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Essa agora mais um Gabinete Guerra das manhãs 360, esta quinta-feira com a análise de Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Muito bom dia, Francisco. Bem-vindo.
Bom dia.
Bom dia. Começamos por Donald Trump, que diz que Putin lhe pediu para resolver a guerra na Ucrânia, um pedido feito há cerca de duas semanas, mas que só agora o presidente norte-americano revelou. Putin terá dito qualquer coisa como: "Há 10 anos que tento resolver esta guerra, mas que não consigo". Sugere por isso que sejam os Estados Unidos a fazê-lo. Francisco, como interpretar esta narrativa, quer de Trump, quer de Putin?
Bom, do lado de Putin é ganhar tempo.
Como sempre, não é?
Como sempre. Arrastar, ver se consegue conquistar o máximo de território possível, que é para quando eventualmente chegarmos a um processo de qualquer cessar-fogo e depois uma paz congelada, ele ter mais ganhos territoriais. Bom, Donald Trump já nos habituou a estas incertezas. Eu agora aprecio muito as conferências de imprensa que ele faz no avião, chega à porta interna do avião e diz aquilo que lhe vem à cabeça, e depois aquilo tem consequências, isso é que é grave. É que sendo ele quem é, o que ele diz tem consequências. De maneira que se ele agora diz que o Putin lhe pediu, bom, eventualmente ele teve essa conversa. Não sabemos, mas vamos acreditar que sim. E o que ele já fez para isso?
Pois.
Já teve várias iniciativas, mas sem resultado. A meu ver, isto é, mais uma vez, estarmos a ganhar tempo. Eu não sei qual é o compromisso entre eles, mas o que é importante é que ele quer encontrar uma solução para o problema e de vez em quando aparece até aborrecido e chateado, e faz diversas formas de pressão e comentários até depreciativos ao próprio Putin. De maneira que vamos ver se é desta que ele vai aproveitar até o Natal, depois vem o inverno, pode ser que isto fique tudo congelado. Pelo menos aproveitar o inverno para congelar a situação.
Entretanto, o autarca de Kiev, Vitali Klitschko, diz que os próximos meses vão ser muito difíceis para Zelensky, porque terá de tomar decisões que o podem colocar em risco de suicídio político, palavras do autarca. Francisco, concorda? O dilema será entre continuar com a guerra, haver mais mortes, destruição, ou então considerar um tal compromisso territorial com Putin.
Pois, estar na pele do presidente da Ucrânia não é fácil neste momento. Ele tem a destruição do património e a perda de vidas humanas colossal. Tem que perder território. Bom, se for essa a solução. Agora, se ele perder território, é o tal suicídio político. Mas se continuar a guerra, também é um suicídio político. Ele tem este dilema. Onde é que ele perde menos? Eu acho que é preferível, não sei o que ele pensará, mas ao fim deste ano todo, e só ele que tem ainda este ascendente, ele é que é o presidente. Pode ser contestado, o que quiser, mas ele é que ainda tem o poder. De maneira que para ele talvez seja preferível, não sei se vai ser esta opção. É uma opção muito difícil. É sempre uma questão de suicídio. Suicídio atirando-me da janela ou dar um tiro? Não sei como é que eu vou fazer, mas é preferível parar a destruição do património e a morte das populações e dos soldados, parar isso, e depois logo se vê como é que isto se vai resolver. Agora, continuar a guerra, continuar a destruição do património. É legítimo continuar a guerra, porque ele é que foi agredido. Mas também tem que pensar nas consequências para a sua população, no curto e no médio prazo. No longo prazo é muito difícil, com os imprevistos, nós pensarmos no longo prazo. Pensaram no longo prazo a Ucrânia quando foi da desnuclearização, e depois foram invadidos por aqueles que deram garantias de segurança. É interessante, é que não foi por outros, foi aqueles que deram garantias de segurança, deram tal garantia de segurança que nós ocupamos, que é para garantir que vocês estão seguros. De maneira que esse dilema do presidente Zelensky não será fácil de resolver nem na cabeça dele. Só compete a ele, mas as influências e as pressões internas dos partidos de oposição, da própria população, das áreas militares e as pressões externas devem ser múltiplas. Mas ele é que vai ter que ter a última palavra e nós não sabemos exatamente. Eventualmente, ele ainda não sabe qual é que é.
Pois não, exato. Temos também de falar dos testes que os Estados Unidos realizaram esta quarta-feira, ontem, com um míssil balístico intercontinental de capacidade nuclear, capaz de atingir uma velocidade de 24 mil quilômetros por hora. Francisco Proença Garcia, esta é só uma demonstração de Trump, do seu poderio militar, ou há mais por trás disto? O Kremlin espera que este teste não afete as relações entre Rússia e Estados Unidos.
Bom, como é que pode afetar as relações? O Kremlin tem estado a testar e a anunciar o Poseidon, os mísseis, tudo aquilo que ele tem estado a anunciar com capacidade nuclear. Donald Trump disse que ia começar os testes. Não é os testes, as explosões nucleares que duraram muito tempo, isso já não é feito há três décadas. Mas é o teste. Tem que ser testada a precisão, a nova tecnologia, a adoção da inteligência artificial. De maneira que ele apenas faz os ensaios. Nesta altura, isto sempre foi feito, os ensaios dos meios militares que têm e o treino das forças, porque senão, para que é que existem? Para estarem armazenadas? Não, elas têm que ser testadas. Depois, quando há um upgrade ou há inovações tecnológicas, ou até mudança das equipas que lideram esses processos, tem que haver treinos. De maneira que eu não vejo que isto seja uma escalada. Nós vemos a escalada no ponto de vista político e na narrativa, como agora se diz, entre os líderes. Eles estão os dois a fazer a mesma coisa. E nós depois esquecemos que os chineses fazem, os iranianos fazem constantemente. Os israelitas fazem constantemente, os indianos, todos nós fazemos para o treino das guarnições, para a manutenção dos equipamentos. Mas veja, o míssil não levava ogiva nuclear, foi para treinar trajetórias e ver o apuramento da tecnologia, para falar de uma forma simples. De maneira que eu não vejo que isto leve, se fosse empregue em campos de operações. Vamos lá ver Estas coisas também se fazem e nós damos visibilidade. Quando não damos visibilidade é que é problemático. Agora, quando demos visibilidade, serve para uma coisa: para dizer que é a dissuasão. Não se esqueça que o papel das Forças Armadas em qualquer país, e quando nós temos forças, não é para se empregar, é para mostrar que as temos. É o papel da dissuasão. Isso é que importa. E ele diz assim: "Bom, vocês mostraram aqueles mísseis todos, que hipoteticamente ainda não estão desenvolvidos, mas o nosso já funciona".
Nós vemos também os tais. Exatamente.
O nosso já funciona e é hipersónico. As defesas antimíssil dos dois lados não têm capacidade para defesa dos mísseis hipersónicos, como temos visto na Ucrânia. Nem os Patriot, que já têm umas décadas, conseguem defender os mísseis hipersónicos, nem o sistema de mísseis Patriot tem capacidade para isso. De maneira que isto é uma demonstração também de poder. Mas faz parte do jogo entre as grandes potências. Nós é que somos pequenos e pensamos que isto não acontece, mas acontece, acontece diariamente e sempre aconteceu. Senão, como é que chegamos a ter o míssil? O míssil destes não se desenvolve de um dia para o outro. E já existia. É para mostrar que está operacional.
Que o têm e funciona.
Exatamente, faz parte da estratégia da dissuasão. É sobretudo isso.
No Médio Oriente, as forças de defesa israelita dizem ter matado um combatente do Hamas, responsável por ter mantido seis israelitas em cativeiro em Gaza, entretanto libertados. Ao mesmo tempo, confirmaram também o ataque no sul do Líbano, que matou um membro do Hezbollah. Francisco, mesmo com o acordo em vigor, Tel Aviv não deixa de eliminar aquilo que considera uma ameaça ao país.
Nós já sabíamos disso. O que é importante é que as operações de grande envergadura e os bombardeamentos pararam. Agora são coisas seletivas contra objetivos muito bem identificados. Por exemplo, eles identificaram esse no sul do Líbano, e eles até têm dito que o governo do Líbano não está a ajudar na desmobilização do Hezbollah, e eles vão intervindo. Na Faixa de Gaza, se este rapaz que foi agora identificado e abatido, teve em cativeiro seis pessoas. Foi nesta altura que foi abatido, andaram dois anos para o apanhar. De maneira que este tipo de operações cirúrgicas não vão parar, mas de um lado e de outro, não se esqueça que o Hamas de vez em quando também abate uns soldados israelitas. São pequenas, na continuidade de um processo de cessar-fogo e desse acordo que há, são os desvios a essa norma, mas que são aceitáveis de ambos os lados. O que é importante é que eles compreendam isso um ao outro. Fizeste isto, eu tenho esta reação, eu identifico isto, mas são coisas pontuais que não afetam o todo. E o discurso é muito importante para explicar isso. Junto à população israelita é perfeitamente aceitável e quando há intervenções do Hamas junto da população na Faixa de Gaza, aqueles que ainda apoiam o Hamas, também é aceitável essa intervenção. De maneira que, mais uma vez, faz parte das regras do jogo. O que interessa é que o global...
Seja pontual. Sim. Francisco Louçã Garcia, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. Bom final de semana. Obrigada.
Muito obrigado.