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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou Maria João Simões. A análise desta terça-feira é do Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Bom dia, Francisco. Bem-vindo.
Bom dia, Maria João. Bom ano.
Bom ano para si também. Começamos por Donald Trump, que diz que não está em guerra aberta com a Venezuela e que não vai haver eleições nos próximos 30 dias. Diz que primeiro é preciso consertar o país. Francisco, sobre quem governa, diz que é ele.
Bom, é interessante. Governa como? Governa a partir do avião, daquelas conferências de imprensa que são muito interessantes. Bom, não sei como é que ele governa, porque quem controla o aparelho de Estado ainda são as Forças Armadas e o poder que vem desde o tempo do Chávez e que agora está no Maduro. De maneira que ele pode ter intenções de governar, pode ter comprado muita gente para ter feito esta operação com grande sucesso militar. Fez uma coisa bem, não fez o que fez no Iraque, não desmantelou o exército. Agora vamos ver como é que aquilo vai correr, mas não parece ser ele a mandar. Pode querer mandar, pode estar a controlar a narrativa, como se diz, mas vamos ver no terreno quem manda. Quem manda é quem tem as armas.
Exatamente. Em relação a Delcy Rodríguez, há quem diga que é pior que Nicolás Maduro. Francisco, por que Trump não quer nem Corina Machado, nem Edmundo González, dois nomes defendidos pela União Europeia, para não parecer que a operação de sábado foi um ataque direto ao governo de Maduro?
Não sei. Talvez porque sejam defendidos pela União Europeia. Ele está pouco preocupado com as eleições e com a democracia. Nós temos muito isso, a legitimidade do governo. Está bem, mas quantos governos há que nós consideramos ilegítimos e que são autoritários? Aliás, a democracia é minoria neste mundo. Infelizmente, é assim. Nós temos uma visão diferente do direito internacional e da legitimidade. Há uma nova noção de legitimidade. Voltamos à legitimidade pelo exercício. "Não é legal o que ele fez". Mas ele fez a sua intervenção. É o fato consumado. Nós apoiamos a oposição. Ele não apoia a oposição. Quem é que fez a mudança? Quem é que fez o golpe de Estado, digamos assim, quem é que mudou a cabeçilha do regime? Foi ele, não fomos nós. De maneira que quem dita as regras é ele. Está vendo? A nossa preocupação é outra. A dele é o fato consumado, a legitimidade do exercício. Ele, em princípio, controla a situação, não reconhece aqueles que são narcotraficantes. Esta não estava na lista dos narcotraficantes. Alguém entregou Maduro. Pode ter sido ela, não sabemos. Ela tem que ter um discurso interno e tem que ter outro externo, mas para já é a face visível. Agora, quem manda por trás? Bem, será a CIA que está a controlar? Não sabemos. É tudo uma grande criatividade e grande surpresa para nós, mas para quem fez isto não foi surpresa. E para aquela clique à volta de Maduro, não deve ter sido surpresa. Eles não chegaram lá com aquela facilidade toda e trouxeram. Isso não aconteceu, a meu ver, sem apoio interno.
Sem conivência interna, claro.
Ouça, eles são muito pragmáticos. Bom, quem é que manda a seguir? É aquele. Então eu junto onde está o poder. As alianças têm que ser coerentes, mas sobretudo convenientes. Maduro saiu, já não conta. Conta no discurso de televisão para mobilizar aqueles que ainda o apoiam, mas ele já não conta, já saiu de cena. Agora, quem é que vai mandar a seguir? Então é com isso que nós estamos. Nós estamos com novas regras, desde que nós continuamos a continuidade do negócio. A quem é que nós vamos pagar e como é que nós nos vamos apontar. Isso ainda não foi afetado, ou seja, porque a estrutura do Estado não foi afetada. Agora quem manda é o Donald Trump, diz ele. Então é com o Donald Trump que eles vão estar. Muda-se o discurso. Nós estranhamos isso. Houve regimes que mudaram do regime comunista para capitalista e para ditaduras de outra forma, de maneira que isso não é difícil. O que interessa é estar no poder.
Entretanto, Trump diz que os Estados Unidos estão a assumir o controle das reservas de petróleo na Venezuela. Francisco Proença Garcia, não surpreende, mas foi este o real e principal objetivo da operação contra Maduro?
Ouça, também há muitos discursos sobre isso, há muitas interpretações, mas nós temos que olhar para já os fatos são esses, e foi ele que o disse. E nós dizemos assim: "Bom, ele é imprevisível". Não, o Donald Trump não é imprevisível. Nós temos é que ouvir o que ele diz, porque o que ele diz vai fazer ou faz. É muito interessante termos atenção a isso. E ele desde seis ou sete anos, quando publicou a estratégia de defesa nacional, de segurança nacional, está lá escrito quais são os interesses. Ele disse na televisão, que foi em conferência de imprensa, é o petróleo. Então, passou: é o petróleo. Se é ele que o diz, pode haver outros interesses, e há sempre outros interesses, mas para ele o fundamental foi o do petróleo, e é esse o que interessa. E depois ele na sua estratégia de segurança nacional, tem lá quais são os interesses vitais que dependem da sobrevivência do Estado. De maneira que nós temos que ter muita atenção, porque se ele diz que vai à Groenlândia, vai à Groenlândia.
Pois, era isso que eu ia perguntar.
Pode ser de uma forma diferente, Maria João, a gente não sabe como é que ele vai atuar, mas está escrito lá. Ele disse que vai defender os interesses vitais e os interesses vitais passam por ter acesso às zonas estratégicas que ele considera, a minerais estratégicos, isso está escrito. De maneira que não há surpresa, temos é que ler os documentos. O que há surpresa é na forma de atuação. Agora, as intenções estão escritas, ao menos nós sabemos quais são. Agora, ia me perguntar da Groenlândia. Como é que aquilo se resolve? Bom, pode ser o fim da NATO ou então a NATO tem que se pôr ao caminho, a NATO europeia, os países europeus mais o Canadá e os outros países. Tem que dizer assim: "Bom, nós podemos resolver isto dentro da NATO". Em vez de irem para lá bases norte-americanas, vão bases da NATO. Podem ser todos norte-americanos, mas basta haver um canadiano ou um norueguês ou um finlandês, aquilo já passa a ser uma base da NATO. Está vendo? Se é preciso militarizar a zona por questões de segurança, então façamos como fazemos no flanco leste, junto à fronteira com a Bielorrússia e com a Ucrânia. Militarizemos aquilo, ponhamos lá forças da NATO, pronto É uma das soluções. É isto que queremos fazer? Bom, também não queremos pagar 5% do PIB e vamos pagar.
Exato. Portanto, é esperar para ver a posição da NATO.
Não, temos que ir atrás dele, porque nós sabemos o que ele quer. E ele nisso é muito interessante, não é imprevisível. Ele já disse o que quer. Não sabemos é como é que ele vai fazer. Então temos que o acompanhar. Quem sai prejudicado nisso é o desgraçado Zelensky. Mas isso já é outra história.
Ia falar sobre isso. Zelensky diz que existe 90% de consenso entre as partes para um acordo de paz, que só falta finalizar os detalhes. As negociações envolvem Kiev, países europeus, União Europeia, NATO e Estados Unidos. Não falam em Moscovo e numa altura em que a Rússia tem intensificado os ataques. Conseguimos perceber estes 90% de consenso? Hoje há nova reunião dos aliados em Paris.
90% de consenso entre quem? Se os russos não estão de acordo, não há consenso.
Era Zelensky a chamar a atenção?
Sim. Ele tem que chamar a atenção, porque ele já saiu na nossa televisão e em vez de estarmos preocupados com as eleições internas, estamos preocupados com o Donald Trump e com a Venezuela. E bem, porque temos lá uma grande comunidade. Mas o Zelensky nesta semana desapareceu dos radares.
Completamente.
E o foco da União Europeia passa a ser a Gronelândia e a Venezuela. Não passou para segundo plano, mas já não é o mais importante. Como é que ele vai resolver a situação? Ele sem o acordo dos russos não resolve a situação e não parece que os russos estejam resolvidos. Eu, se fosse russo, eu não sou russo, nem apoio os russos, mas eu se fosse russo estava a tirar notas do que o Trump está a fazer, que é para agora adaptar o meu discurso. Também é a nossa Gronelândia e a nossa Venezuela, depois vão adaptar o discurso deles. Aliás, já o começaram a fazer. De maneira que não vejo interesse dos russos em saírem dali. Temos boas intenções para um plano de paz e eles não estão envolvidos. Não vai haver paz. Infelizmente, não vai haver paz e vamos continuar a ter mortes, sobretudo do lado deles. Mas isso também não é um problema para o Putin.
Para Putin. Ainda os protestos no Irão. António Guterres pediu que o direito ao protesto pacífico seja respeitado, depois de várias pessoas terem sido mortas nas manifestações que duram há mais de uma semana. Entretanto, Ali Khamenei estará a equacionar fugir para Moscovo se os protestos contra a República Islâmica se intensificarem. Francisco, qual é o ponto de situação neste momento e que impacto está a ter na região?
Temos que olhar para a história e lembrarmo-nos de quando o xá Reza Pahlevi foi corrido na revolução. Agora é o reverter dessa situação. Nós na altura acompanhávamos com muita atenção a saída do xá, as alterações. Houve uma alteração de facto da ordem nacional. Agora, sair o regime dos aiatolás e voltar o xá ou outro qualquer, tranquilo. Vai haver mortes. É muito curioso porque a polícia não está a fazer as intervenções que costumava fazer. Se formos ver no período do xá, ele fazia uma rotação das suas forças que era para nas manifestações começarem a conhecer os indivíduos que estavam do outro lado e a identificar-se com eles. De maneira que a própria polícia começa a estar identificada com a situação e as forças de intervenção. De maneira que, infelizmente, vai haver mais mortes, mas pode ser que seja a alteração do regime. Mas é outro regime que não é democrático e nós não sabemos que tipo de intervenções externas poderá haver. Mas se houver intervenções externas, ali pode ser outra vez com Israel, o discurso de Israel é outra vez o mesmo, voltar a atacar o regime iraniano e não o Irão em si. Aí vamos ter que aguardar, mas já não é novo. Em 79 tivemos uma revolução que levou à instalação dos aiatolás, agora se os aiatolás já pensam em ir viver para Moscovo. A situação está mesmo muito má e sejamos esperançosos que aquilo pode mudar para melhor.
Que haja uma mudança de regime para melhor. Francisco Louçã Garcia, muito obrigada pela análise. Boa semana.
Com gosto, Marisa.
Obrigada.
Muito obrigado.