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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Professora Olívia Franco, o porta-voz do Hamas acusa Netanyahu de estar a minar qualquer hipótese de chegar a um acordo de cessar-fogo. As declarações surgem depois de um ataque israelita em que morreram filhos e netos do líder do grupo. O Hamas diz que o primeiro-ministro israelita está sob pressão dos Estados Unidos e da comunidade internacional e que, por isso, recorre a abordagens sujas e violentas. Professora, que leitura faz de tudo isto?

Eu acho que a leitura primeira tem a ver com o modus operandi israelita. Não é novidade para ninguém que os israelitas têm dado sempre prioridade àquilo que eles consideram alvos de perfil mais elevado, alvos valiosos, como é o caso dos principais líderes políticos e militares do Hamas e, portanto, dos seus familiares também. E nesse sentido, de facto, independentemente ou não de se estarem a desenvolver negociações tendo em vista um cessar-fogo e uma possível libertação de reféns, os israelitas não se importam de correr riscos de pôr em causa esses outros objectivos estratégicos, que aliás são objectivos muito importantes, como seja, por exemplo, a libertação de reféns, quando têm a possibilidade de eliminar certos alvos. Portanto, esta é a primeira leitura que nós devemos fazer. Uma segunda leitura é a leitura que nós também começamos a estar habituados e torna-se evidente, de que há aqui dois processos paralelos. Há um processo operacional, quer do ponto de vista da intervenção das forças IDF na Faixa de Gaza propriamente dita, quer um processo operacional tendo em vista a eliminação dos tais alvos prioritários, depois sempre em paralelo com esta dimensão mais política, mais negocial, mais diplomática, e nem sempre os dois planos são absolutamente coincidentes. Nós vemos que as autoridades israelitas vão dando prioridade, sobretudo, àquilo que consideram ser mais importante e depois tentam que isso não tenha um impacto fundamental na outra dimensão mais diplomática. Umas vezes vão conseguindo melhor, outras vezes vão conseguindo pior, mas esse é o olhar israelita e sempre foi assim. Aliás, historicamente, nós sabemos que há também exemplos desses, que mostram que tem sido sempre assim e os israelitas continuam a trabalhar desse modo. Agora, aquilo que nós também notamos como reação da liderança do Hamas, é que pelos vistos também isso não vai alterar aquilo que é a dinâmica negocial. O próprio Ismail Haniyeh, o líder político que se situa no Qatar, a quem os familiares foram mortos, ele próprio disse nas redes sociais que isto não ia mudar a dinâmica das negociações e, portanto, ainda continuamos à espera para ver se é possível avançar com o plano que tinha sido basicamente desenhado pelos Estados Unidos.

Major-General João Vieira Borges, a sua opinião. O Hamas não tem moral para falar em abordagens sujas e violentas, mas para Israel os fins justificam os meios. Ainda ontem Benny Gantz dizia que a guerra está muito longe de ter fim. Disse mais, e cito: "Não vamos parar, vamos entrar em Rafah, vamos voltar a Khan Yunis e vamos operar em Gaza".

Nós estamos numa guerra em que os objectivos são vitais para ambas as partes. Morrem-se de ambas as partes para atingir objectivos que já percebemos há muito tempo e há mais de seis meses, em que essas questões não se põem nem para Israel e muito menos para uma organização terrorista como o Hamas, que torna a sua população como escudo. Inclusivamente já pediu desculpa, mas continua a ter a mesma linha de conduta. Relativamente a estes alvos estratégicos que a professora Olívia Franco falou, e bem, isso foi alvo inclusivamente de um livro do Boaz Ganor, o melhor conselheiro israelita e o melhor conhecedor, para mim, de luta antiterrorista. Portanto, inclui dirigentes que são abatidos seja onde for. É muito discutível, obviamente, em termos de direito internacional, sobretudo quando é fora das fronteiras, mas tem sido uma estratégia adotada e discutida internamente em Israel. E portanto, isto não é novidade. O timing pode ter sido, mais uma vez, porque acontece sempre qualquer coisa quando as negociações estão numa fase mais adiantada, como estavam agora. Mas digamos que o timing poderá ser discutível, mais uma vez, para ir ao encontro daquilo que já percebemos: nenhuma das partes quer negociar. Israel por uma razão, para atingir o seu objetivo final de destruir o resto das unidades ou dos batalhões, como lhes chamam, do Hamas, não considero bem organizados em batalhões, sobretudo agora. E o Hamas, porque porventura já terá ou não terá controlo ou já terão morto grande parte dos reféns, e está à espera da pressão da comunidade internacional e está sempre a olhar para posicionamentos dos Estados Unidos, de modo a que a guerra termine e eles continuem ainda com capacidade de liberdade de ação para a fase seguinte de governação daquele território da Palestina. Portanto, nenhum dos dois, já percebi, já percebemos todos, quer a paz neste momento, independentemente das pressões internacionais.

Professora Olívia Franco, sabemos que as relações entre Washington e Tel Aviv estão um bocadinho mais tensas, mas Anthony Blinken veio ontem reiterar o apoio a Israel face a quaisquer ameaças do Irão. Isto ainda na sequência dos ataques à embaixada da Síria. E numa altura em que também os norte-americanos estão em alerta máximo para um possível ataque de retaliação do Irão.

Sim, aliás, isso tem sido visto como repetição, também aqui a um certo modus operandi das autoridades norte-americanas, inclusive dos serviços de inteligência, que têm, relativamente a várias situações, não necessariamente relacionadas apenas com Israel, mas por exemplo, nós vimos isso no caso da iminência de um possível ataque terrorista, como veio a acontecer na Rússia, têm tido essa preocupação de avisar publicamente quais é que são as suas preocupações decorrentes dos sinais que vão recebendo. E mais uma vez, as autoridades norte-americanas sentem, de facto, a obrigação de avisar isso. Têm sinais muito preocupantes de que se preparam ataques iminentes a Israel, nomeadamente por drones ou mísseis a alvos governamentais ou militares, e nós sabemos que isto é de levar muito a sério. Também sabemos que é de levar a sério porque, de facto, a liderança iraniana avisou exactamente que ia retaliar pelo facto de o seu consulado ter sido atacado em Damasco. Eu direi, em relação àquilo que é a pressão que tem sido exercida pela administração norte-americana, essa pressão é a pressão no sentido de tentar alterar um certo posicionamento do governo israelita e, sobretudo, levá-lo a ter em maior consideração, por exemplo, preocupações humanitárias, mas nunca esteve verdadeiramente em causa aquilo que é o apoio político e militar norte-americano a Israel. Às vezes nós fazemos leituras um bocado extensivas demais a dizer: "Os comentários que são feitos pelo presidente norte-americano ou por outros porta-vozes norte-americanos parecem indicar, de facto, que há aqui uma alteração no posicionamento dos Estados Unidos". Isso não é verdade. Do ponto de vista político, do ponto de vista mesmo do apoio militar, não há nenhuma alteração. Disse-o recentemente o secretário de Estado norte-americano e também voltou a repetir o presidente Biden, como aliás também indicadores da opinião pública mostram que uma maioria da opinião pública norte-americana continua a ser favorável à posição de Israel. Isso é claro. Outra coisa é quererem moderar aquilo que é uma reacção, eu direi até por razões existenciais, como aliás o senhor general estava a referir de alguma maneira, razões existenciais de Israel em relação àquilo que foi o ataque de 7 de Outubro e todas as consequências desse mesmo ataque. Agora, há claramente aqui uma preocupação humanitária das consequências humanitárias desta intervenção militar israelita na Faixa de Gaza e nós temos visto, de facto, que os americanos têm intensificado os seus esforços no sentido de pressionar o governo israelita e julgo que vão continuar a fazer também por causa das reacções e da leitura que tem sido feita pelo resto da comunidade internacional.

General Vieira Borges, havendo este alerta dos Estados Unidos sobre a iminência de um ataque com mísseis de alta precisão do Irão contra Israel, isto pode significar o escalar do conflito na região? Até agora têm sido ataques mais pontuais. Pode vir aí coisa maior?

Pode vir, em função daquilo que for o objectivo a atingir pelo Irão. Obviamente, nós vimos ontem as ameaças pelo Aiatola. Mas isso teve logo uma resposta, em termos de comunicação social, da parte de Israel também dizendo que se fosse atacado, obviamente, reagiria e nós sabemos, e o Irão também sabe, que Israel a reagir a um ataque de grande dimensão com mísseis ou drones contra as suas instalações, seja militares, seja governamentais, poderá escalar para uma estação nuclear, para um objectivo de grande dimensão, não propriamente com armas nucleares, esperemos que não, não acredito que o faça, mas um objectivo que terá sempre grande impacto sobre a opinião pública, demonstrando grande capacidade militar da parte de Israel, se o Irão fizer um ataque, seja directo, seja através dos seus proxies, porque isso também poderá ser uma realidade. Agora, é importante que os serviços de informações dos Estados Unidos transmitam a informação, não só internamente para as diversas bases na região, que são certamente um alvo, apesar de a linguagem que vamos vendo, ainda hoje estava aqui a ver da parte do Iraque, nós temos dirigentes iraquianos neste momento a negociar a retirada de forças, porque eles pararam uma série de ataques que desenvolviam e, portanto, se não for negociada a retirada, como pretendem, eles começarão novamente ou recomeçarão os ataques sobre objectivos ou sobre bases, neste caso norte-americanas na região. Em função disso que vamos vendo, seriam mais objectivo instalações israelitas, designadamente, eu diria até embaixadas ou representações de Israel, que devem estar no estado de alerta máximo neste momento, porque isso seria a resposta directa, aquela que eu vejo mais provável, como um Estado que é ainda o Irão. Portanto, nesse sentido, não será mais o escalar, será mais a resposta, julgo eu, porque não há interesse de escalada também da parte do Irão neste momento.

A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.