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Donald Trump e Vladimir Putin podem reunir-se já na próxima semana e isto está a ser avançado por várias agências estatais russas. Hoje o Kremlin detalhou que está a ser preparado um encontro entre o presidente dos Estados Unidos da América e o presidente russo. Os norte-americanos dizem que ainda acreditam na possibilidade de haver um encontro a três com Zelensky também presente nessa reunião, uma situação que não é descartada pelas autoridades russas. É um dos temas em destaque nesta edição do Gabinete de Guerra, programa em que falamos dos conflitos em curso, com destaque para a Ucrânia e o Médio Oriente. Eu sou Miguel Cordeiro, comigo está Madalena Mayer Resende, especialista em Relações Internacionais. Muito boa tarde e obrigado por estar connosco. Madalena, este encontro pode significar alguma viragem? Será um encontro para as câmaras ou podemos mesmo ter decisões concretas sobre este conflito?
Parece ser um momento diplomático importante, ou seja, já há quatro anos que o presidente russo e americano não se encontram. Portanto, para as câmaras será de certeza. E obviamente que politicamente é uma pequena vitória para Putin, que tem estado realmente muito isolado no cenário internacional.
Mas é também uma vitória para Trump, que consegue reunir-se, sentar-se à mesa com Putin?
Também tem esse lado, no sentido em que, de facto, Trump tem tentado retomar conversações diretas com o Kremlin desde janeiro e tem visto os seus avanços serem bastante maltratados pelo lado de Moscovo, mas sem dúvida que o facto de estar a pressionar a Rússia de forma mais forte e Putin, de certa maneira, estar a tentar responder de uma maneira mais positiva, demonstra que há aqui pelo menos uma tentativa de refazer a relação entre a Rússia e os Estados Unidos, mas sem dúvida que os sinais são muito ambíguos.
Olhando para este encontro, há a possibilidade de Zelensky se juntar. Isso é uma realidade, pode mesmo acontecer ou é um cenário muito difícil, esta reunião, este encontro a três?
O facto de os dois se encontrarem, obviamente que põe bastante pressão em Zelensky para que ele esteja também presente, uma vez que será uma reunião ao mesmo nível e, portanto, há aqui uma pressão bastante grande sobre Zelensky, mas obviamente que esta possibilidade de uma cimeira tripartida está a ser recebida com muita cautela em Kiev. E obviamente que é fácil perceber, porque apesar desta retórica da paz, obviamente que os ucranianos olham para esta iniciativa como uma possível armadilha estratégica do Kremlin, ou seja, de tentar fazer parecer que há negociações reais, mas na verdade, isto é apenas uma imitação de verdadeiras negociações, uma vez que ainda não houve oferta nenhuma por parte de Vladimir Putin, de algum avanço em estar mais perto das propostas de Zelensky. E obviamente que Trump tem várias vezes caído nesta armadilha diplomática de Putin, e esta versão suavizada da paz nos termos de Moscovo tem sido para Trump muito frustrante e trazendo ao de cima o quão frágil é também a posição do presidente americano.
O presidente norte-americano e a administração norte-americana têm falado muito desta pressão indireta que estão a fazer e das sanções indiretas. Ainda ontem discutíamos isso aqui também na Rádio Observador, na edição de ontem do Gabinete de Guerra, sobre as sanções aplicadas à Índia por estar a comprar petróleo russo. Donald Trump a dizer que vai colocar sanções a outros países que compram também petróleo russo e que ajudem a Rússia a alimentar essa economia, de certa forma paralela, a contornar as sanções aplicadas pela Europa, pelos Estados Unidos da América e por outros países, como por exemplo, também o Reino Unido. É de facto esta pressão económica que está a fazer avançar, em parte, estes encontros diplomáticos?
Sim, obviamente que esta situação econômica da Rússia já é bastante crítica há vários meses. Sem dúvida que a economia russa tem sobrevivido, de facto, através desta relação com a China e da venda de petróleo através de petroleiros invisíveis, etc., para a China. E, portanto, se houver da parte dos Estados Unidos uma tentativa e mesmo um estabelecimento real de sanções que limitem gravemente este comércio entre a Rússia e a China, digamos que esta possibilidade é uma grande pressão sobre Vladimir Putin E é óbvio que Putin está a usar todos os instrumentos que estão nas suas mãos para tentar impedir este cenário. E obviamente que este encontro direto com Trump é já uma hipótese de algum desespero. Isto pensando que, de facto, Putin continua a ter a mesma posição de não querer acabar com a guerra na Ucrânia, que tem sido bastante patente desde a invasão e não tem mudado desde então. Portanto, parece-me que esta situação econômica e as ameaças de Donald Trump de impor sanções econômicas que se direcionam exatamente para as relações entre a Rússia e a China, serem uma ameaça real bastante forte para Vladimir Putin.
Há depois outra questão que também acaba por marcar a atualidade e pode ter um impacto também naquilo que é estes conflitos, principalmente por causa do esforço econômico de alguns países, as tarifas aplicadas entre o comércio da União Europeia e os Estados Unidos da América entram hoje em vigor. Temos muitos países a fazer já algum esforço de guerra à procura de também aumentar o investimento em defesa. As tarifas não vêm ajudar neste cenário e da forma como a economia está a trabalhar também neste tempo de guerra em solo europeu.
Sem dúvida que não, apesar de a Europa ter feito o melhor que conseguiu e foi, de certa maneira, uma vitória para as instituições europeias e para a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ter evitado os cenários piores. De qualquer maneira, estas tarifas são muito penalizadoras para grande parte da economia europeia que exporta para os Estados Unidos e o setor mais crítico de todos é, obviamente, o setor automóvel, e nomeadamente o setor automóvel alemão, que está em crise devido à concorrência chinesa e dos automóveis chineses, e que vê nestas tarifas um sinal de perigo, alerta muito vermelho, no sentido em que para sobreviver terá que deslocar ainda mais a construção dos seus veículos para os Estados Unidos. Isso implicará uma perda no emprego e em todo o ecossistema à volta do setor automóvel na Europa, que não se limita, obviamente, como sabemos, ao território alemão, mas toda a Europa Central sofrerá com essa eventual deslocação, mesmo para nós, Portugal, poderá ter algum impacto. E, neste momento, a própria Alemanha está, obviamente, a pôr em prática um plano de rearmamento e de relançamento da sua economia de guerra e da sua economia relacionada com o armamento e a defesa, que implicará um esforço obviamente muito grande do ponto de vista orçamental e que está a pôr em questão a viabilidade e o crescimento. Estamos aqui num momento de crescimento quase nulo e obviamente que é um momento de grande crise para a Europa neste verão de 2025.
Vamos falar aqui um pouco da situação no Médio Oriente. Israel prepara-se para aprovar um plano para ocupar mais áreas da Faixa de Gaza ao longo dos próximos cinco meses. Não há propriamente consenso em Israel sobre isto. O chefe do Estado-Maior das forças israelitas diz que vai continuar a exprimir a posição que tem contra uma maior ocupação em Gaza. Pode haver aqui um problema para Netanyahu e estar a avançar isto, o governo, sem o entendimento ou a concordância do chefe do Estado-Maior e de muitas outras instâncias em Israel. Não é propriamente consensual esta intenção de Netanyahu.
Sim, aparentemente há divisões profundas. Sabemos que há divisões profundas na sociedade e no sistema político e estadual israelita em relação à continuação da guerra em Gaza e de que forma é que ela vai ou não significar uma ocupação ainda mais profunda por parte de Israel. E nesta semana, e hoje mais concretamente, vêm realmente estas notícias deste conflito entre o chefe do Estado-Maior israelita e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. É óbvio que é uma posição maximalista e um plano maximalista, o do governo, e que isto está a ter impactos também muito grandes, não só no próprio tecido da sociedade israelita, como nas relações Interinstitucionais em Israel. É difícil de ver como é que Netanyahu vai conseguir, ou se vai conseguir levar o seu plano adiante, dada esta resistência aberta, tão pouco usual no contexto do sistema israelita.
Para terminar, falar da vice-presidente executiva da Comissão Europeia. Diz que a situação em Gaza parece-se muito com genocídio. A palavra genocídio tem sido muito utilizada para descrever aquilo que vai acontecendo ao longo das últimas semanas em Gaza, porque vão surgindo esses números de pessoas e os relatos de mortes, pessoas à procura de ajuda humanitária morrerem enquanto estão à espera dessa ajuda ou tentar chegar à ajuda alimentar, ajuda humanitária que chega ao território a conta-gotas. Este conflito pode mesmo levar a julgamentos por situações de genocídio? Isso faria sentido, dado aquilo que é o conhecimento dos factos que vão chegando da região?
A Europa está cada vez mais forte, apesar de haver ainda a resistência da Alemanha em se juntar aos outros países nesta tentativa de pressão ao governo israelita sobre a situação em Gaza. É óbvio que cada vez mais se torna claro que os países europeus estão a querer pressionar no sentido de condenar Israel da forma mais forte que podem em relação à situação em Gaza. A formulação, se não é genocídio, parece muito com uma definição, é bastante clara, não é? Parece-me que o que eles estão a querer, obviamente, dizer é que há uma população que está a ser concretamente alvo, morta e condenada à fome, e portanto que esta situação é completamente contra o respeito dos direitos humanos, que está na base do projeto europeu. A palavra genocídio tem um contexto histórico bastante claro e só o Conselho de Segurança das Nações Unidas é que pode declarar, do ponto de vista do direito internacional, se uma situação é ou não uma situação de genocídio, mas os europeus estão a caminhar para usar essa palavra, mas não poderão, obviamente, impor ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que declarem a situação em Gaza como um genocídio, pois isso implicaria uma obrigação direta de intervenção da comunidade internacional, que não me parece que vá acontecer.
Madalena Meyer Resende, muito obrigado por esta participação no nosso Gabinete de Guerra.
Muito obrigada.