivemos há pouco eleições presidenciais, sabemos as dificuldades, inclusivamente, fruto das situações ambientais. Agora imaginemos uma guerra. E, portanto, isto vê-se perfeitamente da parte da Rússia. Não há qualquer intenção de caminhar para a paz, a não ser que sejam satisfeitas todas as condições, ou seja, uma rendição. E, portanto, não havendo da parte da Ucrânia a resposta a uma rendição, mas a uma negociação, nunca haverá paz e continuaremos com a guerra.

Assim sendo, pergunto, senhor Major-General, tendo em conta essas posições aparentemente inconciliáveis, não há uma saída para este conflito?

Não, não há uma saída para o conflito enquanto não houver um moderador que tenha uma linguagem diferente de Trump. Trump, como moderador, não tem nada a ver com aquilo que se passou em 2022 com a Turquia. Trump o que faz é pressionar só um dos lados, que ainda por cima é o lado que está a ser invadido e destruído. Portanto, obviamente que a resposta é fácil de dizer, ou seja, vai continuar a guerra, não há qualquer possibilidade, porque Trump pressiona só um dos lados, que ainda por cima é o lado que deveria merecer apoio. E ele não apoia minimamente a Ucrânia, a não ser na tentativa de resolver a guerra com todas as condições impostas pela Rússia, que ele inclusivamente, em determinadas alturas, designadamente na reunião que teve Putin com Trump, ainda apoia mais, ainda reforça concessões que já eram da própria Rússia.

Vladimir Putin não sente essa pressão, tendo em conta o número de baixas por parte das forças de Moscovo?

Não, nunca sentiu. A Rússia, o problema das baixas, que se tem acentuado nos últimos meses, e designadamente nos últimos dois meses, não faz parte da mentalidade russa. Portanto, trocam facilmente homens por terreno e têm 144 milhões. E o argumento que utiliza sempre é que os outros têm 40 milhões e eles têm 144 milhões. Quando morrerem os 44 milhões, ainda sobram 100 milhões de russos. Portanto, essa lógica, que é pública Não tem a ver com referências da Segunda Guerra Mundial. É uma lógica pública com ameaças deste tipo, dizendo claramente que a questão humana não está em causa. Portanto, os homens estão ali pra morrer, em função daquilo que são os interesses da Rússia. Sempre foi essa a linguagem dele, é essa a linguagem que ele aprendeu como espião do KGB e é uma situação muito diferente quando temos líderes que são políticos ou que são militares. Líderes que vêm de organizações como o KGB, mais do que o FSB, as vidas humanas nunca contaram, nem contarão.

E assim continuamos sem ver uma luz ao fundo do túnel para este conflito no leste da Europa. Falemos agora da negociação dos Estados Unidos com o Irão em torno do programa nuclear iraniano. O desfecho foi o mesmo, também não houve acordo e há pouco foi publicada uma notícia que está a ser avançada pelo jornal Axios, que dá conta que Trump está zangado e cada vez mais inclinado para iniciar uma guerra total contra o Irão. É um desfecho anunciado, é pra aí que caminhamos?

É um desfecho anunciado. Aliás, o mesmo jornal dizia que aquando da repressão dos manifestantes, era essa mesma a intenção de Trump. O problema é que em termos militares, ele não pode desencadear uma operação independentemente de estar pré-planejada, uma operação em pouco tempo. É preciso tempo para preparar uma operação destas. Uma operação, segundo diz o jornal, do tipo uma guerra total, é completamente diferente da operação de extração de Maduro e da sua mulher na Venezuela. É completamente diferente de uma operação como a Guerra dos Doze Dias de junho de 2025. É uma operação muito complexa porque têm que ser neutralizados todos os sistemas de radar, mas também todos os sistemas de armas, no sentido de aquando da resposta esperada da parte do Irão, não haja baixas consideráveis caso de um ataque sobre, neste caso, um porta-aviões que tem 5000 homens e mulheres. Aliás, já é usado isso na própria propaganda do Irão, nos vários prédios em Teerão, exatamente a destruição de um porta-aviões e as consequências disso. Isso já faz parte até da narrativa do Irão. É uma operação muito complexa, uma operação que irá ter baixas consideráveis de parte a parte e também de Israel. Eu admito que uma operação deste tipo é fundamental que os Estados Unidos tenham o apoio de Israel, mas também não explicito outro tipo de apoios de países da região, o que é muito complexo e certamente está a ser negociado, porque obviamente não há interesse desses países, seja da Arábia Saudita, seja de outros países com quem já há mais ligação, o próprio caso da Síria ou da Jordânia, não há qualquer interesse em que haja uma guerra na região. É algo que não é só ter um instrumento militar, não é só ter dois porta-aviões e ter mais 12 navios, de ter mais de 180 aeronaves, de ter cerca de 60 mil homens e mulheres na região. Não é só isso. Há aqui muito mais do que isso, porque há 19 bases americanas na região que, como eu disse, relativamente ao porta-aviões, podem ser batidas pelo fogo iraniano em resposta a um ataque de grande dimensão, que será certamente usando o fator surpresa, designadamente naquilo que é a própria pressão militar. Caso contrário, certamente que o Irão estará à espera desse ataque, estará preparado pra um ataque tradicional e será com certeza algo diferente do normal.

Sr. Major-General, o Irão terá aliados caso esta intervenção militar vá mesmo por diante?

Não terá os aliados que teria noutros anos. O Hezbollah está enfraquecido, o Hamas está enfraquecido, isso quer se queira, quer não, é dissuasor relativamente a outro tipo de apoios. O caso do Iémen também foi resolvido em parte pela Arábia Saudita, e já não constitui uma ameaça como constituía. Mas é evidente que há aqui países que mesmo próximos dos Estados Unidos, se opõem a um ataque desta dimensão, um ataque deste tipo, que é o caso da Turquia. A Turquia é fundamental em termos geopolíticos na região e certamente, além do Qatar e de outros países, os Emirados Árabes Unidos, da Arábia Saudita, estão a pressionar os Estados Unidos a não realizar esse ataque. O que não quer dizer que se oponham aos Estados Unidos. Em termos de aliados, na perspectiva que o Miguel Vieira referiu agora, certamente que não estará também a Rússia, nem estará a China, nem estarão outros países na região. Ficará certamente isolado em termos militares, mas não isolado em termos políticos. Será muito complicado para os Estados Unidos gerir depois de um grande ataque sobre o Irão, gerir depois os seus aliados. Certamente haverá previamente contatos no sentido de não ficar completamente isolado, inclusive por parte da própria União Europeia e de outros aliados, será muito complicado na sequência de um ataque. Ou o ataque era desenvolvido na altura em que houve as manifestações, em que houve cerca de 30 mil mortos, ou passado todo este tempo e havendo negociações em paralelo, é sempre criticável ao abrigo do direito internacional, é muito difícil justificar uma operação militar de grande dimensão, sobretudo se houver grande mortandade, mesmo que seja de dirigentes políticos iranianos.

Sendo que essa é a informação que está a ser avançada pelo jornal Axios, Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, está inclinado para iniciar uma guerra total contra o Irão, mais um foco de conflito no globo. Sr. Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra e pela sua análise ao desfecho destes dois fóruns de negociação, um que juntou Ucrânia, Estados Unidos e Rússia, o outro em torno do programa nuclear iraniano, que juntou os Estados Unidos e o Irão.