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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Esta noite estamos de regresso para analisar os principais focos de conflito, hoje com o tenente-coronel Marco Serronha. Muito boa noite, seja bem-vindo.

Olá, boa noite.

Começamos com o conflito iraniano. Donald Trump voltou a reforçar que a janela de oportunidade para a diplomacia com Teerão é reduzida. Sugeriu que os próximos dias vão ser decisivos, dá dois ou três dias para que se alcance um acordo com o Irão. Estes prazos, senhor tenente-coronel, ainda são para acreditar?

Vejamos. Eu seria tentado a dizer que não. E isto por quê? Porque já vimos prazos postos por Donald Trump no passado, relativamente a esta questão dos processos negociais, que não foram cumpridos, ou em determinada altura ele arranjou uma saída airosa no sentido de prolongar o prazo, naturalmente. E isto por quê? Porque eu continuo convicto que Donald Trump quer, de algum modo, arrancar um acordo favorável aos Estados Unidos, mas mantendo a pressão militar sempre latente, naturalmente, sempre presente, mas essencialmente mantendo, através do bloqueio naval, mantendo um estrangulamento económico com o Irão. Não sabemos quanto tempo vai durar, naturalmente, e que está a produzir efeitos, está. Mas isto para dizer que não podemos nunca pôr de lado, de facto, a opção militar. Naturalmente, está sempre presente em cima da mesa, mas o que Donald Trump já nos mostrou que só vai utilizar isto mesmo em último recurso. E, portanto, é provável que, eu pelo menos inclino-me para isso, que mesmo ao fim de três dias, possa haver aqui ainda mais alguma iteração no processo negocial, no sentido de haver uma aproximação a uma situação que seja minimamente aceitável para os Estados Unidos, que tem a ver com a questão nuclear, essencialmente, e com a abertura do Estreito de Ormuz pelo lado do Irão, sem condições.

Mas este posicionamento contraditório do presidente norte-americano não acaba por colocar o Irão também numa posição de vantagem nestas negociações?

Eu acho que fica numa posição de dúvida. Ficamos todos numa posição de dúvida relativamente à utilização ou não do instrumento militar. Agora, vamos lá ver. Nós conhecemos o processo negocial do Irão. O Irão negoceia com o Ocidente há muitos anos, e a capacidade do Irão ceder é muito limitada, e por diversas razões. Por exemplo, por uma questão de filosofia política do próprio regime, que mesmo depois desta operação militar, que ficou com as condições muito degradadas, não foi o suficiente para os Estados Unidos ser uma vitória, naturalmente. Mas tem as condições bastante degradadas, as sanções, e tudo que está associado a este mecanismo de pressão sobre o Irão. É certo que o Irão tem mantido o mesmo discurso relativamente à manutenção das suas questões de soberania, da decisão final ser do Irão e não dos Estados Unidos sobre a questão nuclear. Esta questão de querer, de algum modo, inserir o Estreito de Ormuz no seu perímetro territorial e fazer ele o controle daquilo. Para já não falar da questão da tecnologia dos mísseis, que até os próprios Estados Unidos de algum modo deixaram cair essa questão. E, no limite, a defesa do regime. Ah, e uma outra questão fundamental que faz parte da estratégia do Irão há muitos anos, que é o que ele chamou a defesa avançada, que é o grupo de proxies que têm, que de algum modo, sob o ponto de vista da estratégia defensiva de defesa do Irão, são a primeira linha onde o Irão pretende entreter, sob o ponto de vista militar, ou pelo menos fez isso durante muitos anos, os seus principais adversários, nomeadamente Israel, na Faixa de Gaza e no Líbano, e os Estados Unidos essencialmente no Iraque e na Síria também, quando foi o caso. Isso deixou de funcionar, naturalmente, essa é a questão. Mas a questão dos proxies também é uma questão que o Irão não está com vontade de deixar cair. Aliás, um dos pontos que pôs, que é relativamente inaceitável pelos Estados Unidos, é a questão de aparar a guerra também, portanto, este acordo incluir o Líbano, coisa que Israel não está muito favorável, os Estados Unidos provavelmente também não. E a vontade de resistir, e aliás, o Irão já ouvi dizer uma série de vezes, ainda ontem eu disse, se quiserem atacar, ataquem que a gente está pronto para se defender.

Exato.

Portanto, não parece haver grande margem negocial. O que de algum modo é contraditório, vamos lá ver, esta questão da retórica de um lado e do outro é contraditório com alguma flexibilidade que poderia haver para se atingir uma solução negociada minimalista, que permitisse depois continuar as negociações. Mas o que é certo é que isso não tem acontecido e provavelmente agora está tudo à espera. A bola está do lado do Irão. Para o Irão apresentar uma proposta relativamente àquilo que os Estados Unidos já tinham apresentado e que a resposta do Irão não foi aceitável. E é isso que vai acontecer. Se vai começar a guerra dentro de dois ou três dias, eu inclino-me para que não e que o processo continue, porque estou convicto que a estratégia dos Estados Unidos é mais no sentido de manter a pressão sob o ponto de vista económico do que propriamente sob o ponto de vista militar, porque sabe que a resposta, e o Irão tem alguma capacidade de resposta, sobre os países do Golfo iria ser mais uma questão que iria ser complicada de gerir. E, aliás, a pressão, e isto tudo indica que terá sido verdade, a pressão essencialmente para isto não ser feito, foi também dos países do Golfo, como sabemos.

Falamos também de uma visita importante que está a decorrer. Putin já chegou à China para uma visita oficial de dois dias. Senhor Tenente-Coronel, o que se pode esperar deste encontro, sendo que o presidente russo está numa posição de fragilidade, precisa da China para continuar a comprar combustível. O que podemos antever? O que Putin tem para oferecer?

Eu acho que o próprio líder da Rússia e a administração do Kremlin, de algum modo, associa esta visita a uma comemoração dos 25 anos do Tratado de Amizade entre a China e a Rússia, que foi assinado em 2000 e 2001. E, portanto, é nesse contexto que esta visita se faz. Agora, esta visita tem algum conteúdo, naturalmente, e um deles é a questão da economia e da proposta russa, que vamos ver como é que vai ser gerida, de construir um gasoduto e um oleoduto para trazer o petróleo e o gás de forma mais direta, portanto, não sendo por meios navais, por através de petroleiros, diretamente para território chinês. E de algum modo, criar, dentro daquela estratégia que a Rússia montou com o Ocidente, um sinônimo de alguma dependência da China, do petróleo e do gás russo. Não há a certeza que a China aceite isso. Porque é evidente que o gasoduto teria que ser pago pelos dois e não sabemos até que ponto a China está disposta a ficar numa posição como ficaram essencialmente alguns dos países europeus, como sabemos, que estavam dependentes essencialmente do gás russo, que circulava pelos gasodutos Nord Stream um e dois e outros. Portanto, essa é uma questão que está em agenda. Depois há questões também de natureza económica relativamente ao fornecimento de bens e de mercadorias chinesas à Rússia, a troca com o petróleo, portanto, questões essencialmente comerciais. Sob o ponto de vista político, além da imagem que a China está a aproveitar, naturalmente, embora as duas viagens não foram programadas para serem com este intervalo, como sabemos. A de Trump era para ter ocorrido há um mês. Mas o que acho é que a China aproveita esta proximidade entre as duas visitas para dar uma ideia que a China, neste momento, é o centro do mundo, onde toda a gente vai para, de algum modo, pedir a bênção de Xi Jinping relativamente aos processos que tem em curso, nomeadamente as questões dos conflitos. Trump foi lá pedir ajuda para resolver o conflito do Irão e Putin vai lá pedir ajuda para continuar a guerra na Ucrânia e precisa da sustentação e do apoio da China para isso acontecer. Fora isso, julgo que não haverá nada de muito mais, portanto, essencialmente questões económicas, questões de imagem e de alinhamento estratégico, naturalmente, nos discursos, isso já se notou desde a pré-visita e provavelmente na visita vai se passar a mesma coisa, um alinhamento discursivo e mensagens políticas dessa natureza. Não se espera muito mais do que isso.

E já que fala na guerra na Ucrânia, as Nações Unidas alertam que esse conflito está mais letal a cada dia. Nos últimos dois dias, por exemplo, a Rússia terá lançado mais de 1500 drones, dezenas de mísseis contra cidades ucranianas. A Ucrânia também tem retaliado em força, diga-se. Esta intensificação dos ataques russos podem demonstrar, de alguma forma, que o Kremlin também está a acusar uma maior ameaça da Ucrânia e de alguma forma quer enfraquecê-la?

Vamos lá ver. A Rússia já não é de agora que utiliza este método de ataques de natureza na profundidade ucraniana, nós chamamos em termos de léxico militar e estratégico, ataques de natureza estratégica, portanto, sobre áreas críticas e sobre infraestruturas críticas, e muitas delas são infraestruturas civis, porque já percebeu que na linha da frente não consegue fazer grande coisa. E as ações ofensivas que fez nas últimas semanas não tiveram sucesso e tiveram elevadíssimas perdas em termos de material e pessoal. E sem ganhos territoriais, naturalmente. E, portanto, a Rússia dá a ideia que passou por uma estratégia mais focada nos ataques de mísseis e drones contra cidades do que propriamente operações na linha da frente. Não estou a dizer que desistiu, mas de qualquer modo, está numa situação difícil que não consegue repor, em termos de efetivos e de capacidades militares, aquilo que vai perdendo. A Ucrânia essencialmente faz a mesma coisa, até porque as suas capacidades nessa área têm subido muito, a capacidade de drones e de mísseis de longo alcance que a Ucrânia tem neste momento e que tem de dia para dia melhores capacidades, aliada a uma certa deficiência que está à vista da capacidade de defesa aérea, antiaérea da Rússia, que não consegue interditar muitos destes veículos aéreos que a Ucrânia lança, são essencialmente sobre, neste momento também, manter o pânico em Moscovo, porque já percebeu que a situação em Moscovo e aquelas situações da comemoração do Dia da Vitória indiciaram alguma preocupação de Putin com a segurança e com a capacidade dele próprio de se defender e de se proteger. E, portanto, esta pressão sobre Moscovo, por assim dizer, cria nos russos, no centro da alma russa, por assim dizer, no território russo, na sua capital, um sentimento de medo que a Rússia não estava habituada, naturalmente. E também ataques, essencialmente, sobre a infraestrutura petrolífera, para tentar, de algum modo, compensar esta abertura que a guerra do Irão deu à Rússia para vender petróleo, que os Estados Unidos levantaram as sanções temporariamente para a Rússia poder vender petróleo que está embarcado, que está em petroleiros. E, portanto, qual é a forma que a Ucrânia tem de impedir que esse dinheiro entre nos cofres russos para alimentar o esforço de guerra? É danificando as infraestruturas de refinação de petróleo e as portuárias onde o petróleo é embarcado nos petroleirosE é isso que tem estado a fazer com bastante sucesso. Já destruiu uma parte significativa, destruiu ou interditou o uso durante meses de muitas dessas infraestruturas. Mas essencialmente estamos a assistir, porque na linha da frente a coisa está praticamente parada. Evidente que há combates, mas não há progressão de um lado nem do outro, mesmo do lado da Ucrânia também muito pouco. Portanto, estão a focar o esforço de guerra nesta fase sobre as retaguardas, sobre as cidades e sobre as infraestruturas críticas. A Rússia já faz isso há muito tempo, como sabemos, atacando as infraestruturas energéticas. A Ucrânia começou a fazê-lo agora no sentido de pôr alguma pressão também sobre o estabelecimento russo.

Sim, que está aqui também a surpreender, de alguma forma, a própria população russa.

Não estavam habituados a isto. Neste momento, os moscovitas, os habitantes de Moscovo, estão com algum receio, inclusivamente de sair à rua, porque já perceberam que há alguma facilidade do lado da Ucrânia em atacar a própria cidade. É evidente que a Ucrânia não tem feito ataques diretos a infraestruturas civis, mas quando ataca infraestruturas de natureza económica ou militar, é evidente que há sempre danos colaterais e isso tem sido preocupante. Isso provoca algum pânico na população de Moscovo, que não estava habituada a isto. E agora tem sido praticamente todos os dias ataques a Moscovo, de alguma dimensão.

Senhor Tenente-Coronel Marcos Ronha, muito obrigada.

Tenente-General, já agora.

Tenente-General, muito obrigada pela sua participação aqui neste Gabinete de Guerra. Até à próxima.

Parabéns ao Observador Jornal.

Faz hoje 12 anos, é verdade. Muito obrigada. Obrigada, boa noite.

Obrigado.