Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. O Parlamento ucraniano aprovou o projeto de lei para a mobilização de cidadãos com algumas mudanças relativamente à proposta inicial. Ainda falta, no entanto, a aprovação final em data a definir. Como é que olhas, Bruno, para estas mudanças de última hora na lei de recrutamento ucraniano?
Mostram também as dificuldades de encontrar pontos de equilíbrio. A Ucrânia tem um problema muito sério, não só de meios, mas também de homens. Há uma assimetria de base entre a Ucrânia e a Rússia. A Ucrânia tem pouco mais de 40 milhões de habitantes, a Rússia tem mais de 140 milhões. Sabemos que, por exemplo, em termos de artilharia, de munições, neste momento, voltamos a ter uma assimetria de 10 para 1. Em termos de soldados, os responsáveis ucranianos dizem que andam em torno de 5 para 1, portanto, há uma enorme assimetria também aí. Era preciso realmente rever a questão do recrutamento. A par disso, há um outro problema que é: nós temos pessoas que estão a combater continuamente desde fevereiro de 2022. Isso é um enorme desgaste. Geralmente, numa guerra prolongada, o que acontece é que os soldados estão a combater durante um ano, dois anos na linha da frente, no máximo, mesmo aí, idealmente com rotações, portanto, períodos de alguns meses mais na linha da frente, outros um pouco mais na retaguarda, mas depois acabam por sair do serviço ativo. E isso não tem estado a acontecer. Isso estava previsto na lei, mas acabou por cair. A Ucrânia acha que não consegue fazer isso, não se pode no fundo dar a esse luxo, mas corre-se o risco realmente de aumentar a desmoralização, de aumentar o desgaste psicológico sobre estes soldados veteranos que estão em combate há muito tempo. Por outro lado, havia algumas outras medidas, por exemplo, falou-se da questão do recrutamento de prisioneiros, que tem estado a ser usado muito pela Rússia, mas a Ucrânia tinha aí limitações que têm a ver com o facto de ser um Estado democrático, um Estado de direito, e portanto, aquilo que acabou por prevalecer foi a ideia de que pessoas condenadas com penas suspensas, ou seja, por crimes leves, não fazia muito sentido, porque era o que acontecia até aqui, qualquer pessoa condenada não podia fazer serviço militar. Isso num contexto de paz, se calhar, faz sentido, mas num contexto de guerra, não faria. Não vai haver aqui um recrutamento generalizado de prisioneiros por crimes graves, crimes de sangue, homicídio, violação, etc. Tudo isso está excluído. Agora, o problema é que isso limita realmente o impacto, a eficácia desta legislação, que também cria algumas penalizações adicionais sobre as pessoas que não respeitem as ordens para se incorporarem, mas ainda assim não tão pesadas também como vinha a proposta inicial. Eu duvido que isso tenha um grande impacto em termos de melhorar a situação em termos de recrutamento de números, que era algo que a Ucrânia também precisaria, mas que parece muito difícil de se conseguir.
Bruno, falando da questão dos meios, Volodymyr Zelensky pediu à Alemanha mísseis Taurus, que dariam a possibilidade de Kiev atacar a Rússia em posições mais longínquas. No entanto, a Alemanha recusou esse pedido. Zelensky disse que Scholz tem medo das ameaças nucleares. Quem é que tem razão aqui no meio desta discussão?
Eu percebo o ponto de vista do chanceler Scholz, que tem uma ala esquerda no seu partido, praticamente o partido está dividido a meio, uma ala esquerda que é muito avessa à utilização da força, que é muito conservadora, continua muito ligada àquela ideia do trauma da Segunda Guerra Mundial e que no fundo fornecer armas a um país que se está a defender é alimentar a guerra, o que do meu ponto de vista é um completo disparate. Mas os países que estavam a defender do nazismo, por exemplo, da Alemanha nazi, não precisaram de armas? Os Estados Unidos não fez bem em ajudar com o armamento a Grã-Bretanha ou a União Soviética para se defender do nazismo? Isso foi alimentar a Segunda Guerra Mundial? Foi, mas era uma guerra justa, era uma guerra necessária, uma guerra para defender a independência daqueles países, enfim, até a possibilidade de haver, no futuro, uma Europa livre, etc. Mas ele realmente tem esse problema de política interna. É essa, para mim, a principal razão que leva a este bloqueio. Todas as razões que ele alega do ponto de vista militar não parecem fazer sentido. E aí Zelensky tem razão. Por exemplo, esta ideia de que os Taurus seriam uma arma muito importante para dissuadir uma eventual ameaça nuclear russa contra a Alemanha. Isso não faz nenhum sentido. O que é eficaz para dissuadir um ataque nuclear são outras armas nucleares, que a Alemanha não tem, mas que a NATO tem, que a França, a Grã-Bretanha, e sobretudo os Estados Unidos têm. Os Estados Unidos, inclusive, têm armas nucleares na Alemanha e isso é que funciona aqui como uma dissuasão eficaz. Fornecer ou não fornecer Taurus, desse ponto de vista, não tem qualquer implicação do ponto de vista da defesa da Alemanha em relação a uma ameaça nuclear russa. Desse ponto de vista, realmente não me parece fazer nenhum sentido e percebo a frustração de Zelensky, que num contexto bastante difícil, em que sobretudo do lado americano há muita dificuldade em receber equipamento, armamento, munições, era fundamental que aquele equipamento que os europeus até têm, que nunca é comparável em termos de quantidade aos americanos, mas têm algum equipamento, e inclusive equipamento de qualidade, como estes mísseis de longo alcance, que chegam aos 500 km, era fundamental que ele estivesse a ser fornecido em parte para compensar a escassez do lado americano. Isso, infelizmente, pelo menos do lado da Alemanha e em relação a alguns destes sistemas mais avançados, não tem estado a acontecer, também por razões políticas, não tão graves. Não vão tão longe no bloqueio como no caso dos Estados Unidos, mas também por razões de política interna, a Alemanha está a ser muito renitente em fornecer alguns destes sistemas.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 e tem nova edição depois das notícias das 16h. Está sempre disponível também em podcast. Eu sou o Luís Soares, até amanhã.