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Este é o Som do Gabinete de Guerra. Eu sou a Maria João Simões. A análise é do coronel José do Carmo. Bom dia, bem-vindo e muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Bom dia.
Bom dia. Começamos pelo Médio Oriente. Netanyahu diz que o Hamas violou o acordo ao não entregar os corpos de todos os reféns e, por isso, ordenou fortes ataques a que assistimos ontem. Os Estados Unidos só foram informados depois de Netanyahu ter dado a ordem ao exército. Ainda assim, J. D. Vance acredita que o cessar-fogo se vai manter, apesar da nova ofensiva israelita. Coronel, o número dois da Casa Branca está a ser otimista ou a querer passar a ideia de que tem tudo sob controle?
Sim, o J. D. Vance, tal como a administração Trump, não quer que esta grande realização, que é um triunfo para a administração Trump, se perca nos pormenores. Portanto, está a procurar desvalorizar as violações como coisas que acontecem e, obviamente, a tentar condicionar Israel a não tomar uma atitude retaliatória mais grave. É difícil, porque de facto as violações são ostensivas, há até imagens de encenações feitas com os corpos. Isso tudo mexe muito fundo em Israel e também na questão política, porque Netanyahu está sob pressão. Ele foi obrigado a aceitar este acordo. Algumas das condições ele não controla e, portanto, isso também não é muito bom pra ele em termos de futuras possibilidades políticas nas eleições.
Falou sobre a encenação, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha publicou um comunicado a criticar o Hamas precisamente por isso, depois do grupo terrorista ter encenado a recuperação de um corpo que seria de um refém. Coronel José do Carmo, esta recuperação falsa do corpo, além de inaceitável, só mostra a natureza do Hamas.
Os adjetivos, os verbos e tudo o que se usa para qualificar isto são palavras. É inaceitável, mas na verdade é aceitável. O Hamas faz isto sistematicamente, não faz isto apenas com estes corpos.
Só que desta vez havia imagens, não é?
Pois, desta vez as imagens foram divulgadas.
Pois, exatamente.
Não são tão ostensivas, porque há imagens para tudo. Às vezes não sabemos quais são as verdadeiras. Isso é verdade.
Verdade.
Agora, o que se passa aqui é que veio a nu que, de facto, o Hamas está a manipular a entrega dos corpos.
Atrasado, não é?
Sim, porque é um tempo que eles têm para se ir consolidando. Mesmo que sejam obrigados a entregar os vivos pelo Qatar, e a desarmar mais lá pra frente, entretanto eles vão consolidando o seu poder, vão impondo a sua ideologia, a sua força. E uma recente sondagem feita por uma entidade palestiniana demonstra claramente que, se houvesse eleições neste momento, o Hamas, mesmo como força política, se vier a transformar nisso, ganharia as eleições, não só em Gaza, mas também na Cisjordânia.
Sobre a Ucrânia, Zelensky diz que vai voltar a reunir esta semana com os líderes europeus para discutir um plano para um cessar-fogo. Diz também que está pronto para negociar, mas sem ceder território. Coronel, neste momento, só a Europa pode ajudar a acabar com a guerra na Ucrânia?
Os Estados Unidos também podem. Os Estados Unidos é que têm mais poder pra isso. A Europa pode fazer aquilo que está a fazer. Pode fazer mais, mas em termos de conceito, o que está a fazer, que é sustentar a Ucrânia e dar-lhe garantias de que coloca a Rússia a um preço para frente, portanto, um preço para conseguir as suas ambições, é a única maneira, a meu ver, de pressionar a Rússia a parar com a guerra, porque neste momento a guerra existe porque a Rússia quer. Não podemos ter essa noção. Não há aqui uma, como muitas vezes se diz, uma psique que reja pela Europa, que incentiva uma guerra. Não, a guerra existe porque a Rússia está a atacar. No momento em que a Rússia deixe de atacar, a guerra acabou. É claro que a Europa faz esta pressão econômica, de apoio militar, em termos de equipamento, e os Estados Unidos têm um papel importantíssimo, dá a ideia que estão a querer ou que estão relutantemente, mas pelo menos já com maior intensidade ou com maior visibilidade, a tomar algumas medidas que, de facto, fazem pressão sobre a Rússia. E esta é a pressão que a Rússia entende, é a pressão econômica, é a pressão a todos os níveis, coloca em causa a própria capacidade de sustentar a guerra e o cálculo das vantagens e inconvenientes que isso tem a prazo. Esta é a única pressão que pode acabar com a guerra. Não há outra. Agora, é claro que Zelensky e a Ucrânia, independentemente de aceitarem uma paragem.
É só porque o Trump tanto parece, por vezes, estar do lado da Ucrânia como do lado de Putin. E daí dizer que, neste momento, a Europa pode dar, se calhar, uma resposta mais credível.
Pois, o Trump, assim que tomou a posse do poder, colocou-se fora da equação. Ou seja, deixou de ser uma das partes do conflito, que era estar a apoiar a Ucrânia com intensidade, não com aquela que se desejava, mas estava a apoiar. Então colocou-se de uma forma, colocou-se fora, quer dizer, colocou-se como árbitro. E de algum modo, isso faz sentido em termos de criar alguma credibilidade como mediador. Agora, nota-se que Trump quer um cessar-fogo a todo o custo, independentemente das consequências futuras que isso tenha ou das modalidades em que isso é feito. Trump quer o seu momento de brilho.
Claro, sim.
Portanto, quer impor este cessar-fogo e quer um cessar-fogo, quer ali um momento em que ele vai lá brilhar. Agora, evidente que o cessar-fogo, para ele o ideal seria que a Ucrânia cedesse à Rússia e ficávamos todos contentes, ficávamos todos amigos. Claro que isso não irá acontecer.
Até porque já disse que Putin vinha levar alguma coisa, ficar com alguma coisa.
Pois, temos que ir um bocado para mais acima para ver o que é que o Trump pretende. Essa estratégia americana é isolar a Rússia da China e trazer a Rússia para longe da China, o que parece, neste momento, uma coisa perfeitamente inviável e perfeitamente esfaratada, mas esta é a estratégia americana. No fundo, trazer a Rússia para os nossos lados, e à custa da Ucrânia, obviamente, à custa de ceder à Rússia Um pedaço de terra que não é da América e segundo Trump também, o que acontecer daqui a quatro ou cinco anos não lhe importa muito. Portanto, basicamente é isto, quer fazer a paz, é o momento de vitória e ele está disposto, obviamente, a que a Ucrânia ceda território. A Ucrânia vai ter que aceitar de facto que, se houver uma paz, que neste momento não tem capacidade para expulsar a Rússia do território, vai ter que aceitar que há ali uma terra ocupada.
Vai ter que fazer cedências, sim.
Mas as cedências, de facto, não dão direito. Esse é que é o problema, é que a Ucrânia não poderá nunca fazer cedências de direito, não poderá dizer: "Não, agora esta terra é vossa e reconhecemos isso". Isso nunca irá acontecer. O que vai acontecer é que haverá ali um congelamento. Esta será a melhor das hipóteses, digamos assim, para já no curto prazo. E depois o futuro dirá.
Exatamente. Entretanto, a Hungria diz que quer unir-se à Chéquia e à Eslováquia para formar uma aliança dentro da União Europeia que contrarie as posições pró-Ucrânia dos restantes Estados-membros. Coronel, esta falta de união é tudo aquilo que não precisamos e a mensagem que não devíamos passar à Rússia.
A Rússia joga nisto. Um dos vectores da estratégia russa no confronto com o Ocidente é justamente a divisão, desde logo entre os Estados Unidos e a Europa. É uma divisão que eles tentam sempre cavar e estão a fazê-lo já há uns anos. E a divisão interna. Eles tinham a ideia de fazer acordos com a Alemanha, a Alemanha ficava quase presa pela dependência energética, fazer acordos com a França. Tinham acordos para tudo, no fundo, para separar e para acabar com a Unidade Europeia, que de facto é algo que eles não querem, porque a visão deles é dominar a Eurásia e desta ideia geopolítica do império euro-asiático em que eles seriam o centro e, portanto, tudo o que está à volta teria que ser socavado, teria que ser dividido. Porque a Rússia não tem poder para dominar pela força toda essa zona, porque a sua população também não é assim tão grande como isso. Já não tem essa massa crítica que lhe permita ser o império e por isso essa seria uma ideia. E portanto, o Orbán tem a dependência petrolífera, depende da Rússia no petróleo, não quer perder, quer uma vantagem. E portanto, como se diz aqui em Portugal, quer sol na eira e chuva no nabal. Quer ter as vantagens de estar na Europa e depois ter a Rússia do outro lado e no fundo situar-se ali como um mediador, um homem neutral. Que não é, no fundo ele aprecia Putin, tem uma visão bastante ideológica, muito parecida com a dele. Agora, é evidente que ele também sabe que uma Rússia vitoriosa traria problemas para a Hungria a prazo. Ele está ciente disso. Ele já foi contrário ao soviético na altura.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para si.
Obrigado e boa tarde.
Muito obrigada.