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Arranca aqui a análise aos conflitos no Médio Oriente e no leste da Europa, hoje com a ajuda de Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa. Boa tarde, bem-vindo. Obrigado pela sua disponibilidade. Vamos começar pelo conflito no Médio Oriente. J.D. Vance já está em Tel Aviv. O vice-presidente dos Estados Unidos encontra-se hoje com Benjamin Netanyahu. De resto, espera-se a qualquer momento o início de uma conferência de imprensa que vai decorrer num hotel em Jerusalém. Como é que interpreta este encontro? A imprensa tem dado conta que visa essencialmente proteger o acordo de cessar-fogo, que entrou em vigor há mais de 10 dias. É esse o objetivo deste encontro e é necessária, de facto, esta pressão por parte dos Estados Unidos para que Benjamin Netanyahu continue a cumprir este cessar-fogo?
Muitissimas obrigado à Rádio Observador, Miguel, pelo convite mais uma vez. Sim, é preciso esta pressão, J.D. Vance toma aqui um pouco as rédeas da negociação. Primeiramente Steve Witkoff, agora J.D. Vance. Penso também, e aqui num ponto prévio de análise, que J.D. Vance quererá, a partir de agora, começar a ter algumas notícias nos Estados Unidos sobre a sua possível candidatura e nos Estados Unidos as candidaturas começam a ser preparadas muito tempo antes do que são habitualmente preparadas na Europa, da sua candidatura a presidente a seguir a Trump. Portanto, quererá ter provavelmente mais exposição a nível internacional não só internamente, mas externamente, e por isso também virá não só aqui, penso eu, mas noutros pontos que os Estados Unidos estejam envolvidos, irá tomar a dianteira. Mas indo à sua pergunta, para preparar esta segunda fase é muito importante perceber, antes de mais, qual é o plano e se há plano e se realmente o Hamas está disposto a entregar as armas e como é que as quer entregar. Percebermos também se realmente Israel crê ou não no Hamas, que os corpos que faltam entregar, realmente o Hamas não os tem e não sabe onde estão. Isso também é muito importante. Mas eu acho que a visita de J.D. Vance tem muito a ver e será um dos grandes pontos fulcrais, que será a preparação da força internacional. O que é que será esta força internacional, que países estarão envolvidos, de que forma Israel poderá ou não ter influência sobre esta força internacional que estará para manter a paz em Gaza a partir deste acordo para a frente. E sobretudo, o reconhecimento dos pares, de uns e de outros. No caso de Israel, o reconhecimento do Estado palestiniano, que não me parece que vá acontecer assim tão facilmente. E no caso do Estado palestiniano e da autoridade palestiniana, o reconhecimento de Israel, que era uma das condições sine qua non do reconhecimento por parte dos últimos 10 países que reconheceram o Estado da Palestina na ONU. Tudo isto estará em cima da mesa, penso eu que é a preparação que se irá fazer e a preparação que J.D. Vance levará na sua agenda.
Falava há pouco da segunda fase deste acordo de cessar-fogo, que está em vigor e que pressupõe, como aqui também referia, a entrega de armas por parte dos militantes do Hamas. Parece plausível que tal venha a acontecer, que o Hamas desista da luta armada em nome de um acordo de paz?
Primeiro temos que perceber como é que vamos avaliar o que já está entregue ou não. Quantas armas tem o Hamas e onde é que estão. Estão todas em Gaza ou estão também fora da área que delimita Gaza e Israel? Provavelmente, o Hamas terá armamento fora desta região. Portanto, nomeadamente em outros países do Médio Oriente, em lugares mais recuados, onde tem também, como é sabido internacionalmente, grande parte dos seus líderes. Há uma parte do Hamas mais radical que não quer entregar as armas, outra que entende que a luta armada deve acabar quando o Estado palestiniano for reconhecido e quando Israel o reconhecer e quando houver realmente condições para fazer um governo, mas essa mesma parte só aceita entregar as armas se o Hamas tiver voz e tiver um significado no futuro governo que irá ser preparado. Portanto, são estas questões muito difíceis de avaliar neste momento, que eu penso que estarão em cima da mesa também durante as próximas semanas na construção deste diálogo.
Está otimista quanto à concretização destes objetivos traçados no âmbito da segunda fase do acordo de paz?
Eu penso que nas atuais condições nós temos que estar otimistas, porque há dois ou três meses não pensávamos que isto fosse acontecer tão rápido. Quer gostemos ou não do estilo do presidente Trump, a realidade dos factos mostra-nos que ele realmente conseguiu estancar o banho de sangue que estava a acontecer. Conseguiu que as partes e a comunidade internacional começassem a pensar num futuro. Nós estamos aqui há três, quatro minutos a falar de futuro e há dois, três meses não falávamos sequer de futuro. Portanto isso é uma Uma cartada que o presidente Trump jogou e que lhe temos que reconhecer. Da forma como o fez, provavelmente outros não fariam igual, mas que resultou, resultou e está a resultar. Portanto, agora vamos ter que perceber. Otimista estou muito mais do que estava há dois ou três meses. Mas é tudo muito ténue, tudo muito difícil de avaliar com certezas. Era essa a palavra que me faltava, avaliar com certezas do que está a acontecer. Nem sequer é do que vai acontecer, é do que está a acontecer.
Claro.
As informações são de parte a parte. Nós muitas vezes comentamos a uma distância brutal das regiões e nem temos noção que Gaza para o Qatar ou para o Egito, ou onde estejam membros do Hamas, é preciso haver comunicação, é preciso perceber naquele amontoado de estropços gigantescos de Gaza, quais são os túneis que guardam X cadáveres ou não guardam. Quer dizer, é de uma dimensão tal esta exigência de negociações e ter um mediador que o Hamas, em termos que está do lado de Israel, também não é fácil. E é isso que eu acho que o JD Vance vai tentar dar uma nova tônica, porque depois ao fim de algum tempo os intermediários também ficam desgastados, porque começam a tomar parte e começam a tentar influenciar uma das partes. E isso também não é fácil para a outra parte que não está a ser. Estou a falar de negociações diplomáticas e também porque é o vice-presidente dos Estados Unidos. Steve Witkoff enviado e a seguir o vice-presidente dos Estados Unidos. Há um acréscimo na graduação da importância que os Estados Unidos estão a dar às negociações. Isso também é importante para as duas partes.
Voltemos então agora a olhar para o conflito no leste da Europa e se havia esperança que o acordo de cessar-fogo no Médio Oriente pudesse ser replicado no imediato no leste da Europa. A verdade é que Sergey Lavrov, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, veio nas últimas horas afastar, por exemplo, a possibilidade de um acordo de cessar-fogo durante o encontro que vai juntar Vladimir Putin e Donald Trump na Hungria, em data ainda a anunciar. Estão longe essas tréguas, esse acordo de paz que permita calar as armas no leste da Europa?
Eu penso que ainda estamos um cadinho mais longe. Aquilo que sabemos é que a Ucrânia pretende um cessar-fogo e depois uma negociação. Aquilo que sabemos é que a Rússia pretende uma negociação e depois um cessar-fogo. E nesta matéria, como é fácil perceber pelas palavras, não há intersecção. Portanto, aquilo que os Estados Unidos, penso eu, e bem, recuaram foi na questão dos Tomahawk, na assistência dos Tomahawk. Penso que isso terá sido falado ao mais alto nível entre os Estados Unidos e a Rússia. Não sei se até entre o presidente Trump e o presidente Putin, mas isso mudaria completamente aquilo que assistimos hoje no leste da Europa. Portanto, a Ucrânia passaria a ter uma capacidade de atingir em profundidade a Rússia, que levaria a guerra para outro nível, que penso que neste momento não é benéfico para ninguém. Temos que aguardar que o presidente Trump provavelmente convença o presidente Putin a ir para a mesa das negociações entrando numa época de cessar-fogo e que depois, provavelmente, tendo que convencer o presidente Zelenskyy. E eu acho que é essa solução que é mais apontada. Agora, na última visita que vimos na semana passada do presidente Zelenskyy a Washington, já percebemos que o presidente Zelenskyy estava apto a cessar fogo e que depois queria negociar. Quando ele diz negociar, na minha opinião, ele está a abrir a porta a que haja um congelamento, que foi sempre o que nós falamos aqui nos últimos dois anos na Rádio Observador, que haja um congelamento dos territórios até àquela data e que haja realmente algumas garantias de segurança para o resto do território que sobrará à Ucrânia por parte da comunidade internacional e por parte dos Estados Unidos.
Que sobrará, porque é inevitável a Ucrânia ter de abdicar de território em nome de um acordo de paz.
Parece-me que será difícil não ser de outra maneira. Eu não vejo assim um entendimento tão alargado dentro da União Europeia em matérias tão importantes. Nós já tivemos muito tempo para preparar planos de entendimento na área da defesa, etc. Dava-lhe só aqui um exemplo que não tem a ver diretamente com este assunto, mas neste momento os aviões de última geração estão a ser preparados pelos franceses e pela Dassault. A Dassault não consegue entendimento com as suas congéneres alemãs para conseguirem fazer um protocolo de cooperação para realmente terem o avião de sexta geração no ar brevemente. Portanto, só aqui percebemos como é que os dois maiores países, em termos de defesa da União Europeia, nem sequer se conseguem entender num projeto de cooperação dentro da própria União Europeia em áreas de defesa. E isso foi dito pelo presidente da Dassault recentemente. Portanto, só aqui percebe como é que a União Europeia está preparada para enfrentar algo que diga a Zelenskyy: "Nós estamos aqui para o confortar se você não quiser entregar algum território". Não estou a ver como é que isso possa acontecer. Estou a ser realista, não quer dizer que era isso que eu gostava que acontecesse. Agora, também acredito que Zelenskyy tentará congelar sem, em termos de direito internacional, admitir que aquele território é efetivamente da Rússia. Estará ocupado pela Rússia na condição da visão da Ucrânia e estará na posse da Rússia na condição da visão da Rússia. Portanto, haverá um diferendo internacional para aquele território, como há outros no mundo Mas o mais importante era haver condições pra haver um cessar-fogo e haver paz naquela região. Eu acho que é a única solução neste momento para aquela região.
Falava da União Europeia, a alta representante da União Europeia para as relações externas, Kaja Kallas, veio dizer nas últimas horas que a Ucrânia não deve abrir mão dos seus territórios como parte de um acordo de paz com a Rússia. É uma posição ajuizada da União Europeia?
É como eu lhe dizia há pouco, não estou a ver o que a União Europeia possa dar de conforto a Zelenskyy a não ser dinheiro ou mesmo as armas terão que vir via Estados Unidos, é o que tem estado a acontecer. Portanto, não estou a ver como é que isso possa acontecer. Agora, não consigo analisar em profundidade, porque há esta questão, aquilo que a Kaja Kallas dizia que a Ucrânia não deve abdicar do seu território, mas se Zelenskyy não admitir que abdica, mantendo o terreno congelado, manter as fronteiras congeladas como estão neste momento, em termos de direito internacional, não admitindo que esse território é da Rússia. Será que isso está dentro destas palavras e na interpretação destas palavras que a Kaja Kallas queria dizer ou não está? Portanto, é uma questão de semântica e de detalhe muito importante, mas também nós não podemos dizer a um par nosso ou a um próximo nosso que ele faça uma coisa pra qual não tem capacidade sem que nós tenhamos capacidade pra o apoiar. E não estou a ver como é que a União Europeia pode fazer mais do que o que já tem feito neste momento, porque não acredito que qualquer país da União Europeia esteja pronto pra pôr soldados ou botas no terreno. Como sabemos, a Rússia ainda consegue produzir muito mais munições hoje em dia do que a União Europeia. Portanto, acho que a União Europeia tem feito um bom trabalho, mas ainda não está preparada pra entrar numa dimensão deste conflito.
Tendo em conta também as dificuldades de cooperação que procuro aqui pôr em evidência com o exemplo que nos trouxe a esta edição de Gabinete de Guerra, Vítor Gabriel Oliveira, obrigado pela sua presença e pela sua disponibilidade. É o secretário-geral da Sedes Europa, que nos ajudou hoje a olhar para alguns dos factos em torno das guerras no Médio Oriente e no Leste da Europa.