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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e conosco temos hoje João Albuquerque, especialista em relações internacionais. Seja bem-vindo, João. Obrigado por estar conosco neste Gabinete de Guerra. Boa tarde. João, começava se calhar por olhar para aquilo que é um ano de Donald Trump à frente deste segundo mandato na Casa Branca. A esta hora que estamos a falar, Donald Trump está a fazer também um balanço daquilo que tem sido este mandato, que poderá ainda gerar mais polêmica do que aquela que tem gerado, sobretudo nestes últimos meses?
Sem dúvida. É um ano que a todos os níveis, e se tivesse que resumir em duas palavras, é de facto um caos imprevisível, porque aquilo que Donald Trump introduziu ou reintroduziu, de certa maneira, mas neste segundo mandato, com uma força ainda maior e com uma vivacidade ainda maior, foi uma desordem completa no relacionamento entre os diferentes Estados, entre os diferentes blocos, com a novidade de agravar ainda mais o difícil relacionamento entre aquilo que eram tradicionalmente dois aliados, em particular, obviamente, os Estados Unidos e a União Europeia. E portanto, nós olhando para trás, para aquilo que era o mundo há um ano, e aquilo que nós temos hoje, com este distanciamento entre dois aliados e com uma incerteza muito significativa em relação ao comportamento entre as diferentes potências, o próprio relacionamento entre os Estados Unidos e a China, ou o relacionamento entre os Estados Unidos e a Rússia, há alterações tão profundas que se torna difícil encontrar sinais positivos ou palavras elogiosas para este primeiro ano do presidente norte-americano.
Presidente norte-americano que amanhã vai estar em Davos, na Suíça, para o Fórum Econômico Mundial, onde já se ouviram bastantes declarações, já vamos a elas. Mas aquilo que lhe queria perguntar primeiro, João, é se espera que o encontro de Donald Trump com vários líderes mundiais pode levar a alguns entendimentos, nomeadamente sobre a questão da Gronelândia ou sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, e qual é que é a expectativa que tem para a presença de Donald Trump amanhã também em Davos.
Eu estive a ouvir hoje muito atentamente o discurso da presidente da Comissão Europeia, Von der Leyen, na Suíça, em Davos. E eu não me recordo, e acho que será difícil encontrar nos últimos 70 anos, um discurso de um líder europeu que seja tão abertamente hostil em relação a um tradicional aliado como é os Estados Unidos, e tão pró-independência da própria soberania europeia, de afirmação da autonomia estratégica europeia, como foi aquele que Von der Leyen teve hoje. Isto é um sinal muito claro de que os líderes europeus olham para aquilo que têm vindo a ser os discursos mais recentes de Donald Trump e as intervenções do seu círculo mais próximo relativamente à Gronelândia e às intenções que os Estados Unidos têm, do ponto de vista estratégico, sobre o território que pertence à Dinamarca, ou que tem administração territorial da Dinamarca, como sendo reais, como sendo uma ameaça real à própria soberania desse território. E, portanto, aquele que é o sinal dado por Von der Leyen hoje, falando da diversificação das relações da União Europeia com diferentes partes do mundo, o Canadá, ao Mercosul, passando pela Índia e pela Austrália, demonstra claramente que a União Europeia está a levar muito a sério esta ameaça. E nós temos também esta semana, na quinta-feira à noite, um Conselho Extraordinário Europeu convocado por António Costa, que é outro sinal muito claro de que os líderes europeus não estão a levar com ligeireza as reais intenções dos Estados Unidos. E, portanto, eu acho que nós podemos aguardar no final da semana um conjunto de medidas, ou pelo menos eu assim espero, que a União Europeia possa apresentar de resposta àquilo que possam vir a ser as ações dos Estados Unidos num futuro próximo.
De resto, em cima da mesa estão tarifas que o presidente Donald Trump admite impor aos países que são contra a anexação da Gronelândia, aos países europeus. A Europa já fez saber que vai responder na mesma moeda. De resto, o Parlamento Europeu já suspendeu a ratificação do tratado comercial entre os Estados Unidos e a União Europeia. A Europa deve responder na mesma moeda se Donald Trump efetivamente impuser tarifas a alguns países europeus?
Sem dúvida. Eu julgo que não podemos esperar mais, nem ser tíbios na forma como encaramos esta ameaça. Eu citava Von der Leyen hoje dizendo que a União Europeia está preparada para responder de uma forma proporcional e unida a qualquer ameaça dos Estados Unidos em relação à Gronelândia e caso os Estados Unidos rompam aquilo que ela considerou ser um acordo entre amigos, dizendo que quando dois amigos apertam a mão, espera-se que os acordos sejam respeitados. E, portanto, esta afirmação de Von der Leyen, desta resposta unida e proporcional àquilo que os Estados Unidos vierem a fazer, é um indicador muito claro de que todas as opções estão em cima da mesa, incluindo o instrumento anti-coerção, e eventualmente, no caso da ação ser mais hostil, eu julgo que há indicadores claros de que a União Europeia está preparada para agir em conformidade perante a violação daquilo que considera ser a soberania territorial de outro Estado, incluindo um Estado que faz parte da União Europeia.
De resto, Donald Trump ameaça França com tarifas de 200% sobre vinhos e champanhe se o país recusar, por exemplo, integrar o Conselho de Paz. Aquilo que lhe queria perguntar, João Albuquerque, é: as tarifas são resposta para todos os que contestam decisões de Donald Trump? São assim uma arma tão forte Ou é a única possível?
Eu julgo que é aquela que é mais imediata e que, de certa maneira, causa mais perturbações pelo menos no curto prazo. E portanto, Donald Trump tem capacidade de agir imediatamente. Se bem que eu não quero deixar de recordar também a decisão que é esperada hoje do tribunal americano sobre a validade da aplicação dessas mesmas tarifas. O próprio secretário do Comércio Internacional e o tesoureiro do tesouro americano vinham dizer que havia um conjunto de medidas que poderiam estar preparadas caso o tribunal considerasse ilegais a aplicação dessas tarifas. Mas de todo modo, enquanto isso não se vier a confirmar, Donald Trump continuará a usar isto como instrumento imediato, o que de certa maneira não deixa de ser um sinal, por paradoxal que possa parecer, positivo, porque permite pelo menos a resolução de conflitos ainda numa arena comercial ou do ponto de vista econômico, que se o conflito escalar pra outra dimensão, se torna impossível. Obviamente que a União Europeia tem que estar preparada para responder da mesma moeda e está preparada para perceber quais são os mecanismos que podem mais afetar o seu relacionamento com os Estados Unidos e, em particular, a economia americana, sendo que a economia americana obviamente sendo predominante no mundo, tendo uma capacidade muito forte por causa da força que o próprio dólar tem, tem também um nível de exposição muito significativo por causa da dívida externa que tem e dos títulos que tem dependentes de outros países, em particular da União Europeia e da China.
Sabemos que o primeiro-ministro da Groenlândia não descarta a hipótese dos Estados Unidos atacarem o território, apesar de Donald Trump não se comprometer com nenhuma das situações. No entanto, o responsável da Groenlândia sublinha que não considera que esse seja um cenário provável. Será que corremos o risco, João, de tornar esta questão da Groenlândia num conflito mais abrangente entre a Europa e os Estados Unidos? Estamos a caminhar nesse sentido ou não?
Eu não quero ser catastrofista. Eu quero acreditar que são esgotados todos os instrumentos diplomáticos e de resolução pacífica deste diferendo, que não é ainda um conflito, mas que é um diferendo aberto e uma ferida aberta entre os dois blocos, e que não chegaremos a um ponto de entrar em vias de fato ou pelo menos num conflito mais aberto, que envolva outro tipo de ações. A mim o que me preocupa muito, sinceramente, é a incerteza sobre o que são os interesses estratégicos americanos e de que forma é que os Estados Unidos se posicionam também na arena internacional. Isto porque nós temos que estar com alguma atenção àquilo que podem ser as repercussões que uma ação hostil americana tem na Groenlândia, em particular na legitimidade que isso conferirá a outros atores mundiais de agirem em conformidade com os seus interesses. E estou a falar, em particular, daquilo que poderá legitimar a China a fazer em relação a Taiwan. E a mim preocupa-me não saber ou não conseguir antever qual é que será o posicionamento que os Estados Unidos assumirão, caso essa intervenção chinesa possa acontecer em Taiwan, porque não é previsível que neste momento os interesses americanos se consigam desconectar daquilo que são os interesses próprios do próprio presidente americano. Isso confere um grau de muita incerteza na forma como nós analisamos a postura que os Estados Unidos têm hoje em dia no mundo enquanto grande potência mundial que continuam a ser.
E entretanto Donald Trump divulgou uma mensagem privada que o presidente da França lhe enviou a dizer que não compreende a estratégia dos Estados Unidos quanto à Groenlândia e a sublinhar também, a veracidade desta mensagem foi feita pelo próprio presidente francês, que disse também a Donald Trump que há situações em que os dois países estão alinhados, como na Síria ou como em relação ao Irã, referindo-se a outros dois focos de tensão. Emmanuel Macron poderá ter aqui um papel importante ou o fato de Donald Trump ter divulgado esta mensagem mostra que também não há aqui uma conversa bilateral possível com líderes europeus em específico e não com os líderes das instituições europeias?
Sim, ele divulgou essa mensagem com o presidente francês, mas também divulgou uma troca de e-mails, se não estou em erro, com o primeiro-ministro norueguês, em que dava conta da sua frustração, mais uma vez, por não ter recebido o Nobel da Paz. Eu julgo que o primeiro comentário é que isto, de facto, mina por completo a confiança que existe entre as partes e aquilo que puder ser o nível de comunicação privada, que muitas das vezes é útil e é fundamental na resolução de diferendos entre os líderes mundiais. Já tinha acontecido isso com Mark Rutte, com aquela mensagem um pouco caricata, para ser simpático, que Mark Rutte tinha enviado a Donald Trump, em que chamou Daddy. Eu não sei se Macron poderá ainda ter um papel relevante a desempenhar neste momento, não só pela sua fragilidade interna, do ponto de vista político a nível nacional, Macron está extremamente fragilizado porque tem um governo fraco, não consegue verdadeiramente governar o país e tem a extrema-direita a exercer grande pressão do ponto de vista político em França, mas também porque do ponto de vista europeu não tem conseguido exercer um papel de grande relevância nos últimos tempos e tem perdido aquilo que era a sua grande aura de europeísta e de líder do projeto europeu. E portanto, eu não sei se Macron tem ainda essa legitimidade, o que também, de certa maneira, dificulta o papel que os líderes europeus podem ter. Eu acho que o discurso que hoje von der Leyen proferiu em Davos lhe dá novamente um papel de liderança e destaque na forma como pode encarar todo este processo negocial e de relação com os Estados Unidos. Eu acho que isso é um ponto positivo, porque nós precisamos, de fato, que essa liderança europeia emerja novamente e seja capaz de afrontar esses problemas com a seriedade que eles nos devem merecer.
Há outro ponto de tensão de que falávamos também há pouco, que é a questão do Conselho de Paz para a Faixa de Gaza, com vários países a serem convidados, uns já aceitaram, outros não aceitaram. Como é que podemos olhar também para o fato de Donald Trump olhar para esse Conselho de Paz também como uma forma de poder chantagear os países também com esta questão das tarifas e não só?
Parece-me difícil a aceitação dos líderes europeus de participação nesta nova instituição, seja lá o que ela vier a ser. De acordo com aquilo que eu sei e que li, apenas Viktor Orbán tinha demonstrado disponibilidade para participar. Ora, quando estes convites depois se estendem também a Vladimir Putin e a Lukashenko, o presidente da Bielorrússia, para integrarem esse mesmo conselho de paz, torna muito difícil aos líderes europeus partilharem um fórum com estas personalidades para discussão da resolução de conflitos regionais. Como é que nos podemos sentar num conselho da paz onde está Vladimir Putin para discutir a resolução do conflito sem a presença de Volodymyr Zelenskyy e quando sujeitam à participação dos diferentes Estados mil milhões de euros para poderem integrar este conselho? Parece mais uma vez uma medida transacional da parte do presidente norte-americano, um bocadinho desfasada daquilo que é a realidade das negociações e das relações internacionais e tentando, obviamente, mais uma vez deslegitimar todo o papel que as Nações Unidas e todos os organismos de cooperação internacional podem ter e que eu não consigo, por muito que me custe, levar totalmente a sério.
O certo é que, voltando a Davos, vai marcar presença também o enviado especial do presidente russo, vai encontrar-se em Davos com a delegação norte-americana. Dmitry Peskov disse que esse encontro irá focar-se principalmente na área do comércio e investimento, mas também será transmitida informação sobre um potencial acordo de paz na Ucrânia. Sabemos que a questão do conflito entre a Rússia e a Ucrânia tem passado um pouco mais à margem desde que esta questão da Groenlândia ganhou mais espaço. Aquilo que lhe queria perguntar é se podemos ter aqui também algum avanço ou será apenas um encontro sem grandes consequências para aquilo que é um potencial acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia.
Eu acho difícil. Eu acho que é muito importante que se mantenham abertas as vias diplomáticas e os canais de comunicação entre os Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia, quando isso diz respeito à possibilidade ou à tentativa de encontrar soluções para o conflito. Mas eu não tenho visto ou julgo que a Rússia não tem dado sinais sérios nos últimos tempos de que tenha qualquer intenção de acordar um cessar-fogo. Eu recordo que a Ucrânia e o seu presidente tinham acordado ou tinham aceitado os termos do acordo de cessar-fogo impostos pelos Estados Unidos e não houve uma resposta positiva da parte da Rússia, porque obviamente aqueles termos eram justos e que de facto continham ou tinham em conta também a posição da Ucrânia. E, portanto, a Rússia não estava verdadeiramente disponível para uma negociação que não tenha em conta apenas e exclusivamente aquilo que são as suas condições, porque foi nesses termos que iniciou o conflito, foi nesses termos que iniciou a invasão e é sempre com base nessa lógica de lei do mais forte e de imposição da sua força que a Rússia avança para qualquer tipo de conversa relativamente à Ucrânia. Eu julgo que obviamente é importante que haja canais diplomáticos de comunicação, mas não vejo grande esperança que o conflito possa ter uma resolução imediata, sobretudo enquanto o mediador continuar a ser uma pessoa como o presidente norte-americano, que já se percebeu que tem conflitos de interesse muito claros na forma como lida com cada uma das partes.
João Albuquerque, muito obrigado por ter vindo a este Gabinete de Guerra. João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais. Boa tarde, obrigado.
Muito obrigado, Luís. Boa tarde.