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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do Francisco Pereira Coutinho, professor universitário especialista em Direito Internacional. Olá, Francisco, bom dia. Bem-vindo.

Bom dia.

Mais uma noite de ataques entre Estados Unidos e Irão. O Irão que colocou um ponto final e definitivo no memorando de entendimento, diz que para Teerão este fracasso nas negociações demonstram que Washington só entende a linguagem da força. A Casa Branca diz o mesmo ou muito parecido. Francisco, que análise faz de tudo o que se tem passado nos últimos dias?

Difícil, porque acima de tudo que este memorando durou menos.

Era muito frágil, como tínhamos pensado.

É verdade, era frágil, mas durou ainda menos tempo do que aquilo que esperávamos, porque durou menos de um mês. E era o memorando que se destinava a abrir o Estreito de Ormuz, essencialmente, foi isso que foi enunciado por Donald Trump. Só que é o resultado de ter sido negociado com muita pressa, em cima do joelho e com uma redação, eu sou professor de Direito, que deixava aqui muita margem para equívocos. O que dizia o memorando? Dizia, e passo a citar, que o Irão ia desenvolver os melhores esforços para abrir o Estreito e que não iria cobrar portagens. Isso era claro. Eu lembro que em 1815, a seguir ao ato final do Congresso de Viena, os espanhóis comprometeram-se a devolver a Portugal Olivença, iriam desenvolver os melhores esforços também, e isso ia ser feito o mais rapidamente possível. Estamos a esperar há mais de 200 anos.

Depois fica tudo muito no ar.

Este tipo de linguagem é uma linguagem que deixa, de facto, tudo isto em aberto. O Irão disse: "Muito bem, vamos abrir o Estreito, mas tem que passar junto à nossa costa. Estamos a desenvolver os melhores esforços para permitir uma passagem, não vamos cobrar portagens". Os Estados Unidos entenderam que o Estreito estava completamente aberto. E foi a partir desta discussão que chegamos ao ponto em que estamos hoje, em que o Estreito está fechado e os Estados Unidos ontem voltaram a decretar um bloqueio. Portanto, voltamos exatamente à situação que estávamos há um mês e que levou à assinatura do memorando, porque Trump disse que as consequências económicas para os Estados Unidos e para o Ocidente em geral seriam dramáticas se não fizesse nada, mas a verdade é que regressamos a esse ponto. Agora, para o Irão também não interessa nada ter o Estreito bloqueado, como ele está neste momento.

Asfixiar toda a economia iraniana.

Deles próprios, mas o Estreito para o Irão serviria como moeda de troca, porque aquele memorando tinha ali uma parte que era uma espécie de suborno. O Irão receberia os ativos congelados, os Estados Unidos levantariam as sanções sobre o petróleo iraniano, perderam tudo isso. Portanto, aquilo serve essencialmente como moeda de troca. Só que para muitos no Irão, aquilo é um símbolo da vitória do Irão.

Da resistência.

Da resistência identitária, porque não chega a sobreviver. É que o resultado desta guerra foi o controle do Irão sobre o Estreito, da perspectiva iraniana. Agora, para Donald Trump, ter o Irão a controlar o Estreito é marca visível de que a intervenção militar foi um desastre completo. Ele quer voltar, pelo menos, à situação que estávamos no final de fevereiro. E o resultado prático, no Irão, é um impasse.

Claro. Mas, Francisco, os preços do petróleo claro que já dispararam com este reacender do conflito. Sabendo que a inflação e o preço dos combustíveis são os maiores inimigos políticos de qualquer presidente americano, Trump não está aqui numa armadilha e a arriscar o resultado das midterms?

Está. Aliás, foi isso que explica porque é que há um mês ele fez aquilo. Porque repare, as midterms serão só no início de novembro. Ele disse: "O preço do petróleo vai agora baixar, este problema está resolvido". E de facto, para os americanos, isto eu acho que é um ponto importante. Os Estados Unidos fizeram uma intervenção aérea. Dessa intervenção não resultaram praticamente baixas. Os Estados Unidos terão perdido 10, 13 homens durante este tempo todo. A única consequência desta intervenção no Irão era o preço dos combustíveis. Se isso baixasse, seria uma questão secundária. Não iria colocar em causa a presidência de Trump, nem sequer as eleições em novembro. E por isso é que ele fez aquele memorando naqueles termos. Só que, de facto, o Irão não aceitou a cenoura, não aceitou o suborno e quis manter um controle sobre o Estreito de Ormuz, que ainda por cima era inaceitável para os aliados americanos ali na região, os países árabes vizinhos. E isso trouxe-nos até agora. E agora Donald Trump já veio trazer novamente as ameaças que vai destruir o Irão, atacar alvos civis. Possivelmente são crimes de guerra e, portanto, voltamos à mesma dinâmica que tínhamos no passado. Agora, é claro que esta solução negocial eu creio que é a única que faz algum sentido para as duas partes. Mas já tentamos uma vez a via negocial através de um memorando e não resultou, portanto, é pouco provável que isto venha a resultar a curto prazo.

Entretanto, a Guarda Revolucionária Iraniana reivindicou ataques diretos contra bases dos Estados Unidos na Jordânia, no Bahrain, no Koweit. Washington subestimou o poder da retaliação do Irão ou era um risco militar perfeitamente calculado pelo Pentágono?

Acho que o Pentágono já estava à espera de tudo isto. Esta retaliação iraniana ainda é uma retaliação relativamente contida, porque é aquilo que eles já tinham feito no passado. Ainda não vimos-

Mas dizem que podem intensificar estes ataques, não é?

Sim, designadamente, nós estamos a ver ataques sobre os Emirados, nós estamos a ver ataques sobre o Qatar, nós estamos a ver ataques sobre a indústria petrolífera de nenhum destes Estados. Agora, aquilo que estamos a ver é aquilo que já vimos no passado, ataques diretos sobre as bases americanas na região. E, portanto, é isso que podemos esperar que o Irão faça e o Irão tem essa capacidade. O New York Times a certa altura fez uma estimativa de que o Irão ainda manteria 70% dos mísseis. Portanto, aquele conflito de 40 dias levou a que apenas um terço da capacidade bélica iraniana tenha sido destruída. Eles continuam a ter essa capacidade e vão utilizá-la. Parece-me que isso é muito claro. Agora, isto é uma guerra muito cara também para os Estados Unidos.

Claro.

E o Irão pensa: "Bom, já sobrevivemos estes seis meses".

Vamos continuar a desgastar.

Sim, e duvidamos muito que os Estados Unidos mantenham esta resiliência. Aliás, o presidente americano muda de ideias todos os dias. Na segunda-feira ia cobrar portagens de 20% sobre o Estreito, ontem já disse que não. Estamos nestes flick flacks constantes e, portanto, o Irão aposta no longo prazo e acha que sairá vencedor. Agora, também é uma estratégia arriscada da parte deles, porque Donald Trump é custado Poderá querer eventualmente até escalar este conflito.

Entretanto, arranca hoje em Roma mais uma nova ronda de negociações diretas entre os embaixadores de Israel e do Líbano. Conversações que começaram em Washington em meados de abril, as primeiras em décadas. O que se está a passar com o Irão pode de alguma forma comprometer o sucesso destas negociações ou não?

Sim, estão muito ligadas, porque a primeira cláusula do memorando, que agora está morto, falava justamente da questão do Líbano, que cessaria o conflito no Líbano. Agora, estas negociações são entre o governo de Israel e o governo libanês, justamente para tentar resolver a questão do Hezbollah. Eu acho que é o caminho para a construção de um Estado libanês forte e isso passa justamente por não existir no Líbano um Estado dentro do Estado, que é o Hezbollah. E, portanto, eu creio que os Estados Unidos e Israel fazem bem em tentar criar as condições para que exista um exército libanês capaz de controlar o seu território e, em concreto, isso vai ter que passar, a prazo, pela saída de Israel do sul do Líbano. Isso está a ser feito de uma forma negociada. Eles estão agora a negociar umas zonas piloto, onde o exército libanês vai tentar controlar o território, desarmando o Hezbollah nessas zonas. Vamos ver se isso funciona. Há muito pouca expectativa sobre isso, mas temos que começar por algum lado e parece-me que este poderá ser o caminho a seguir. Agora, isto vai implicar, obviamente, um investimento nas Forças Armadas libanesas e neste governo libanês. É evidente que Teerão reforçado, um regime teocrático reforçado, vai justamente investir também no seu proxy, que é o Hezbollah. E, portanto, vamos ter aqui uma guerra no sul do Líbano, muito provavelmente, porque o Hezbollah, com o apoio iraniano, não irá simplesmente desaparecer de um dia para o outro.

Ainda sobre Israel, as eleições legislativas ficaram finalmente marcadas para o dia 27 de outubro. Se Netanyahu vencer, já admitiu aliar-se à extrema-direita. Estas eleições antecipadas são o veredito final do povo israelita sobre a forma como Netanyahu geriu a guerra no Líbano e também em Gaza?

Não só isso, mas também sobre o tipo de sociedade que os israelitas vão querer para o futuro. Porque esta aliança que foi feita por Netanyahu foi verdadeiramente um pacto com o diabo. Esta extrema-direita messiânica, uma extrema-direita racista, que estava fora do espectro político, havia uma espécie de cordão sanitário. A única hipótese que ele tem de continuar a governar será justamente com estes partidos da extrema-direita. Agora, há uma plataforma centrista liderada por Eisenkot, que é um antigo militar e que fez parte do gabinete na sequência dos ataques de 7 de outubro.

O filho morreu em Gaza, não foi?

O filho morreu nesta intervenção em Gaza e outros familiares também. E, portanto, é alguém que neste momento está muito bem posicionado nas sondagens e terá a maioria, eventualmente, com o apoio de um partido árabe, porque este foi sempre um problema em Israel, a integração destes partidos em qualquer solução de governação. Agora, Netanyahu está encostado às cordas, marcou as eleições para o último dia possível. Isso também é uma coisa interessante. Mas temos que esperar mais algum tempo para perceber se haverá aqui ou não uma mudança política. E eu creio que é mesmo decisivo para percebermos se Israel evolui no sentido de ser um Estado de direito democrático plural ou se se torna uma espécie de Esparta, como Netanyahu a certa altura disse, um Estado etnonacionalista muito fundado na vontade da maioria judaica, cada vez mais radicalizada.

Francisco Panoco, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Um bom dia, boa quarta-feira.